A peça Controvérsia em Valladolid, de Jean Claude Carrière, evoca uma interessante (e comovente) passagem histórica: a defesa, por parte do religioso Bartolomé de las Casas, dos indígenas que surgiram ao mundo ‘civilizado’ como o grande enigma da descoberta da América. Aqueles seres estranhos,tão parecidos aos europeus e ao mesmo tempo tão diferentes, teriam uma ‘alma’? Em outras palavras, seriam como ‘nós’? Essa discussão ocupa uma pequena, mas significativa parte do belo documentário de Joel Pizzini, 500 Almas, sobre os índios guatós.
Há uma particularidade sobre os guatós. Essa tribo da região mato-grossense era considerada extinta até ser ‘redescoberta’pela missionária italiana Ada Gambarotto. Na verdade, os guatós estavam lá, dispersos, misturados à cultura cabocla, quase invisíveis nesse processo de aculturação. O filme se propõe assim a uma função quase arqueológica, a de reconstruir uma cultura já quase perdida, uma língua já quase aniquilada, mas que subsiste na memória de um, nos lapsos de outro. É um trabalho humanístico, de reconstrução a partir de fragmentos.
E que se exprime na estrutura mesma do filme. Pizzini lembra que a arte dos trançados de bambu ocupa posição importante na cultura guató. Pensou, junto com sua montadora Idê Lacreta, numa ‘montagem em trançado’, em que várias linhas de sentido se entrelaçam, até propor, no final, um significado possível para o filme. Que, no entanto, também vai depender de como o espectador o ‘lê’ ou ‘decodifica’, já que esse desenho estará sempre incompleto, pedindo a participação de quem o vê, ou com ele se emociona.
Assim, há a linha que ouve os índios mas também os observa em tarefas como escamar um peixe ou esculpir uma canoa a partir de um tronco de árvore. Há as entrevistas com a missionária, com o poeta Manoel de Barros, que fala da linguagem guató, mescladas a encenações (com Paulo José interpretando vários papéis). E há uma inusitada ponte construída entre o Pantanal e a Europa, ligando a cultura guató à alemã. Ambas, em sua mitologia, têm a água como elemento fundamental. Daí se justificam as imagens de Siegfried, de Fritz Lang, relembrando o mito germânico do guerreiro que vai fechar o corpo banhando-se numa cachoeira e não percebe que uma folha caiu sobre suas costas. A parte não molhada torna-se o seu ponto vulnerável.
Essa ligação transetnológica é feita com graça e naturalidade. Pertencemos todos a uma grande família simbólica, embora separados por um oceano de água e de possíveis diferenças, inclusive econômicas. É uma forma nada piegas (porque política) de dizer que todos os membros dessa família, mesmo os mais fracos, têm direito à existência.
(Estadão, Caderno 2, 29/6/07)
Quem me faz o favor de freqüentar este blog sabe que raramente coloco imagens em meus posts. Não vejo justificativa. Mas, no último, elas eram indispensáveis. Numa delas, várias pessoas transportam um corpo, envolto num pano ensangüentado. No plano de fundo, uma mulher carrega uma criança de colo, com uma chupeta na boca. Serão bandidos perigosos? A criança, se não agora, talvez no futuro pode vir a ser uma aliada do tráfico? Por que nos compadecermos dela? Na outra foto, vemos um grupo de mulheres e seus rostos são a expressão completa do horror. O que vêem? Não sabemos. Mas podemos imaginar. Temos imaginação para isso. Para podermos enxergar também o que não vemos e sentir experiências que não vivemos diretamente. Mas, mais uma vez, por que simpatizarmos com elas, quando não fazem parte da nossa realidade? E, mais, vivem num mundo que parece nos ameaçar o tempo todo, a nós, branquinhos da classe média.
Por associação de idéias, essas fotos, e os fatos reais que documentam, me levaram à canção de Gil & Caetano, feita anos atrás, e que se refere ao secular débito social brasileiro. E como esse débito recai de maneira particular sobre aquela parcela da população que, além de ser pobre, também é negra. Ou mulata, ou parda. Ou seja, não-branca. A canção, se bem a interpreto, expressa a revolta, a impotência e, ao mesmo tempo, a necessidade de repensarmos a estrutura social brasileira, se é que desejamos mesmo construir um dia uma sociedade um pouco melhor que a atual. A não ser que continuemos achando, como Washington Luís, que a questão social seja um caso de polícia.
