Para falar com franqueza, o estranho é que o Brasil tenha demorado tanto tempo para instaurar a tal Comissão da Verdade. Parece um procedimento óbvio para um País que passou por uma longa ditadura militar, durante a qual tantos crimes foram cometidos. A ditadura terminou em 1985. Em 1989 tivemos a primeira eleição direta para presidente. Desde então vivemos em plena democracia. É tempo demais para fatos traumáticos ficarem acobertados por um silêncio obsequioso.
A leniência do Brasil com criminosos fica mais evidente quando se compara a passividade local com o que aconteceu em países latino-americanos também vítimas de ditaduras como Argentina, Chile e Uruguai. Nestes, os criminosos do regime, mandantes e torturadores, foram julgados e alguns condenados. É bom frisar. Não responderam por seus crimes apenas policiais sádicos, cujos baixos instintos eram instrumentalizados pelo regime, mas os mandantes, dos superiores imediatos até as esferas mais altas, pois estes são os grandes responsáveis. Há ainda alguns desses graúdos cumprindo pena, como Jorge Videla na Argentina. Foi “presidente”. Está atrás das grades.
Essa diferença sempre me pareceu devida a razões culturais. Somos mais maleáveis (no mau sentido do termo). Mais transigentes. Mais “cordiais”. A própria transição para a democracia se deu de forma pacífica, negociada, de modo que não ficassem feridas abertas. O que é uma ilusão. Uma ditadura de 20 anos produz cicatrizes por gerações. Há ainda pessoas vivas, em plena atividade, que sofreram na pele (literalmente) os efeitos da ditadura. Seus filhos estão aí. Há pessoas que perderam os pais, como o nosso amigo e colunista Marcelo Rubens Paiva. Enfim, cicatrizes é que não faltam.
E elas não fecharão nunca se tudo não for dito, de uma vez por todas. É por isso que uma Comissão da Verdade, desde que trabalhe para valer, terá uma função terapêutica sobre a Nação, ao contrário do que dizem os que temem “revanchismo”.
Essa comissão expressa, sem tirar nem pôr, o direito inalienável de todos os povos que é o de conhecer a sua História. E isso inclui conhecer não apenas os fatos heroicos e positivos, mas também (e sobretudo) os mais dolorosos, aqueles que, justamente por isso, não querem e não podem calar.
Portanto, por mais que incomode a determinados setores, a Comissão da Verdade, até para honrar seu nome, deverá ir ao fundo dos fatos, por assim dizer. Investigar o destino dos desaparecidos, esclarecer as circunstâncias da sua morte e a localização dos corpos. E assim por diante. Precisa saber quem ordenava os atos da repressão, quem comandava a tortura como política de Estado. Precisa esclarecer os elos entre o aparelho da repressão e os colaboradores civis, ligação até agora pouco esclarecida, e por razões óbvias.
Depois de um longo tempo de silêncio e vergonha, a Nação precisa enterrar seus mortos. De maneira literal e também figurada.
Fuentes era um tipo que pensei chegaria aos cem anos. Via-o sempre vigoroso, cheio de alegria nas entrevistas. Morreu hoje, com 83 anos. Podia ter escrito uns livrinhos a mais. Admirava-o muito.
Não sei bem qual dos seus livros mais me impressionou. Talvez A Morte de Artemio Cruz, com a rememoração do moribundo em um hospital, ou Gringo Velho. Ou talvez mesmo Espelho Enterrado, esse ensaístico, uma panorâmica inspiradíssima da arte hispano americana.
O estilo era único, de sabor incomparável. E, como se sabe, o estilo é o homem.
Fuentes era o maior intelectual mexicano desde Octávio Paz.
A coordenação do Festival de Brasilia (17 a 24 de setembro) anunciou mudanças para este ano.
Haverá duas mostras competitivas, de longas de ficção e longas documentais, com seis filmes cada uma e premiação própria.
Também os curtas serão separados em documentais e de ficção. Seis cada mostra e mais seis de animação.
