Acabei de chegar em casa, de volta do Festival do Recife. Continuo tendo sorte nos aeroportos: meus aviões saem e chegam no horário, contrariando o noticiário e a indignação dos colunistas. Deve ser apenas sorte mesmo. Tudo isso para dizer que durante o vôo acabei de ler o romance de Roberto Bolaño Noturno do Chile e já engatei no seguinte, A Pista de Gelo, que acaba de sair no Brasil. Estou fascinado por esse escritor desde que li, durante as férias, um tijolaço chamado Os Detetives Selvagens. É prosa de uma originalidade feroz. Experimental sem ser hermética, dilacerada e escrita com tanta arte. Seus personagens são desgarrados, literatos obscuros, poetas bêbados ou mesmo, no caso de Noturno no Chile, um padre que exerce a crítica literária e, durante a ditadura, dá aulas de marxismo à junta militar. A Pista de Gelo, do qual já li umas 50 páginas, é um policial. Mas um policial tão diferente que nem dá para comparar com qualquer coisa já produzida no gênero. Bolaño morreu em 2003, em Barcelona, com 50 anos. Que escritor!
Obs: falando em escrever, tentei abrir meu laptop durante o vôo pois precisava acabar uma coluna para o jornal. Impossível. Não dá nem para colocar a tela na vertical, pois bate no espaldar da frente. Ou eu continuo em fase de crescimento ou o espaço entre as poltronas diminui a cada vôo que faço.
Cão sem Dono ganhou o Festival de Recife, que faz alguns anos se chama Cine PE. PE, de Pernambuco, claro. Mas o filme (maravilhoso) de Beto Brant e Renato Ciasca teve de dividir um pouco os holofotes com outros premiados, pois 12 Trabalhos, de Ricardo Elias, e Não Por Acaso, de Phillipe Barcinski, também ganharam muitos troféus. Conclusão: o júri de longas foi distributivista. E, na reforma agrária promovida (apenas um longa, Atabaques Nzinga, saiu de mãos abanando), a premiação, que quis contentar a todos, ficou sem personalidade, sem assinatura. Sem rumo definido e sem conceito.No varejo, não há muito o que discordar, salvo um caso ali e outro aqui. O desenho final é que deixa a desejar. Quando tudo é bom, nada é bom. É o preço a pagar por ser bonzinho. Abaixo, segue a lista completa da premiação.
VÍDEOS DIGITAIS
* Prêmio da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD-PE) de Vídeo Digital/Documentário: Stela do Patrocínio-A Mulher que Falava Coisas (RJ), com direção de Márcio de Andrade
* Prêmio da ABD Genival de Passos: para o cineasta pernambucano Fernando Spencer
* Prêmio Especial da Crítica: O Jumento Santo e a Cidade que se acabou antes de começar (PE), com direção de Wiliam Paiva e Leonardo Domingues
* Prêmio Especial do Júri: Para o ator Otávio Augusto pelo vídeo Ruínas
* Melhor Montagem: O Jumento Santo e a Cidade que se acabou antes de começar (PE). Montadores: Wiliam Paiva e Leonardo Domingues
* Melhor Roteiro: O Jumento Santo e a Cidade que se acabou antes de começar (PE). Roteiristas: Leo Falcão e André Muhle.
* Melhor Direção: Além de Café, Petróleo e Diamantes (SP). Diretor: Marcelo Trotta.
* Prêmio Especial do Público: O Sapo (RJ), com direção de Adolfo Sarkis.
