E,enfim, meus amigos, chegamos ao final deste ano. Não faço mais listas ou retrospectivas, que todas já foram feitas e deram o que tinham de dar. Feitas as contas, o ano foi áspero porém produtivo.
Sabemos que viver no Brasil não é fácil, mas tem lá seus encantos. A esse respeito, existe aquela historinha legal de Tom Jobim, que morou muitos anos no exterior e depois voltou para o Brasil. Perguntaram para ele onde era melhor. Tom respondeu: “Nos Estados Unidos é bom mas é ruim; no Brasil é ruim mas é bom.” É isso aí, como comprovei por mim mesmo vivendo alguns anos na Europa.
Desejo a todos vocês o mesmo que quero para mim – energia, saúde, criatividade e alegria para enfrentar o ano que entra. Que não nos deixemos enganar por essas ilusões contraditórias – a ingenuidade de quem acha que tudo vai bem e o negativismo radical de quem se nega a ver progressos, mesmo óbvios. Entre um extremo e outro, há muito por fazer e construir.
Ótimo 2008 a todos.
Amigos, domingo, no Caderno de Esportes, fiz um apanhado dos filmes/DVDs que têm saído tendo o futebol por tema. Escrevi sobre o DVD comemorativo do título do São Paulo, a conquista do Inter-RS no Mundial de Clubes, e sobre um documentário dedicadado a Zinedine Zidane. Se você gosta do tema, dê uma olhada no material.
Quem se interessa pela volta ao foco da Operação Condor com o pedido de extradição de brasileiros nela envolvidos por juízes italianos, deve saber que há um filme, ainda inédito, que trata da questão. Chama-se Condor, já participou de alguns festivais e é dirigido por Roberto Mader. Estréia em 2008. Abaixo, com algumas alterações, o post que escrevi na ocasião em que o documentário concorreu no Festival de Gramado.
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O título se refere à chamada Operação Condor, “convênio” entre as várias ditaduras do Cone Sul, durante os anos 70, para troca de informações e troca, também, de prisioneiros. Ficou famosa uma das operações Condor, a prisão em Porto Alegre dos uruguaios Liliam Celiberti e Univercindo Diaz, operação denunciada por repórteres da revista Veja e que dessa maneira salvaram a vida dos dois. Com 1h45, o documentário apresenta um painel bastante amplo dos acontecimentos daqueles anos.
O filme tem importância histórica indiscutível. Contribui para recuperação de um dos aspectos negligenciados do período, a solidariedade policial entre as ditaduras. E também da questão da responsabilidade dos atores sociais quando a história virou. Em países como Argentina e Chile, ex-ditadores como Videla e Pinochet foram processados e presos. No Brasil, optou-se por uma transição pacífica. Um depoimento interessante no filme é o do coronel Jarbas Passarinho, a respeito da anistia brasileira, citando o então presidente-general João Batista Figueiredo. “Não se fala em perdão, porque perdoar significa reconhecer um erro; significa esquecer”. Ora, quando se filma ou documentário sobre o assunto, ou se escreve um livro, o que se tem é a memória, o contrário do esquecimento.
Foi nesse sentido a intervenção de Liliam Celiberti no debate do filme no Festival de Gramado, realizado em agosto. “Não podemos pensar no futuro sem recuperarmos e levarmos em conta o passado”. Para Liliam, sabemos ainda muito pouco daquela época, temos impressões gerais, mas os detalhes ainda estão por serem levantados. “E, sobretudo, há um grande desconhecimento daquela época por parte das novas gerações, que não a viveram”. Em boa medida, os arquivos brasileiros daquele período histórico continuam fechados. A sociedade quer saber? Ou prefere ignorar.
Observo que argentinos, chilenos e uruguaios, entre outros povos, têm fome de conhecimento histórico. Já no nosso caso, tenho cá minhas dúvidas.
