Uma das boas coisas deste Festival de Brasília foi ter podido assistir a uma raridade do cinema nacional – O Quinto Poder, filme de Alberto Pieralisi, que andava fora de circulação desde os anos 1960. Pieralisi foi um italiano que veio ao Brasil e dirigiu vários filmes, em especial na Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Talvez o mais famoso deles seja O Comprador de Fazendas, sobre um texto de Monteiro Lobato. Pieralisi já morreu. Quem estava na sessão, em Brasília, para apresentar o filme, era o produtor Carlos Pedregal, espanhol que morou muitos anos no Brasil.
Antes da sessão, Pedregal falou para uma platéia de cinéfilos, que já tinha ouvido falar dessa obra mas não a conhecia. Confesso que, em alguns trechos, a fala me pareceu meio delirante. Acontece que o tal do 5º poder, que está no título, diria respeito ao controle dos seres humanos por mensagens subliminares, troço que andou em voga nos anos 60. Segundo Pedregal, o filme, de 1962, participou do Festival de Berlim e várias pessoas entraram em contato com ele, querendo comprar os direitos de exibição. Mais tarde, continua Pedregal, ele descobriu que essa pessoas não eram ligadas ao cinema, mas eram sim agentes secretos, a serviço de potências estrangeiras. Estariam interessadas na tal da mensagem subliminar e o filme a teria retratado tão bem que queriam exibi-lo para os seus serviços secretos. Estou repassando o peixe para vocês pelo mesmo preço que comprei.
Enfim, sobre o filme: é a história de um grupo de alemães que tenta dominar o Brasil por meio de mensagens subliminares. Instalam um transmissor clandestino, que interfere no rádio e na TV, e passam a bombardear a população com mensagens – subliminares – de ódio. Quer dizer, mensagens aquém do limiar de percepção, mas que assim mesmo causam efeito sobre as pessoas. Quem está no elenco, novinha, é a atriz Eva Wilma.
E, por delirante que possa parecer a trama, o filme tem raras virtudes cinematográficas. Há cenas de perseguição de carros, cenas de ação em geral, muito bem realizadas. E, no final, um combate entre os alemães e os brasileiros, em cima da estátua do Cristo Redentor, que é de tirar o fôlego. Não sei se hoje um diretor de cinema teria capacidade de dirigir uma cena como essa. A influência óbvia sobre Pieralisi é o Hitchcock de Correspondente Estrangeiro e Intriga Internacional. O trabalho de câmera é sofisticadíssimo.
Mas o engraçado ocorreu depois da sessão. Quando saí do cinema, no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, liguei o celular e recebi a mensagem de que o ator francês Philippe Noiret havia falecido e eu deveria escrever um texto urgente para o jornal. Estressei. Estava longe do hotel e portanto do computador. A van do festival não chegava. A solução foi pedir uma carona para o Fernando Lemos, que já foi secretário de Cultura do Distrito Federal e é nosso amigo, meu e de minha mulher.
E lá fomos, no carro de Fernando, voando para o Hotel Nacional, onde eu estava hospedado. No caminho, Fernando falou de Pedregal. Disse que ele era, além de produtor de cinema, marketeiro político no tempo em que essa expressão nem mesmo existia. Ainda nos anos 50, foi chamado para fazer a campanha de Adhemar de Barros, que queria se eleger para o governo do Estado. Foi franco e disse ao candidato que seria impossível para ele se livrar da pecha de corrupto. A única solução seria assumi-la de vez. Nascia então a expressão: “Rouba, mas faz”, slogan que mais tarde seria aplicada a outros políticos, a um em particular, que eu e vocês sabemos quem é.
Esse, o Carlos Pedregal, produtor de O Quinto Poder. Filme que desejo ardentemente possa ser lançado no cinema, depois de tantos anos, ou pelo menos em DVD.
