O São Paulo passou pelo Bragantino com muita facilidade, e o Corinthians, pelo Marília, com muita dificuldade. Ao São Paulo basta vencer o Juventus para se classificar para a semifinal. O Corinthians terá de fazer a lição contra o Noroeste e – aí é que vem a dor – acreditar que o Santos vá suar a camisa para tirar a Ponte Preta e lhe dar a vaga. Essa semana vai se falar muito em ética, profissionalismo, etc. Mas é mais fácil acreditar em duende, Papai Noel e coelhinho da Páscoa, ao mesmo tempo, do que achar que o Santos, ocupado com a Libertadores, vai se incomodar muito em livrar a cara do rival de 95 anos.
Sem saber (estou de férias, lembra-se?)o Cultura de hoje deu capa para os 40 anos de 1968, o tal ano que não quer terminar. Na matéria de Ubiratan Brasil, que abre o dossiê, uma entrevista com o mexicano Carlos Fuentes, que está lançando um livro sobre o “ano rebelde”. Leia, é uma boa.
Bem que o Santos poderia ter facilitado as coisas para si mesmo quando passou a ganhar de 1 a 0 do Rio Claro. Teve chances de matar o jogo, mas não o fez. E tomou o empate. No segundo tempo, no desespero, desperdiçou várias chances. Falta de pontaria, boa atuação do goleiro adversário, etc. Agora não importa, já que a vaca foi para o brejo.
Pensando bem, o Santos, que começou o ano de maneira catastrófica (por mau planejamento da diretoria, não por culpa de Leão), conseguiu se aprumar aos poucos e começou a vencer. Tem um embrião de time, que pode encorpar.
Foi vencendo, meio na bacia das almas (até com gol de Marcinho Guerreiro, em cima da hora), para continuar vivo no Paulistão. Estava na cara que uma hora não ia dar. Não deu. Todo time tem sua cota de milagres e um dia ela se esgota.
Agora é pensar na Libertadores, no jogo fundamental contra o San José terça-feira na Vila.
Há 40 anos morria o estudante Edson Luis de Lima Souto, assassinado pela polícia no restaurante do Calabouço, no centro do Rio. A partir desse fato trágico, o movimento estudantil de resistência à ditadura militar se intensificou de forma que não se poderia imaginar. Quem viveu a época das passeatas sabe disso.
Pode-se dizer que o ano mítico de 1968 começou no Brasil no dia 28 de março, data da morte de Edson Luis. E terminou dia 13 de dezembro, com o AI-5. A partir daí, a luta de resistência passou a ser outra coisa.
Mas também pode ser que 1968 não tenha terminado ainda, como sustenta em livro meu amigo Zuenir Ventura. Quem sabe?
A prova de que o espírito de 68 está vivo, o que dá razão a Zuenir, é que voltamos a falar deste ano a cada nova década. Voltaremos a falar de 68 ao longo deste 2008, 40 anos depois.
E por que motivo? Simples: a maneira como as pessoas se posicionam em relação ao legado (ou à simples lembrança) de 1968 será, mais uma vez, um excelente divisor de águas.
Como já andaram me cobrando, vou comentar o clássico na Vila. Estive lá e exatamente por isso andei sumido do blog. Não levei computador para a Baixada, estou ainda em férias, e hoje fiquei na praia, que ninguém é de ferro. O único “especialista” com quem comentei o jogo foi com o Elias, vendedor de coco e milho verde na Enseada, e que é santista de fé.
Primeira coisa: no mesmo dia em que a CBF se esqueceu dos 50 anos da primeira Copa do Mundo vencida pelo Brasil, na Vila havia dois campeões de 1958 vendo o jogo, um em cada lado do estádio. Zito, nas sociais; Pelé, em seu camarote do lado oposto do campo. Um locutor mais esperto teria anunciado isso ao estádio.
Quanto ao jogo, achei equilibrado. São dois times com carências diferentes, um na defesa e outro no ataque. Se juntassem os dois daria uma equipe completa, ou quase. Mas me parece que o “desequilíbrio” do Santos pode ser mais interessante que o “equilíbrio” meio burocrático do Corinthians.