Celso Jr./AE, 2005
Liliam Celiberti, uruguaia, foi presa em Porto Alegre, em 1978
Amigos, abaixo, o texto sobre Chaplin que escrevi para o Cultura de hoje. Devo acrescentar que revi, ontem, Um Rei em Nova York. Fiquei surpreso. Pode não ser comparável às grandes obras do diretor, mas corta como navalha sobre a questão do marcarthismo e tem grandes momentos de gagues visuais, segundo o estilo do diretor. Vale rever, e talvez reconsiderar opiniões. Bom domingo a todos.
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Quando em junho de 1928 se fundou o primeiro cineclube do Brasil, não por acaso ele ganhou o nome de Chaplin Club, pois Charles Chaplin era mais ou menos como um sinônimo da arte cinematográfica então. Criado a partir de uma idéia de Plínio Sussekind Rocha, e levada adiante por ele e mais Otávio de Faria, Almir Castro, Claudio Mello e Mário Peixoto, o cineclube, e sua revista O Fan, mantinham como foco a genialidade de Chaplin e a defesa do cinema mudo contra o retrocesso do cinema falado, que aparecia no horizonte com um filme divisor de águas – O Cantor de Jazz (1927), de Alan Crosland com Al Jonson.
A idéia de base do Chaplin Club diz muito sobre o próprio Charles Chaplin. Para os teóricos brasileiros, a introdução da fala traria o risco de levar o cinema de volta à origem da qual ele havia penosamente se liberado, o teatro. Não devemos esquecer que o próprio Louis Lumière, que em 1895 havia promovido a primeira exibição pública das imagens em movimento, dizia que aquela era “uma invenção sem futuro”. Mas, ao contrário do que previra Lumière, o cinema, a partir dos pioneiros, Pastrone e Griffith, já havia construído uma narrativa própria. O que se via na tela nos anos 1920 não era mais “teatro filmado” e sim uma arte com vida própria e uma linguagem que se tornava familiar ao público.
Das especulações críticas do pessoal do Chaplin Club sai uma das obras-primas do cinema brasileiro, Limite, dirigido por Mário Peixoto em 1930. Logo em seguida, o clube se dissolve e a revista O Fan deixa de ser publicada. E por quê? Porque, em vista do sucesso inexorável do cinema falado, não havia mais sentido em manter o clube, com sua rígida postura, ou a publicação. Eram já órfãos do cinema mudo.
Assim como o era o próprio Charles Chaplin, o maior gênio do período mudo. Tanto assim que, mesmo com o cinema falado se tornando rapidamente corriqueiro, Chaplin continuava a fazer seus filmes mudos. E que filmes! Algumas de suas obras-primas foram realizadas nesses anos que, para ele, foram de transição: Luzes da Cidade (1931), Tempos Modernos (1936) e O Grande Ditador (1940).
O fato é que Chaplin usava de maneira tão criativa quanto inesperada os recursos visuais, e tinha mesmo suas razões de achar que o uso intensivo de diálogos iria baratear a arte cinematográfica. Basta lembrar de Em Busca do Ouro (1925) com a célebre dança dos pãezinhos ou a da casa sobre o abismo; Tempos Modernos, com Chaplin perdendo-se no meio das engrenagens da sua máquina; e, claro e óbvio, mas inevitável – a cena de O Grande Ditador com o próprio brincando com o globo terrestre.
Tudo o que havia para ser dito o era nessas seqüências de imagens. Em Tempos Modernos, uma profusão de significados vinha expressa em seus elementos visuais e sob forma cômica. Nenhum discurso sobre a alienação do homem na sociedade industrial teve o mesmo efeito que as imagens do trabalhador preso nas engrenagens. Nenhuma tese subversiva sobre a mecanização do trabalho obteve o mesmo impacto que aquela em que Chaplin, de tanto apertar parafusos com uma chave, enlouquece e não consegue parar de repetir o gesto – para desespero de uma mulher de seios fartos que desce a rua e pressente o perigo que corre. Nenhum discurso contra Hitler ou contra Mussolini foi tão fulminante e irônico como aquela cena em que os dois disputam quem fica mais alto em sua cadeira de barbeiro. E nenhuma cena descreve melhor o desejo doentio de poder de um ditador como aquela, já mencionada, do jogo com o globo terrestre.