* Melhor Vídeo Digital: O Jumento Santo e a Cidade que se acabou antes de começar (PE)
CURTAS-METRAGENS
* Prêmio da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD-PE) de Melhor Curta-Metragem/Documentário: Schenberguianas (PE), com direção de Sérgio Oliveira e William Capela
* Prêmio Josué de Castro: Schenberguianas (PE), com direção de Sérgio Oliveira
* Prêmio do Centro Técnico do Audiovisual (CTAV): Cabaceiras (PB), com direção de Ana Bárbara Ramos
* Prêmio Especial do Júri: Joyce (SP), com direção de Caroline Leone
* Prêmio Especial do Público: Cabaceiras (PB), com direção de Ana Bárbara Ramos
* Prêmio Especial da Crítica: Vida Maria (CE), com direção de Márcio Ramos
* Melhor Atriz: Joana Seibel, por Fúria (RJ)
* Melhor Ator: Nando Cunha, por O Homem (DF)
* Melhor Direção de Arte: Rafael Targat, por Fúria (RJ)
* Melhor Trilha Sonora: Hérlon Robson, por Vida Maria (CE)
* Melhor Edição de Som: Daniel Turini, por Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba (SP)
* Melhor Montagem: Grilo, por Schenberguianas (PE)
* Melhor Fotografia: Cláudio Leone, por Joyce (SP)
* Melhor Roteiro: Márcio Ramos, por Vida Maria (CE)
* Melhor Direção: Kleber Mendonça Filho, por Noite de Sexta, Manhã de Sábado (PE)
* 1° Prêmio Aquisição do Canal Brasil: Beijo de Sal (RJ), com direção de Felipe Gamarano Barbosa
* 2° Prêmio de Aquisição do Canal Brasil: Trecho (MG), com direção de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Júnior
* Melhor Curta-Metragem: Vida Maria (CE), com direção de Márcio Ramos
LONGAS-METRAGENS
* Troféu Gilberto Freyre: O Côco, a Roda, o Pneu e o Farol (PE), com direção de Mariana Fortes. Prêmio concedido pela importância conferida à música como elemento de miscigenação cultural das raças brasileiras.
* Prêmio Especial da Crítica: Cão sem Dono (SP), com direção de Beto Brant e Renato Ciasca
* Prêmio Especial do Júri: 5 Frações de uma Quase História (MG), pela iniciativa de uma criação coletiva de uma nova geração de realizadores.
* Melhor Atriz Coadjuvante: Branca Messina, de Não por Acaso (SP)
* Melhor Ator Coadjuvante: Flávio Bauraqui, por Os 12 Trabalhos (SP)
* Melhor Direção de Arte: Adriana Lemos Mroninski, por 5 Frações de uma Quase História (MG)
* Melhor Trilha Sonora: André Abujamra, por Os 12 Trabalhos (SP)
* Melhor Edição de Som: Luiz Adelmo, por O Mundo em Duas Voltas (SP)
* Melhor Montagem: Marcio Canella, por Não por Acaso (SP)
* Melhor Fotografia: Pedro Farkas, por Não por Acaso (SP)
* Melhor Roteiro: Cláudio Yosida e Ricardo Elias, por Os 12 Trabalhos (SP)
* Melhor Atriz: Tainá Muller, por Cão sem Dono (SP)
* Melhor Ator: Leonardo Medeiros, por Não por Acaso (SP) e Sidney Santiago, por Os 12 Trabalhos (SP)
* Melhor Direção: Ricardo Elias, por Os 12 Trabalhos (SP)
* Prêmio Especial do Público: O Mundo em Duas Voltas (SP)
* Melhor Longa-Metragem: Cão sem Dono (SP), com direção e Beto Brant e Renato Ciasca
RECIFE – Cão sem Dono, dirigido por Beto Brant e Renato Ciasca, foi apresentado ontem no Cine-PE diante de uma platéia de 3 mil pessoas. Agradou em cheio, apesar de ser um filme que quebra expectativas do público. Seco, despojado, cheio de planos fixos e longos, segue a relação amorosa de dois jovens, Ciro e Marcela (Julio Andrade e Tainá Muller). Gostei de rever e me pareceu ainda melhor do que da primeira vez. Fiquei acompanhando a história e me surpreendi pensando: como pode ser comovente o amor de gente moça, esse amor tão intenso e dilacerado de Ciro e Marcela. É filme muito tocante, inclusive porque não se deixa levar pelos efeitos fáceis de música e palavras retóricas. Nos dá um nó na garganta tocando naquele registro que os espanhóis costumam classificar de “a palo seco”. Sem acompanhamentos musicais desnecessários.