Ufa!, consegui chegar em casa depois de atraso no aeroporto e falta de teto (pelo menos foi o que disseram) para descer em São Paulo. Ficamos tolamente sobrevoando o Estado, de Ribeirão Preto à capital, até que o avião recebeu autorização para pouso, e o fez. Bem, cá estou eu de volta, ainda mareado mas em condições de escrever umas maltraçadas.
Gostei muito de algumas coisas deste Festival de Brasília:
1) o nível bom dos longas concorrentes
2) a premiação de Baixio das Bestas, a meu ver a proposta mais original e ousada.
3) Os documentários, todos, inclusive um que encerrou a noite de premiação, hors concours – Hércules 56, nome do avião que levou para fora do País os presos políticos trocados pelo embaixador americano, seqüestrado em 1969. Só não entendi por que ficou de fora da competição, pois é ótimo.
4) O Seminário A crítica da crítica, com as intervenções muito boas de Marcus Mello, Marcelo Coelho e, sobretudo, Ismail Xavier, o nosso mais lúcido analista de cinema. Ao lado de Jean-Claude Bernardet que infelizmente não pôde ir.
5) Alguns filmes que passaram fora da competição, como a raridade O Quinto Poder, de Alberto Pieralise. Mais tarde volto a ele, pois vale um texto.
6) Os debates matinais dos filmes em competição. Em geral, conversas férteis e inteligentes.
De outras, não gostei tanto:
1) O nível não tão bom dos curtas, prejudicados pela “obrigatoriedade” da comissão em selecionar filmes de Brasília para contemporizar com os artistas da cidade.
2) A cerimônia de premiação, chata e longa. Cada premiado em 16 mm fazia questão de chamar a equipe inteirinha para o palco, e os agradecimentos se sucediam de forma interminável.
3) O episódio desagradável em que um diretor peitou um crítico pois este havia escrito de maneira pouco favorável sobre o seu filme. Às vezes descreio da evolução da humanidade. Depois me recupero.
4) A constatação de que a categoria (?), classe (?), corporação (?) dos críticos mostra pouca disposição para discutir seus métodos e formação. Questionar os outros é mole; o problema é discutir a si mesmo. Esse tipo de atitude cheia de soberba limitou o alcance do seminário.
5) A comida do Hotel Nacional, próxima do intragável. Mas o café da manhã se salva.
Meus caros e caras, estou chegando agora do Teatro Nacional, onde aconteceu a premiação do 39º Festival de Brasília. Entre vaias e aplausos da platéia, ganhou Baixio das Bestas, de Claudio Assis, que era de fato o filme mais ousado, mas também o mais polêmico entre os favoritos. No todo, a premiação, que você pode conferir abaixo, me satisfez, embora eu reconheça nela uma série de erros técnicos, explicáveis porque houve muita briga dentro do júri para que os prêmios se acomodassem. Depois comento melhor, porque agora estou exausto e vou dormir. Transcrevo a lista completa dos prêmios, inclusive com a grana que cada um recebe junto com o troféu. Abraços.