Agora, deficiências à parte, foi um jogaço. A Vila ferveu, a Fiel cantou, as torcidas se hostilizaram, mas, que eu saiba, não houve brigas. Foi um jogo muito emocionante, com poucos lances de técnica, no qual predominou mais a raça. Mas sabemos que esta faz parte do futebol. Aliás, às vezes, é a sua melhor parte.
Quanto aos lances polêmicos. No campo, não entendi por que anularam aquele gol do Corinthians. Revendo pela TV, talvez se veja uma falta dentro da área. Mas se o juiz tivesse validado o gol, acho que nenhum jogador do Santos chiaria. Nem a torcida.
O gol de Kléber Pereira. No campo, achei tranco normal. Revendo pela TV, talvez seja possível entender que houve um empurrão no zagueiro. Fico ainda em dúvida, dependendo do ângulo da câmera.
São dois lances de interpretação, para os quais não cabem certezas taxativas. Talvez o Corinthians possa chiar com certa dose de razão. Mas cabe lembrar que não chiou quando beneficiado com o gol anulado de Adriano pelo mesmo árbitro.
Quanto à expulsão de Betão, o lance aconteceu a poucos metros de onde eu estava. Expulsão correta, mas acho que Herrera deveria ter levado o cartão vermelho também. Apoiou ostensivamente os joelhos nas costas do zagueiro. Betão foi na dele.
Mas essa discussão de arbitragem não é a essência de um jogo muito rico, ainda que de pouca técnica. Foi um belo clássico.
Há muitas maneiras de “contar uma história” e Andrea Tonacci escolheu uma das mais originais. Se bem que, aqui, a expressão “contar história” tenha de ser matizada e desdobrada. O diretor escala os personagens reais para (re)viver o que passaram anos atrás. Assim fazendo, traz não apenas um relato factual, mas já uma reinterpretação da história, pois reconstruída em momentos diferentes do tempo.
O fato inicial é de uma trágica banalidade no Brasil – o massacre de uma tribo indígena por brancos que cobiçam suas terras e o que elas contêm. Árvores, metais, o que for. Quem escapa da matança é o índio Carapiru, que se torna nômade e perambula pela mata durante dez anos. Quando foi encontrado, em 1987, estava a 2 mil quilômetros do lugar onde sua família foi dizimada. Carapiru encena a si mesmo, em suas andanças pela floresta e contato com brancos que não falam a sua língua. É uma experiência de estranhamento radical.
E quem poderia encenar Carapiru a não ser ele mesmo? Ninguém se coloca no lugar de ninguém, e uma cultura não “lê” a outra senão com os olhos do preconceito. Tudo o que se pode fazer é reconhecer o mistério do Outro e instalar-se na posição de simpatia em relação a ele. Colocar as emoções em sintonia, pois isso é o que quer dizer simpatia. A humanidade é una e diversa, e esse é o maior milagre de todos.
Nesse sentido, o ítalo-brasileiro Andrea Tonacci não tenta ser o índio que ele obviamente não é. Mas procura colocar-se nesse ponto de interseção entre duas culturas, que permite passar de uma a outra, sendo ambas irredutíveis. Por isso, não se traduz o que fala Carapiru em “tupi antigo”; suas palavras são apenas significantes aos nossos ouvidos. E o tempo dos brancos, a bela passagem de dez anos, construída com imagens de arquivo ou de outros filmes, também corre paralela ao índio internado na mata.
O encontro entre esses dois universos separados teima em se fazer. Às vezes no modo trágico; outras, no registro da ternura. Serras da Desordem o demonstra de maneira estupenda.
(Caderno 2, 27/3/08)
O efeito daquele gol de Marcinho Guerreiro aos 41 minutos do segundo tempo contra o Guará foi ter transformado o que seria um Santos x Corinthians em ritmo de amistoso no clássico cheio de paixão que teremos amanhã na Vila Belmiro.
