Saí de uma sessão dupla – Giordano Bruno, de Giuliano Montaldo e La Cina è Vicina, de Marco Bellocchio, ambos filmes dos anos 60-70. Uau!, como era bom o cinema italiano daquela época. Os diretores, além de pensar sempre politicamente, e com muita clareza, tinham na mão o domínio do artesanato. Sabiam fazer a coisa certa. Montaldo usa a figura de Bruno (Gian Maria Volontè), queimado como herege pela Inquisição, para falar da intolerância em qualquer época. Bellocchio, com sua farsa na qual dois ricaços (irmão e irmã) tentam enrolar dois pequenos burgueses, e saem enrolados por estes, fala muito da Itália arrivista, coisificada, que perde sua alma depois da Segunda Guerra.
Para mim, assistir a alguns desses filmes que não via há muito tempo, ou conhecer outros, como este La Cina è Vicina (A China Fica Perto), está sendo a maior recompensa para toda a maratona estressante da Mostra. A Itália fez talvez o melhor cinema do mundo naquela época. Por isso, a herança é sentida muitas vezes como um peso pelos cineastas mais jovens. É que a comparação, inevitável, se torna muito ingrata. Tenho observado isso quando cubro o Festival de Veneza. Por melhores que sejam os filmes do país, sempre aparece alguém para dizer que os antigos eram melhores. E o pior é que eram mesmo. E nem estamos falando em Fellini, Visconti e Antonioni, esses monstros sagrados.
Cena de Juventude em Marcha
Quando disse a uma amiga que ia ver Juventude em Marcha, ela me preveniu: “Prepare-se para uma experiência única. Ou três horas de tédio”. Fui. O filme do português Pedro Costa exige uma certa paciência no início, até alguma resignação. Mas é, de fato, uma experiência única. Literalmente falando, porque nunca você viu nada igual. Ele passa hoje, às 21h10, na Sala UOL de Cinema.
Você verá em cena, um personagem, Ventura, um homem negro, de uma certa idade, elegante. Qual é o ambiente? Primeiro, o bairro pobre de Fontainhas, cujas casas foram demolidas. Os moradores, Ventura inclusive, foram transferidos para um conjunto habitacional, problemático como todos, em Casal Boba, um bairro novo. Ventura foi abandonado pela mulher e escreve uma carta de amor para ela. É pungente e a carta vai sendo repetida ao longo desse filme impossível de classificar como documentário ou como ficção, já que os personagens, digamos reais, “interpretam” a si mesmos.
O filme é também político à sua maneira, embora o diretor diga que não tem mensagens para transmitir ao mundo. É um cinema de registro, de imagens e enquadramentos tão belos quanto pinturas – que também aparecem na tela, porque Ventura, pedreiro, construiu um museu que não freqüenta.
Há um passar do tempo, e a odisséia de uma classe, a operária, com sua cultura em plena dissolução – como aliás, já havia previsto Pasolini no início dos anos 1970. O título – Juventude em Marcha – é, claro, uma bela ironia. Não é iguaria para todos gostos, mas eu não perderia a oportunidade. Clique aqui e leia uma entrevista de Pedro Costa na Revista Cinética.
Em resposta aos amigos e amigas que comentaram o post anterior, sobre Hamaca Paraguaya: felizmente, os latinos estão chegando com mais força ao Brasil. Antes, quem queria se atualizar sobre esse cinema tinha de ir a Havana onde se realiza o grande Festival Del Nuevo Cine Latinoamericano. Fui a vários e desejo voltar a ir. No entanto, aqui no Brasil já temos espaço para alguns desses filmes, tanto no Festival do Rio como na Mostra de São Paulo, como testemunham títulos do tipo Hamaca Paraguaya e El Violin, excelentes.
No Rio se realiza o Cine Sul, no Festival de Gramado eles competem há vários anos. São Paulo realizou seu primeiro festival do tipo em 2006, e foi um sucesso de público, lá no Memorial da América Latina. E, desde este ano, o Cine Ceará ajustou seu foco sobre o cinema ibero-americano.
Meno male, como se diz. O “x” da questão continua sendo o mercado exibidor, onde poucos desses filmes encontram espaço. Esse é o grande desafio, pois permanecer restrito aos festivais e mostras ainda é ficar no gueto.