PRÊMIOS OFICIAIS – TROFÉU CANDANGO
Longa-metragem em 35mm
Melhor Filme (Júri Oficial) –R$ 80.000,00
Filme: Baixio das Bestas, de Cláudio Assis
Melhor Direção – R$ 20.000,00
Helvécio Ratton, por Batismo de Sangue
Melhor Ator –R$ 10.000,00
Maxwell Nascimento, por Querô
Melhor Atriz – R$ 10.000,00
Mariah Teixeira, por Baixio das Bestas
Melhor Ator Coadjuvante –R$ 5.000,00
Irandhir Santos, por Baixio das Bestas
Melhor Atriz Coadjuvante –R$ 5.000,00
Dira Paes, por Baixio das Bestas
Melhor Roteiro –R$ 10.000,00
Carlos Cortez, com a colaboração de Bráulio Mantovani e Luiz Bolognesi, por Querô
Melhor Fotografia –R$ 10.000,00
Lauro Escorel, por Batismo de Sangue
Melhor Direção de Arte –R$ 10.000,00
Fred Pinto, por Querô
Melhor Trilha Sonora –R$ 10.000,00
Pupillo, por Baixio das Bestas
Melhor Som –R$ 10.000,00
E ainda Prêmio Dolby: consiste na licença para usar o sistema de som Dolby (equivalente a 4 mil dólares)
Louis Robin, por Querô
Melhor Montagem – R$ 10.000,00
Renato Martins e Vladimir Carvalho, por O Engenho de Zé Lins
Prêmio Especial do Júri:
O Engenho de Zé Lins, de Vladimir Carvalho
CURTA OU MÉDIA-METRAGEM EM 35MM
Melhor Filme (Júri Oficial) – R$ 20.000,00
e ainda Prêmio Ctav (uma cópia 35mm)
Filme: Trecho, de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr.
Melhor Direção –R$ 10.000,00
Anna Azevedo, por O Homem-Livro
Melhor Ator –R$ 5.000,00
Leonardo Medeiros, por A Vida ao Lado
Melhor Atriz – R$ 5.000,00
Bohdana Smyrnova, por Noite de Sexta, Manhã de Sábado
Melhor Roteiro – R$ 5.000,00
André Carvalheira, por Dia de Folga
Melhor Fotografia – R$ 5.000,00
Pablo Lobato, por Trecho
Melhor Montagem – R$ 5.000,00
Karen Harley e Clarissa Campolina, por Trecho
CURTA-METRAGEM EM 16MM
Melhor Filme (Júri Oficial) – R$ 15.000,00
e ainda Prêmio CtaV (5 latas de negativo/cor)
Filme: Terra Prometida, de Guilherme CastroMelhor
Direção –R$ 10.000,00
Filipe Gontijo E Eric Aben-Athar, pelo filme A Volta do Candango
Melhor Ator – R$ 5.000,00
Gê Martu, pelo filme Borralho
Melhor Atriz –R$ 5.000,00
Sarah Vasconcelos, pelo filme Uma Vida e Outra
Melhor Roteiro –R$ 5.000,00
Santiago Dellape, pelo filme Nada Consta
Melhor Fotografia – R$ 5.000,00
Andre Benigno, pelo filme Borralho
Melhor Montagem – R$ 5.000,00
Marcius Barbieri, pelo Filme Vestígios
PRÊMIO JÚRI POPULAR
Melhor longa-metragem em 35mm –R$ 30.000,00
Filme: Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá, de Sílvio Tendler
Melhor curta-metragem em 35mm –R$ 20.000,00
e ainda Prêmio Ctav (Uma cópia 35mm)
Filme: O Homem-Livro, de Anna Azevedo
OUTROS PRÊMIOS
PRÊMIO CÂMARA LEGISLATIVA DO DISTRITO FEDERAL
Exclusivo para produções do Distrito Federal
o Melhor longa-metragem em 35mm R$ 50.000,00
E ainda Prêmio Quanta (R$ 10.000,00 em equipamentos de iluminação e maquinaria)
Filme: O Engenho de Zé Lins, de Vladimir Carvalho
Melhor média ou curta-metragem em 35mm R$ 10.000,00
E ainda Prêmio Quanta (R$ 8.000,00 em equipamentos de iluminação e maquinaria)
Filme: Oficina Perdiz, de Marcelo Díaz
Melhor filme em 16mm R$ 5.000,00
E ainda Prêmio Quanta (R$ 4.000,00 em equipamentos de iluminação e maquinaria)
Filme: Borralho, de Arturo Sabóia e Paulo Eduardo Barbosa
Menção Honrosa
Ao filme Dia de Folga, de André Carvalheira, “pelo excelente trabalho de direção”.
