Confesso que deixei o mais recente livro do Vargas Llosa, Travessuras da Menina Má (Editora Alfaguara), esperando na fila da cabeceira. Já fui tiete do Varguitas, em especial depois de ler há muitos anos a obra-prima dele, Conversa na Catedral. Mas os romances mais recentes não me falaram à libido, embora sempre muito bem escritos. Escolhi o Travessuras para enfrentar uma viagem aérea que em tese seria curta, mas hoje em dia um deslocamento entre São Paulo e Vitória pode se transformar em maratona de dia inteiro. Então, o viajante prudente deve estar munido de muita paciência e um bom livro nas mãos. O pior não aconteceu, os vôos estavam no horário e eu quase lamentei que a viagem não tenha sido mais demorada. Simplesmente me atraquei ao livro de Llosa e não consegui mais desgrudar dele.
Sim, há o talento narrativo que alguém chegado aos 70 anos desenvolveu ao máximo que podia. Mas há muito mais nesse romance, uma imersão que se sente sincera e emocionada em lembranças que vão do seu país natal, o Peru, passando pelo exílio voluntário em várias capitais européias, como a Paris revolucionária dos anos 60, a swinging London dos 70, a Madri louca do pós-franquismo dos 80. Tudo isso costurado pelo amor de Ricardo por Lily, ou que nome tenha essa misteriosa criaturinha sem muitos escrúpulos mas muito charme. Não vou dizer que Travessuras da Menina Má esteja à altura de Conversa na Catedral porque não quero escrever besteira. Mas é mais do que suficiente para lembrar o prazer enorme que é a leitura de um bom livro.Não se prive dele.
Daqui a pouco, se os controladores de vôo deixarem, embarco para Vitória, onde está acontecendo o festival de cinema da cidade. Viagem de bate e volta, apenas para participar de uma mesa de discussão sobre os críticos e a crítica. Há muito o que falar sobre isso, e o assunto é inesgotável: a relação entre críticos e realizadores, os modos e estilos de escrever sobre o cinema, o relacionamento dos críticos entre si agora que há várias modalidades deles, os de jornal, de internet, os blogueiros, etc. Os críticos são amados e odiados. Os cineastas nos amam quando falamos bem dos filmes deles e nos odeiam em caso contrário. O público, ou parte dele, gosta de se orientar pelos críticos e outra parte faz o contrário: se o crítico fala bem ele não vai ao filme e vai no caso contrário. Tudo isso é complexo, a começar pelo fato de usar palavras para descrever e analisar uma obra que é áudio-visual. Essa discussão, da qual participo agora em Vitória, será retomada num grande simpósio durante o Festival de Brasília, que começa dia 21, na terça-feira, e para onde também irei. Enfim, depois conto para vocês o que rolou em Vitória. Até já.
E Os Desvalidos virou Canta Maria. Quem já leu esse romance do sergipano Francisco Dantas deve ter ficado espantado que alguém ousasse adaptá-lo ao cinema. Afinal, Dantas é tido como o Guimarães Rosa do Nordeste, com sua invenção formal no nível da linguagem e a sua ousadia no plano da estrutura mesma do romance. É um regionalismo estranho, o de Dantas, que ao mesmo tempo reatualiza e nega o ciclo regionalista dos anos 30. Ele o reinventa, coisa que passa despercebida dos sabichões que já andaram decretando por aí o fim do regionalismo em todas as suas formas. Mas para que falar dessa gente?
À tarde, o diretor de Canta Maria, Francisco Ramalho, veio visitar a redação do Estado e conversou com Luiz Carlos Merten e comigo. Ramalho não dirige um filme há 20 anos. Antes de Canta Maria seu último trabalho era o interessante Besame Mucho, de 1986. Ramalho não perdeu a mão, mesmo porque não se afastou do cinema nesse tempo todo, fazendo a produção de vários filmes de Hector Babenco. Seu próprio filme, de estilo clássico, sóbrio, tem encanto e dignidade. Ramalho nos contou que se aproximou do romance de Dantas pelo puro prazer da leitura. Leu e releu sem pressa. Consultou amigos e eles opinaram: “Aí nesse texto não tem um filme”. Ele teimou e conseguiu tirar o sumo narrativo da história e transformá-lo nesse bonito Canta Maria, que você poderá ver a partir de sexta-feira nos cinemas. A história é a de um triângulo amoroso que se resolve ao longo do tempo, contra o pano de fundo do sertão e do cangaço no Brasil rural dos anos 30.
Amigos e amigas, eis aí a crítica que escrevi para o Caderno 2 sobre o filme Incuráveis, de Gustavo Acioli.