Há um filme que não se deve perder – Hamaca Paraguaya, de Paz Encina, algo de novo e surpreendente no panorama do cinema. Esse filme, tão belo como estranho, põe em cena um casal idoso e seu assunto recorrente – o filho que foi para a guerra contra a Bolívia. Nesse longo diálogo entre os dois personagens, focalizados quase sempre de longe, há a comoção do homem (e da mulher) simples diante da força do destino. Aquele mesmo destino que levou o rapaz e não se sabe se irá trazê-lo de volta. O próprio filho, quando “entra em cena”, só o faz por meio da voz. Todo o resto é um cenário quase único, em que o casal dialoga, sentado numa rede, enquanto uma tempestade se prepara e o sol vai caindo, trazendo a noite ameaçadora. O filme passa hoje, às 20h10, no Arteplex 3, e é uma das obras cinematográficas mais comoventes que vi nos últimos tempos. A surpresa maior: a diretora Paz Encina é uma estreante. Fiquei pasmo com sua maturidade artística.
Crítico de cinema há tantos anos, aprendi a dar valor à força das imagens. E uma imagem, para mim, define esta eleição, como sua marca registrada. Alckmin, acusado de privatista, veste-se com um macacão com os logotipos de várias estatais e se exibe ao eleitorado. Era o candidato contra si mesmo, lembrando aquela imagem célebre de Jânio, com um pé caminhando numa direção e outro na contrária. Quando vi a foto de Alckmin, em todos os jornais, pensei: “hum, acabou…”
Dia de eleição, votei cedo e caí no cinema. Comecei por Mestres Americanos John Ford/John Wayne: o Cineasta e a Lenda, emendei com dois italianos, Lettera Aperta a um Giornale della Sera e Os Nossos 30 Anos – Gerações em Confronto, e ainda finalizei com um Sokúrov memorável, O Sol. Ufa! Estou chegando agora em casa e postando isso aqui às pressas.
Posso dizer que a dica que o Merten havia me dado sobre Mestres Americanos era certeira. Pelas carreiras cruzadas de Wayne e Ford, que fizerem 14 filmes juntos (inclusive os clássicos No Tempo das Diligências, O Homem que Matou o Facínora e Rastros de Ódio), passa também uma boa parte da história americana. Esse reflexo entre o que acontece na tela e na História é uma das leituras mais interessantes que se podem fazer do cinema. No caso, as mutações ao longo do tempo da épica americana mais característica, o faroeste.
Também de política se fala tanto na ficção de Francesco Maselli (Lettera Aperta…) como no documentário de Giovanna Taviani (Os Nossos 30 Anos). No centro dos dois, as mutações de perspectiva do país diante da revolução (que não aconteceu), das utopias (que dançaram) e da própria História (que, ao contrário do que diz Fukuyama, não acabou). Tudo resta em aberto e a lição que fica é que manter esperança é ainda a única forma de continuar vivo. Mesmo nesta época cética.
Encerrei com O Sol, extraordinária reflexão (porque não há outro nome para definir este filme) do russo Alexander Sokúrov sobre o imperador Hiroito que, com a derrota na guerra, teve de aceitar a renúncia de sua condição divina para ser aceito pelos vencedores, os americanos. Um filme de rara delicadeza e profundidade. Enfim, foi um dia exaustivo, mas muito, muito produtivo. Valeu, cinema.
Como um comentarista do blog exprimiu suas dúvidas em relação aos critérios de votação do júri popular, consultei a Mostra. Eis a resposta:
“A soma dos votos é dividida pelo nº de espectadores. Filmes com menos de 100 espectadores não são considerados. “
Acho que o esclarecimento basta: desse modo a média fica ponderada e proporcional ao número de espectadores. O descarte de filmes com menos de 100 espectadores evita distorções do tipo: meia dúzia de frequentadores que dão nota máxima ao filme e assim o levam à vitória contra outros que tiveram muitos espectadores e assim se sujeitaram à maior diversidade de apreciações.