PRÊMIO AQUISIÇÃO CANAL BRASIL
Incentivo ao Curta Metragem
Cessão de dois prêmios, no valor de R$ 5.000,00 cada, a dois curtas 35mm, selecionados pelo júri Canal Brasil
Filme: Noite de Sexta Manhã de Sábado, de Kleber Mendonça Filho
Filme: O Homem-Livro, de Anna Azevedo
PRÊMIO MARCO ANTÔNIO GUIMARÃES
Conferido pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro para o filme que melhor utilizar material de pesquisa cinematográfica brasileira.
Filme: Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, de Thomaz Farkas e Ricardo Dias
Pelo excelente trabalho de resgate e recuperação de imagens inéditas rodadas há mais de cinqüenta anos.
PRÊMIO SARUÊ
Conferido pela Equipe de Cultura do Correio Braziliense
O Troféu Saruê, criado pelo artista plástico Galeno, foi instituído com o intuito de homenagear o momento de maior destaque durante o Festival, na visão dos profissionais do Correio Braziliense que trabalharam na cobertura. Este ano, a votação foi apertada. Basta dizer que, em segundo lugar, com quatro votos, ficou a atuação de Caio Blat, destaque em dois longas da mostra competitiva em 35mm – Batismo de sangue e Baixio das bestas. O mais votado, no entanto, foi o autor de um curta, considerado uma preciosidade no festival. Pelo resgate de um registro único na história da música popular brasileira, revelado em Pixinguinha e a velha guarda do samba, Thomaz Farkas é o vencedor do Troféu Saruê deste ano.
PRÊMIO DA CRÍTICA – TROFÉU CANDANGO
o Melhor longa 35mm
Pelo mergulho contundente no processo de degradação moral e social de um Brasil de excluídos, pelo rigor formal e pela entrega visceral do elenco, a Crítica confere o prêmio de Melhor Filme a Baixio das Bestas, de Cláudio Assis.
o Melhor Curta em 35mm
e ainda Prêmio Ctav (uma cópia 35mm)
Pela originalidade da trama, força dramática e uso expressivo e singelo do som e da imagem na construção narrativa, o prêmio da Crítica na categoria de curta-metragem 35mm vai para o filme Noite de Sexta Manhã de Sábado, de Kleber Mendonça Filho.
PRÊMIO CONTERRÂNEOS
O troféu Conterrâneos é um prêmio conferido bienalmente pela Fundação Cinememória, de Brasília, destinado ao melhor documentário em competição no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Este ano o seu júri foi composto pela professora e documentarista Dácia Ibiapina e pelos cineastas Marcos de Souza Mendes e Vladimir Carvalho, presidente da Cinememória.
O Júri considerou o inestimável valor cultural do filme escolhido e a perseverante fé de seus autores na preservação e conservação de nossa memória audiovisual e o troféu vai para Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, de Thomaz Farkas e Ricardo Dias.
Daqui a pouco vou para o Teatro Nacional, onde terá lugar a cerimônia de premiação do 39º Festival de Brasília. Não sei quem ganhou. Nem quero saber porque gosto de ser surpreendido na hora. Mas conversei com um dos jurados, “em off”, e ele me confidenciou que a decisão foi muito dividida, demorada e tensa. Houve briga, manipulação política, e formaram-se dois grupos inconciliáveis, um a favor de Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, outro de Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton. Quando isso acontece, não é impossível que surja um tertius, quer dizer, uma terceira alternativa que satisfaça, pelo menos parcialmente, a gregos e baianos. No caso, quem pode se dar bem é Querô, ou um dos documentários. Veremos.
O documentário de Silvio Tendler, Encontro com Milton Santos – ou o Mundo Global Visto do Lado de Cá, foi aplaudido em pé pela platéia do Cine Brasília. O filme põe na tela as idéias do geógrafo, em especial aquelas expressas no livro Uma Outra Globalização. Milton Santos não quer que a humanidade dê um passo atrás – sabe que o processo de globalização é inevitável e irreversível. O que não parece inevitável, segundo ele, é que esse processo seja colocado apenas a serviço dos países ricos, em detrimento das nações pobres do planeta.