Com o post, eu esperava, pelo menos, que as pessoas se compadecessem do sofrimento dos outros. E, a partir desse sentimento de compaixão, que é humano, refletissem sobre suas causas e como podemos sair desse impasse. Por outro lado, sou bastante crescidinho, realista e conheço bem um tipo de gente que também freqüenta este blog, como a outros. Por isso, não me espantam certos comentários postados aqui. São de pessoas que não querem mudar absolutamente nada, e mais: têm medo de mudanças, de que isso signifique perder algum tipo de privilégio, como se pudessem mantê-los indefinidamente em sociedade tão fragmentada. Não podem nem ouvir falar em política de cotas (que, concordo, teria de ser bem discutida pois é controversa) pelo simples temor de que “gente do povo”, “de cor”, chegue em maior número às escolas, às universidades, aos postos de trabalho melhores.
Enfim, as imagens podem ter força. Mas há gente que deseja ver e existem os que não querem enxergar nada. Bom sono para eles.
Essas críticas me fortalecem. Se esses caras estivessem de acordo comigo, eu ficaria sinceramente preocupado.
Amigos, olhem bem para as fotos da tragédia de ontem no morro do Alemão. Vendo-as, lembrei, sei bem por quê, da letra de Caetano Veloso em Tropicália 2. Pensem, sobretudo os que são contra cotas ou qualquer forma de integração ou reparo a agravos históricos.
Quando você for convidado para subir no adro da
Fundação Casa Jorge Amado
pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
dando porrada na nuca de malandros pretos
de ladrões mulatos
e outros quase brancos
tratados como pretos
só para mostrar aos outros quase pretos
(e são quase todos pretos)
e aos quase brancos pobres como pretos
como é que pretos, pobres e mulatos
e quase brancos, quase pretos de tão pobres são tratados.
E não importa se os olhos do mundo inteiro possam estar por um
momento voltados para o largo
onde os escravos eram castigados.
E hoje um batuque, um batuque com a pureza
de meninos uniformizados
de escola secundária em dia de parada
e a grandeza épica de um povo em formação,
nos atrai, nos deslumbra e estimula.
Não importa nada:
nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico,
nem o disco de Paul Simon.
Ninguém,
ninguém é cidadão.
Se você for ver a festa do Pelô
e se você não for
pense no Haiti
reze pelo Haiti.
O Haiti é aqui.
o Haiti não é aqui.
De: “Haiti”, CD Tropicália 2, 1993
Música: Gilberto Gil
Letra: Caetano Veloso
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul amanheceu com pichações de teor racista. Uma amiga, que lá trabalha como professora, disse que as inscrições fazem parte do tumultuado processo de implantação do sistema de cotas na universidade. O Conselho Universitário, que iria votar a adoção do sistema na semana passada, foi impedido de discutir o assunto por grupos de manifestantes que tomaram a reitoria para fazer pressão. Diz ela que o processo foi interrompido e o pau come entre as facções pró e contra as cotas. Deve ser o que Gilberto Freyre chamava de “democracia racial brasileira”.
Enquanto isso, uma doméstica é espancada no Rio e jovens de classe média que a agrediram se defendem dizendo que “pensavam ser apenas uma prostituta”. Me lembrei do caso do índio Galdino, assassinado em Brasília anos atrás. Os rapazes (também de classe média) que o mataram disseram que pensavam ser “somente um mendigo” que dormia no banco. Desse modo, sentiram-se autorizados a tocar fogo na vítima.
Uma ação policial tem saldo de 18 mortos nos morros cariocas.
Um contemporâneo de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, pai do Chico, definiu o brasileiro como homem cordial. Um conceito ambíguo, mas esta é uma outra história.
Amanhã o Brasil começa sua participação na Copa América, a mais antiga competição de seleções do mundo, com primeira edição realizada em 1916. E daí? Daí que a expectativa parece tão pífia como se o Brasil estivesse prestes a disputar um amistoso contra o badalado escrete das Ilhas Fiji.