Fui de manhã à coletiva da Mostra onde se divulgaram os filmes finalistas ao troféu Bandeira Paulista. Foram os mais votados pelo público e agora o júri oficial escolhe o ganhador. No final do post reproduzo a relação dos longas.
Depois da coletiva, realizada no Arteplex, fomos à tradicional feijoada da Mostra, que é servida no restaurante do Edifício Itália. É uma vista magnífica da cidade, que tem encantado os gringos que aqui vêm prestigiar a mostra e exibir seus filmes. Dei carona ao meu amigo Pedro Butcher, editor do boletim Filme B e um dos melhores críticos da nova geração. Como estacionei na Avenida São Luís, aproveitei para explicar ao Pedro, que é carioca, que aquele havia sido um dos pedaços mais agradáveis de Sampa, muitos anos atrás.
A Biblioteca Municipal, a Galeria Metrópole com seu cinema, seus bares, suas mulheres e sua música, a Praça Dom José Gaspar com o Paribar, a Praça da República, com seu colégio antigo e jardim no meio: são doces memórias para um paulistano da gema como eu. Lembrei também que aquele é cenário do ótimo filme do Ugo Giorgetti, O Príncipe, que usa aquela locação justamente para mostrar a deterioração do centro da cidade. É triste lembrar como aquilo tudo era e como ficou.
Isso tudo eu já sabia há muito tempo, mas confesso que fiquei chocado quando avistei o prédio da atual Secretária da Educação, fincado no centro da Praça da República. Aquele prédio do século 19, antes de virar secretaria de Estado, foi o Instituto de Educação Caetano de Campos, colégio centenário onde estudei durante oito anos. Pois bem, a tradicional escola, por onde passaram tantos paulistanos, ilustres ou anônimos, foi pintado de uma cor pavorosa e está aviltado por obras, pelo que sei da linha amarela do Metrô. Construíram, no interior do colégio, um horrendo caixote de concreto que cobre toda a fachada antiga. Enfim, esse desleixo com a tradição é a maior prova de desamor que se pode dar em relação a uma cidade. Fica o registro.
Depois de traçar a feijoada voltei correndo para o Arteplex, onde assisti, na verdade revi, outro clássico do cinema político italiano, Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, de Elio Petri. O protagonista é meu ator favorito dessa fase, Gian Maria Volonté, que contracena com a brasileira Florinda Bolkan. Volonté vive uma alta autoridade policial. Assassina sua amante, interpretada pela Bolkan, e deixa no local do crime uma série de pistas que o incriminam. Só para demonstrar que um cidadão como ele está ao abrigo de qualquer suspeita mesmo quando tudo depõe contra. O filme, claro, é uma senhora pancada nas instituições italianas e provocou muita polêmica na época em que foi lançado, em 1970. Era, para variar uma época de instabilidade política, com a presença de grupos de esquerda lutando contra medalhões há muito instalados no poder. Cópia visualmente maravilhosa, da Cineteca Italiana, com algum problema no som. Mas, tudo somado, rever essa obra foi ótimo.
Seguem aí os filmes mais votados pelo público e que disputam o Bandeira Paulista:
1. A BATALHA DE PARIS (NUIT NOIRE)
França
Direção: Alain Tasma
2. AMU
EUA / Índia
Direção: Shonali Bose
3. ANCHE LIBERO VA BENE
Itália
Direção: Kim Rossi Stuart
4. COISAS QUE O SOL ESCONDE (HADVARIM SHEMEHAHOREI HASHEMESH)
Israel
Direção: Yuval Shafferman
5. GO ETXEBESTE! (AUPA ETXEBESTE!)
Espanha
Direção: Asier Altuna, Telmo Esnal
6. MINHA VIDA SEM MINHAS MÃES (ÄIDEISTÄ PARHAIN)
Finlândia
Direção: Klaus Härö
7. NOEL – POETA DA VILA
Brasil
Direção: Ricardo van Steen
8. O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS
Brasil
Direção: Cao Hamburguer
9. O CHEIRO DO RALO
Brasil
Direção: Heitor Dhalia
10. O EDIFÍCIO YACOUBIAN (OMARET YACOUBIAN)
Egito
Direção: Marwan Hamed
11. O VIOLINO (EL VIOLIN)
México
Direção: Francisco Vargas
12. OS 12 TRABALHOS
Brasil
Direção: Ricardo Elias
13. QUE TAN LEJOS
Equador
Direção: Tania Hermida
14. SHORTBUS
EUA
Direção: John Cameron Mitchell
Ontem gastei (ganhei) meu dia assistindo a grandes filmes italianos, como Un Borghese Piccolo Piccolo (1977), de Mario Monicelli e Os Subversivos (1967), dos irmãos Taviani. Não conhecia nenhum dos dois. Saí chapado. Alberto Sordi está maravilhoso como o pequeno burguês do título, um burocrata cujo único sonho é colocar o filho na mesma repartição pública onde trabalha há 30 anos. Muda de planos quando o filho é morto numa tentativa de assalto. E assim, o cidadão exemplar torna-se um justiceiro vulgar. Leio no excelente livro O Cinema Político Italiano (será lançado hoje, às 19h, no Clube da Mostra) a entrevista em que Monicelli diz que Sordi não queria fazer o personagem. Tinha medo de que comprometesse a sua figura cômica, de boa praça e italiano embrulhão. Acabou fazendo e talvez tenha sido a sua melhor interpretação da carreira.
Os Subversivos é uma proposta radical dos Taviani. Durante o enterro do líder comunista Palmiro Togliatti, quatro histórias diferentes se entrelaçam e fornecem um painel de uma Itália que ainda pensava politicamente. Brilhante, em seu preto e branco de antologia.
As duas cópias vieram da Cineteca Italiana (a Cinemateca deles) e estão em ótimo estado. Pena que não haja mais sessões para o público. Quem perdeu, pode se confortar com outra obra-prima, esta programada para hoje: Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (1970), de Elio Petri (Arteplex 1, 15h20). No elenco, a brasileira Florinda Bolkan, que apresenta o filme para o público e estará à noite no Clube da Mostra para o debate sobre o cinema político. Não deixe de ver o filme e não perca também o debate, cujo personagem principal será o veterano diretor italiano Vittorio De Seta, que trouxe à mostra seu belo Cartas do Saara.
Quando comecei a escrever sobre cinema havia pouco mais de meia dúzia de críticos militantes na cidade. Todos nos conhecíamos. Íamos às cabines (jargão que designa as projeções de filmes para a imprensa), em geral no centro da cidade, e às vezes almoçávamos juntos depois das sessões. Éramos o Merten e eu no Estadão, o nosso querido e saudoso Edmar Pereira no Jornal da Tarde, Inácio Araújo na Folha, Luciano Ramos, Orlando Fassoni, Jairo Ferreira e poucos outros. Cabíamos numa kombi e não bastávamos nem para formar um time de futebol de salão.
Tudo mudou com a internet. Os sites de cinema proliferaram e agora os blogs vieram para aumentar drasticamente o número de pessoas que escrevem sobre cinema, no Brasil e no mundo. Hoje vou às cabines e, em especial naquelas de blockbusters americanos, desconheço 90% dos rostos. E eles a mim. Essa democratização é em tese bem-vinda, beneficia a pluralidade dos olhares sobre o cinema, mas, claro, como tudo na vida enseja uma antítese. No caso, é que existem muitíssimos mais sites dedicados às fofocas e ao mundanismo do cinema do que aqueles voltados para a crítica séria.
Portanto, como acontece com tudo que diz respeito ao mundo babilônico da internet, também entre os sites de cinema é preciso separar o joio do trigo. Ou, para deixar prá lá essa frase bíblica, cabe ao internauta escolher o que deseja do cinema: fofoca ou reflexão?
Alguns sites já estão no ar há vários anos. Outros surgiram há pouco. Mas já se conhecem aqueles que valem a pena ser visitados, pelo menos se a sua opção é pela crítica e pelo pensamento. Em alguns deles se encontra parte do que de melhor se escreve sobre cinema hoje em dia no Brasil. Ignorá-los é tentar voltar no tempo. Destaco alguns deles em especial e me desculpo se não conheço outros tão bons quanto essas revistas eletrônicas: a criticos.com, a Contracampo, a Cinequanon e a Revista Cinética. Acrescento também o Cineweb. Dê uma clicada nelas aí em cima e confira.
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