Segundo a ideologia neoliberal, a globalização econômica é um processo neutro como a lei da gravidade, que em tese beneficiaria a todos. Para seus críticos, Milton Santos entre eles, trata-se de uma nova face do colonialismo econômico, pelo menos da maneira como existe hoje em dia.Ou seja, produtor de desigualdades.
O filme mostra movimentos sociais pelos diversos países, da América Latina e do mundo, que se opõem ao novo capitalismo global. Coloca dados em cena, revela como as críticas ao modelo contemporâneo podem vir mesmo de pensadores originários do centro do sistema, dos Estados Unidos. E tenta ilustrar a tese central de Milton Santos, a de que se podem usar os próprios trunfos da globalização, como a ligação mundial pela internet, para alterar os seus rumos em favor das nações periféricas. “Até agora não existia de fato uma ‘humanidade’ no sentido mais rigoroso do termo. Estamos a caminho de construí-la”, é uma das suas frases em entrevista dada a Tendler cinco meses antes de morrer.
Santos pensa que, pela primeira vez na história, estamos a caminho da aldeia global pensada por MacLuhan. Falta colocar-se politicamente para que esse contato imediato de todos os países e pessoas seja posto a favor também de todos e não apenas das nações mais poderosas do planeta. Esse é o desafio da nova globalização, tão bem exposto por este belo filme de Silvio Tendler. Não se trata de utopia nem mesmo de desvairio romântico. Trata-se de luta política mesmo, de correlação de forças e da consciência de que ninguém cede espaço de livre e espontânea vontade. Essa índole tão lúcida como combativa de Milton Santos é que foi aplaudida em pé pelo público de Brasília.
Aos 76 anos, morreu Jece Valadão, ator que ganhou a vida com sua persona de cafajeste. Não por acaso, um dos seus melhores filmes foi justamente Os Cafajestes, de Ruy Guerra, em que contracena com Daniel Filho. Mas, antes disso, Jece já estava no elenco dos dois filmes de Nelson Pereira dos Santos, Rio 40 Graus (1955) e Rio Zona Norte (1957), interpretando personagens de malandros cariocas. Outro grande papel de Jece foi o bicheiro Boca de Ouro, também de Nelson Pereira dos Santos, baseado na obra homônima de Nelson Rodrigues. Na época, aliás, Jece era casado com a irmã do dramaturgo. Jece fez inúmeros papéis em filmes menores e também dirigiu diversos longas-metragens, como Vale de Canaã e um filme sobre o caso Ângela Diniz, socialite assassinada por Doca Street. Acabou criando um tipo e nele foi muito bom. Seu último trabalho foi na série para TV, Filhos do Carnaval, dirigida por Cao Hambúrguer. Seu papel? Um chefão do jogo do bicho, viciado em Viagra. Está ótimo, era uma delícia vê-lo em cena. A série deveria ter continuação, mas agora Cao vê-se diante de uma saia justa: como encontrar outro ator que faça um personagem para o qual Jece Valadão parecia ter nascido?
Jece deixa um filme inédito, uma produção de Minas Gerais: o episódio A Liberdade de Akim, dirigido por Armando Mendz, um dos cinco relatos do longa coletivo 5 Frações de uma Quase História. Nesse episódio, Jece Valadão, para variar, faz um papel negativo: um juiz corrupto. O filme, me informou o diretor de outro dos episódios, Guilheme Fiúza,será lançado apenas no ano que vem.
Uma nota pessoal: uma vez fui fazer uma longa entrevista com Jece Valadão e o encontrei, em seu apartamento, ajudando o filho menor a estudar matemática, como qualquer pai de família normal. Vivemos presos a clichês nesta vida.