A situação depurada em que o sexo tenta se isolar de qualquer interferência externa é tema dos mais interessantes, cujo exemplo famoso seria o de O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci. O quadro é mais ou menos o mesmo em Incuráveis: um homem e uma mulher que transam sem sequer saber quem é o outro, de onde vem, o que faz na vida, para onde vai. Importa purificar o sexo de tudo aquilo que, em tese, possa perturbá-lo, como considerações de ordem social, compromissos ou mesmo o nome do parceiro. Mas isso é uma armadilha, pois sexo só é anônimo quando reduzido a relação comercial. Se ultrapassar essa condição, por pouco que seja, já virou outra coisa.
Essa longa noite de angústia e loucuras tem um mérito, nada desprezível em se tratando de cinema brasileiro: deixa muito do que quer dizer entre parênteses, lacunas a serem preenchidas pelo espectador. Assim fazendo, destoa, no sentido positivo, da média do cinema nacional, sempre ávido por se fazer compreensível à primeira vista, como se tivesse dúvidas a respeito da inteligência do espectador. Não é banal: apresenta mesmo uma virada interessante, ao sugerir que o personagem masculino se projeta no feminino como se desejasse estar em seu lugar, o que é uma fantasia recorrente.
Tanto Eiras quanto Dira estão ok. Ele chegou inclusive a ganhar o prêmio de melhor ator no Festival de Brasília do ano passado por este trabalho. O problema desses dramas intimistas, e que permanece um desafio constante para os diretores, é dosar a progressão dramática posta em cena. Nem sempre isso acontece a contento, o que produz alguma oscilação na atenção que se dedica ao filme, que fala de amor mas também de desespero.
Uma situação como esta deveria, é o que se imagina, tender ao paroxismo, a cada degrau. No entanto, há freios: tudo parece um pouco pudico demais, asséptico demais, em que pese a boa fotografia de Lula Carvalho, que sabe compor em luz e cor o ambiente onde o casal passa a maior parte do tempo. Há uma opção pelo não-realismo da história, escolha que cobra seu preço nesse filme sincero e bem-feito.
(SERVIÇO)Serviço Incuráveis (Brasil/2006, 81 min.) – Drama. Dir. Gustavo Acioli. 16 anos. Unibanco Arteplex 4 – 13 h, 14h30, 16h40, 20h30, 22h10. Cotação: Regular
Escrevi uma crítica de Os Infiltrados, de Martin Scorsese. Não houve espaço para publicar a versão maior, que segue abaixo. Tenho a impressão de que está melhor do que a outra. Mas posso estar enganado. Abraços.
Cena de Os Infiltrados, com Jack Nicholson e Matt Damon
Anda sendo dito por aí que, depois das experiências com filmes “históricos” com Gangues de Nova York e O Aviador, Scorsese teve o bom senso de voltar à sua área de ação preferencial, os conflitos interiores da criminalidade, de filmes como Os Bons Companheiros e Cassino. É possível. Mas é possível também, aliás é muito provável, que o tema preferencial de Scorsese tenha continuado o mesmo ao longo de projetos tão diferentes – uma análise da violência primordial que está inscrita no coração da América.
Esse seria o “tema” obsessivo do diretor, aquele que vem da experiência de vida infantil e da preocupação do adulto, e que se expressa por meio de histórias diferentes. As histórias são meio; a análise do tema é o fim. O que não quer dizer que não haja um universo ficcional em que um artista pareça se mover com mais facilidade e naturalidade. E o ambiente da criminalidade parece ser o habitat imaginário do católico Scorsese. E se entende, porque no paroxismo do crime é onde culpa e redenção podem encontrar sua forma mais expressiva (como aliás já sabia Dostoievsky quando escrevia Crime e Castigo).
Em Os Infiltrados, Scorsese trabalha com uma história dupla: Collin Sullivan (Matt Damon) é um informante do chefão da máfia de Boston, Costello (Jack Nicholson), infiltrado na polícia. De outro lado, Billy Costigan (Leonardo DiCaprio) vê-se em situação inversa. Forja-se um crime que justificaria a sua expulsão da polícia e logo em seguida ele é integrado à gangue. Na verdade, é um informante da polícia, infiltrado junto a Costello. Os Infiltrados é, portanto, uma história de lealdades e traições. De agentes duplos que têm de fingir serem o contrário do que são. Mas que, fingindo, descobrem que os dois extremos da sociedade curiosamente se tocam, em mais de um ponto.