E, no entanto…nem sempre foi assim. O Campeonato Sul-Americano, atual Copa América, já foi muito importante. No de 1919, realizado no Rio e vencido pelo Brasil, os jogadores foram homenageados como heróis da pátria, em particular um deles, o mulato Arthur Friedenreich, exceção racial em esporte ainda praticado por brancos da elite. Friedenreich marcou o gol do título, contra o Uruguai. Dizem os cronistas que a vitória brasileira paralisou a antiga capital federal, toda ela tomada de fervor cívico.
Muitos anos depois, Nelson Rodrigues inventou a expressão que dá título a esta coluna. Para Nelson, a seleção era a ‘pátria de chuteiras’, o que lhe valeu muita crítica. Em especial durante o governo militar, quando símbolos como hino, bandeira, as cores verde e amarela eram associados à ditadura.
Hoje, a ‘pátria de chuteiras’ é menosprezada por outros motivos. Dizem que no mundo globalizado a própria idéia de nação tende a se enfraquecer. O futebol seria o exemplo mais gritante da globalização. Os jogadores saem cedo e espalham-se pelo mundo. Mantêm pouco contato com seus países de origem e alguns já falam a língua materna com sotaque. Logo precisaremos de intérpretes nas entrevistas coletivas para auxílio de jornalistas monoglotas.
Pois bem, o que seriam essas seleções multinacionais como as de hoje? Qualquer coisa, menos uma ‘pátria de chuteiras’. A idéia por detrás dessa expressão antiquada é que determinadas pessoas, os jogadores que formam o time, funcionavam como representantes desse país. Jogavam por nós. Saíam do seio do povo e iam para terras distantes combater em nome desse povo. Voltavam, quando vitoriosos, cobertos de glórias. O futebol entre nações é uma guerra simbólica. Ou era?
Toda essa construção épica ruiu, ou pelo menos apresenta rachaduras de alto a baixo, embora a cada vez que penso nos Estados Unidos começo a duvidar de que o nacionalismo esteja de fato em baixa. Em todo caso, em ambientes ‘in’ não se fala mais em pátria e, neles, nacionalismo é papo de gente como Hugo Chávez ou Evo Morales.
Então vamos combinar assim: a seleção já não é a pátria de chuteiras, se é que algum dia o foi. Mas, não sendo mais a pátria de chuteiras, o que será uma seleção, e para o que ela serve, se é que serve para alguma coisa? Respostas à coluna.
SOBROU O TORCEDOR
Outro dia peguei um vôo da Ponte Aérea, indo de São Paulo para o Rio. Sentei no corredor. Portas do avião quase fechando, entra um homem esbaforido. Executivo, maleta de couro bom, terno, gravata, meia-idade, calvo. Dá uma olhada furtiva na aeromoça, tira o celular do bolso e faz uma última chamada. Pensei: vai checar se está tudo ok com o negócio que acaba de fechar. Mas não. Cheio de angústia, pergunta, baixinho: como é que está o jogo, hein? Devo esclarecer. Naquele exato momento jogavam no Maracanã Botafogo e Vasco. Recebida a informação, o meu vizinho faz cara de alívio. Desliga o telefone e encosta a cabeça na poltrona. Dormiu antes de o avião decolar. Enquanto houver o torcedor, haverá vida no futebol.
(Estadão, Caderno de Esportes, 26/6/07)
Andei escrevendo de novo sobre Cão sem Dono porque me parece um filme que vai ficar. Aliás, nem sei se vai ficar ou não. Escrevi porque o filme me agrada, acho um dos melhores do ano. Acontece que na última matéria que escrevi sobre ele, no Guia do Estadão de sexta-feira passada, dei apenas Beto Brant como diretor, omitindo o nome de Renato Ciasca, que divide a autoria do filme. Levei uma bronca de uma pessoa ligada à produção por causa do esquecimento. Me disse que o Renato havia ficado “sentido”. Bem, passemos.