Leio que Xuxa ganhou ação contra o site Mercado Livre que estava vendendo o filme em que trabalha, Amor Estranho Amor, de 1982. O longa-metragem é do diretor paulista Walter Hugo Khouri e, nele, a rainha dos baixinhos é vista seduzindo um garoto. Será Khouri, já falecido e um dos mais importantes diretores brasileiros, mais um caso de cineasta que fica com parte da obra indisponível por problemas na Justiça? Vale lembrar que até hoje o curta Di Cavalcanti, de Glauber Rocha, premiado em Cannes, não pode ser visto pelos espectadores, por proibição da Justiça a pedido da família do pintor. Tudo isso pode ser legal, do ponto de vista jurídico. Mas está correto?
Foi legal o debate com a equipe de Baixio das Bestas, apesar de o diretor Cláudio Assis estar meio travado. Acontece que Cláudio, acho eu, é um tipo mais intuitivo, de inteligência visual, cinematográfica (também é o caso de Beto Brant), enquanto existe gente que prefere discutir o cinema do ponto de vista conceitual.
Enfim, há espaço para todo o tipo de pessoa neste mundo. De qualquer forma, como havia gente brilhante na mesa (Matheus Nachtergaele, Dira Paes, Hilton Acioly, Walter Carvalho, entre outros), a discussão pôde pode rolar, mesmo sem grande contribuição da parte do diretor. O centro da questão era: como representar a violência, que existe no Brasil real, profundo, sem por isso estetizá-la, torná-la um show, bonitinha e para consumo rápido, como acontece, por exemplo, nos filmes de Quentin Tarantino (dos quais gosto, aliás, mas por outros motivos).
Para mim, como crítico e estudioso do cinema, foi muito útil compreender como essa escolha fica no fio da navalha entre a representação necessária da violência (porque faz parte do real) e a violência apelativa. Logo depois do almoço, agora há pouco, estava vindo para o quarto escrever quando o fotógrafo Walter Carvalho veio falar comigo e com minha mulher. Ele nos disse como é importante que um filme desse tipo tenha a compreensão da crítica para que possa ser feito. E nos relatou a série de pressões que um projeto sofre dos patrocinadores até se tornar viável: “isto pode, aquilo não pode, isso não fica bem, etc”.
É um tipo de censura da qual raramente o público tem consciência. E mesmo nós, jornalistas, pouco costumamos lembrá-la. Como se o censor fosse aquele cidadão vestido de preto, do tempo da ditadura, com a tesoura na mão e unha do dedo mindinho comprida. Hoje, ele veste Armani, fala idiomas e ocupa o cargo de diretor de marketing das empresas que investem em cinema. É assim.
Portanto, para que um criador livre, como Cláudio Assis, possa se exprimir, é preciso que tenha a compreensão de que existe lugar sim para filmes bonitinhos, agradáveis, comédias românticas e tudo o que se quiser, mas também deve haver para aqueles que à primeira vista parecem desagradáveis, mas apenas porque estão nos forçando a olhar e a pensar naquilo que não queremos.
Amigos e amigas, eu não sabia ontem como iria terminar a sessão no Cine Brasília de Baixio das Bestas, novo longa de Cláudio Assis, diretor de Amarelo Manga. O filme é tão violento, mas ao mesmo tempo tão sedutor, que tudo poderia acontecer. E aconteceu a perplexidade. O público não sabia como reagir, se com aplausos ou vaias. Prevaleceram os aplausos, mesmo assim tímidos. Mas é a reação correta a um filme sem nenhuma redenção, sem momentos de catarse, duro e sem qualquer concessão.
