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Luiz Zanin

Não poderia dizer um tchau para 2006 sem mandar um abraço a todos meus amigos e sobretudo aos novos leitores que conheci através deste blog. Agradeço de coração aos que deixaram seus comentários e também aos que visitaram silenciosamente este espaço. Estão todos convidados a tornarem-se habitués em 2007.

Minha experiência como blogueiro é muito recente e não autoriza grandes considerações. Comecei apenas em outubro deste ano e me surpreendi com essa nova dinâmica aberta pela internet para o nosso trabalho jornalístico. Blogar é algo exigente, nos deixa com a sensação de estarmos mais expostos do que no trabalho convencional em papel-jornal. É muito recompensador, mas nem tudo são rosas, porque, como um blog é uma casa aberta, entra também gente indesejada.

No entanto, a presença de gente incivilizada foi mínima neste blog. De uma forma ou de outra, o que prevaleceu foi um clima de diálogo, no qual a discordância e a polêmica são sempre bem-vindas, mas o insulto e o preconceito, não. Saibam que li todos os comentários postados e esse diálogo foi muito proveitoso para mim, sem nenhuma demagogia. Acho a experiência de manter um blog muito estimulante para um jornalista, mesmo que lhe custe algum tempo extra de trabalho diário.

Assim, termino o ano pedindo aos novos e antigos amigos que me enviem sugestões sinceras para melhorar este trabalho. O que gostariam de ver mais comentado neste blog, que, por sua definição mesma, fala de cinema, de cultura em geral, mas não se furta em abordar algumas atualidades? O que deixou de ser feito e em que direção acham que o blog deve ir? Afinal, um blog parece ser um bicho dinâmico, que vai alterando suas características à medida em que cresce e se desenvolve. Digam, portanto!

E um ótimo, excelente 2007 para todos!

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30.dezembro.2006 20:08:08

Saddam e o nosso fim de ano

O ano termina com imagens de um homem sendo conduzido ao cadafalso. Sim, o homem é Saddam Hussein, assassino, infame, ditador, o que se quiser. Isso ameniza as imagens e, em especial, o fato em si? Não é uma pergunta retórica. É uma pergunta e ponto. Não sei e nem consigo formular um conceito universal para a questão. Não sei se por mais execrável que seja um personagem ele mereça ser submetido ao assassinato burocrático pela mão do Estado. Mas se não tenho certeza, tenho a minha opinião.

Confesso que acho a pena de morte o mais soturno dos crimes. Um filme abriu minha cabeça para isso: Não Matarás, do polonês Krzysztof Kieslowski. Nele, é mostrado um crime brutal, um taxista sendo assassinado por um rapaz, de maneira gratuita e incrivelmente violenta. A segunda metade do filme é o processo, condenação e execução do criminoso, com toda a minúcia ritual do (também) enforcamento. Como se o cineasta nos dissesse: “Vou exibir duas mortes violentas da maneira a mais honesta possível e você decide qual delas é mais brutal”. É isso. A partir daquele momento nunca mais tive dúvidas a respeito da pena de morte. Pegue o filme na locadora, se tem dúvida.

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Aprendi em algum lugar que a humanidade entrega parte da sua liberdade ao Estado para que este lhe dê segurança em troca. É o chamado contrato social, que está na origem de todas as sociedades civilizadas. Diante do que acontece hoje no Rio, e já aconteceu em São Paulo, o que dizer do contrato social à brasileira?

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A óbvia conotação política de Em Direção ao Sul não precisa nem ser confirmada pelo diretor Laurent Cantet – ela está no filme. Nessa história em que cinquentonas americanas vão ao Haiti em busca de negros jovens, bons de cama, há uma espécie de ilustração crua do que vem a ser a tal “relação Norte-Sul” – uma relação de exploração e desfruto, que se estende a vários campos, incluindo o sexual. Basta ver o que acontece em outros países partes daquilo que antigamente se chamava Terceiro Mundo, Brasil incluído. Basta ir a capitais do Nordeste e observar o que fazem aquelas levas de turistas italianos, portugueses, alemães e de outras nacionalidades com as meninas brasileiras. Esse é o tema de Em Direção ao Sul, embora seja reducionista dizer que seja um filme sobre o turismo sexual. É, também.

