Sou macaco velho em festivais de cinema e sei que é sempre a mesma coisa -toda vez alguém sai magoado e o chato é quando esse alguém é uma pessoa superbacana.
Acontece o seguinte: filmes são colocados para competir uns contra os outros, como se fossem participantes de um torneio de futebol. Não é a mesma coisa, e produtos culturais são literalmente incomparáveis. Claro que podemos dizer que uns são “melhores” do que os outros. Mas entra, nesse julgamento, boa dose de subjetividade, quando não sentimentos de amizade e implicâncias pessoais, preferências por este ou aquele estilo, preconceitos, enfim, tudo o que é da ordem da imperfeição humana quando julga seus semelhantes e suas obras. Não digo que isso tenha acontecido em Brasília, mas são intercorrências possíveis, que estão sempre no horizonte.
Nós mesmos, jornalistas que cobrimos festivais, estamos sujeitos a essas distorções. Ao longo do evento vamos escolhendo nossos favoritos e descartando outros concorrentes. Vamos montando uma tabela de preferências mental. No final, chegamos com nossas percepções (e opiniões) acirradas, pois também nos sentimos obrigados a escolher alguns e refutar outros.
Muitas vezes me aconteceu de rever um filme de festival, tempos depois, e constatar que ele não era tão bom, ou tão ruim, quanto eu julgava. É que a nossa apreciação, em festival, se dá pelo conjunto, em bloco, numa estrutura de competição. Fora dela, podemos olhar para as obras em sua individualidade, como aliás elas foram feitas para serem olhadas.
Costumo dizer que um festival é a pior situação do mundo para se ver um filme.
No entanto, quem entra neles, para competir, para cobrir, ou participar de qualquer forma, já conhece as regras do jogo. É pegar ou largar.
Interessantes os reflexos do baile, digo, do festival. Algumas matérias de jornais parecem ultrajadas pela vitória de um filme considerado de difícil compreensão ou de fruição menos evidente como Cleópatra.
Já Carlão Reichenbach, em seu blog ,se diz disposto a não mais participar de festivais com premiações em dinheiro.
Opiniões à parte, é interessante a enquete feita pelo Correio Braziliense e exibida em seu site. Se o resultado aponta exatamente a tendência expressa no voto popular, que elegeu Chega de Saudade, outros números não deixam de ser surpreendentes. Na pesquisa do Correio, Cleópatra ganha, por pequena margem, de Meu Mundo em Perigo, de José Eduardo Belmonte, e Falsa Loira, de Carlos Reichenbach. E deixa no chinelo Amigos de Risco, do estreante Daniel Bandeira, e Anabazys, de Paloma Rocha e Joel Pizzini.
Veja os números abaixo:
Na sua opinião, qual longa merecia o Candango de Melhor Filme?
Falsa Loira, de Carlos Reichenbach (13.82%)
Meu Mundo em Perigo, de José Eduardo Belmonte (12.76%)
Chega de Saudade, de Laís Bodanzky (51.06%)
Amigos de Risco, de Daniel Bandeira (3.19%)
Cleópatra, de Júlio Bressane (15.95%)
Anabazys, de Paloma Rocha e Joel Pizzini (3.19%)
(fonte: Correio Braziliense)
Foi minha mulher quem descobriu o erro: na matéria do Caderno 2 de hoje de balanço do Festival de Brasília (você pode ler no Portal do Estadão) escrevo que Anabazys, de Paloma Rocha e Joel Pizzini, se refere a Terra em Transe. Engano: o filme, como escrevi dezenas de vezes, é “sobre” A Idade da Terra – último e polêmico filme de Glauber Rocha.
Por que cometemos esses lapsos? Por distração ou cansaço? Claro, também por isso. Mas o velho Freud dizia que todo ato falho é, no fundo, um ato bem-sucedido. E mais ainda quando se trata de um lapso escrito que, em tese, é muito mais fácil de evitar do que os erros que cometemos quando falamos. A palavra escrita supõe um pouco mais de controle e distanciamento, que não temos quando estamos falando.
Glauber era fascinado pelo termo “Terra”. Devo lembrar que, além desses dois, ele também está no título de outra de suas obras-primas: Deus e o Diabo na Terra do Sol. A palavra é forte. Refere-se ao solo sobre o qual pisamos, onde nascemos e haveremos de morrer. Refere-se ao local de onde tiramos nosso sustento e também traz repercussões políticas porque sabemos que é mal dividida entre os homens. Poderia citar dezenas de títulos brasileiros com essa palavra: Terra Estrangeira, Terra para Rose, Terra dos Amores, Terra dos Índios, Terra é Sempre Terra, etc. O Festival de Manaus, que cobri há pouco para o jornal, foi aberto por um belo documentário ecológico chamado Earth. Tierra sin Pan é um dos meus Buñuel favoritos. E há um filme que está entre meus cults e parece um pouco esquecido: Terra, de Alexander Dovjenko, um dos ápices do cinema soviético.