É curioso que a parte “falada” da obra de Chaplin acaba por lhe dar razão em seu apego ao cinema mudo. Monsieur Verdoux (1947), Luzes da Ribalta (1952), Um Rei em Nova York (1957) e A Condessa de Hong Kong (1966) são tidos como filmes menores, muito aquém daquelas obras-primas do período silencioso. Mas serão mesmo? Há pouco teve início um movimento de revalorização desses filmes pouco amados de um diretor que é amado entre todos. Por exemplo, Jean-Michel Frodom, diretor da Cahiers du Cinéma, elegeu Um Rei em Nova York como um dos maiores filmes de toda a história. Excentricidade? Talvez. Mas há que reavaliar.
O fato é que há sempre algo a ver, ou rever, em Chaplin. E todos nós, queiramos ou não, somos seus filhos e todos temos o nosso Chaplin favorito. O meu? Sem dúvida Tempos Modernos, a mais corrosiva, lúcida e irônica visão do capitalismo jamais colocada numa tela. É uma espécie de O Capital dotado de senso de humor.
(Cultura, 30/12/07)
Amigos, escrevi uma retrospectiva do cinema em 2007 para o Caderno 2, mas ficou grande demais e tive de cortar para a publicação em jornal. Abaixo segue o texto integral, caso alguém se interesse por ele.
Cena de Em Busca da Vida, de Jia Zhang-ke
Um ano que tem Em Busca da Vida, de Jia Zhang-ke entre os filmes estrangeiros, e Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, entre os nacionais, não pode ser considerado perdido. E, de fato, visto por seus destaques, 2007 não deixou de cinematograficamente interessante, mas desde que se afine a sensibilidade para o que houve de qualidade e não da quantidade. Nem poderia ser de outra forma. Num mercado que lança mais de 300 longas-metragens por ano é mais ou menos esperado que grande parte deles seja dispensável, no sentido dito “artístico” pelo menos. Muitos desses filmes descartáveis serviram para seus propósitos imediatos – hora e meia de entretenimento e nada mais.
Não é difícil entender a predileção da Cahiers du Cinéma pelo cineasta Christophe Honoré. Tudo, em seu cinema, parece reviver uma época de ouro do cinema francês, a nouvelle vague, cujos diretores, então iniciantes, trabalhavam como críticos na própria revista. Há um deles, entre todos, que parece ser citado a cada plano por Honoré – o grande François Truffaut, o homem que talvez tenha filmado a vida amorosa com maior intensidade e maior leveza, não vendo nesses termos qualquer contradição.
O filme conta as histórias de amor vividas por dois irmãos, Paul (Romain Duris) e Jonathan (Louis Garrel), que voltam a morar juntos na casa de um pai deprimido, que se recusa a sair do quarto. É quase desnecessário dizer que, também como em outros filmes da nouvelle vague (em especial a seqüência de Truffaut sobre seu heterônimo, Antoine Doinel), neste, Paris comparece como um personagem à parte. A cidade não é um mero entorno, um quadro sem vida no qual os acontecimentos tomam o primeiro plano, mas como que interage com eles, e, em boa medida, determina seus destinos. Mas de uma forma amigável, não como o trágico destino dos gregos.