Cantet (do ótimo A Agenda) passa por esse tema, mas não se ilude com clichês do tipo “brancos maus, negros bons”. Desvenda, ainda que de leve, a teia de cumplicidades tecida entre uns e outros. Por exemplo, na primeira cena do filme, no aeroporto, uma mulher tenta “dar” de presente sua filha a Albert (Lys Ambroise), o recepcionista das madames brancas, porque mesmo que ela entrasse na rede de prostituição, isso significaria uma proteção para sua vida. Proteção contra quê? Ora, contra a violência, a miséria, a doença, o desamparo essas coisas de países pobres.

Estranha é a figura de Albert, que vindo de uma família nacionalista, que havia lutado contra a invasão do Haiti pelos americanos em 1915, se torna um proxeneta de luxo. Ele mesmo negro, agencia o encontro das americanas ricas com os garotos de programa. Mas impede que uma delas (a ótima Charlotte Rampling) jante com um deles no restaurante do hotel. Encontros sim, jantar à luz de velas não. Isso é privativo dos brancos, por uma questão de decência.

Essas contradições se filtram pelo texto do filme. E também a violência do Haiti de Baby Doc, que cerca o hotel paradisíaco onde as mulheres encontram o exotismo, e o amor, ainda que seja de aluguel. O que move essa máquina amorosa em meio a uma guerra? O dinheiro, que falta a uns e sobra a outros. Pode-se lutar contra uma invasão militar. Ou, se a desproporção de forças for muito grande, pode-se resistir como se pode a ela. Mas não se luta contra o dinheiro fácil. Este corrompe aos poucos, devagarinho, enquanto vai comprando e aviltando corações e mentes. E corpos, como sugere esse filme político que não ousa dizer seu nome.

Em Direção ao Sul está em cartaz em São Paulo no HSBC Belas Artes e no Reserva Cultural.

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28.dezembro.2006 13:06:48

Os melhores filmes do ano

Eu e meu colega Luiz Carlos Merten, que tem blog próprio neste espaço, escrevemos matérias no Caderno 2 sobre os melhores filmes do ano. Quer dizer, “melhores” em nossa opinião. Talvez você pense diferente. Leia abaixo:

Luiz Zanin Oricchio

A cada ano aumenta a quantidade de filmes lançados, e nem sempre a qualidade acompanha esse ritmo. Mas também, a cada balanço de fim de ano constatamos que boas atrações não faltaram e, garimpando, somos capazes de compor uma amostra interessante do que de melhor houve no ano.

Em termos numéricos, os lançamentos se aproximaram dos 400 longas-metragens, dos quais 72 brasileiros. Uma cifra importante de participação nacional que, no entanto, não se refletiu na bilheteria. Apenas a comédia de Daniel Filho, Se Eu Fosse Você, atingiu números expressivos, 3,6 milhões de espectadores. Os outros patinaram: os filmes são feitos, mas não chegam ao público. Falta resolver essa equação.

E é uma pena que não seja resolvida porque a seleção cinematográfica brasileira não decepcionou como a outra. Entre os títulos colocados à disposição do público, podem-se pinçar, sem dificuldade, exemplares muito bons. A começar por aquele que talvez seja o melhor de 2006, O Céu de Suely, de Karim Aïnouz, que venceu o Festival de Havana, ganhou o Prêmio APCA e consagrou sua protagonista, Hermila Guedes, a atriz do ano no Brasil.

O Céu de Suely vai ao Brasil rural e flagra o modo de vida da gente simples, mas a personagem principal poderia ser qualquer um de nós, com suas aspirações e sonhos a realizar, e sua maneira particular de concretizá-los. A exemplo de outros, é um filme de silêncios, de ambientação e de deslocamento, como se as imensas dimensões do Brasil atraíssem os cineastas e os inspirassem a retratar o movimento interno no País. Também vai por aí Árido Movie, de Lírio Ferreira, filme de estrada à brasileira, que reinventa um sertão com paleta fotográfica inspirada no Cinema Novo. Também o singelo Tapete Vermelho, de Gal Pereira, se ambienta no mundo rural, em terna evocação de Mazzaropi e seu universo cinematográfico.