Mas por que troquei A Idade da Terra por Terra em Transe? Não me parece difícil de entender. Por mais que Anabazys tenha me reaproximado de A Idade da Terra, é o outro, Terra em Transe, que me vem à cabeça quando penso em Glauber. Acho que em nenhuma outra obra o cinema se aproximou tanto do “real” brasileiro quanto em Terra em Transe. Portanto, quando falo em Glauber é nessa Terra que eu penso. Nesse tenso e dilacerado filme, que Nelson Rodrigues um dia definiu como “mais complicado que um ideograma chinês virado de cabeça para baixo”, mas que hoje se tornou cristalino. Se o Brasil está em alguma obra é em Terra em Transe. Daí a confusão. Pelo menos é minha hipótese.
Amigos, gostaria de compartilhar com vocês o balanço que fiz do Festival de Brasília hoje para o Caderno 2. Já está disponível no Portal.
Levei três horas no vôo de Brasília a São Paulo, que normalmente se faz em uma hora e vinte. Só que não descemos em Congonhas. Estava com excesso de tráfego, disse o comandante. Sobrevoamos Ribeirão Preto e depois Araraquara. Finalmente, viemos para Campinas. Escrevo agora a bordo do ônibus que nos leva para São Paulo. Ninguém diz o que aconteceu. Fala-se que onze controladores de vôo foram demitidos e então estabeleceu-se a clássica operação tartaruga. Mas não se sabe ao certo. Ninguém ouve, ninguém fala, ninguém vê. Uma colega de infortúnio tinha de pegar conexão para o Rio em Congonhas. Não vai dar tempo. A funcionária da TAM disse que não era problema da companhia e que a passageira se arrumasse como pudesse. Assim é.
Sob vaias do público, Cleópatra, de Julio Bressane, foi anunciado como vencedor do 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em cerimônia encerrada há pouco no Teatro Nacional.
Com a estatueta, Bressane confirma sua condição de senhor absoluto deste festival, com a incrível marca de 11 participações e quatro vitórias. As anteriores,que se somam a Cleópatra, vieram de Tabu, Miramar e Filme de Amor.
Mas o público não concordou com o júri oficial e deu seu prêmio a Chega de Saudade, de Laís Bodansky.
Já a crítica preferiu Meu Mundo em Perigo, de José Eduardo Belmonte.
A vaia comeu solta também quando foi anunciada a melhor atriz, Alessandra Negrini, protagonista de Cleópatra. A favorita era Rosanne Mulholland, que está em dois filmes, Falsa Loura e Meu Mundo em Perigo. Foi a maior pisada de bola do júri, em opinião quase unânime de quem acompanhou o festival.
Como se vê, as divergências deram o tom num festival muito equilibrado. Uma injustiça: Falsa Loura, de Carlão Reichenbach, que ficou com apenas um prêmio, o de atriz coadjuvante, para Djin Sganzerla.
Abaixo, a premiação completa.
BRASÍLIA
Daqui a pouco vou para o Teatro Nacional assistir à premiação do Festival de Brasília. Antes, passa Dezesperato, de Sérgio Bernardes Jr. Engraçado. Não me lembro se já vi este filme ou não. Se vi, não guardei lembrança.
E quem ganha? Para falar a verdade, não tenho a mínima idéia. Acho que o júri teve um trabalhão danado, pois os filmes foram muito nivelados – e por cima. Nesses casos, a tendência é o distributivismo, para que ninguém saia de mãos abanando. Mas é apenas um palpite. Dependendo do júri, aposta-se num filme e deposita-se tudo nele.
Entre os seis concorrentes, nenhum filme pode ser descartado logo de saída. Amigos de Risco deve ficar distante dos prêmios principais, mas é uma estréia promissora de Daniel Bandeira. Dois diretores considerados mestres, como Carlos Reichenbach e Julio Bressane, apresentaram ótimos filmes, Falsa Loura e Cleópatra, e estão entre os favoritos. José Eduardo Belmonte, em seu terceiro longa, Meu Mundo em Perigo, faz seu melhor trabalho, no filme mais inquietante do festival. Chega de Saudade, de Laís Bodansky é o que mais emocionou as pessoas, além de ter outras qualidades. E o documentário Anabasys, de Paloma Rocha e Joel Pizzini, trata de ser inventivo para ficar à altura do seu “objeto”, o cineasta Glauber Rocha e sua tumultuada passagem pelo Festival de Veneza de 1980, onde apresentou seu último filme, A Idade da Terra.
Isso, no caso dos longas. Não gostei da seleção de curtas deste ano, com uma ou outra exceção. Aposto, sem grandes convicções, em Trópico das Cabras e Eu Sou Assim – Wilson Batista. Talvez aqui tenhamos maior concentração de prêmios em poucos concorrentes. Vamos ver.