Para personificar sua saga pessoal, da infância à idade adulta, Truffaut encontrou e elegeu um ator – Jean-Pierre Léaud. Não parece uma coincidência que Garrel se pareça bastante com Léaud quando jovem, e não apenas fisicamente. Filho de um diretor da nouvelle vague, Philippe Garrel, Louis Garrel lembra Léaud também na maneira como encarna o personagem ora melancólico ora cômico que lhe coube. É quase um ‘espírito’ nouvelle vague que retorna às telas e mesmo na economia da produção, tornada possível porque o produtor português Paulo Branco resolveu financiá-la. Cabe lembrar que, até há pouco, Branco era responsável pelas ‘loucuras’ de Manoel de Oliveira, aqueles filmes maravilhosos mas que não se sabia como poderiam se pagar no mercado. Agora, Branco resolveu apostar no cinema francês e escolhe esse cineasta, que não apresenta as mesmas dificuldades para o público médio que um Manoel de Oliveira, mas, mesmo assim, parece longe de ser ‘comercial’ no sentido mais comum do termo.
E, no entanto, Em Paris é um tipo de filme que pode cativar uma platéia mais ampla. Isso porque Honoré se mostra capaz de transmitir uma idéia de familiaridade, um intimismo raro de obter no cinema. Não apenas em relação à cidade, mas nas cenas rodadas nos interiores, em especial entre os irmãos, mas também entre o pai, Guy Marchand, e a mãe, Marie France Pisier, na cozinha, preparando uma comida, conversando sobre assuntos aparentemente banais. É algo que se visava desde sempre no cinema, captar ‘a vida como ela é’, em seus pequenos detalhes. A vida ‘banal’, mas cuja essência mesma se revela nas coisas pequenas, nos assuntos do dia-a-dia, em palavras trocadas entre um velho casal separado, entre pessoas que se conhecem bem demais para poderem mentir uma à outra.
A impressão de leveza e sinceridade que se tem com Em Paris nos traz de volta aquele grande cinema francês dos anos 60 e 70, mas sem qualquer traço de nostalgia.
(Caderno 2, 28/12/07)
Amigos, voltei ontem do Guarujá e mergulhei num ritmo meio frenético de trabalho. Tanto que nem pude abrir o blog nem ler os comentários. Aliás, nem havia lido enquanto estava no litoral pois levei um lap-top da idade da pedra, quer dizer, de uns 4 ou 5 anos atrás. Serve para mandar e receber e-mails e postar uma coisinha ou outra. Mas, com sua vaga memória, ele não navega na internet – naufraga. Assim, não havia lido os comentários durante o recesso de Natal. Fi-lo (como diria o Jânio Quadros) apenas hoje.
E, ao fazê-lo, várias coisas me vieram ao espírito. Por exemplo, ao ler os comentários do post anterior, sobre o filme A Culpa É do Fidel, me assaltaram (êpa!) idéias soturnas sobre a utilidade de um blog. Qual o benefício prestado por alguns dos comentários a esse post, a mim ou às pessoas que fazem o favor de acessar esse blog? Nenhum. E, fiquei pensando assim: será que pelo fato de um blog estar na rede, ele é como a casa da Maria Joana? Quer dizer, qualquer um entra, faz e deposita o que bem entende? Se é assim…
Mas continuei a ler os comentários de outros posts e encontrei vários de grande valia e interesse. Um deles, que gostaria de destacar, é o de Josafá. Ele nota, com toda a razão, que nós, jornalistas, damos tanta atenção às efemérides, e deixamos escapar uma, que seria das mais importantes – os 30 anos da morte de Charles Chaplin. Caiu a ficha e me perguntei: por que não prestamos mais tanta atenção a esse gênio do cinema, a ponto de nos esquecermos de um aniversário redondo da sua morte? É caso para pensar.
Por sorte, voltei ontem ao trabalho e ainda deu tempo para alterar a pauta do Cultura, que circula neste domingo. E pudemos, Merten e eu, escrever alguma coisa sobre o mestre que nos deixou há 30 anos. Ao escrever, pensei também: todo mundo tem o seu Chaplin favorito e o meu é Tempos Modernos, extraordinária síntese de comédia e crítica ao capitalismo. Em certo ponto do meu texto digo que Tempos Modernos é mais ou menos como “O Capital”, só que dotado de senso de humor. Depois coloco o texto no blog.