Pode ser que o filme brasileiro mais emocionante de 2006 tenha sido O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburguer, com sua revisita aos anos da ditadura Médici pelos olhos do menino que apenas deseja ser goleiro e acompanhar a Copa do México em companhia de pai e mãe. A recriação do bairro do Bom Retiro é tocante, com seu retrato da sociedade multiétnica e solidária, um Brasil que poderia ter sido e não foi.

Provavelmente a medalha de mais radical fique com Crime Delicado, de Beto Brant, embora tenha A Concepção, de José Eduardo Belmonte, em seus calcanhares disputando esse título. Acontece que Crime Delicado, adaptado da novela de Sérgio Sant’Anna, é mais redondo e incisivo que A Concepção. Ambos espreitam o subsolo do comportamento e da mente humana, põem em xeque a superficialidade dos bons modos e do politicamente correto. São os filmes de risco, no fio da navalha, sem os quais nenhuma cinematografia anda para frente. Nesse sentido, embora em outra faixa, caminha também a animação de Otto Guerra, Wood & Stock, sobre os anos loucos de sexo, drogas e rock, em chave não nostálgica e debochada.

Já na radicalidade da ternura, o destaque fica para Eu me Lembro, de Edgard Navarro, um Amarcord baiano que refaz, com toques de ficção, a trajetória de vida do diretor, dos anos 1950 até os 1970. Quando um artista como Navarro recompõe de forma ficcional a sua vida, fala também da nossa, daí a universalidade desse memorialismo áspero e comovente, como é bem o caso de Eu me Lembro.

Dos 72 longas brasileiros lançados, 41 foram de ficção, 30 documentários e uma animação (Wood & Stock). O número é significativo, já a fatia de público conquistado – 12% dos ingressos – deixa a desejar.

O número de documentários deve ser comentado. Trinta títulos, a maioria de boa feitura, mapeando aspectos diversos do País, e um deles excepcional – Estamira, de Marcos Prado -, imersão no universo da esquizofrenia e também das precárias condições sociais da personagem. Destaque para Mamute Siberiano, de Vicente Ferraz, sobre a odisséia cinematográfica de Mikhail Kalatozov, que, na época de aproximação entre Fidel e Kruchev, foi à ilha para filmar o hoje clássico Soy Cuba, incompreendido em seu tempo.

Quanto às produções estrangeiras, é preciso filtrar sem dó para destacar o que houve de interessante no período. E então surgem as pepitas.

Se tivesse de escolher o mais belo filme do ano ficaria com Amantes Constantes, do francês Philippe Garrel, estudo em preto-e-branco sobre o legado do maio-1968. O mais intenso seria Volver, de Pedro Almodóvar, com Penelope Cruz e um time de atrizes de tirar o fôlego, dando vida ao solidário universo feminino do cineasta. O mais engajado seria A Criança, dos irmãos belgas Dardenne, que enxergam a violência da questão social sob o verniz da Europa civilizada. E o mais inquietante seria Cachê, que o austríaco Michael Haneke filmou na França, e no qual detecta, como poucos, o mal-estar das relações humanas na afluente União Européia.

Woody Allen, que não encontra mais mercado em seu país, foi filmar na Grã-Bretanha seu Match Point – Ponto Final, ensaio sobre o crime e o acaso na vida das pessoas. Cinema de maturidade, de altíssima qualidade. Dos Estados Unidos, a surpresa veio com George Clooney, o bonitão de talento e consciência social, que, para falar de Bush, evoca o tempo do macarthismo em Boa Noite, e Boa Sorte, e também está, como ator, no complexo Siriana. Spike Lee fez um bom entretenimento com O Plano Perfeito, e Tommy Lee Jones dirige e atua no melhor de todos os americanos do ano, Três Enterros, seu diálogo com o México e com o universo rural de um país áspero e violento. Em sua retaguarda, Lee Jones teve o roteirista Guillermo Arriaga, de Amores Brutos, 21 Gramas e Babel. Muita gente não gostou de Os Infiltrados, de Martin Scorsese. Mas outro tanto entende que, fazendo seus filmes gângsteres, Scorsese é o cineasta que disseca, como nenhum outro, o coração selvagem da América.