Total: 12 longas-metragens e 18 curtas. E mais a Mostra Brasília, com a produção local.
Saiu o coordenador do festival, Nilson Rodrigues, que fez a edição passada e, em seu lugar, entrou Sergio Fidalgo. A assessora de cinema da Fundação Cultural é a cineasta Cibele Amaral.
O festival sai do Cine Brasília (em obras) e vai para o Teatro Nacional, onde antes só havia a sessão de abertura. Agora todas as sessões serão nesse teatro, de arquitetura linda e poltronas torturantes, cujo conforto rivaliza com o das poltronas de avião da classe econômica.
As “novidades”, no fundo, são retrocessos. Uma espécie de progresso para trás. Num tempo em que quase não se discute mais a diferença entre ficções e documentários, o festival separa as mostras, como se as fronteiras fossem evidentes.
E há a questão da overdose. Brasília se caracterizou, nos últimos anos, por ser uma mostra enxuta, com poucos filmes, que eram fruídos, decantados e debatidos com todo o rigor. Era o seu diferencial. Com as maratonas, isso vai se perder.
Continua abolido também o critério de ineditismo, outro ex-diferencial de Brasília, o que enfraquece o festival, ao contrário do que pensa o secretário de cultura do DF, o sr. Hamilton Pereira. Ninguém liga para filme velho. Por isso, e não por outro motivo, os festivais primeira linha de todo o mundo insistem no ineditismo. Veja lá se Cannes, Berlim e Veneza aceitam filmes já vistos, discutidos e criticados. De jeito nenhum. Brasília pensava grande e voltou a pensar pequeno.
Os prêmios em dinheiro continuam vultosos. Com o fim de Paulínia, festival liquidado pelo oportunismo político, voltam a ser os maiores do País. Como os filmes não precisam mais ser inéditos (basta que o sejam no DF), os cineastas estão esfregando as mãos de contentamento. Bom para eles.
Pior para o festival, que já foi o mais importante do País e está fazendo de tudo para deixar de ser, já faz alguns anos.
Vai acabar conseguindo.
Dizem os entendidos que depois das conquistas é que os desafios começam para valer. É o que vão entender logo os vencedores dos títulos estaduais, em especial Fluminense e Santos, campeões do Rio e São Paulo, que nem bem podem comemorar suas façanhas e já têm pela frente o terrível desafio da Libertadores da América nas quartas de final.
São, talvez, os dois times mais fortes do País e encaram dois argentinos – o Boca Juniors e o Velez Sarsfield. O que dizer de sensato dessas partidas a não ser que não têm favoritos?
Mas talvez não estejam nos jogos as maiores provas aos vencedores e sim no desafio a ser enfrentado: como superar o desgaste do êxito? Já pensaram nisso? No preço que toda vitória cobra ao vencedor? O Fluminense já recebeu a conta na forma de dois desfalques sérios: Fred e Deco, ambos contundidos em virtude do desgaste muscular. Nesse particular, o Santos foi poupado.
Há outros espectros que rondam os vencedores e, por vezes, os transformam em vítimas do próprio sucesso. Por exemplo, quanto mais técnico for um time, maior o olho gordo sobre ele. Vocês pensam que virei supersticioso e estou me referindo aos malefícios da inveja? Bem, essa também existe, mas entendo que produz mais estragos no invejoso que no invejado. Mas me refiro mesmo às leis de mercado, que tornam os jogadores que brilham os mais vendáveis na feira livre da bola. Apesar de as coisas terem mudado um bocado, as tentações ainda são grandes e os agentes têm pressa em fazer negócios. Afinal, vivem disso, da pressa, do dinheiro fácil e da instabilidade dos clubes.
De modo que a resistência em promover desmanches no pós-título deve ser tenaz e impiedosa. Os clubes de sucesso não podem vacilar. Já melhorou em relação ao passado recente. Aos poucos os times brasileiros vêm aprendendo que é melhor vender o espetáculo que negociar o artista. Mesmo assim, os apelos do dinheiro fácil e rápido não podem ser menosprezados. No passado não era raro um time ter desempenho brilhante num ano e lutar contra o rebaixamento no seguinte. O próprio Santos experimentou há pouco essa montanha-russa. Foi campeão brasileiro em 2004 e por pouco não caiu em 2005.