Pensando bem talvez seja exagero dizer que um Santos x Corinthians poderia virar um jogo de compadres, em qualquer circunstância. Com tanta tradição, tabus e goleadas fantásticas de lado a lado, esse jogo tem sempre alguma coisa de especial. Aposto que, mesmo matematicamente desclassificados, os santistas torceriam com todo o fervor, apenas pelo prazer de ‘tirar o Corinthians’. Mesmo porque a conta das rivalidades nunca fecha de todo e aquela goleada de 7 a 1 de 2005 continua entalada na garganta da galera peixeira. Estará, creio eu, até o final dos tempos, como na goela do lado oposto continua encravada a espinha (de peixe) do tabu de 11 anos do Santos de Pelé, Coutinho & Cia. Dói ainda, mesmo em corintianos que, naquela época, não eram sequer um brilho no olhar de suas mães, como dizia o poeta.
Assim são as rivalidades e, quando não descambam para a boçalidade, são elas que mantêm viva a chama do futebol, por mercantilizado e aviltado que esteja. Agora, como convencer jogadores profissionais que devem se empenhar a fundo num jogo que, a rigor, não valeria nada caso o Santos estivesse fora do páreo? Com o gol de Marcinho, a esperança, ainda que tênue, foi mantida. Já o Corinthians precisa do resultado como de ar para respirar. Tudo faz prever um clássico sensacional com a Vila lotada e vibrante.
Aliás, emoção é o que não tem faltado nesta fase final de classificação, em que vários clubes se candidatam a uma das quatro vagas, Lusa e Santos incluídos. Futebol sem emoção não vale muita coisa. Agora, no melhor dos mundos, emoção deve se somar a qualidade técnica. E esta anda em baixa não apenas no futebol paulista, mas no brasileiro de maneira geral.
LEI PELÉ
Uma das razões para a queda de qualidade está completando dez anos de existência. Digo ‘uma’ das razões, porque responsabilizar a Lei Pelé por tudo de mal que acontece seria ignorância. Mas que ela tem uma boa parte da culpa, isso não se pode negar. Fragilizou os clubes, beneficiou uma casta de jogadores e fortaleceu um enxame de intermediários que lucram como nunca na transferência acelerada de atletas. Favoreceu a rotatividade e condenou os times a um infindável processo de desmanche e reconstrução. Precisa ser revista com urgência. Não com olhos no passado, mas no futuro do futebol brasileiro. Que, afinal, como instituição coletiva, deveria estar acima de interesses individuais.
A lei foi promulgada num contexto de globalização do futebol, que transformou os grandes clubes europeus em multinacionais da bola. Esse processo se ampliou e fez do Brasil um país ferozmente exportador de jogadores. O problema da lei é ter colocado o País em posição subalterna diante de um mercado desigual. Faz do atleta brasileiro commodity barata para consumo de centros mais poderosos e não prevê salvaguardas que defendam a qualidade do futebol aqui praticado. Tem sua parcela de responsabilidade na transformação do Brasil em colônia futebolística, que vive da exportação de seus ‘produtos primários’para usufruto dos países ricos.
Não deixa de ser uma ironia cruel que o maior artista da bola de todos os tempos, protagonista de históricos embates contra o Corinthians, hoje empreste seu nome à legislação que contribui para tornar o futebol brasileiro mais medíocre a cada ano que passa.
(Coluna Boleiros, 25/3/08)
Li interessante matéria na Folha de domingo sobre o uso das técnicas do Bope para fins de motivação empresarial. Se você não se lembra, o Bope é o batalhão de elite da PM carioca, descrito no filme Tropa de Elite que ganhou o Urso de Ouro em Berlim.
Agora, as palavras de ordem celebrizadas pelo capitão Nascimento (Wagner Moura) viraram apelo nesses cursos de “motivação” ministrados para várias e conhecidas empresas brasileiras. “Missão dada, missão cumprida”. “Pede prá sair, 02″. E, claro, o grito de guerra “caveira!”. Tudo isso para despertar um espírito de hipercompetição entre os vendedores, num clima empresarial que poderia sem nenhum exagero ser descrito como o de um campo de treinamento das tropas SS, ou do próprio Bope.