Para quem se queixa de que a produção latino-americana não chega por aqui, um consolo: 13 longas-metragens argentinos estrearam em São Paulo, com algumas surpresas como Buena Vida Delivery, de Leonardo di César, e Crônica de uma Fuga, de Adrián Caetano. Mas o melhor foi O Guardião, de Rodrigo Moreno, sobre o cotidiano alienado de um guarda-costas de um político.

Entre os hispânicos, a jóia da coroa é o cubano Suíte Havana, de Fernando Pérez, o maior cineasta da ilha. Numa história comovente, contada quase sem diálogos, é a vida mesma dos habitantes da velha San Cristóbal de la Habana, em sua carne, que desfila diante dos olhos do espectador. Aquele tipo de filme que provoca vontade de agradecer ao cineasta pelos momentos de beleza que nos proporcionou.

Luiz Carlos Merten

Você já sabe da hecatombe – o cinema brasileiro perdeu público em 2006. Houve uma queda da freqüência que nem o aumento do preço do ingresso conseguiu equilibrar. Se a quantidade foi mal em 2006, a qualidade foi muito bem. O melhor filme do ano foi brasileiro (O Céu de Suely), a melhor atriz foi brasileira (Hermila Guedes), a melhor seqüência foi de um filme brasileiro. Como o cinema parte do particular para o geral e deste volta ao particular para discutir a situação do homem no mundo, podemos, em vez dos melhores filmes, citar as melhores seqüências do ano.

O CÉU DE SUELY – Na última cena do filme de Karim Aïnouz, Hermila/Suely deixa a cidade, de ônibus. João Miguel vai atrás dela, de moto. O ônibus desaparece numa elevação da estrada. Na tela, fica só um imenso vazio. João conseguirá trazer a amada de volta? E, se conseguir, será um happy end? Passa-se um longo minuto. Você, que já viu o filme, sabe como termina. Não vamos tirar a graça de quem não viu, mas, com simplicidade e economia, o desfecho de O Céu de Suely é um desses momentos que criam, no inconsciente do público, o mistério e a sedução do cinema.

ZUZU ANGEL – Com todos os defeitos que possa ter, o filme de Sérgio Rezende tem a cena genial do encontro de Patrícia Pillar com Nelson Dantas, a mais bela do ano. Zuzu Angel vai ao pai de Lamarca, em busca de notícias do filho que desapareceu. Não se falam. Compartilham uma dor imensa, pois ambos são pais que perderam os filhos. Nelson Dantas é prodigioso como sapateiro. A emoção é tanta que ele morde o prego até arrancar sangue do lábio. O cinema não precisa de palavras para falar.

MUNIQUE – Avner, o agente israelense interpretado por Eric Bana, volta para casa, um lar provisório, no qual se encontram a mulher e a filha, em Nova York. Ele entra, mas não encontra a tranqüilidade cara não apenas aos heróis de Steven Spielberg, mas aos do cinema americano em geral, já que o tema da volta para casa, como o da segunda chance, permeia toda a produção de Hollywood. Spielberg fez o filme mais radical sobre os EUA de George W. Bush. Sem uma só referência ao 11 de Setembro, ele usa o massacre dos atletas israelenses na Olimpíada de 1972 para discutir o direito à retaliação e o preço que se paga por ela. O de Avner é a perda da alma, da identidade, do lar.

PARADISE NOW – O complemento indispensável de Munique. O palestino Hani Abu Assad conta a história de dois mártires que se preparam para um ataque do terror, mas se perdem e o atentado fracassa. Os mesmos temas de Spielberg, mas agora vistos do outro lado – a perda da alma, as dúvidas existenciais e políticas. Numa grande cena, é servida a derradeira refeição aos heróis. A Última Ceia remete à do Cristo, como se Abu Assad estivesse fazendo uma ponte milenar. Há dois mil anos, naquela mesma região do globo, uma outra ocupação favoreceu o surgimento de fanáticos e mártires. O que começou ali pode ter sido uma forma de libertação interior, mas também de uma forma dominante de cultura e religião que subsiste até hoje.