Enfim, ficamos devendo esta a Josafá.
E chego a uma conclusão sobre minhas dúvidas anteriores. Um blog depende tanto do blogueiro quanto da boa (ou da má) qualidade dos comentadores que ele consegue atrair para o seu espaço. Fazemos esta coisa juntos.
Sendo filha de quem é, Julie Gavras deveria mesmo mostrar alguma inclinação pelo cinema político. Afinal, seu pai, o franco-grego Constantin Costa Gavras, assina alguns clássicos do gênero, como Z e Missing – Desaparecido. E, para não decepcionar ninguém, Julie entra mesmo por essa vertente, mas o faz com um toque muito pessoal e feminino, que inclui características nem sempre presentes no cinema do pai – o humor e a ternura.
A idéia de Julie Gavras é esboçar um retrato do que foi a cultura de esquerda dos anos 60 e 70, mas pelos olhos dos filhos dos militantes, o que não deve excluir alguns traços autobiográficos, embora o filme seja baseado no livro italiano Tutta Colpa di Fidel, de Domitilla Calamai. Isso não tem importância: quando nos identificamos com um livro (ou com um filme) ele conta um pouco da nossa própria história pessoal, e isso deve ter acontecido com Julie, filha de um homem tão engajado.
Assim, a situação-chave deve ser bem conhecida de Julie. O que significava, na época, ser uma criança em idade escolar e ter pais militantes políticos? É a situação que precisa ser enfrentada por Anna (Nina Kervel-Bey) que tem 9 anos e deve se conformar a um universo familiar regido por pais de esquerda, e fundamentalistas (Stefano Acorsi e Julie Depardieu). Um pequeno trecho daquela época de sonhos, muitos dos quais transformados em pesadelos, passa pelos olhos da garota – dos reflexos da revolução cubana ao maio de 1968, da eleição à queda de Allende, passando pela Guerra do Vietnã. O título vem da frase de sua babá, uma cubana no exílio em Paris para quem o Comandante é responsável por todos os males do mundo.
A babá “reacionária” será trocada por outra, vietnamita, teoricamente mais afinada com os donos da casa, e assim por diante. A política internacional atinge a menina de maneiras distintas. Desde a proibição de ler Mickey, beber Coca-Cola ou consumir qualquer outro produto vinculado ao imperialismo ianque, até conviver com barbudos, amigos da família, que lhe explicam o mecanismo de opressão do sistema capitalista. Ah, sim, o ensino religioso da escola será outro problema na família cujo credo baseia-se no materialismo histórico.
Tudo é feito com leveza e graça e nem mesmo aqueles que estiveram alinhados à esquerda na época das utopias devem ter motivos para se ofender. Afinal, aqueles anos foram mesmo ideologizados em excesso (de ambos os lados). Hoje tudo isso parece um tanto risível – pelo menos para quem soube manter um mínimo de bom humor e lucidez, termos que são praticamente sinônimos.
Da mesma forma, A Culpa É do Fidel não deixa de ser uma modalidade (cômica) do revisionismo histórico ainda em curso e que se destina a demonizar a esquerda. Mas se coloca nesse processo de uma maneira nada cínica ou malévola. Hoje é fácil bater na esquerda mundial, em função dos desdobramentos históricos como a queda do Muro e o fim da União Soviética, em especial. Os anos 1990 e começo dos 2000 têm sido marcados por esse triunfo do individualismo liberal, e um fundamentalismo foi trocado por outro, o do mercado. Qualquer referência a projetos coletivos e à justiça social tende a ser desqualificada e ridicularizada.
Nesse sentido, o modo de criação de uma garota como Anna seria hoje visto, pelo pensamento dominante, como uma espécie de mostruosidade pedagógica e seu futuro pareceria dos mais incertos. Mas não é exatamente por aí que o filme caminha, o que pode decepcionar parte do público de direita, que talvez tenha se divertido demais na primeira parte da história.
