Se é que se pode falar em injustiça no Oscar, a maior delas foi a não indicação de Tilda Swinton como concorrente a melhor atriz. Podia até não ganhar, pois Meryl Streep parece imbatível no papel de Margaret Thatcher em A Dama de Ferro. Mas como não indicá-la? Tilda é a alma e o coração deste Precisamos Falar Sobre o Kevin, de Lynne Ramsay, por certo um filme fora de série.
Ela faz o papel de Eva Khatchadourian, mãe do adolescente Kevin. Rara entrega de uma atriz, num papel dilacerado até a medula. À dor, Eva soma a angústia de não compreender o que aconteceu. E o que aconteceu? Isso, o espectador terá de descobrir por sua conta e risco.
Mesmo porque a estrutura do filme, proposta pelo diretor, é de molde a nada entregar de antemão. Para isso, faz um movimento bastante intrigante entre os tempos da narrativa, mesclando o passado e o presente de maneira bastante intensa. No presente, o que temos é uma pessoa, Eva, com a vida arruinada, sem que saibamos por quê, em busca reconstruí-la de alguma forma e descobrir as razões de sua desgraça.
E, no passado, o que vamos vendo é uma família aparentemente normal, com o Kevin do título sendo o primogênito meio problemático, com dificuldade para falar e depois para aceitar a vinda de uma irmãzinha. Nada de extraordinário, não é? Um pai amoroso (John C. Reilly), uma casa confortável completam o quadro.
O que há de intrigante na maneira como a história é narrada é o aspecto traumático. O golpe vem seco, forte, e de maneira inesperada, o que é a definição mesma do trauma. Ramsay não busca explicações psicológicas para o que sucede, apenas tenta seguir os passos de um adolescente problemático e, à maneira, bastante sedutor (interpretado também muito bem por Ezra Miller). É um filme que choca, em especial pela ausência de suportes explicativos. De certa forma, ficamos aliviados quando sabemos (ou julgamos saber) as razões daquilo que nos acontece. Quando isso nos é negado, o sofrimento é maior.
Kevin é um filme sobre a angústia primordial, o sofrimento sem o acompanhamento da explicação.
(Caderno 2)
Em uma das suas últimas entrevistas, o diretor grego Theo Angelopoulos declarou que na crise atual do seu país as pessoas seriam obrigadas a viver como no após-guerra. “Devemos voltar aos valores do humanismo e deixar de explorar as pessoas”, disse. Com 76 anos, Angelopoulos morreu anteontem, atropelado por uma moto, enquanto rodava um filme tendo por tema…a crise grega. Cruel ironia. Mas a mensagem humanista é o que de melhor ele deixa, em suas palavras e, acima de tudo, em sua obra.
Angelopoulos, autor de filmes notáveis como Paisagem na Neblina e O Passo Suspenso da Cegonha, era um dos últimos mestres do cinema em atividade. Teve grande reconhecimento no circuito do cinema de autor e ganhou a ganhar a Palma de Ouro em Cannes em 1998 por seu A Eternidade e um Dia. É dono de obra sintética, porém marcante, cujos pontos mais altos são Os Atores Ambulantes, de 1974, Viagem a Citera, de 1984, O Apicultor, de 1986, Paisagem na Neblina, de 1988; Um Olhar a Cada Dia, de 1995; O Passo Suspenso da Cegonha, de 1991 e a Trilogia – O Vale dos Lamentos. Dirigiu atores como Marcello Mastroianni, Jeanne Moreau, Bruno Ganz, Willem Dafoe, Irène Jacob, Michel Piccoli e Harvey Keitel.
Theo Angelopoulos esteve no Brasil em 2009, homenageado pela Mostra de São Paulo em sua 33ª edição. Veio para cá receber o Prêmio Humanidade, criado pela Mostra. Alguns anos antes a Mostra havia realizado uma retrospectiva ampla de seus filmes, até então pouco divulgados entre nós. Em 2009 apresentou aqui seu A Poeira do Tempo, seu último longa-metragem concluído. Em sua visita a São Paulo, filmou o curta O Céu Inferior, do longa de episódios O Mundo Invisível, ainda inédito comercialmente, apresentado ao pública da Mostra de Cinema do ano passado.