VOLVER – Pedro Almodóvar conta tudo sobre a mãe de Penelope Cruz e transforma uma história de fantasmas numa liberadora experiência real. Na cena mágica, Penelope reabriu o restaurante do amigo e está dando de comer a toda aquela gente. Comida e música. Ela canta (dubla) Volver e sua mãe, que chega escondida no carro da outra filha, a ouve cantar a canção que lhe ensinou, quando criança. Volver – tudo é volta no filme de Almodóvar. Volta de Carmem Maura, da figura materna, do tema familiar, do passado que é preciso superar.

A PEQUENA MISS SUNSHINE – O maior pequeno filme do ano é uma produção independente, dirigida por Jonathan Dayton e Valerie Faris que reúne todos os clichês da família disfuncional e, por um passe de mágica, reinventa o óbvio com humor e emoção. A cena do strip-tease da pequena Miss Sunshine é antológica. O que fica nu é a própria sociedade.

MATCH POINT – Woody Allen filtra Dostoievski por Theodore Dreiser, Crime e Castigo vira Uma Tragédia Americana, que George Stevens já havia filmado como Um Lugar ao Sol. A tragédia humana e a tragédia social se unem na história do sujeito que está a um passo da ascensão burguesa, mas aí a namorada pobre anuncia que está grávida e ele se arrisca a tudo perder. Em Um Lugar ao Sol, Montgomery Clift queria matar a feia e desagradável Shelley Winters, por quem o espectador não tinha simpatia. Em Match Point, a crueldade de Woody Allen consiste em fazer com que Jonathan Rhys Meyer tenha de matar a bela e sexy Scarlett Johansson. Ao contrário do delicado final de O Céu de Suely, o de Match Point é uma bomba. Não vamos contar qual é, mas aquele desfecho aumenta a voltagem do melhor filme de Woody Allen em muitos anos.

PAI E FILHO – Um dos mais complexos e perturbadores filmes do ano. Dez anos depois de Mãe e Filho, Alexander Sokurov mostra agora este pai viúvo demasiado apegado ao filho adolescente. O rapaz presta serviço militar. O pai o acompanha ao quartel. O mais impressionante deste filme está na carnalidade das cenas que exploram os jogos viris entre homens. Mais de um crítico insinuou um vínculo homossexual nessa relação. Existe ou está no olhar de quem vê? Sokurov fala de família, usa o concreto para tentar chegar ao metafísico. E ao contrário de Mãe e Filho, que era sobre a morte, Pai e Filho é sobre a vida.

AMANTES CONSTANTES – Há algo de incestuoso na maneira como Philippe Garrel filma seu filho Louis, que foi ator de Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, neste filme que também exorciza lembranças do célebre Maio de 68. Nunca um pai filmou o corpo do filho, na hora do sexo, como ele. São cenas de um erotismo à flor da pele. Philippe projeta-se em Louis, mas seu filme não tem nada a ver com o de Sokurov (Pai e Filho). Usando uma deslumbrante fotografia em preto-e-branco (a mais bela do ano), o autor propõe uma narrativa longa e intimista baseada na recuperação dos valores da sua geração.

MIAMI VICE – O que era para ser só a versão para cinema do seriado de TV que o próprio diretor Michael Mann havia criado nos anos 70 vira uma poderosa indagação sobre o tempo – perdido, para Colin Farrell, reencontrado, para Jamie Foxx. E o filme tem ação, erotismo, é feito com tecnologia de ponta. É uma aula de cinema, por um grande diretor.

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28.dezembro.2006 12:54:15

Beethoven, Beethoven

Fui ontem assistir a O Segredo de Beethoven, de Agnieszka Holland. Esperava pouco e mesmo assim encontrei momentos de encantamento. Claro que ele é cheio de clichês, como costumam ser as cinebiografias de gênios, da música ou não. Mas o Ed Harris que vive o compositor alemão até que dá credibilidade ao próprio, mesmo falando inglês. E, diga-se de passagem, o filme não trata da vida inteira de Beethoven, mas apenas de sua fase final, do seu último ano, envolvido com a construção da catedral sonora da Nona Sinfonia e a abstração dos últimos quartetos de cordas. Para “dialogar” com o mestre, Holland cria uma figura ficcional, a copista Anna Holtz, que teria ajudado o compositor nesta última fase.