Essa questão de co-autoria é sempre meio complicada, pelo menos para mim. Temos as mais conhecidas – os irmãos Taviani, os Coen e, mais recentemente, os belgas Dardenne. São irmãos. Não tenho muito claro o que um faz e o que o outro realiza. Assinam os filmes juntos e ponto. Aqui no Brasil, Waltinho Salles tem dividido direções com Daniela Thomas, como são os casos de Terra Estrangeira e O Primeiro Dia, entre outros. Lembro de que quando quis entrevistar Walter sobre O Primeiro Dia, ele fez questão de que Daniela fosse entrevistada também. Para marcar a co-autoria, sabendo ele muito bem que era o nome mais conhecido da dupla por ter ganhado um Urso de Ouro em Berlim, entre outras coisas. E também por ser um perfeito cavalheiro.
Também por aqui já houve problema por causa de co-autoria, pois Katia Lund achava que deveria assinar Cidade de Deus junto com Fernando Meirelles, mas este não era da mesma opinião. Não sei como isso terminou, só sei que Cidade de Deus aparece sob uma única assinatura, a de Meirelles. Enfim, esse é um caso litigioso. Mas que recoloca o problema de sabermos de quem é a “autoria” final de um filme. Ou autoria completa, se é que isso existe.
No caso de Cão sem Dono, então, a direção é de Beto Brant e Renato Ciasca. Tendo a esquecer da dupla porque Beto é um diretor já bastante conhecido de quem escreve sobre cinema e Ciasca faz o seu début como diretor de longas. Aliás, co-diretor.
Quando comentei a omissão com minha mulher, ela me aconselhou um recurso mnemônico. “Faça como se fosse uma firma: Brant & Ciasca”. Então ficamos assim: Brant & Ciasca – Secos e Molhados. Ou Ciasca & Brant – Móveis, utensílios e decoração.
Bonito texto de Umberto Eco na Le Nouvel Observateur sobre Nápoles, seus encantos e suas contradições. Eco escreve a partir da leitura do livro Dictionaire Amoureux, de Jean-Noël Schifano, que acaba de sair na França.
Mas, antes de chegar a ele, rememora o fascínio exercido pela Itália sobre estrangeiros, o primeiro deles, e talvez o maior de todos, o alemão Goethe, autor da indispensável Viagem à Itália. A Bota reuniu uma legião de admiradores na vizinha França, a começar por Stendhal, Mme de Staël, Nerval, Dumas, Gautier e Lamartine. Agora, Schifano que, francês, mas com um sobrenome desses, deve ser de família italiana, quiçá napolitana.
Eco reconhece sua dificuldade em julgar o livro de maneira objetiva, pois Schifano é também seu tradutor na França e ele se confessa admirador irrestrito do seu estilo. O fato de Eco ser ele próprio italiano também o impediria de exercer o senso crítico em relação a um livro sobre Nápoles? Não, pois, para ele, há mais diferenças entre um piemontês e um napolitano que entre um sueco e um baiano (“entre un suédois et um Brésilien de Bahia”).
O curioso, diz, é que o Dicionário Amoroso aparece na França quase simultaneamente ao lançamento na Itália de Gomorra, de Roberto Saviano. Este, esclarece, é uma denúncia tão violenta sobre a máfia napolitana (a Camorra), que o autor, alvo de ameaças, passou a viver incógnito e sob proteção policial. Curioso, porque enquanto Schifano vê Nápoles como um paraíso, Saviano enxerga a cidade pelo ângulo do inferno. Qual dos dois tem razão?
Provavelmente ambos, assinala Eco. Primeiro, diz, é sempre possível isolar-se em determinadas partes de uma grande cidade e ignorar o resto. Usa, mais uma vez, um exemplo brasileiro: “No Rio de Janeiro, podemos passar meses nos melhores hotéis de Copacabana ou Ipanema sem saber que a poucos quilômetros dali existe o inferno das favelas.” A frase denota tanto otimismo quanto ignorância geográfica, mas, vá lá, serve, a título de comparação. Da mesma forma, acrescenta, em Nova York podemos desfrutar do Village e da Quinta Avenida, deixando o Bronx de lado. E, em Paris, pode-se tomar um café nos Champs Elysées sem pensar nas banlieus perigosas, lá onde vive a “racaille” (ralé) à qual se referiu um dia o presidente Nicolas Sarkozy.