De que trata? De uma localidade decadente na Zona da Mata, em Pernambuco, onde uma garota menor de idade é explorada sexualmente pelo próprio avô, prostitutas (Hermila Guedes, Dira Paes e Marcélia Cartaxo) são brutalizadas por agro-boys metidos a crápulas (Matheus Nachtergaele e Caio Blat). Tudo respira decadência e o filme foi visto como misógino por alguns e denúncia de mal-tratos contra mulheres por outros. Fico com os segundos, porque a obra é violenta mas não cínica. Mas que é filme de difícil digestão, lá isso é. Aliás, o próprio Brasil profundo, em si, é de difícil digestão.
C.R.A.Z.Y. – são as iniciais dos cinco filhos da família Beaulieu: Christian, Raymond, Antoine, Zachary e Yvan. É também o título da canção de Patsy Cline, cuja melodia acompanha uma história que começa em 1960, quando nasce Zachary, chamado sempre de Zac. Ele é, segundo garante uma vidente, um predestinado, capaz de curar gente. A mãe acredita nisso, o pai não. Mas nem sempre será esse o ponto mais interessante do filme, e sim o crescimento de Zac, com suas dúvidas diante da vida, inclusive com seus problemas diante da identidade sexual.
O diretor Jean Marc Vallée poderia ter feito um filme como tantos outros, humanista, sobre a tolerância, de época, atravessando décadas cruciais e sendo banal como costumam ser. Por sorte, ou mais provavelmente, por talento, vai um pouco além. Consegue, primeiro, imersão nada artificial nas três décadas que se propõe retratar – dos anos 1960 aos 1980. Isso porque deixa que o tempo histórico invada a vida dos personagens sem forçar. Depois, porque escolhe um personagem que traz em si os problemas de adequação ao seu tempo, a começar pela questão da sexualidade.
Vallée trabalha esse tema com toda a sutileza e a ambigüidade que ele merece. Zac é um ser problemático, um personagem complexo que também não sabe direito como se definir na vida até que isso aconteça de maneira natural. Aliás, “natural” é uma palavra que aparece na crítica porque é o que mais se ressalta nesse filme, que poderia ser muito artificioso mas flui como água.
Outro tema que se insinua é o relacionamento com o pai, Gervais (Michel Côté), um homem viril, cidadão à maneira antiga, de família tradicional, acolhedora e levemente repressiva. No entanto, as transformações do mundo também invadem a família e não apenas no que diz respeito à questão sexual de Zac. Haverá também lugar para falar de drogas e do extravio existencial de outro dos filhos, talvez o mais querido porque másculo e muito parecido com o pai.
De certa forma, este trabalho discreto, que ganhou o prêmio de melhor filme canadense no Festival de Toronto de 2005 e vários César (o “Oscar” francês) acompanha os dilemas da tradição familiar ao longo de décadas tão conturbadas. Manter sua estrutura tradicional, mas que não abriga mais os conflitos do mundo exterior? Ou mudar-se bruscamente para adaptar-se a esse mundo e perdendo sua essência mesma e inclusive a sua razão de ser?
Crazy não é revolucionário, nem mesmo iconoclasta. De certa maneira, como o espectador verá, contempla uma certa conciliação entre duas visões de mundo, o que nada tem de errado, do ponto de vista do conteúdo, porque nem sempre visões de mundo são incompatíveis e viver na diferença é uma arte que precisa ser cada vez mais praticada.
Do ponto de vista da forma, da linguagem, Crazy procura ser um competente filme de época, como dissemos, sem nada de artificial, mas tampouco nada de inovador. Vallée aposta numa linguagem estabelecida e dela retira o melhor, um registro correto, porém nada acadêmico (não cheira a mofo) e levemente romântica e de esquerda, inclusive na tonalidade fotográfica e no registro musical, David Bowie, Pink Floyd, Rolling Stones e, claro, Patsy Cline.
(SERVIÇO)C.R.A.Z.Y – Loucos de Amor (127 min.) – 16 anos. HSBC B.Artes 4 – 14, 16h30, 19, 21h30. Unibanco Arteplex 2 – 13h30, 16, 18h30, 21 (sáb. também 0 h). Cotação: Bom
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