Ganha o festival? Isso eu não sei. Mas suspeito que os prêmios principais ficarão entre Cão sem Dono e Não por Acaso, de Philippe Barcinski. Talvez sobrem alguns troféus para outros candidatos, pois afinal têm qualidade. Mas isso quem dirá é o júri, na noite de premiação que acontece hoje no Cine Teatro Guararapes, em Olinda. Pela primeira vez haverá transmissão direta da cerimônia, a partir de 19h45, pelo Canal Brasil. Este seu amigo fará os comentários ao lado da apresentadora Simone Zucolotto. Estão convidados a assistir. Abraços e bom domingo a todos.
Há uma cena (não importa se no início, no meio ou no fim) em Proibido Proibir, em que um dos personagens diz a outro: ‘Não podemos esquecer os mortos.’ Essa pequena frase funciona como uma espécie de imperativo categórico que faz do trabalho de Jorge Durán uma das exceções no cinema contemporâneo. De fato, tudo, em nossa atitude de ‘homens do nosso tempo’ é voltada no sentido de esquecermos os nossos mortos. O que pode ser traduzido como um convite para esquecermos do passado, próximo ou longínquo, e vivermos plenamente o presente. A pergunta que este filme se faz, e que é também a pergunta da História, é: pode-se viver de forma plena o presente sem levarmos em conta o passado? Pois bem, é em torno dessa meditação – esquecer ou não esquecer os ‘mortos’ – que Proibido Proibir se constrói.
A começar pelo título, que evoca os estudantes do maio de 1968 francês e uma das canções polêmicas de Caetano Veloso. Mas se o filme de Durán mantém alusões a certo espírito dos anos 60, finca, e com ênfase, seus pés nos dias de hoje. O personagem principal é Paulo (Caio Blat, bem como sempre), estudante de medicina, cheio de gás, libertário, com ojeriza a compromissos. É ele quem repete a frase-título, e a qualquer pretexto. Seu amigo mais chegado é Leon (Alexandre Rodrigues, de Cidade de Deus), que namora Letícia (Maria Flor).
Podemos resumir o tema do filme no dilema entre participar ou não participar da vida social do País; esta é desdobramento da pergunta a respeito dos mortos. E o personagem problemático será justamente Paulo, o que recusa qualquer compromisso. Mas que terá de reagir a algumas imposições da realidade, que, como sabemos, não pede licença para entrar (e às vezes invadir) a vida das pessoas. Trotski costumava usar uma frase famosa: ‘Você pode não estar interessado na guerra, mas a guerra está interessada em você.’ Passa-se o mesmo em relação à violenta realidade social brasileira. Podemos escolher a política do avestruz e fazer de conta que ela não existe, ou que não nos atinge e não é conosco. O real insiste. Bate à porta. E costuma entrar. É nesse pudim do real que Paulo é convocado a entrar.
Durán é um veterano roteirista do cinema brasileiro. Nascido no Chile, tem em Proibido Proibir seu segundo longa – o primeiro, A Cor do Seu Destino, é de 1986. O que se pode dizer é que esse longo intervalo sem filmar não lhe tirou a agilidade e a forma. Proibido Proibir não apenas situa sua trama entre jovens universitários, mas tem em sua linguagem uma pegada jovem, que pode lhe ser crucial no momento de encontrar seu público. Sabemos que os filmes brasileiros, por mais importantes que sejam, têm muitas vezes dificuldades para dialogar com a platéia mais jovem, aquela que, majoritariamente, procura as salas de cinema.