Angelopoulos, nascido em Atenas em 1935, fez estudos de Direito em sua cidade, mas não terminou o curso. Mudou-se para a França com intuito de estudar literatura na Sorbonne, e depois foi aprender cinema no célebre IDHEC (Institute des Hautes Études Cinématographiques). De volta à Grécia, tornou-se crítico de cinema de um jornal de esquerda, o Allagi, carreira abortada pelo golpe militar dos coronéis que tomaram o poder e fecharam a publicação. Sem emprego, decidiu tentar a sorte no cinema. Influenciado pelas ideias de Bertolt Brecht, planejou compor um grande afresco histórico do seu país, dos anos 1930 (Dias de 36, evocando a morte de um líder sindical) aos tempos mais contemporâneos, com Os Caçadores (sobre a burguesia) e Os Atores Ambulantes.
Em sua trajetória, Angelopoulos foi apurando ligeiramente o ângulo do seu interesse. Dos primeiros filmes abertamente políticos, e testemunhos de uma época de turbulência, passou a um enfoque mais pessoal, mas no qual a História ocupava lugar importante no quadro de referência. A fase final reflete uma busca mais madura e de busca incessante de uma compreensão profunda do caos do mundo. O filme que rodava quando a fatalidade o colheu mostra que sua preocupação com a realidade, com a dramaticidade do real, continuava intacta. Em sua mais grave crise da era moderna, a Grécia perde assim esse olhar lúcido de seu artista maior.
Sua estética, baseada em planos longos e movimentos de câmera suaves, não contribuíram para que se tornasse particularmente popular. No entanto, Angelopoulos foi sempre muito bem agraciado pela crítica. E pelos festivais de cinema, em especial os mais importantes entre eles. Leão de Prata por Paisagem na Neblina, uma obra-prima. Com Um Olhar a Cada Dia, venceu o Prêmio Especial do Júri em Cannes, o mesmo festival que, no ano seguinte, lhe daria seu prêmio máximo, a Palma de Ouro por A Eternidade e um Dia.
Há quem o considere seu mais belo filme. Em A Eternidade e um Dia (disponível em DVD pela Versátil), Bruno Ganz é o poeta que, descobrindo-se doente, mergulha num processo memorialístico, lembrando-se da mãe, da mulher morta, da infância. Realidade e fantasia mesclam-se. Um pé no passado e outro no presente: o velho escritor conhece um menino albanês, refugiado, e decide cuidar dele. Ou talvez fosse melhor dizer: o menino é quem cuida do velho. Nesse filme tocante temos Angelopoulos em sua dimensão maior, com a paisagem interior dialogando o tempo todo com a aspereza da História.Há crianças também em Paisagem na Neblina, com os dois irmãos em busca de um pai improvável. Dois seres frágeis diante da brutalidade do mundo.
E há tempo, memória e avaliação histórica em A Poeira do Tempo, segunda parte da trilogia de Theo Angelopoulos sobre as raízes da Grécia no século 20. Um cineasta americano (Willem Dafoe), de ascendência grega, realiza um filme contando a história de sua família. A narrativa se desdobra entre vários tempos e países, da Grécia à antiga União Soviética, passando pela Itália, Alemanha, Canadá e Estados Unidos. Remonta à Segunda Guerra Mundial, passa pela Guerra Fria e traz a história até a contemporaneidade, ou seja, até a era iniciada com a queda do Muro de Berlim. Ambicioso, espraia-se por um naco considerável daquele que o historiador britânico Eric Hobsbawm chamava de “breve século 20″, iniciado, para ele, com a Primeira Guerra e encerrado com a simbólica queda do Muro, o fim do conflito entre as superpotências e a vitória de um dos lados. Tudo o que somos hoje o devemos (para o bem ou para o mal) a essa longa tragédia de um tempo histórico acelerado e não raro ensandecido. Angelopoulos busca algum sentido nesse caos.