Manter-se no topo é uma arte. Como diz o clichê (verdadeiro) é até mais difícil do que chegar lá. Porque, quando você está em evidência, tudo conspira contra. O time da moda é também o time a ser batido. Todo mundo quer tirar uma casquinha – e isso aumenta o nível de competitividade (por isso, também, a presença de um time excepcional aumenta, por si só, o nível da disputa). E, por fim, há o desafio maior do vencedor: manter os pés no chão, domar o próprio ego. Saber que não existe vitória contínua e que a derrota está à espreita, na esquina. Quando o vencedor se julga imbatível, e veste o manto da soberba, é o princípio do fim.
Fariam bem todos os campeões de 2012 em se vacinar contra esses perigos e tentações do êxito.
* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão
Recebi esses comentários do antropólogo Felipe Lindoso sobre Xingu, o filme de Cao Hamburguer. Como os considero muito interessantes para nós, críticos, que costumamos discutir a questão estética, transformo-os em post. Leiam, pois valem a pena.
“Prezado Zanin,
Demorei a ver o filme, e gostaria de compartilhar com você algumas observações.
Li o livro do orlando – afinal, sou antropólogo – e gosto muito. Mas o filme, no meu entender, transformou o relato de uma vida em um material sem força dramática. Acho que é um velho problema do cinema brasileiro, querer abarcar longas históricas e não sacar que a força dramática do filme vem do foco em determinados pontos da ação.
Dessa maneira, o Xingu na verdade poderia ser três filmes. O primeiro é o da transformação de três jovens urbanos em aventureiros e exploradores. Afinal, eles se alistam como analfabetos e peões e o filme corta depois para os irmãos como chefes da expedição. A dramaticidade dessa transformação foi jogada no lixo. Se o filme terminasse no encontro com os Kalapalo já seria um primeiro grande filme.
O segundo é o da criação do parque. Afinal, a façanha dos Villa Boas foi não apenas conseguir a érea, mas convencer etnias que, em alguns casos, eram inimigas, a estabelecer um modus vivendi no parque. Essa dinâmica se dilui no filme.
O terceiro filme seria o das contradições que eles têm que enfrentar: transigir para conseguir os objetivos maiores, abrir a base do Cachimbo para conseguir o parque; os dilemas de Leonardo, que reprime e esconde seu relacionamento com uma índia ao mesmo tempo que condenou o irmão; a própria história da paixão de Orlando e Marina.
Enfim, uma grande história que fica ótima no livro, pela sua forma, e que se dilui no filme, ao qual falta, no final das contas, densidade dramática.
Acho que o relativo fracasso de público se deve a isso. Como filme, é fraco.
Só complementando. Imagine se o Cao, no filme O Ano em que maus Pais… começasse contanto a militância do casal, passasse pela história do menino no Bom Retiro e ainda continuasse contando a morte dos militantes. Ficaria uma linguiça enorme e chata. O roteiro resolve tudo centrando no menino que ficaria com o avô e termina com a comunidade dos judeus do Bom Retiro, e o resto está implícito, não precisa ser contado ali.
Abraço”
A contracultura está na moda. Ou voltou à moda. Na verdade, talvez, nunca tenha saído de cena. A mensagem libertária do final dos anos 60, início dos 60 provavelmente ainda não deixou de fazer sentido e talvez faça até ainda mais. Tem sobrevivido em seus cultores mais notáveis e midiáticos, como Caetano, Gil, talvez Zé Celso e agora coloca em cena a figura de Jorge Mautner, neste belo documentário de Pedro Bial e Heitor D’Allincourt.