Por sua trama de personagens jovens, mas, mais do que isso, pelo clima cálido e envolvente como desenvolve sua história, Proibido Proibir pode, quem sabe, quebrar essa barreira e esse tabu. Não se está dizendo que será um enorme sucesso, mesmo porque essa categoria passou a ser privativa dos lançamentos bombásticos, em escala mundial, ou, no plano nacional, privativo de filmes subsidiários da TV. O que se sugere é que, pela sua linguagem e estrutura, o filme tem, em tese, uma oportunidade de encontrar o seu público. E qual seria esse público natural? Bem, justamente o público universitário, esse mesmo que, em seus melhores momentos, pode perceber que entre pensar o País ou em sua carreira profissional, na verdade, ele precisa fazer as duas coisas.
Das atuações muito boas da trinca principal à fluidez da narrativa, Proibido Proibir seduz o espectador, ao mesmo tempo em que levanta alguns pontos de reflexão. Não se deixa levar pelo didatismo esquemático nem pela pregação de qualquer posição política. Destaca problemas e o faz pela via da emoção, uma emoção lúcida, que não se torna empecilho para a reflexão.
Proibido Proibir concorreu no Festival de Havana e ganhou o Prêmio Especial do Júri. Após a sessão, uma das juradas, a cineasta venezuelana Fina Torres, comentou: ‘Que país o Brasil, tão trágico e tão cheio de energia!’ Talvez sem o saber, ela fazia uma quase paráfrase dos versos de Mario Faustino usados por Glauber Rocha em seu Terra em Transe: ‘Tanta violência, mas tanta ternura.’ Assim somos nós.
(SERVIÇO)
Proibido Proibir (Br-Chile/ 2006, 105 min.) – Drama. Dir. Jorge Durán. 16 anos. Unibanco Arteplex 1. Cotação: Ótimo
Foi a noite mais histérica do festival, em razão da presença de Rodrigo Santoro, que veio na equipe do longa-metragem Não Por Acaso, de Phillipe Barcinski. Freqüento este festival deste a primeira edição e nunca tinha visto tanta tietagem. Certo, Central do Brasil recebeu uma ovação inesquecível, com 10 minutos ininterruptos de aplausos. O caso de ontem era diferente, hormonal, adolescente, explicável apenas por essa doença chamada de culto à celebridade. Que atrapalha à beça alguns festivais de cinema. Tanto que houve dificuldade para passar da apresentação da equipe à exibição do filme. A apresentadora do festival teve de implorar por calma e depois ameaçar a turba para que houvesse mínimas condições de começar a projeção.
Que enfim começou. Um bonito filme, este Não Por Acaso. Segundo disse seu diretor, ele trabalha com o conflito entre a razão e a emoção, numa obra de camadas, que pode ser lida como duas histórias humanas que acontecem simultaneamente, ou como uma reflexão filosófica sobre os papéis do acaso e da necessidade no destino humano. Leonardo Medeiros faz o engenheiro de tráfego que, debruçado em seu computador, tenta colocar um pouco de ordem na caótica circulação de veículos em São Paulo. Rodrigo Santoro interpreta o construtor de mesas de sinuca e jogador, que planeja “na prancheta” cada uma de suas jogadas nesse esporte que consagrou Carne Frita e Rui Chapéu. Ambos têm relacionamentos difíceis. Medeiros com uma filha afastada de sua vida por conta da separação e relacionamento difícil mantido com a ex-mulher. Santoro, com uma namorada que se vai num acidente e depois tenta se aproximar de outra moça, bastante diferente dele.