A estratégia de Scorsese não é dizer que não existem fronteiras entre a lei e o crime, posição tão niilista quanto simplificadora. Mas é discutir onde estão os limites entre um domínio e outro e por que motivo eles parecem se interpenetrar mais de uma vez. Por outro lado, existe um substrato que parece borrar e confundir essas fronteiras móveis – a violência que aparece na base de formação da sociedade americana, talvez mais do que nas outras. Esse tema, que aparecia com tanta clareza em Gangues de Nova York (e talvez uma das fraquezas deste filme estaria em explicitá-lo tanto), é lido aqui nas ações cotidianas dos seus personagens. A uma certa altura, alguém diz: “Neste país parece que todos se odeiam” e com esta frase define-se o espírito da coisa.
Scorsese não precisa fazer sociologia, ou mesmo buscar explicações muito profundas para entender que, quando se elege a competição como motor único da vida em sociedade, a violência surge como decorrência natural. Aceitando-se um termo da equação será preciso aceitar outro. Isso sabemos. O grande cinema, como o de Scorsese, tem o dom de dramatizar essa constatação óbvia. Torná-la narrativamente convincente e emocionalmente impactante.
Dito isso, convém acrescentar que os personagens, para atingirem esse fim, são construídos de forma complexa. Billy e Collin têm origem comum e, no fundo, são muito parecidos, embora trabalhem em campos opostos. São como Caim e Abel, como Esaú e Jacó, os irmãos inimigos, o fraterno desacordo, a guerra entre semelhantes. E o “mal”, Costello, é um mal complexo, porque ambíguo e sedutor. Um Jack Nicholson que já disseram que trabalha no automático, mas com uma intensidade rara. É sempre um prazer vê-lo em cena.
Alguns leitores me ajudaram a superar o trauma causado pela leitura literal de um comentário meu e lhes sou agradecido por isso. O comentário surgiu porque achei engraçado o espalhafato em torno do interinato de Aldo Rebelo na presidência. Pensei que já houvéssemos chegado a uma certa maturidade política e que esse fato seria encarado como mera rotina. O presidente viaja, o vice está em licença de saúde, assume o presidente da Câmara e ponto. Não interessa se é comunista, testemunha de Jeová ou membro da Opus Dei. Assim funcionam as democracias. Houve um tempo neste país em que se tinha medo das chamadas “ideologias exóticas” e se enxergavam comunistas em toda a parte. Era a adaptação cabocla à ideologia da guerra fria, com tudo o que isso teve de conseqüências, a começar pela doutrina da segurança nacional e terminando nos porões dos Doi-Codi.
Enfim, achei engraçado que alguém ainda se alvoroçasse com o fato de um comunista do PC do B assumir a presidência, mesmo que interinamente. Fiz uma pequena brincadeira e cometi uma pequena ironia. A maioria dos leitores entendeu mas outros caíram de pau através dessas ferramentas do mau humor contemporâneo que são o e-mail e os blogs. Por isso agradeço aos comentários inteligentes dos outros leitores.
E relembro a eles, coisa que certamente sabem, que bom humor e culto da ironia fina não são privilégios do Brasil e dos brasileiros. Certo, tivemos Machado de Assis, o nosso maior escritor. O que seria dele sem o uso refinado dessa figura de linguagem?
Mas lembro também de Freud, que sabia melhor do que ninguém a importância do humor. Tanto assim que escreveu uma obra fundamental como O Chiste e sua Relação com o Inconsciente.
Freud sabia que mais importante do que teorizar sobre o humor e a ironia é saber usá-los no dia-a-dia. São formas terapêuticas, que tornam nosso cotidiano mais ameno. E, em especial, são úteis nos momentos mais agudos. Cito um desses momentos da vida de Freud, talvez o meu favorito. Freud, velho e doente, vê-se obrigado a sair de Viena com a iminência da guerra. A mudança para Londres tem de ser negociada com os nazistas, que exigem uma declaração, assinada por Freud, de que fora bem tratado por eles. Freud redige uma carta na qual não apenas reconhece o bom trato a ele dispensado pelos SS nazistas como os elogia pelos boas maneiras e os recomenda vivamente aos amigos. Com a ironia, é claro, o documento assinado compulsoriamente por Freud tornou-se inutilizável pelos nazistas. Cairiam no ridículo se o exibissem publicamente. A ironia pode, também, obedecer a uma finalidade política.