Não que Mautner fosse uma figura menor. Nada disso. Apenas, talvez, fosse ofuscado pelo brilho excessivo de outros. O filme o repõe em seu lugar. E, na verdade, encontra um lugar para Mautner, não apenas na vaga contracultural, mas na própria cultura brasileira, em um dos seus aspectos fortes – a diversidade étnica, o melting pot causado pela quantidade e qualidade dos imigrantes que por aqui se encontraram.
Mautner é um deles. De família já mista (judeu austríaco com católica) é um legítimo filho do Holocausto, como está no subtítulo da obra. Seus país vieram ao Brasil expulsos pela guerra e pela perseguição aos judeus. Jorge, o garoto, nasceu no barco. A família se estabeleceu no Rio mas, com o divórcio dos pais, o menino veio para São Paulo, para morar com a mãe e o padrasto. Em São Paulo, cidade de imigrantes de todos os cantos do mundo, caiu num caldeirão cultural ainda mais diversificado.
O trabalho com material de arquivo, para evocar esses anos em transe da humanidade, é muito bom. Nos joga em cheio no rumor da História e relembra que as pessoas, mesmo as mais criativas, levam essas marcas do seu tempo. Não numa relação direta de causa e efeito, é claro, mas esses artistas, como antenas da época, absorvem essas marcas, de uma maneira ainda mais visível e contundente. Mautner expressou seu tempo não apenas em, versos e músicas, mas no cinema. É roteirista de Jardins de Guerra, de Neville D’Almeida e dirigiu em Londres, o malucaço O Demiurgo, feito com sobras de negativo de Queimada!, de Gillo Pontecorvo, como informou Pedro Bial.
Transformada em característica de geração, a contestação vinha da música, dos filmes, mas também do comportamento. Uma vida “à margem do sistema”, como se dizia na época. E que não se dava sem conflitos, tanto com as autoridades constituídas, quanto com as gerações seguintes. Um dos trechos mais reveladores é o encontro de Jorge Mautner com sua filha, Amora, hoje uma conhecida atriz e diretora de TV da Globo.
Na conversa, ela cobra o pai. “Esse nome me custou muita gozação na escola”. Inútil dizer que havia a vantagem de não ter nenhuma coleguinha com o nome igual ao seu. Há uma fase da vida em que as pessoas não querem se diferenciar, querem ser iguais às outras. E filha de maluco beleza sofre. Ela se queixa também de que o pai andava nu pela casa. É engraçado, mas se você for pensar bem, não deixa de ser curioso. Uma geração rompe com tudo, ou quase tudo; a seguinte recupera valores. E assim caminha a humanidade, como diz o título daquele filme.
Dessa fricção, anda-se um pouco mais à frente. Mautner, como outros, é um desbravador de caminhos. Mesmo que o filme não entre em detalhes mais íntimos, adivinha-se uma vida de grande riqueza pessoal, ao lado da realização artística.
(Caderno 2)
De maneira um tanto esquemática, costuma-se dizer que a juventude radical dos anos 60/70 tinha duas alternativas – as armas ou as drogas.
Ambas conviveram na mesma família, a da cineasta Lúcia Murat, e este é o núcleo duro do seu belíssimo documentário Uma Longa Viagem, que entra agora em cartaz depois de vencer o Festival de Gramado de 2011.
A própria Lúcia Murat lutou contra a ditadura e pagou caro por isso. Foi presa e torturada. Mas o personagem mais evidente do filme não é a cineasta e sim seu irmão, Heitor, que foi mandado para o exterior pela família para protegê-lo de um possível envolvimento com a luta armada. É de Heitor a “longa viagem” de que fala o título. Há ainda outro irmão presente na narrativa, o médico Miguel. Mas está presente de maneira discreta, apenas pela narrativa de Lúcia e algumas fotos.