Mas, vendo o paraíso, Schifano não ignora a Nápoles obscura, garante Eco. Pelo contrário, o fascínio que a cidade exerce sobre o escritor não vem de uma imagem idealizada, e sim de suas contradições profundas. É uma terra de superstições arraigadas, mas também berço de nomes ilustres da filosofia. Entre eles, “apenas” Thomas de Aquino, Giordano Bruno, Giambatista Vico e Benedetto Croce. Existe em Nápoles o poderoso crime organizado que se autocelebra em canções, mas também um teatro vigoroso e um cinema marcante, com nomes históricos como Eduardo De Filippo e Totò.
Como falar de realidade tão contraditória? Schifano escolhe a forma da lista alfabética, do dicionário, e recorre a verbetes para montar seu caleidoscópio. Com entradas como Calígula, Flaubert, Mussarela, San Genaro, Vesúvio, ele vai montando seu mosaico, sem chegar a qualquer conclusão definitiva sobre essa cidade de fato inapreensível. Um dos verbetes mais extensos é consagrado a San Genaro e ao milagre da liquefação do sangue, que se reproduz a cada ano em ambiente de fervor e feitiço, entre orações, gritos e lágrimas.
Por que tanta atenção a essa cerimônia? Responde Schifano: “Porque em Nápoles a religião cheira a enxofre. E eu amo isso.”
Logo no começo há um bate-papo entre amigos no bar, discutindo a relação entre cinema e teatro. Vantagens de um sobre o outro e vice-versa. Conversa de botequim, mesmo porque uma arte não é superior ou inferior a outra. A introdução cai bem porque o projeto de Carreiras, como outros de Domingos Oliveira, faz essa passagem natural entre o palco e a tela. Como Amores e Separações, Carreiras foi montado no teatro e depois chegou ao cinema.
Mais ainda: Carreiras é inspirado diretamente em Corpo a Corpo, peça de Oduvaldo Viana Filho. E mantém diálogo com o clássico de Mauro Bolognini, La Notte Brava, roteiro de Pasolini. A certa altura, a personagem Ana Laura (Priscilla Rozenbaum) dirá: “Essa é a minha longa noite de loucuras”, título em português de La Notte Brava. É, portanto, nesse universo híbrido entre cinema e teatro que Carreiras vai se desenvolver.
E seguirá a ambigüidade do próprio título, que fala tanto da problemática carreira profissional de Ana Laura quanto das infindáveis carreiras de cocaína que ela vai cheirar durante a sua noite de loucuras.
O primeiro aspecto a ser destacado é o tour de force de Priscilla, recompensada com um Kikito de melhor atriz quando concorreu no Festival de Cinema de Gramado. O filme é ela o tempo todo, um solo magnífico e, imagina-se, extenuante. Ela faz a âncora de um canal de televisão que vê seu emprego ameaçado porque está chegando aos 40 anos e a telinha é implacável e voraz em sua busca pelos rostos jovens. A longa noite alterna momentos dramáticos e cômicos (como quando ela resolve desabafar seus problemas com um entediado porteiro noturno). Mas predomina a nota pesada com telefonemas a chefes da emissora, a ex-colegas, amigos e amigas, culminando com a esticada, já na boca da madrugada, ao Baixo Leblon.
Sendo um quase monólogo, apresenta um único ponto de vista, o da narradora. Que não hesita, vez por outra, em dirigir seu olhar à câmera (quer dizer, ao espectador), jogando com o antiilusionismo. A obra é representação do real e não o real, ele próprio. O recurso de distanciamento, brechtiano, empresta um peso de verdade ao desesperado depoimento de Ana Laura sobre si mesma e sobre o peso esmagador do mercado de trabalho sobre o indivíduo contemporâneo.
Porque o filme é isso, no fundo: uma mulher acuada, num momento decisivo da vida e da profissão, e que oscila entre a vontade de potência de uma fera ferida e a consciência de si e da sua fragilidade. O legal da direção é deixar-se flutuar rapidamente entre esses estados de ânimo contrastantes. Ajudada, claro, pela câmera de Dib Lutfi, e também pela garra da atriz. Pode-se estranhar um pouco o artifício do desfecho, um tanto fácil a meu ver. Mas o fato é que sem uma virada radical desse tipo não seria possível expor a grande contradição da personagem, que afinal não sabe se o que quer é aquilo que deseja. Contradição comum a todos nós, aliás.