Julie Gavras não se nega a fazer essa necessária revisão histórica, mas cuida-se para não perder a ternura jamais.
Daniel Auteuil interpreta um pintor bem-sucedido, que deixa Paris e retorna à cidadezinha onde nasceu. Volta para sua casa de infância, cercada por um grande jardim. Precisa de um jardineiro e, para sua surpresa, vai encontrar esse profissional na pessoa de um ex-colega de escola (Jean-Pierre Darroussin). Eles passam a se tratar, amigavelmente, de Dupincel e Dujardin.
Conversas com Meu Jardineiro, de Jean Becker poderia, à primeira vista, parecer uma daquelas manjadas histórias dos seres diferentes que trocam experiências e lições de vida e se encontram em sua humanidade comum. Em geral, tende-se nesses casos para o politicamente correto, com a pessoa mais simples ensinando à mais “sofisticada” coisas que não se aprendem nos livros, etc. Mas é bom dizer, logo de cara, que Conversas com meu Jardineiro, evita tanto o bom-mocismo quanto os lugares-comuns. Até certo ponto, encaminha sua trama de maneira surpreendente.
Não que evite as oposições, algumas clássicas. Por exemplo, Dujardin, que dedica-se à jardinagem depois de se ter aposentado como ferroviário, tem uma família sólida, embora cheia de problemas. Alguns deles, materiais, de grana e necessidade de emprego para parentes. Já Dupincel, artista, está em via de se divorciar. É rico. Sua filha pretende se casar com um homem mais velho e ele não aceita o fato. Ao mesmo tempo em que recusa o noivo da filha, um homem mais ou menos da sua idade, Dupincel traz de Paris para uma temporada em sua casa de campo uma garota com idade para ser sua filha, a estonteante Magda (Alexia Barlier). A contradição não deixa de ser apontada pelo jardineiro.
Nessa história, que no fundo é o relato de uma grande amizade retomada na maturidade, o tempo joga papel fundamental. Tempo dos dois homens adultos, já no limiar da terceira idade, ao se recordar de quando eram crianças e viviam na despreocupação da infância. Há, portanto, uma idéia de fluxo no filme. Idéia que se expressa na maneira lenta como as cenas se sucedem, dando oportunidade para que os sentimentos e sensações cresçam e se imponham. Seria impossível contar essa história em ritmo vertiginoso, por exemplo.
Por outro lado, há essa reaproximação com a natureza por parte de um dos personagens. Joga-se com a oposição entre cidade x campo, quando Dupincel deve voltar a Paris para resolver negócios e o ritmo se apressa. Ao retornar à campanha francesa, ele se adoça e se alonga.
Dito dessa maneira, pode parecer que muito pouca coisa acontece no filme, o que seria um engano. Na verdade, acontece muita coisa e ela diz respeito, acima de tudo, ao que se passa na cabeça do personagem de Daniel Auteuil. Ora, existem muitos momentos na vida de um homem que lhe exigem um certo recentramento, por assim dizer. São as passagens: da adolescência à idade adulta, a chegada dos filhos, a morte dos pais, etc. A experiência da velhice iminente é outra, talvez a mais dolorosa. É esse o momento que vive o pintor, mas também o seu jardineiro. Cada um à sua maneira e com sua sensibilidade específica. Nesse rito de passagem, talvez o último da existência, cada um dos amigos ajudará o outro, na medida do seu estilo e possibilidade.
À sua maneira tranqüila, Conversas com meu Jardineiro é uma peça destoante no cinema contemporâneo. Joga com a sensibilidade e a emoção de maneira segura e nada chantagista, tendo como trunfo principal a classe de dois atores excepcionais, que não procuram nunca se sobrepujar aos personagens. Auteuil e Darroussin se subordinam aos seus papéis e deixam que eles façam seus percursos, de maneira natural, fluindo com um regato de água serena. Por isso, talvez, a única parte destoante desse belo filme seja seu desfecho, com uma estética e musicalidade um tanto excessivas.