Quem toma a frente é Heitor, entrevistado pela irmã. Ele, e seu “duplo”, interpretado pelo ator Caio Blat, ao ler as cartas que o andarilho enviava à sua família, em especial à mãe. É um recurso interessante, funcional e bastante tocante, afinal de contas. Caio lê as cartas, como se as estivesse escrevendo. Ao fundo, imagens “em transparência”, evocando os lugares de que fala, alguns exóticos. A técnica foi inspirada pelo curta-metragem Superbarroco, de Renata Pinheiro. A atmosfera assim criada, pela leitura das cartas e pelas imagens em sobreposição, beira ao onírico, mais que ao realístico.
E, de fato, as viagens de Heitor tinham esse caráter de um sonho um tanto desesperado, mas cuja profundidade quase nunca aparece na narrativa das cartas – muito bem escritas, vívidas, mas destinadas mais a sossegar a família do que esclarecer exatamente o que ele estava passando. Esse sentido se completa pelo que fala, com a dicção um tanto prejudicada talvez pelos medicamentos, mas com a inteligência intacta de quem andou muito, muito viu e tanto experimentou. Tudo é expresso com um invejável senso de humor, que contamina (de maneira positiva) o filme do princípio ao fim.
É bom que haja esse tempero, mesmo porque Uma Longa Viagem traz também passagens pouco agradáveis, como a memória dos tempos de cárcere de Lúcia. Ou os episódios de internação de Heitor, como consequência provável de suas trips prolongadas. Há também o elemento deflagrador do filme – o luto pela morte prematura do irmão Miguel, um médico abnegado, cheio de consciência social.
Nesse ambiente, tanto emocional como rigoroso, se estabelecem as maneiras muito diferentes de resistir contra a ditadura e que se deram no interior de uma mesma família: a resistência pelo trabalho social; o confronto armado, a adesão à contracultura. Racionalizadas, essas opções cobririam quase o espectro completo das formas possíveis de sobrevivência em tempos ruins. Pois é claro que, falando de pessoas particulares, Uma Longa Viagem trata de toda uma época da história recente brasileira, uma fase de ruptura, cujas consequências ainda estão presentes na vida de todos e não apenas nas de seus protagonistas.
(Caderno 2)
A adaptação do romance de Camilo Castelo Branco foi proposta a Raoul Ruiz pelo produtor português Paulo Branco. Ruiz não conhecia o livro. Leu e disse que a versão para a tela daria um filme de 20 horas. Por mais elástica que seja uma produção, esta não poderia chegar a tal dimensão. Ruiz “contentou-se” com uma versão para TV em seis episódios de 52 minutos cada, e uma para cinema, com pouco mais de quatro horas e meia. Esta é a que veremos.
Camilo publicou a história em livro em 1854, quando tinha 29 anos. É seu segundo romance. Mas o texto havia saído antes, em capítulos, no jornal O Nacional,do Porto. O filme guarda as marcas do folhetim. Por um lado, há o tom emocional e lacrimoso, que tanto atraiu a curiosidade de Ruiz como traço possível da alma portuguesa daquela época. Esse pathos está tanto nos diálogos profusos quanto nos silêncios igualmente intensos. O tom, por vezes solene, aparece nos longos planos contínuos, que predominam como estilo recorrente de Ruiz e aqui encontram terreno particularmente fértil para florescer.
Por outro lado, predomina, clara, a estrutura básica do folhetim, na qual uma trama inicial começa a se bifurcar em histórias variadas, como numa narração em abismo, para que as pontas por vezes se liguem da maneira a mais improvável, em especial no desfecho. O que passa ao espectador não a sensação do inverossímil mas, pelo contrário, a experiência do prazer da narrativa, dos entrechos complicados e cheios de reviravoltas que fizeram e ainda fazem o encanto da arte folhetinesca.
Nesses desvãos do exasperado romantismo de Camilo se desenvolve a trajetória do órfão João, depois Pedro da Silva, às voltas com um padre sensual e maquiavélico, Dinis, uma condessa vingativa, atos de pirataria e outras circunstâncias e peripécias. As histórias se passam em Lisboa, claro, mas também em Paris e até mesmo no Brasil. São tramas como amplificadas pelo sentimento de prazer e pasmo diante da “mórbida complexidade sentimental da humanidade”, como definiu o crítico português Alexandre Cabral.