Alguns outros fatos conferem com a biografia conhecida do mestre: o final de vida irascível, misógino, atormentado pela surdez e explorado por um sobrinho estróina, Karl. Eis aí o material interessante: o criador de uma música sublime habitando o corpo de um grosseirão infeliz. E também o aparente passo no vazio de Beethoven, quando apresenta uma música que ninguém naquele momento entende – a necessidade de transcender o belo, incorporando o feio e o grotesco na forma musical. Na expressão dos sentimentos humanos caberiam essas duas vertentes, e Beethoven achou lugar para ambas – para consternação dos fãs, em sua época. Musicalmente, o filme também apresenta um achado, quando Anna Holtz “intui” a presença de um acorde menor (quando o acorde maior seria “lógico”), criador de um suspense que antecede a luz do coro final da Nona.

Os “momentos” altos: quando Anna ajuda um Beethoven surdo a reger na estréia da Nona Sinfonia. Momento que, convenhamos, tem tanto de sublime quanto de brega. Mas sob a música da Nona, o nosso espírito crítico fica obliterado. O outro: quando o compositor pede à copista que o lave e esse banho tem o valor do ato sexual que não acontece entre os dois. Pelo menos na forma convencional.

De resto, o filme nos inspira a ouvir cada vez mais a música de Beethoven, literalmente inesgotável. E correr para sua biografia mais crível, Beethoven, A Vida e a Música , de Lewis Lockwood, editado aqui pela Códex e elogiada por ninguém menos do que Charles Rosen, o maior crítico musical vivo. Já estou encomendando a minha hoje mesmo. “Beethoviano” fanático desde criança, por via do meu avô e meu pai, ambos devotos do compositor, li muito cedo a biografia escrita por Emil Ludwig, que tende a romancear (no mau sentido) a história do compositor. Mesmo assim, esse livro teve valor formativo em minha vida, numa época em que a música me parecia a coisa mais empolgante do mundo. De qualquer forma, cresci e vivi acompanhado de Beethoven, existência afora. Ouvi várias vezes as nove sinfonias, ao vivo, assim como os ciclos que se costumavam fazer das 32 sonatas para piano. Os quartetos foram um aprendizado posterior e demorei para me acostumar ao ar mais rarefeito das últimas composições e à estranheza formal da Grande Fuga. São obstáculos a serem transpostos. E, uma vez ultrapassados, abrem para o ouvinte um espaço musical inusitado, magnífico, às vezes parecido a uma paisagem lunar.

São momentos muito altos do espírito humano, daí a dificuldade do cinema, ou da literatura, os captarem. Hegel dizia que a música era a mais abstrata das artes, e tinha razão como sempre. Mesmo assim, às vezes a literatura chega lá, perto dela. Para não me estender muito nesta nota, lembro apenas de Doutor Fausto, de Thomas Mann, um romance inteiramente dedicado à música e inspirado em parte em passagens da vida de Arnold Schoenberg, criador do dodecafonismo. Mas há um momento magnífico do livro, em que se analisa a sonata Opus 111 de Beethoven para piano. E se conclui que, como Beethoven, nessa peça, havia chegado ao desenvolvimento completo da forma sonata, no mesmo movimento a forma se destruíra, por obsoleta.

É isso que o filme de Agnieszka Holland insinua – Beethoven como ponte entre a música romântica e a música do presente. Um demolidor, que levava as formas musicais do seu tempo à últimas conseqüências e por isso as implodia, por dentro, com perdão da redundância. Ao mesmo tempo, desses magníficos escombros, saía o material de construção para o que viria depois. Esse movimento, de esgotamento de formas e preparação para novas linguagens num campo minado, é o que define o gênio. O filme de Holland passa por esse tema de raspão. Mas tem, pelo menos, o mérito de não ignorá-lo.