A mesma paixão que é a vida do futebol pode também significar drama e morte. Afinal, não foi o amor pelo Bahia, que sobe à 2ª divisão, que causou a tragédia na Fonte Nova? Mas a culpada é a paixão ou a irresponsabilidade de quem abriu os portões para as comemorações da torcida baiana? Ou de quem sabia que o estádio não tinha condições para abrigar tamanha multidão? Não havia um laudo técnico que colocava a Fonte Nova como o mais mal conservado dos grandes estádios brasileiros? Alguém tomou alguma providência? Não. De modo bem brasileiro, confiamos que Deus é nosso patrício e nada de mal vai nos acontecer. Acontece de vez em quando.
Soube que haveria desfile de trios elétricos em Salvador e que tudo foi cancelado, como deveria ser, aliás. Amigos baianos, os diretores de cinema Jorge Alfredo e Edgard Navarro, vieram comentar o caso comigo. Ambos torcedores do Bahia, passaram da euforia à depressão quando souberam da notícia. O que era festa, virou luto.
Tudo isso precisa ser apurado, providências tomadas e os eventuais culpados, punidos. Agora, não acredite em quem generaliza o episódio e dele tira a conclusão que o Brasil não pode receber a Copa de 2014. É explorar de modo muito fácil o nosso também tradicional complexo de vira-latas e deduzir que não somos capazes de resolver nossos próprios problemas. Embutidos nesse tipo de conclusão prematura existem interesses escusos. A começar pelos de outros países que gostariam de se colocar como alternativas ao Brasil em 2014. Não se pode cair nessa, ingenuamente.
Mas o que não dá mais é brincar com a vida das pessoas.
BRASÍLIA
Uau!, a pauleira foi tanta ontem que nem consegui postar para dizer do sucesso de Chega de Saudade no Festival de Brasília. O filme de Laís Bodansky entusiasmou tanto o público, que foi aplaudido várias vezes durante a projeção. No final, vários casais começaram a dançar no espaço entre a platéia e a tela do Cine Brasília. Na pergunta que fiz à equipe, durante a entrevista, disse que o filme me lembrava algo de Ettore Scola, com seu O Baile, que também era um filme coral à maneira de Altman, e tinha aquele recorte agridoce das comédias de Dino Risi. O roteirista, e marido de Laís, Luiz Bolognesi, respondeu que eram justamente as três fontes, os três pilares de referência sobre os quais se assentava Chega de Saudade. Como a matéria que escrevi para o Caderno 2 já está aberta no Portal, transcrevo-a abaixo:
Ao som de Chega de Saudade
Prato cheio para o júri popular, segundo filme de Laís Bodanzky empolga Brasília
Se dependesse do público, Chega de Saudade já poderia ser proclamado vencedor do Festival de Brasília. Mas, como público é público e júri é júri, teremos de esperar até hoje à noite para saber o que foi decidido e quem irá levar os troféus Candango.
Não será tarefa das mais fáceis, dado o nível de qualidade elevado dos longas-metragens. Entre os seis, nenhum filme pode ser descartado logo de saída. Amigos de Risco deve ficar distante dos prêmios principais, mas é uma estréia promissora de Daniel Bandeira. Dois diretores considerados mestres, como Carlos Reichenbach e Julio Bressane, apresentaram ótimos filmes, como Falsa Loura e Cleópatra e estão entre os favoritos. José Eduardo Belmonte, em seu terceiro longa, Meu Mundo em Perigo, faz seu melhor filme, no trabalho mais inquietante do festival. E o documentário Anabasys, de Paloma Rocha e Joel Pizzini, trata de ser inventivo para ficar à altura do seu “objeto”, o cineasta Glauber Rocha e sua tumultuada passagem pelo Festival de Veneza de 1980, onde apresentou seu último filme, A Idade da Terra.
BRASÍLIA
O cineasta brasiliense André Luiz da Cunha fez o documentário Dia de Visita, que tem como personagem principal Sônia de Sousa Faustino, mãe de detentos da penitenciária da cidade, a Papuda, e que se dedicou ao apoio às famílias dos presos, tornando-se uma das pessoas mais queridas da cidade. Sônia botou vestido novo para assistir à estréia do filme no Cine Brasília, mas não chegou até lá. Morreu atropelada na calçada em frente à sua casa na cidade-satélite Ceilândia. A polícia afirma que não se trata de acidente e sim de crime. O motorista atropelou Sônia quando pretendia atingir o filho desta, com quem tivera desentendimento por questão de dinheiro. Em conversa comigo, André Luiz se disse desalentado. E afirmou que pretende fazer um longa-metragem sobre a personagem, já que dispõe de mais de três horas de gravação.
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