Gosto de pensar que esse primeiro longa de Barcinski aproxima universos em geral muito distantes. Ao refletir sobre o antigo tema filosófico do acaso e da necessidade, ele dialoga com um engenheiro de trânsito que usa modelos matemáticos e com um jogador de sinuca, que bola as seqüências de jogadas em uma cadernetinha de bolso. O mundo técnico mistura-se com o universo popular da sinuca, ambos sujeitos às mesmas contingências. Faz entrar em cena também uma operadora de bolsa de futuros (Letícia Sabatella), ou seja, alguém que mexe também com um universo probabilístico. Tanto o engenheiro como o jogador de sinuca e a operadora de bolsa procuram imaginar um “ponto futuro”, a partir do qual possam intervir no presente. O fluxo de trânsito num determinado dia e região; a posição da bola branca depois de completada a jogada; a oscilação de preços de uma determinada mercadoria. São todos eles operadores de futuro. Todos somos, em certa medida. E não nos damos conta de que na rede de causalidade que traça nossos dias, o acaso entra sem pedir licença, intervém e passa a determinar o que será o futuro. O planejamento é uma necessidade, mas em certa medida está sempre voltado para o fracasso.
Com tal tema “intelectual”, era previsível que Barcinski tentasse aproximar o filme do espectador médio, mais arredio a raciocínios em salas de cinema. Afinal, trata-se de um produto a ser lançado por uma major, a Fox, co-produzido pela O2 e pela Globo Filmes. Essa gente não rasga dinheiro. E assim, as linhas mais reflexivas esmaecem um pouco ao longo do tempo, a música entr para “esquentar” uma trama que alguns poderiam julgar fria, e um certo apaziguamento final amorteçe os pontos mais inquietantes do projeto. Tudo somado e deduzido, fica-se com um belo filme. Inclusive porque poucas vezes a cidade de São Paulo foi filmada de maneira tão intensa quanto neste longa, fotografado por Pedro Farkas.
Liguei para o jornal (aliás, comuniquei-me via Messenger) e soube de duas mortes: a de Jack Valenti e Mitzlav Rostropovich. O que existe de comum entre os dois homens? Nada, que eu saiba. Rostropovich é o violoncelista magnífico, um dos maiores do século, depois de Casals. Quando viajo, costumo levar comigo sua versão das Suítes de Bach. Elas têm me feito companhia em vários lugares do mundo e sossegado minha alma diante de intempéries. Dá para imaginar a dívida de gratidão que tenho com esse russo?
Nunca conheci pessoalmente Jack Valenti, mas sua fama atravessou fronteiras como o maior lobista do cinema americano no mundo. Suas festas no Rio ficaram famosas, regadas a caviar e estrelas de Hollywood, porque a tática era não só impor os filmes pelo poder econômico mas pela força da sedução. Arnaldo Jabor dedicou um poema famoso a ele. Valenti, enquanto exerceu o cargo de presidente da MPA (Motion Pictures Association), desfrutava de status de ministro de Estado do governo dos Estados Unidos. Eles sabem lá da força da cultura e um presidente, não sei se Roosevelt, disse certa vez “Onde nossos filmes entram, nossos produtos entram atrás”. Conhecem o valor-negócio do cinema, e Jack Valenti foi sua ponta-de-lança nesse domínio em escala planetária. Uma vez entrevistei seu diretor para a América Latina, Steve Solot, e fiquei fascinado por esse universo no qual o cinema não passa de uma mercadoria e o mercado é um espaço a ser ocupado por uma estratégia de guerra. Os brasileiros estão no pré-primário desse curso.
RECIFE – Fiquei de comentar os candidatos aos troféus do festival pernambucano e o faço rapidamente. O documentário local O Coco, a Roda, O Pneu e o Farol não peca apenas pelo título, difícil de guardar. Buscando as raízes do coco, a diretora Mariana Fortes entrevista vários mestres e mestras do ritmo nordestino. São pessoas encantadoras, o que dá fôlego ao filme. Que, no entanto, carece de uma estrutura mais rigorosa, uma espinha dorsal, um foco que o tornaria mais orgânico. Quando os personagens são muito bons, há dificuldades na mesa de montagem. O que cortar? Como cortar? Mas são perguntadas que, não respondidas a contento, trazem prejuízo à versão final.