Depois da lista dos cem maiores filmes americanos de todos os tempos (segundo a votação do American Film Institute) resolvi, talvez em má hora, colocar no blog a minha própria lista. Que lista é essa? Nem sei direito. Encontrei-a vasculhando o computador em busca de outra coisa (computadores são formidáveis latas de lixo, cemitérios de textos e outras surpresas). Quem a encomendou? Não me lembro. Talvez a tenha feito para uma dessas infindáveis pesquisas que encomendaram aos críticos em 1995, quando o cinema completava cem anos de idade. Efemérides são assim. Passam e, ao contrário do que significa a palavra, não deixam rastro de memória.
De qualquer forma, suspeito que seja uma lista boa, e bastante guiada pelo coração, pela experiência de cinéfilo. Explico. Quando pedem uma lista a um crítico, ele, em geral, segue critérios pessoais, mas também atende a exigências profissionais. Assim, por exemplo, não “fica bem” deixar de fora um dos pais fundadores da linguagem cinematográfica como Griffith. Todos nós vimos os filmes de Griffith, como Intolerância e Nascimento de uma Nação. São fundamentais, do ponto de vista histórico, do estabelecimento da linguagem cinematográfica, mas acho difícil dizer que causam um real prazer ao espectador contemporâneo. Deixei-os de lado, sem remorso.
Concentrei-me em meus diretores favoritos. Quem são? Welles, certo, mas sobretudo gente como Fellini, Buñuel, Antonioni, Bergman. De Fellini, poderia ter botado quase a obra toda, mas Federico deixou pelo menos três obras-primas, Oito e Meio, A Doce Vida e Amarcord. Dói no coração omitir A Estrada da Vida, Roma, e tantos outros. Buñuel? O Anjo Exterminador, Viridiana, Os Esquecidos, e toda a fase francesa. Antonioni? Toda a trilogia da solidão: A Noite, A Aventura, O Eclipse. Só? Não, outro dia revi Passageiro: Profissão Repórter, filme extraordinário. Aliás, durante algum tempo a Itália fez o maior cinema do mundo, daí a profusão de obras-primas que se concentram no mesmo período e espaço geográfico.
Acolhi o Eisenstein que mais amo, Encouraçado Potemkim, que revi recentemente em cópia nova e me arrepiou mais uma vez. Poderia ter colocado Outubro também, mas Potemkim me diz mais. Mas por que não coloquei o Dovchenko de A Terra? Botei Terra em Transe e Memórias do Subdesenvolvimento, os dois maiores filmes latino-americanos já feitos. Mas não é um pecado deixar de fora Deus e o Diabo na Terra do Sol, Os Fuzis, Vidas Secas e tantos outros?
Bergman, para mim, é um deus. Nunca vou esquecer da impressão que tive ao ver pela primeira vez (em cópia estropiada, num cineclube do Bexiga) um filme como Morangos Silvestres. Eu era bem jovem e me lembro de ter pensado coisa parecida como “então o cinema é capaz disso, de tudo isso?”. Uma revelação. No entanto, de Bergman coloquei Persona, que me parece mais completo, complexo e me deixou mais chapado ainda. Mas como deixar de fora também Gritos e Sussurros, talvez a maior aproximação feita pelo cinema dessa coisa impalpável chamada alma humana? Ou tantos outros do mestre sueco?
Levei pau porque esqueci o cinema inglês e, de fato, Losey é extraordinário. Mas não cabia. Como não cabiam Almodóvar e Kusturica. O visitante cita Underground (para mim o melhor Kusturica) e Fale com Ela, um Almodóvar impactante, que vi em 2002 em Madri e nos deixou (a mim e minha mulher) tão extasiados que não trocamos uma única palavra na nossa volta a pé ao hotel na Gran Via. Só fomos falar dele no dia seguinte. Que filme, meu Deus! E, no entanto, não entrou. Como não entrou também uma parte do grande cinema japonês, Mizogushi e Ozu, principalmente, que adoro. Cadê o expressionismo alemão? E o grande cinema americano? Onde estão Huston, Nick Ray, Kubrick, Coppola, por quem tenho devoção por causa da trilogia dos Chefões? Falta de espaço.