Mistérios de Lisboa é um longo flash back, construído a partir do manuscrito deixado por um moribundo. O brilho e o rigor com que um Raoul Ruiz bastante doente (faleceria em 2011) lê e traduz em linguagem cinematográfica esse velho romance, faz pensar em uma curiosa identidade entre autores. Tanto o diretor como o escritor eram sensíveis a essa construção labiríntica da alma humana. Lendo Camilo, Ruiz sentia-se em casa.
(Caderno 2)
Luz nas Trevas é continuação ou diálogo comO Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla? Talvez uma característica não anule a outra. Primeiro, por ser um legado de Sganzerla, na forma do roteiro que não pôde filmar (morreu em 2004). Segundo, porque a intuição que criou o primeiro Bandido, no ano em transe de 1968, não poderia deixar de recriá-lo em outra época, neste nosso paradoxal tempo contemporâneo. Paradoxal porque mais morno, mas não menos repleto de contradições do que aquele que viu nascer o primeiro Bandido.
Daí o diálogo cerrado do filme do presente com o do passado. Há trechos do Bandido da Luz Vermelha citados em Luz nas Trevas, como por exemplo quando o Luz, agora vivido por Ney Matogrosso, vê na TV da prisão a morte do seu personagem de outrora, interpretado por Paulo Villaça. Há outros signos cuidadosamente escolhidos: Djin Sganzerla, filha de Rogério e Helena, vive Jane, personagem da mãe no primeiro filme. Sérgio Mamberti usa o mesmo tom de Pagano Sobrinho para interpretar o corrupto. A voz gutural de Arrigo Barnabé reforça sua versão expressionista do policial.
André Guerra faz o filho do Bandido, que agora segue os passos do pai e se torna assaltante. No mais, vemos a fidelidade à inspiração de Sganzerla expressa na maneira como se filma, se monta e se introduz uma trilha sonora (Das mais inspiradas, aliás. Um dos grandes momentos é a interpretação de Ney, como caubói contemporâneo, de Sangue Latino, um dos seus sucessos). O diálogo com o Godard de Pierre Le Fou é total. Assim como a vocação de assimetria e descontinuidade, que fazem de Luz nas Trevas um desses objetos não identificados no panorama de atual caretice do cinema brasileiro.
É claro que a visão de Sganzerla sobre a marginália teria de ser reinterpretada. Talvez ela hoje tenha sentido diferente daquele de 1968. Então, era época não apenas de expressar o desespero político e existencial do 3.º Mundo, mas de romper com um cinema crítico considerado já pouco efetivo. Era o nascedouro do Tropicalismo, do intercâmbio entre as artes plásticas e o cinema (com Hélio Oiticica, por exemplo, homenageando o bandido Cara de Cavalo), e com o teatro de ruptura de Zé Celso. Todo esse flerte com o comportamento “à margem” fazia sentido num quadro de fechamento político. Daí a inspiração em João Acácio, o Bandido da vida real. E que sentido tudo isso terá hoje?
Será essa, talvez, a discussão mais interessante a ser trabalhada sobre o fundo desse belo filme. Ele expressa uma fidelidade total às ideias libertárias de Sganzerla e Helena Ignez. Uma noção pouco acomodada da rebeldia, daquele sentimento que não se conforma “com tudo o que aí está”, mas nem por isso se dá ao trabalho de encontrar saídas. Escancara impasses, ao invés. E introduz o escracho lá onde a crítica se mostra inócua. Ataca, pelo riso e pela paródia. Ser rebelde é manter-se sempre jovem. Como se sabe, a rebeldia conserva seu valor de face e atravessa gerações sem sentir o peso dos anos. É uma fonte da juventude.
(Caderno 2)
Provavelmente também estarei por lá. A Lume, de Frederico Machado, de São Luis, além de lançar DVDs alternativos, promove agora a nova edição deste festival de filmes com pouca oportunidade no circuito comercial, tomado por Vingadores e Batalhas dos Mares da vida. Quem ainda não ficou de miolo completamente mole pela exposição aos block busters, faria bem em experimentar esses filmes.