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Quem viaja muito de avião, como é o meu caso (por razões profissionais), sabe que há tempos a coisa não anda boa nesse setor. Atrasos são habituais há pelo menos dois anos e já haviam se tornado alvos de piadas nos aeroportos. “A que horas é o seu vôo?”, perguntei a um conhecido que encontrei em Congonhas. “Às cinco. Deve sair lá pelas sete, se estiver no horário”, disse, rindo. E assim íamos levando a vida, conformados com atrasos de uma ou até duas horas, tidos como “normais”. “Avião não sai no horário no Brasil”, dizíamos, especialmente depois que a Varig entrou em parafuso e o mercado ficou apenas com a TAM e a Gol. Muitas vezes íamos embarcar e nos diziam que o vôo fora adiado, e mais adiante descobríamos que fora “fundido” com outro, para que não houvesse lugares vagos. Quem já não enfrentou um overbooking na vida? Eu já, várias vezes, e ouvi ofertas sedutoras dos funcionários para ceder meu lugar a outro passageiro. Agora dizem que o overbooking é ilegal. Então vivemos na ilegalidade esses anos todos. Tudo isso para não falar nas incríveis gororobas servidas a bordo (quando servem alguma coisa além de barrinhas de cereais) e no espaço entre as poltronas, cada vez mais exíguos. Como eu não estou em fase de crescimento, excluo a possibilidade de ter ficado mais alto nos últimos anos. O que sei é que viajamos mais apertados do que quem vive de salário mínimo.

Portanto, todas as condições já estavam dadas para que se instaurasse o caos aéreo. E não dizíamos nada, esperando que tudo se revolvesse por mágica. Fomos empurrando com a barriga. Então veio o acidente com o jato da Gol, a greve dos controladores de tráfego aéreo, e o resto vocês já sabem.

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A gente se queixa de que a universidade não sai do seu mundinho e não se articula com a sociedade, mas a sociedade também não faz nenhuma força para saber o que se passa na unversidade. Digo isso porque soube que um interessante debate sobre a integração latino-americana está sendo travado no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo. São especialistas, discutindo por que as tratativas do Mercosul às vezes parecem tão complicadas, quando o bom senso recomendaria que os sul-americanos se unissem em um bloco como os europeus fizeram. Os dois painéis realizados no IEA registraram as dificuldades de compor um bloco com países tão heterogêneos do ponto de vista do território, população, recursos naturais, grau de desenvolvimento e outros fatores. O primeiro painel tratou dos aspectos políticos e o segundo de geoestratégia e segurança. Os debates podem ser acessados pela internet.

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O boletim Filme B reproduz uma pesquisa do jornal La Nación sobre o desempenho do cinema argentino durante o ano de 2006. O público diminuiu e a renda aumentou. Como explicar? Simples: aumentou o preço do ingresso. A baixa de público foi pequena (-1,6%) e a renda subiu muito (+20%), por conta do preço médio do ingresso, que pulou de 6,67 pesos para 9 pesos. O cinema vai assim se elitizando, cada vez mais. Os números, destaca o Filme B, são muito parecidos aos do Brasil. Mais semelhanças: na Argentina, houve 74 estréias nacionais, mas estas ocuparam apenas 11,3% do mercado. No Brasil, são 72 as estréias nacionais, para 12% dos ingressos vendidos. Lá, como cá, os americanos detém fatia de cerca de 80% do mercado.

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26.dezembro.2006 20:46:57

A praia é deles?

Vai aí uma foto para ilustrar o que está acontecendo na praia da Enseada, no Guarujá. Não sou nostálgico e nem quero um Guarujá parado no tempo, dos anos 50 ou 60, ou exclusivo da elite. Pelo contrário. Agora, se isso que está na imagem não é depredar o meio ambiente, privatizar o espaço público e ferir o direito de todos ao uso da praia, não sei o que seja. Aliás, as praias brasileiras são de propriedade da União, portanto de todos nós. Como é que esses caras constroem nelas? Quem autoriza? Essas edificações são legais? Perguntas que não querem calar.

guaru

Quiosques em alvenaria, construídos lado a lado, deixando uma estreita passagem de acesso à praia. As mesas e cadeiras em vermelho, ao fundo, sobre a areia, pertencem aos quiosques. Só senta quem consome. Onde há espaço para os usuários da praia? Foto tirada do calçadão da Enseada

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