Já o mineiro 5 Frações de uma Quase História parece um trabalho pensado desde o seu início. São cinco tramas, dirigidas cada qual por um diretor da produtora Camisa Listrada, de Belo Horizonte. Mas, como disse um deles, Guilherme Fiúza, não havia o desejo de fazer um filme de episódios, e sim um todo articulado, em que os episódios se soldassem no conjunto. Daí o recurso de fazer as histórias dialogar entre si, mas não à maneira de um Short Cuts, por exemplo, em que é o todo que dá sentido a cada uma das partes tiradas da literatura de Raymond Carver por Robert Altman. Em 5 Frações cada episódio toca o outro de leve e a estrutura revela inteligência cinematográfica. Não suficiente, no entanto, para dar a organicidade ao todo. É um filme que não consegue, de fato, disfarçar sua origem fragmentária. História por história, e seguindo os estilos diversos de direção em jogo, compõem um painel de uma Belo Horizonte dinâmica, conflitiva, quase em transe, como toda cidade grande. Existe algo de histérico em algumas passagens e outro tanto de insuficiente em outras. Não é mau filme, mas tem problemas quando pensado como um todo. Tomados isoladamente, há que se cair na velha constatação para filmes desse tipo, e dizer que alguns episódios são melhores do que os outros.
Uma pessoa bem intencionada me passou o seguinte e-mail, que transcrevo.
“Convoco todos a lutar para impedirmos que um desastre aconteça. Imaginem um lugar onde se pode ler gratuitamente as obras de Machado de Assis, ou A Divina Comédia, ou ter acesso às melhores historinhas infantis de todos os tempos. Um lugar que lhe mostrasse as grandes pinturas de Leonardo Da Vinci. Onde você pudesse escutar músicas de alta qualidade em MP3.. pois esse lugar existe! O Ministério da Educação disponibiliza tudo isso, basta acessar o site:
RECIFE – O Náutico lançou aqui em Recife o DVD Batalha dos Aflitos 2 – a Volta por Cima. É uma espécie de “contra- filme” para se opor ao de Beto Souza que celebra a inacreditável vitória do Grêmio sobre o Náutico pelo acesso à 1ª divisão em 2005. Jogando nos Aflitos, seu estádio, o Náutico tinha um pênalti a seu favor contra um adversário que contava com apenas sete jogadores em campo, já que quatro haviam sido expulsos. Perdeu o pênalti e Anderson, de contra-ataque, marcou, decretando a vitória do Grêmio, uma façanha inesquecível para os gaúchos e um trauma também difícil de esquecer para os pernambucanos. Mas parece que superaram. Tanto assim que surgiu o DVD da “volta por cima”, que foi mostrado como estímulo aos jogadores antes do jogo contra o Corinthians pela Copa do Brasil na noite de hoje. O Náutico venceu por 2 a 0 e eliminou o Timão, dentro do Pacaembu. Estava ouvindo os comentários do jogo, por uma rádio aqui do Recife, e o jogador Marcel, do Náutico, disse que o professor (PC Gusmão) mostrou o filme para eles, o que lhes deu muita motivação. Como se vê, o audiovisual faz parte da batalha futebolística. É time contra time e DVD contra DVD.
Outro dia fui ver o 300, que não havia assistido ainda porque estava de férias na época do lançamento. Como o filme continua bombando nas bilheterias, ainda continua em tempo. Está certo que algumas imagens, inspiradas em Frank Miller, são bonitas, e algumas impressionantes. Mas aquela sangueira, aquela virilidade que não ousa dizer seu nome, aquela estética de escola de samba fora do contexto…Bem, achei um pouco demais. Além disso, é fascista além da conta, não? Acho que se o roteiro tivesse sido escrito pelo Bush ele não se prestaria como alegoria tão explícita para justificar a invasão do Iraque e outros países infiéis pelos “civilizados”. Acho que Bush seria mais sutil. Fiquei encafifado. Será que ninguém escreveu isso ou coisa parecida?
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