Cooperação entre as pessoas? Nem pensar. Espírito de equipe? Isso é papo ultrapassado. Romântico. O negócio, agora, é puxar o tapete do seu vizinho, antes que ele o faça com você. Tentar derrotá-lo em seu próprio campo e transformar a vida numa infernal corrida de ratos, sem começo, meio ou fim.
Coitado do José Padilha quando diz que seu filme, ao mostrar o instrumental de truculência do Bope, tinha intenção crítica. Acabou servindo de modelo para esses cursos de motivação, que entendem a produtividade empresarial como resultado da guerra sem tréguas entre os funcionários.
Pobre ser humano. Está ficando louquinho, louquinho…
Duas vitórias magras, de 1 a 0, sobre adversários muito fracos. Corinthians e São Paulo fizeram a lição de casa, como se diz, contra Rio Claro e Guarani. Mas é muito pouco para dois times grandes e candidatos ao título paulista. O jogo do São Paulo, então, foi muito ruim. Contra um adversário tosco (espanta que alguns jogadores atuem na primeira divisão de profissionais), o tricolor salvou-se com um golzinho de Borges que estava no banco por insondáveis desígnios de Muricy Ramalho.
Adendo ao post (20h30): Acabo de ver também Guaratinguetá 0 x Santos 1. Claro que o Santos teve a tarefa facilitada pela expulsão de Jackson. Mas acho que o Guará ficou devendo futebol. Afinal, é o líder, jogava em casa, contra um time cansado da Libertadores, etc. Na verdade, o Santos começou melhor, não marcou e depois o jogo se equilibrou.
Já no segundo tempo, o Santos alugou seu meio campo e ficou batendo no Guará. Poderia ter tomado o gol de contra-ataque, mas Marcinho Guerreiro foi quem definiu o jogo, já “no apagar das luzes”, como diziam os locutores românticos.
Mais uma vez faltou criatividade ao meio de campo do Santos e alguém que metesse a bola dentro lá na frente, órfão que estava de Kléber Pereira.
Mas na falta de tudo isso, sobrou raça da equipe e o oportunismo do volante, que tem seus defeitos mas honrou a camisa que veste. Como aliás todo o resto do time, que pôs a alma em campo, quando todos (inclusive eu) esperavam que fosse afrouxar depois do pesadelo do jogo na altitude pela Libertadores, o desgaste da viagem, etc. Foi um jogo de superação, mas que mostrou, mais uma vez, as deficiências técnicas do time.
Obs: Se alguém puder me explicar por que Leão tirou Renatinho, o atacante que mais criou no primeiro tempo, eu agradeço.
Soube agorinha da morte de uma das minhas grandes admirações musicais, o cubano Ignácio “Cachao” López, aos 89 anos.
Cachao saiu de Cuba em 1962 e vivia nos Estados Unidos. É um dos responsáveis pela divulgação mundial do ritmo cubano. Ou melhor, “dos” ritmos cubanos, pois a ilha é uma usina rítmica. Tocava contrabaixo mas era também compositor e chefe de orquestra.
Impossível descrever sua música; só ouvindo mesmo. Ouvindo-a, não dá para ficar parado ou indiferente. Andy Garcia, que é de origem cubana, dirigiu um documentário sobre o músico com o título sintomático de Cachao – como su ritmo no hay dos. E não havia mesmo.
Lembro agora de um CD que Cachao gravou em parceria com o saxofonista Paquito d’Rivera. É para ouvir de joelhos, em especial uma faixa chamada Sigue a Paquito… se Puedes.Adoro Cachao tocando o “son” cubano e todo esse complexo de ritmos caribenhos hoje impropriamente banalizados sob o rótulo de “salsa”.
Mas era admirável também nas famosas “Descargas”, sessões de música improvisadas, jam sessions caribenhas. Há vários CDs disponíveis com as Descargas tendo Cachao como âncora, ele e seu contrabaixo inimitável.
Cachao adicionou beleza, ritmo e criatividade ao mundo.
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