FESTIVAL LUME DIVULGA A LISTA DOS SELECIONADOSLONGAS-METRAGENS INTERNACIONAIS (MOSTRA COMPETITIVA)
AMNESTY
Diretor: Bujar Alimani
Albânia – Grécia – França. 2011 – Ficção – 83 Min.
CLIP
Diretor: Maja Milos
Sérvia. 2012 – Ficção – 102 Min.
CRULIC – THE PATH TO BEYOND
Diretor: Anca Damian
Romênia – Polônia. 2011 – Animação / Documentário – 73 Min.
HERMANO
Diretor: Marcel Rasquin
Venezuela. 2010 – Ficção – 97 Min.
I WANT TO BE A SOLDIER (De Mayor quiero ser soldado)
Diretor: Christian Molina
Espanha. 2010 – Ficção – 100 Min.
MOACIR
Diretor: Tomás Lipgot
Argentina. 2010 – Documentário – 75 Min.
POLICEMAN
Diretor: Nadav Lapid
Israel. 2011 – Ficção – 105 Min.
THE CHRISTENING
Diretor: Marcin Wrona
Polônia. 2010 – Ficção – 86 Min.
AS ONDAS/THE WAVES ( Las oslas)
Diretor: Alberto Morais
Espanha. 2011 – Ficção – 95 Min.
WITHOUT
Diretor: Mark Jackson
Estados Unidos. 2011 – Ficção – 87 Min.
CURTAS-METRAGENS INTERNACIONAIS (MOSTRA COMPETITIVA)
ALL THAT SHE SURVEYS
Diretor: Gary Mairs
Estados Unidos. 2011 – Experimental – 16 Min.
ETIENNE’S HAND
Diretor: Richard Tuohy
Austrália. 2011 – Experimental – 13 Min.
HISTÓRIA MUERTA
Diretor: Fran Mateu
Espanha. 2011 – Ficção/Fantástico – 15 Min.
MUY CERCA
Diretor: Ivá Caso
Espanha. 2011 – Ficção – 16 Min.
NORMAL PEOPLE
Diretor: Piotr Zlotorowicz
Polônia. 2011 – Ficção – 24:40 Min.
LA GRAN CARRERA
Diretor: Kote Camacho
Espanha. 2011 – Ficção – 07 Min.
8 (Ocho)
Diretor: Raul Cerezo
Espanha
ZEINEK GEHIAGO IRAUN
Diretor: Gregorio Muro
País Basco. 2011 –Animação – 12 Min.
LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS (MOSTRA COMPETITIVA)
AS HORAS VULGARES
Diretor: Rodrigo de Oliveira e Vitor Graize
2011 – Ficção – 123 Min.
ESTRADEIROS
Diretor: Sérgio Oliveira
2011 – Documentário – 79 Min.
HU (Hospital Universitário)
Diretor: Pedro Urano e Joana Traub Csekö
2012 – Documentário – 75 Min.
MENTIRAS SINCERAS
Diretor: Pedro Asbeg
2011 – Documentário – 75 Min.
NO LUGAR ERRADO
Diretor: Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti
2012 – Ficção – 70 Min.
ONDE BORGES TUDO VÊ
Diretor: Taciano Valério
2012 – Ficção – 77 Min.
RÂNIA
Diretor: Roberta Marques
2011 – Ficção – 85 Min.
AUGUSTAS
Diretor: Francisco César Filho
2012 – Ficção – 83 Min.
CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS (MOSTRA COMPETITIVA)
22 (Vinte e dois)
Diretor: Diego Lisboa
2012 – Doc. experimental – 10:47 Min.
A FÁBRICA
Diretor: Aly Muritiba
2011 – Doc. experimental – 15 Min.
A NOITE DOS PALHAÇOS MUDOS
Diretor: Juliano Luccas
2011 – Ficção – 15 Min.