Seu cinema se estrutura em planos-sequência que se aproximam de forma lenta dos seus “objetos”, muitas vezes sem mostrá-los por completo. Porque há opacidade na história das gentes e dos povos. Por isso também é um cinema da névoa, porque enxergamos pouco e muitas vezes alcançamos o máximo de lucidez quando perdidos em meio à neblina. É um cinema lindo, intenso, por vezes angustiante e enigmático. Atravessamos esses filmes como quem atravessa um sonho. Vida é sonho, nas palavras de Calderón de la Barca.
Angelopoulos cunhou um estilo que evita os closes nos atores. Sua câmera se mantém a uma distância respeitosa. Respeitar a intimidade do personagem. É uma das formas possíveis de ser humano (não a única). Jamais invadir-lhe a intimidade. Jamais filmar um plano banal, algum clichê lacrimonênico. São maneiras de construir a profundidade em cinema. Para o qual é preciso, primeiro, ter uma mente profunda.
Rever essa obra, agora infelizmente encerrada, é avaliar a dimensão da nossa perda. Angelopoulos é insubstituível.
(Caderno 2)
Com 76 anos, o diretor grego Theo Angelopoulos, autor de filmes notáveis como Paisagem na Neblina e O Passo Suspenso da Cegonha, morreu em consequência de um atropelamento. O cineasta foi atingido por uma moto, e, levado ao hospital com hemorragia cerebral, não resistiu aos ferimentos. O dado que torna a notícia ainda mais pungente é que Angelopoulos foi vitimado enquanto rodava um filme sobre a grave crise econômica que se abate sobre o seu país.
Apaga-se assim a vida de um dos mais importantes cineastas contemporâneos, um dos poucos artistas verdadeiros dessa arte comercial, tão banalizada pela indústria do entretenimento.
Angelopoulos chegou a ganhar a Palma de Ouro em Cannes em 1998 por seu A Eternidade e um Dia. Realizou cerca de 15 longas-metragens e vários curtas, obra relativamente sintética porém muito marcante. Os principais são A Viagem dos Comediantes; Paisagem na Neblina, de 1988; Um Olhar a Cada Dia, de 1995; Viagem a Citera, de 1984; O Passo Suspenso da Cegonha, de 1991 e a Trilogia – O Vale dos Lamentos.
Angelopoulos nasceu em Atenas em 1935 e fez estudos de Direito antes de aprender cinema na França, no célebre IDHEC (Institute des Hautes Études Cinématographiques). De volta à Grécia, tornou-se crítico de cinema e, em seguida, realizador. Influenciado pelas ideias de Bertolt Brecht, planejou compor um grande afresco histórico do seu país, dos anos 1930 (Dias de 36, evocando a morte de um líder sindical) aos tempos mais contemporâneos, com Os Caçadores (sobre a burguesia) e Os Atores Ambulantes.
Em sua trajetória, Angelopoulos foi infletindo ligeiramente o ângulo do seu interesse. Dos primeiros filmes abertamente políticos, e testemunhos de uma época de turbulência, passou a um enfoque mais pessoal, mas no qual a História ocupava um lugar importante no quadro de referência. A fase final refletia uma busca mais madura e espiritual. Mas o filme que rodava quando a fatalidade o colheu, mostra que sua preocupação com o real, com a dramaticidade do real, continuava intacta. Em sua mais grave crise da era moderna, a Grécia perde assim esse olhar lúcido de seu artista maior.
Sua estética, baseada em planos longos e movimentos de câmera suave, não contribuíram para que se tornasse particularmente popular. No entanto, Angelopoulos foi sempre muito bem agraciado pela crítica. E pelos festivais de cinema, em especial os mais importantes entre eles.
Alexandre, o Grande venceu o Leão de Ouro do Festival de Veneza. O mesmo festival lhe deu o Leão de Prata por Paisagem na Neblina, uma obra-prima. Com Um Olhar a Cada Dia, venceu o Prêmio Especial do Júri em Cannes, o mesmo festival que, no ano seguinte, lhe daria seu prêmio máximo, a Palma de Ouro por A Eternidade e um Dia.
Angelopoulos esteve no Brasil em 2009, homenageado pela Mostra de São Paulo em sua 33ª edição. Antes, a Mostra havia realizado uma retrospectiva de seus filmes, até então pouco divulgados entre nós. Nesse ano apresentou aqui seu A Poeira do Tempo, seu último longa-metragem concluído.