Creio que foi o Millôr Fernandes quem disse que era muito perigoso o uso da ironia no Brasil. A ironia, no entanto, não é um bicho de sete cabeças. Trata-se apenas de uma figura de linguagem que consiste em inverter o sentido de uma frase, dizendo-se o contrário do que se pretende. Isso para que o destinatário a interprete com sua inteligência e fique feliz com isso, pois estará fazendo uma leitura ativa. No Brasil, no entanto, sempre corremos o risco de sermos “entendidos” de maneira literal e portanto mal-humorada. E então teremos de “explicar” a ironia, com a mesma eficácia com que se explicam anedotas ou trocadilhos. Era por isso que Millôr propunha a adoção de um sinal ortográfico, o ponto de ironia, que assim passaria a figurar ao lado do ponto de interrogação, do ponto final, do ponto e vírgula e até das reticências.
Li neste fim de semana Ela e Outras Mulheres, o novo livro de contos de Rubem Fonseca. Tirando a sua misoginia (mulheres, em seus contos, ou estão sendo estupradas ou são bandidas), fica a impressão de um cansaço de estilo. Você encontra lá uma certa estrutura do conjunto e, também às vezes, um fraseado interessante. Nada que o próprio Fonseca já não tenha feito antes – e melhor. Mas, enfim, tornou-se um grão-senhor das letras brasileiras e assim conserva-se imune a críticas. A recusa às entrevistas contribui também para o mito. Faz parte. Na sociedade do espetáculo, recusar-se a ele não deixa de ser também espetacular. Literariamente não convence – e é isso o que importa.
Há um frisson estranho com o fato de Aldo Rebelo assumir a presidência interinamente enquanto Lula viaja. O que acham que ele vai fazer durante a sua “gestão” de um dia? Nacionalizar o sistema bancário? No tempo do regime militar diziam que comunista comia criancinhas. Por falar nelas: e nós, quando sairemos da infância política?
Amigos e amigas, aqui o texto que escrevi para a seção Revista das Revistas, do suplemento Cultura, do Estadão:
Em sua coluna da Le Point, “Le Bloc-notes”, Bernard-Henri Lévy faz um elogio do politicamente correto. Estranho que um francês, ainda que heterodoxo como BHL (na França, só se referem a ele pela sigla), adote essa moda tão americana? Bem, a verdade é que ele começa o texto se explicando a respeito dessa prática racionalizada do eufemismo. Claro, também acha engraçado que se censure Branca de Neve para não ferir suscetibilidades dos anões; também não entende que seja necessário orar a Deus Pai e Mãe para não incorrer na fúria das feministas. Apesar desses abusos, ele se pergunta se a língua não seria, afinal “o lugar no qual se sedimenta o arquivo do mal”? É uma pergunta. Que ele enlaça a outra: “Será que no sul dos Estados Unidos a criminalização de expressões racistas não ajudou a mudar as coisas? Será que uma dose de politicamente correto não seria bem-vinda em duas ou três frentes, pelo menos: o racismo, o anti-semitismo e, também, o reconhecimento dos genocídios?”
Esse último ponto era aonde BHL queria chegar: a proposta de lei francesa de tornar criminosa a negação do massacre dos armênios pelos turcos, em 1915, a chamada Lei Gayssot. Segundo Lévy, “uma lei sobre o genocídio de 1915 calaria as bravatas de turcos neofascistas, e não atrapalharia em nada as pesquisas históricas sobre o período”. Esse é um dos pontos atacados pelos inimigos do “politicamente correto”. Usando de eufemismos, ou de proibições verbais, a realidade dura das coisas seria jogada para debaixo do tapete das conveniências, contribuindo assim para sua eternização – o exato contrário do efeito pretendido.
Não é o que pensa BHL, que publicou recentemente seu American Vertigo (aqui no Brasil pela Companhia das Letras), um livro reportagem sobre os Estados Unidos, escrito à maneira de um Tocqueville contemporâneo, guardadas as imensas e devidas proporções.
No entanto, o que se lê na concorrente da Le Point, a L’Express, é que a medida, apoiada em massa pelos armênios na diáspora (leia-se: residentes na França) não encontra eco na comunidade que permaneceu na Turquia. Esta, pelo contrário, prefere a pedagogia à penalização. A advogada dos cerca de 700 mil armênios residentes em território turco, Luiz Bakar, afirma: “Somos unânimes, pois o texto é prejudicial ao diálogo entre a Armênia e a Turquia”. A revista traz também o depoimento de Hrant Dink, diretor de uma semanário bilíngüe, escrito em armênio e turco, que foi processado por definir o massacre de 1915 como genocídio. Ele qualifica a lei de “imbecil”. Segundo Dink, negar os fatos é ignorância e não se podem fazer leis contra a ignorância.
Como se vê, o procedimento politicamente correto às vezes desagrada até aos supostos beneficiários.
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