A SOLIDÃO DE DOM QUIXOTE
Diretor: Vinícius Vasconcellos e Márcio Vasconcellos
2012 – Ficção – 15 Min.
APHASIA
Diretor: Cainan Baladez
2011 – Ficção – 18 Min.
AURORA
Diretor: Roney Freitas
2011 – Ficção – 20 Min.
CAJAÍBA
Diretor: João Borges
2011 – Documentário – 17:57 Min.
CORPO PRESENTE
Diretor: Marcelo Pedroso
2011 – Ficção – 22 Min.
DA ORIGEM
Diretor: Fábio Baldo
2011 – Ficção – 18 Min.
DIZEM QUE CÃES VEEM COISAS
Diretor: Guto Parente
2012 – Ficção – 12 Min.
DUELO ANTES DA NOITE
Diretor: Alice Furtado
2010 – Ficção – 20 Min.
ELEGANTE E FURIOSO
Diretor: Ana Paula Guimarães
2011 – Documentário – 15 Min.
ELOGIO DA GRAÇA
Diretor: Joel Pizzini
2011 – Documentário – 25 Min.
JIBÓIA
Diretor: Rafael Lessa2011 – Ficção – 18 Min.
LAMBARI
Diretor: Márcio Soares
2012 – Ficção – 14 Min.
MEDO DE SANGUE
Diretor: Luciano Coelho
2011 – Ficção– 20 Min.
MEMÓRIAS EXTERNAS DE UMA MULHER SERRILHADA
Diretor: Eduardo Kishimoto
2011 – Ficção – 15 Min.
NA SUA COMPANHIA
Diretor: Marcelo Batista Caetano
2011 – Ficção – 21 Min.
O BRASIL DE PERO VAZ DE CAMINHA
Diretor: Bruno Laet
2012 – Documentário – 17:40 Min.
O CÃO
Diretor: Abel Roland e Emiliano Cunha
2010 – Ficção – 09:39 Min.
OMA
Diretor: Michael Wahrmann
2011 – Documentário – 22 Min.
PRAÇA WALT DISNEY
Diretor: Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira
2011 – Documentário – 21 Min.
QUAL QUEIJO VOCÊ QUER
Diretor: Cíntia Domit Bittar
2012 – Ficção – 11:15 Min.
QUANDO MORREMOS A NOITE
Diretor: Eduardo Morotó
2012 – Ficção – 20 Min.
SALA DE MILAGRES
Diretor: Marília Hughes e Cláudio Marques
2011 – Documentário – 14 Min.
SÉCULO
Diretor: Marcos Pimentel
2011 – Ficção – 11 Min.
TRAVESSIA
Diretor: Kennel Rógis
2011 – Documentário – 13:50 Min.
UMA, DUAS SEMANAS
Diretor: Fernanda Teixeira
2012 – Ficção – 17 Min.
UMA PRIMEVERA
Diretor: Gabriela Amaral Almeida
2011 – Ficção – 15 Min.
VEREDA
Diretor: Diego Florentino
2012 – Ficção – 20 Min.
ZULENO
Diretor: Felipe Peres Calheiros
2012 – Documentário – 19:38 Min.
MOSTRA BRASIL ESPECIAL (NÃO COMPETITIVA)
AS BATIDAS DO SAMBA
Diretor: Bebeto Abrantes
2012 – Documentário musical – 82 Min.
HOMENS COM CHEIRO DE FLOR
Diretor: Joe Pimentel
2012 – Ficção – 90 Min.
MARCELO YUKA NO CAMINHO DAS SETAS
Diretor: Daniela Broitman
2011 – Documentário – 95 Min.
O CARTEIRO
Diretor: Reginaldo Faria
2011 – Ficção – 103 Min.
FILME DE ENCERRAMENTO
KAREN LLORA EN UN BUS
Diretor: Gabriel Rojas Vera
Colômbia. 2011 – Ficção – 98 Min.
2012
2011
2010
2009
2008
2007
2006