Em sua visita a São Paulo, filmou no Metrô o episódio Céu Inferior, do longa O Mundo Invisível, ainda inédito comercialmente, apresentado na Mostra de Cinema do ano passado.
Antes de dormir, revi, com emoção, essa obra-prima que é A Eternidade e um Dia.
Para sentir a dimensão da nossa perda.
Onze indicações para Hugo Cabret, de Scorsese, 10 para O Artista, de Michel Hazanavicius. Logo atrás, Os Descendentes, de Alexander Payne. A disputa do Oscar, dia 26/2, ficará entre eles.
Nada disso me impressionou tanto como a indicação do irianiano A Separação, não apenas na categoria em que é favorito, filme estrangeiro, mas como melhor roteiro, do próprio diretor Asghar Farhadi. Prova de abertura da Academia ao Outro. Ainda mais quando esse outro é um iraniano.
No mais, acho que o favorito mesmo é O Artista, um belo filme retrô, preto e branco, tratando da transição entre o cinema mudo e o falado. Lembrar que Billy Wilder fez uma obra-prima com o mesmo tema, Crepúsculo dos Deuses, em 1950. Só que Wilder faz um filme falado sobre uma deusa caída do cinema mudo. O francês Michel Hazanavicius faz um filme mudo sobre um ator (Jean Dujardin) que decai com a chegada do sonoro. Belíssimo filme, aliás. Seu concorrente será o muito bom Os Descendentes, de Alexander Payne, que comentei outro dia (dê uma olhada no blog).
No mais, é esperar pelo desempenho de Hugo Cabret, de Scorsese, que ainda não vi. Ao contrário de alguns colegas, sempre espero o máximo de Scorsese. E raramente me decepciono. As principais indicações seguem abaixo.
MELHOR FILME
“O Artista”
“Os Descendentes”
“Histórias Cruzadas”
“A Invenção de Hugo Cabret”
“Meia-Noite em Paris”
“O Homem que Mudou o Jogo”
“Cavalo de Guerra”
“A Árvore da Vida”
“Tão forte e Tão perto”
MELHOR DIREÇÃO
Martin Scorsese, “A Invenção de Hugo Cabret”
Woody Allen, “Meia-Noite em Paris”
Michel Hazanavicius, “O Artista”
Alexander Payne, “Os Descendentes”
Terrence Malick, “A Árvore da Vida”
MELHOR ATOR
Demian Bichir, “A Better Life”
George Clooney, “Os Descendentes”
Jean Dujardin, “O Artista”
Brad Pitt, “O Homem que Mudou o Jogo”
Gary Oldman “O Espião que Sabia Demais”
MELHOR ATRIZ
Glenn Close, “Albert Nobbs”
Viola Davis, “Histórias Cruzadas”
Meryl Streep, “A Dama de Ferro”
Michelle Williams, “Sete Dias com Marilyn”
Rooney Mara , “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Kenneth Branagh, “Sete Dias com Marilyn”
Jonah Hill, “O Homem que Mudou o Jogo”
Nick Nolte, “Guerreiro”
Christopher Plummer, “Toda Forma de Amor”
Max von Sydow, “Tão Forte e Tão Perto”
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Bérénice Bejo, “O Artista”
Jessica Chastain, “Histórias Cruzadas”
Melissa McCarthy, “Missão Madrinha de Casamento”
Janet Mcteer, “Albert Nobbs”
Octavia Spencer, “Histórias Cruzadas”
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
“Meia-Noite em Paris” (Woody Allen)
“Missão Madrinha de Casamento” (Annie Mumolo e Kristen Wiig)
“O Artista” (Michel Hazavanicius
“Margin Call” (J.C. Chandor)
“A Separação” (Asghar Farhadi )
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
“Os Descendentes” (Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash)
“A Invenção de Hugo Cabret” (John Logan)
“O Homem que Mudou o Jogo” (Steven Zaillian e Aaron Sorkin)
“Tudo pelo Poder” (George Clooney, Grant Heslov, Beau Willimon)
“O Espião que Sabia Demais” (Bridget O’Connor e Peter Straughan)
MELHOR FILME ESTRANGEIRO
“Bullhead” – Michael R. Roskam (Bélgica)
“Monsieur Lazhar” – Philippe Falardeau (Canadá)
“A Separação” – Asghar Farhadi (Irã)
“Footnote” – Joseph Cedar (Israel)
“In Darkness” – Agnieszka Holland (Polônia)
MELHOR ANIMAÇÃO
“Um Gato em Paris”
“Chico e Rita”
“Kung Fu Panda 2”
“Gato de Botas”
“Rango”
Amigos, por que nenhum campeonato, torneio ou reles bate-bola de ponta de esquina vê-se obrigado a justificar sua existência todo santo ano como acontece com o Paulistão? É sempre a mesma coisa. No início da competição, ou mesmo antes, durante e depois, gastamos nossa energia para discutir se as disputas estaduais deveriam ainda existir ou estariam ultrapassadas pela nova ordem do futebol, a globalização do esporte, o novo modelo do negócio, etc.