Por que não incluí Roma – Cidade Aberta, que é o marco do neo-realismo? Simples, porque gosto mais de outro Rossellini, Viagem à Itália. O frescor cinematográfico da nouvelle vague não é melhor representado por Acossado, filme que adoro? É, mas Viver a Vida é um Godard que me impressiona mais. E assim por diante.
Listas são assim. Não comportam grande coisa, a não ser que nos estendamos demais – os melhores cem, os melhores duzentos, trezentos, e assim por diante. Alguma coisa sempre há de ficar de fora. Incompletas por definição, as listas são feitas apenas para nos ajudar a pensar. Delimitamos um número restrito, e essa limitação funciona como uma espécie de laboratório. Quais as nossas influências maiores, formadoras de gosto, da maneira como vemos o cinema? Qual a matriz, o núcleo duro do nosso gosto cinematográfico? Eis o que essas listas podem fazer por nós. E talvez por nossos eventuais leitores.
Se eu fosse fazer uma lista “profissionalmente correta”, teria de me exigir o critério histórico, a diversidade geográfica e temporal. Citaria filmes historicamente importantes, mesmo que não gostasse tanto deles, incluiria filmes de países diferentes e de épocas distintas, trazendo a minha lista até os dias de hoje, para contentar a moçada que acha que o cinema foi inventado por Ridley Scott em Blade Runner, ou talvez com Peter Jackson em O Senhor dos Anéis.
Nada, não se enganem, essa é uma lista de amador, não de crítico profissional. E, quer saber?, já que é para radicalizar, se eu tivesse de responder àquela clássica pergunta-pegadinha – você pode levar um único filme para uma ilha deserta – sabe qual escolheria? Oito e Meio, de Federico Fellini. É o meu filme-fetiche, o meu filme consolo, o meu filme desafio, aquele que me diz que o cinema ainda vale a pena, que a vida vale a pena. É o meu conforto e a minha liberdade.
Escrevo isso no sábado de manhã, o sol bate na janela e ouço Nino Rota. Para bom entendedor…
Interessante este Além do Desejo, de Pernille Fischer Christensen, pois pode ser visto como uma espécie de ensaio de câmara sobre os desvãos da sexualidade humana. Uma pequena fábula sexual, porém contada em tom realista, e bastante despojado aliás, como se o filme obedecesse aos preceitos do Dogma dinamarquês o que talvez seja o caso. Para lembrar, esse movimento artístico dinamarquês propunha uma atitude de despojamento em relação a recursos que pudessem atravancar a narrativa, como uso excessivo de música, truques fotográficos, como filtros, etc.
É nessa simplicidade, nessa quase nudez tecnológica, que acontece o encontro entre uma problemática dona de salão de beleza que vai morar sozinha para se livrar do namorado e um transexual, habitante do mesmo prédio. Em Além do Desejo, o que será posto em cena é a amizade entre Charlotte (Trine Dyrholm) e o travesti Veronica (David Dencik), que na verdade se chama Ulrick.
O que acontece com esse par insólito? Bem, o que se passa quando duas mulheres com problemas sentimentais se encontram? Elas conversam sobre o que as aflige. E se uma dessas mulheres for uma transexual? Nesse caso, você terá de assistir ao filme para descobrir. Mas o que se pode dizer é que, nesse filme delicado, o que está em pauta é uma coisa misteriosa chamada desejo. Por que me sinto atraído por essa pessoa e não por outra? O que faz de alguém um objeto de desejo, de preferência a outrem?
Digamos que o que mantém o desejo seja a impossibilidade de satisfazê-lo, como já tinha sacado Buñuel em seu genial e tão bem intitulado Esse Obscuro Objeto do Desejo. Em seu filme, o que mantém alta a tensão é o fato de que o personagem masculino (Fernando Rey) não consegue se relacionar com a mulher dos seus sonhos, interpretada ora por Carole Bouquet, ora por Angela Molina.
No caso do filme de Pernille o ponto é a, digamos assim, assimetria desse relacionamento. Charlotte vê Ulrick através de Veronica, ou conseguirá enxergar no outro a mulher que ele deseja ser? Afora isso, Além do Desejo é também uma bela história de amizade e tolerância.
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