Parece uma concessão gratuita de Jean Becker à sensibilidade do nosso tempo, para a qual a emoção deve ser imposta e não simplesmente exposta. Por sorte, tudo o que havíamos visto até então sobrevive às cenas finais e as coloca em segundo plano.
Pelos “presentes” que os clubes receberam até agora dá para especular como será o ano de 2008 no futebol brasileiro.
O primeiro “presenteado” é justamente aquele que não precisaria de mais nada. O São Paulo fecha o ano em alta. Foi o melhor time, teve o melhor técnico, o melhor jogador, a revelação, etc. Pois bem, o clube do Morumbi parece uma daquelas crianças mimadas, que já têm tudo, e, ainda por cima, ganham um trenzinho elétrico no Natal, para inveja geral da vizinhança. O brinquedo atende pelo nome de Adriano. Claro, não se sabe se o atacante da Inter vai entrar em forma e colocar pé e cabeça na fôrma. É uma aposta. Mas qual clube brasileiro não gostaria de correr esse risco?
No extremo oposto, temos o Corinthians que, como aquele aluno que fez tudo errado, repetiu de ano e ganha pouco no Natal. Trouxe um técnico competente, Mano Menezes, mas reforços que é bom, até agora quase nada. Não pintou nem mesmo a faxina geral que seria de se esperar depois do vexame com a MSI. Como consolo, recebe a fidelidade da torcida e a bela campanha “Nunca vou te abandonar”. Mas isso ele já tinha antes.
Quem teve ano medíocre, embora nem de longe péssimo como seu maior rival, foi o Palmeiras. Não ganhou nenhum título e ainda deixou escapar a vaga para a Libertadores. Mesmo assim, não pára de receber presentes. Promessa de estádio novo, Vanderlei Luxemburgo (embora uma ala palestrina diga que este é presente de grego), patrocínio milionário, R$ 40 milhões da Traffic para torrar em jogadores. No Parque Antártica, todo mundo caminha nas nuvens. Mas vejo alguns palmeirenses com a pulga atrás da orelha. Como é que um time, que andava num miserê danado, passa à abastança de uma hora para outra, sem mais nem menos? Vamos dizer, leitor, que você more num quarto-e-sala e dirija um fusquinha velho. De repente, compra uma cobertura na Vieira Souto e a Galisteu lhe entrega a chave de uma BMW zero. Será que o fisco não viria atrás de você? Mas no mundo do futebol os sonhos são permitidos, mesmo que virem pó e pesadelo tempos depois.
Já o Santos, que teve um 2007 mediano, parece que vai ganhar o mesmo para 2008. Trocou Luxemburgo por Leão, o que não quer dizer grande coisa, exceto que o dinheiro na Vila já anda escasso. Quando Vanderlei chega, é sinal de que há grana em caixa. Quando se vai, é porque acabou, ou está acabando. É um sensor de alta precisão nesse quesito. Sintomaticamente, até agora só foram anunciadas demissões e não houve nenhuma contratação na Vila Belmiro. Achar que, pela segunda vez, Leão vai tirar do nada uma nova geração de Diegos e Robinhos é esperar pela volta de dom Sebastião.
No Rio, o Natal tem sido gordo para Flamengo e Fluminense. E há muito não se via dois times cariocas se prepararem com tanta seriedade para a temporada seguinte, o que é bom para todo mundo e, em especial, para eles mesmos.
Tudo isso, visto em perspectiva e bem misturado, faz pensar em um 2008 pelo menos mais interessante. Claro que os problemas estruturais permanecem e o futebol no País se depaupera a cada ano com a saída precoce dos talentos. O maior presente que se poderia esperar seria uma confederação pelo menos interessada em desatar esse nó. Mas desejar isso da CBF é o mesmo que acreditar em Papai Noel.
(Esportes, Coluna Boleiros, 25/12/07)
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