Ora, digo eu, a discussão é acadêmica. Os Estaduais continuarão a existir enquanto forem amados. Simples assim. Quando o público decidir que não gosta mais deles, adeus. Os estádios estarão vazios, a TV não terá interesse em transmitir e o oxigênio da grana não alimentará mais esse tipo de disputa. Enquanto eles mobilizarem a emoção do torcedor, estarão por aí, de um jeito ou de outro. E nesse “de um jeito ou de outro” é que está toda a questão.
Para começar pelo começo, como se diz no botequim: os campeonatos estaduais têm longa tradição a lhes emprestar lastro. No caso do Campeonato Paulista, foi disputado pela primeira vez em 1902! Gente de várias gerações se iniciou na paixão do futebol pelo Paulistão. Durante décadas e décadas foi o título mais cobiçado pelos paulistas. Quem o vencia tinha o ano ganho, embora já existissem a Taça Brasil, o Torneio Rio-São Paulo, a Libertadores.
Enfim, os Estaduais e, no nosso caso, o Campeonato Paulista, estão muito sedimentados no imaginário e no coração dos torcedores para serem extintos de uma hora para outra.
O que não significa que não devessem mudar para acompanhar os novos tempos. Essas mudanças não os descaracterizariam. Pelo contrário: seriam garantia de sua sobrevivência. Quem dirige o nosso futebol deveria aprender com o Tancredi, personagem do romance O Leopardo, de Giuseppe Tommasi di Lampedusa: “Para que as coisas permaneçam iguais… é preciso que tudo mude.” Quer dizer, quando a História caminha, se você quiser manter um determinado status quo precisa promover reformas que incorporem bandeiras da oposição. Caso contrário, tudo vai mudar à sua revelia, e de forma incontrolada.
Isso para dizer que, no atulhado calendário mundial do futebol, não se justifica uma disputa regional ocupar quatro meses do ano. Para sobreviver sem traumas, o Paulistão, para ficar nele, deveria submeter-se a um enxugamento radical. Por que não, por exemplo, adotar uma fórmula de grupos, como a da Copa do Mundo, e fazer um campeonato mais sintético, resolvido em pouco mais de um mês? Não seria bacana?
Sim, eu sei que existem interesses contrários a qualquer tipo de alteração, enxugamentos, etc. Mas não é melhor render-se à realidade dos fatos e promover reformas do que assistir a vários clubes grandes usando o campeonato, pelo menos em sua fase inicial, como mera pré-temporada de luxo? É hora de abrir os olhos, para não ser atropelado pelos fatos.
Os Descendentes, de Alexander Payne, é narrado em primeira pessoa, assim como o romance de estreia da escritora Kaui Hart Hemmings, que lhe dá origem.
Esse narrador é Matthew King (George Clooney, em um dos seus melhores papéis), herdeiro rico, com a mulher em coma e duas filhas que praticamente desconhece. A história é a da (penosa) reconstrução da estrutura familiar numa situação em que a mãe está à beira da morte.
A história se passa no Havaí, onde cresceu e vive a autora. A primeira providência é desmistificar o lugar como sinônimo do paraíso. Lá as pessoas vivem, sofrem, adoecem e morrem. Brigam entre si, como em toda parte. Traem-se, alimentam sentimentos mesquinhos em relação aos outros. Mas também se alegram, passeiam, amam, vivem. É um lugar entre outros. Só que bonito de dar gosto.
Mas, apesar das boas paisagens, Payne tem o cuidado de evitar padrão cartão postal. Afinal de contas, é mesmo a paisagem interna do protagonista, Matthew, Matt para os íntimos, que conta. Com seu ar de cinquentão charmoso, Clooney encarna com perfeição esse tipo obrigado a passar a limpo sua existência enquanto a mulher luta pela vida no hospital e ele tem de resolver se vende ou não uma grande propriedade à beira do mar da qual se tornou curador. O resto da família quer que ele venda, mas Matt não está seguro. Além disso, pairam dúvidas sobre a fidelidade da esposa moribunda.
Enfim, é um filme de crise e de redefinição de valores quando metade da vida já passou. O texto original leva em direção a situações potencialmente piegas, armadilhas evitadas com cuidado por Payne. Quando tudo está ficando muito solene, ele introduz o humor. Quando a emoção se faz presente, ele não a sublinha ainda mais, pois sabe que a fronteira com a pieguice está próxima. Ninguém precisa adicionar açúcar ao doce, como costuma fazer, por exemplo, Spielberg. Payne é mais contido. O espectador sensível agradece. Pode se emocionar sem ser feito de bobo.
Em francês, um bordel chique é chamado de “maison close”. Pois bem, L’Apollonide é a história de uma dessas casas fechadas e Bertrand Bonello adota uma linguagem também fechada e circular para descrevê-la. Ou melhor, para compreender esse microcosmo, do ponto de vista das moças que nele trabalham e dele sonham um dia sair, depois de acertar suas contas com “madame”.
Se você espera julgamentos morais ou uma percepção vitimizada da prostituição, esqueça. Bonello (autor de filmes como O Pornógrafo e Tirésias) se coloca mais à espreita da rede de desejos que compõe as que trabalham na casa e seus clientes que em posição de denúncia simplista. Afinal, se há sofrimento entre elas, há também gozo, cumplicidade e uma alegria estranha, talvez compensatória, mas mesmo assim alegria.
Bonello insiste também no ritual cênico que cerca todo o exercício da prostituição de luxo. As moças se preparando para a noite são como atrizes no camarim, prestes a entrar num palco onde encenarão desejos e fantasias a troco de dinheiro. O filme é rigoroso e belo. Usa música anacrônica, como a sinalizar a permanência da prostituição através dos tempos, o que a cena final não desmente.
A esta altura do campeonato acho que só quem vive em Marte ignora a história do colunista social de João Pessoa que diz na peça da publicidade que “trouxe toda a minha família, menos a Luiza, que está no Canadá.”
Bem, virou febre, não me pergunte por quê. Agora há pouco acabo de receber um e-mail de assessoria de imprensa dizendo que Luiza está voltando a João Pessoa nas asas da Gol. Possivelmente essa asneira viral faça parte de alguma campanha publicitária, e não apenas a do condomínio paraibano. Como saber? O que dizer dessas coisas?
Nada, a não ser o seguinte. Em princípio não tenho nada contra bobagem. Acho que a seriedade militante, o tempo todo, estraga o fígado mais que bebida ruim. Um pouco de besteira é o sal da vida. E atire a primeira pedra quem nunca se sentou numa mesa de bar, entre amigos e amigas, para tomar umas e outras e dizer abobrinhas. Tudo isso faz bem. Desopila.
O meu ponto é outro: o grau de besteirol a que estamos chegando parece ocupar todo o tempo livre das pessoas. Mas o que digo? Só o tempo livre, não. Esse nhenhenhem rola o dia todo nas redes sociais e em toda parte, durante o expediente, durante as chamadas horas laborais, quando deveríamos estar com a cabeça em outra parte, concentrados em nosso trabalho, no estudo, em qualquer coisa útil.
E estamos pensando em que? Na Luiza, que está, ou esteve, no Canadá. No Michel Teló, no Daniel e na Monique, na falsa grávida de quadrigêmeos, etc, etc. O mundo parece ter virado uma farsa full time, que pode ser sinistra ou engraçada, dependendo do ângulo do qual se olha.
Chega a hora em que a overdose de asneiras não nos deixa pensar em mais nada, ocupa todo o nosso espaço mental, porque tudo isso é muito invasivo, não adianta negar. E aí o caso fica preocupante.
Se é que, no meio do nossa pasmaceira embotada, ainda temos condição ou lucidez de nos preocuparmos com alguma coisa que não seja o BBB ou o destino da Luíza.
1) Passo de forma lateral sobre essa história do BBB e do suposto estupro. Não acompanho nada disso, sorry, porque tenho mais o que fazer. Mas assisti à leitura da nota oficial da Globo, ontem, durante o Jornal Nacional. Vi alegações de advogados, e ponderações muito sisudas dos apresentadores, como se tratassem do assunto mais sério do mundo. Perdão, mas a história toda é de um ridículo atroz, e não sei como os envolvidos, a começar pelos participantes e terminando pela própria TV, não morrem de vergonha. Em tempos mais bem humorados, o tema seria objeto do riso universal.
2) Já o naufrágio do Costa Concordia seria outro caso de ridículo supremo, não tivesse terminado de forma trágica, com o custo de vidas humanas. Um mastodonte daqueles, encalhar nas rochas por, supõe-se, um ato de exibicionismo do comandante, é o fim da picada. O affair do capitão covarde tem sido comentado de várias formas, algumas inteligentes. A Itália, numa profunda crise de identidade pós-Berlusconi, tomou-o como fato simbólico: afinal, somos uma nação de Schettinos ou de De Falcos? Não está na hora de todos dizermos, como De Falco, “Vada a bordo, cazzo” ?
Li hoje, na Folha, a brilhante análise de Contardo Calligaris sobre o tema da covardia. Cita vários autores, incluindo Shakespeare. Estranho é que ninguém, que eu saiba, tenha feito a ligação do caso do capitão italiano com uma das mais célebres obras da literatura, Lorde Jim, de Joseph Conrad, que trata exatamente disso, do ato covarde que persegue o homem ao longo da vida. E no ambiente náutico, ainda por cima, o mesmo do malfadado Capitão Schettino.
Será que ninguém mais lê Conrad hoje em dia?
Quem nada sabe de A Separação parece assistir logo de cara a uma sucessão de fatos banais. Um casal rompe o matrimônio e decide quem vai ficar com a filha. O marido, agora sozinho, precisa cuidar do velho pai com Alzheimer e contrata alguém para ajudá-lo. A partir daí as coisas começam a patinar, a ficar fora dos eixos, como disse Shakespeare numa frase famosa.
Asghar Farhadi, como quem não quer nada, monta, a partir desses elementos, uma reflexão poderosa sobre questões universais como a ética, valores religiosos e laicos, mentira e verdade, justiça e compaixão. Não é pouca coisa o que propõe com esse filme, um dos mais perfeitos dos últimos tempos.
O filme é bastante falado, como, aliás, costuma ser o cinema iraniano, de modo geral. Há, parece, uma cultura da discussão nessa sociedade que nos vendem como tão fechada e impermeável ao diálogo externo. Mas essa pode ser uma impressão equivocada. Vendo-se os filmes que fazem, ficamos com a sensação de uma dialética permanente instaurada entre as pessoas, e que às vezes assume tom bastante áspero.
Há, sim, os detalhes da cultura local, como a mulher que consulta por telefone alguma autoridade religiosa para saber se pode limpar o idoso de que cuida ou deve esperar que outro o faça. Afinal, ver o corpo de um homem nu é pecado para uma mulher casada, mesmo que esse homem seja um pobre velho senil. Mas a noção de pecado, tão arraigada, também será responsável por outro dilema na continuidade da história: saber se quem empurrou uma mulher sabia de antemão que ela estava grávida ou não.
Claro, esses problemas pessoais extrapolam a intimidade e entram na esfera social ao se confrontarem com a justiça. Desse modo, ganham dimensão política, inesperada em um filme iraniano. Esse Asghar Farhadi não tem nada de bobo.
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