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Sem medo de ser Château

  • Por Luiz Horta

Vinho também tem modismos e lá vem de volta o pêndulo apontando como desejados os vinhos dos châteaux mais famosos do mundo: os de Bordeaux. É uma das melhores e mais famosas regiões produtoras do planeta. Um bordeaux evoluído, com duas décadas de idade, é um prazer imenso, e o Novo Mundo inteiro tenta copiar o estilo e a capacidade de envelhecimento exemplares.

Na clássica briga de mesa de bar a vin, tendo a preferir os bordeaux aos borgonhas. Sou grande fã da racionalidade cartesiana e da tradição bordelesa, o lugar onde a criação do homem está mais evidente. Se borgonha é pura emoção e capricho da natureza, dependendo da pureza de duas castas, do terroir e da safra, bordeaux é, em geral, a arte do blend, produto da inteligência e habilidade humanas.

All Star verde. Sylvie Courselle em seu château, o Thieuley, exemplo da nova face de Bordeaux, informal. FOTO: Luiz Horta/Estadão

É uma fascinante disputa entre as duas irmãs-rivais. E ser um borgonhólatra ou um bordólatra define muito da personalidade de alguém. Não que eu prefira só bordeaux, basta tomar um Gevrey de Philippe Pacalet e viro a casaca na hora. Quando bebo um borgonha perfeito, fico borgonhês desde criancinha. Mas o momento é bordelês de novo.
Não é uma volta espontânea, por trás do sucesso há uma grande campanha para atrair novos bebedores, espantar o preconceito geracional e mostrar vitalidade. Deu certo. Como mostra o artigo de Eric Asimov abaixo, o medo acabou, os clientes e sommeliers já não estão mais assustados pela complexidade das sub-regiões e, mais importante, não temem mais os preços. Porque bordeaux pode ser caro.

Foi o fator preço o que mais afastou bebedores. Dinheiro novo na mão de chineses e russos e alta pontuação de Parker transformaram os grandes rótulos em fortunas impagáveis, por ostentação ou especulação.

Uma vez, muito tempo atrás, bebendo um Grange com o diretor da mais famosa empresa australiana, a Penfolds, ele me disse: “Bebem mais Mouton 82 em um ano em Las Vegas que a produção inteira do Château no século…”. Tenho visto nas redes sociais que aqui acontece fenômeno parecido. Estão enxugando rótulos que são para guarda muito antes da hora, com uma voracidade que transforma tesouros em refrigerante, e o prazer vai embora junto.

Mas, felizmente, não precisa morrer na grana para beber um vinho representativo da região e impressionar a mesa ao lado. Já fiz várias colunas sobre bordeaux de bom preço. E como novos vinhos continuam chegando, vale continuar provando. A mais recente foi sobre os ótimos rótulos trazidos pela rede de supermercados Saint Marché.

Hoje selecionei 4 garrafas, de quase 20 abertas recentemente. São dois vinhos do Château du Champ des Treilles, que, apesar do nome enorme, é um fundo de quintal, projeto pessoal do diretor do grande Pauillac biodinâmico da família Tesseron, o Château Pontet-Canet. Acho o Pontet-Canet o mais bem-sucedido bordeaux biô no meio dos big names.
Os outros dois são de uma produtora que visitei no ano passado, quando estive degustando os vinhos do grupo Oxygène. Trata-se do Château Thieuley, comandado pela moça de tênis verde da foto, Sylvie Courselle, ao lado de sua irmã Marie. O Château Thieuley tem tradição, duas jovens cuidando da enologia e vinhos gostosos, cheios de alegria, por um preço correto. Enxuguei a garrafa do refrescante branco e bebi o tinto com um frango assado dominical. Há um excelente tinto mais caro (R$ 148, o Reserve Francis Courselle), mas preferi me ater aqui aos abaixo de R$ 100. E me senti muito contente.

Grand Vin 2008 – Muito Bom
Château du Champ de Treilles. Belo nariz de frutas vermelhas com toques de defumado, boca longa, acidez focada e taninos finos. Suculento (R$ 89, Delacroix, tel.: 3034-6214)

Rouge 2010 – Muito Bom
Château Thieuley. Nariz intenso, com a Cabernet Franc aparecendo. Boca macia, taninos finos e a mineralidade da região. Fácil de beber (R$ 98, Ravin, tel.: 5574-5789)

Petit Champ 2010 – Muito Bom
Ch. du Champ des Treilles. Nariz muito frutado, boca com potência e elegância, taninos presentes, acidez agradável. Mineral e de corpo médio. Muito fino (R$ 75, Delacroix)

Blanc 2011 – Muito Bom 
Château Thieuley. Puro frescor, corte de Sémillon com um pouco de Sauvignon, intensamente mineral, equilibrado, matador de sede e saboroso. Ótimo achado (R$ 95, Ravin)

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 17/3/2013

Esnobismo anti-Bordeaux chega ao fim

  • Por Luiz Horta

Um brinde com Eric Asimov

Era comum, até recentemente, ver jovens sommeliers de Nova York se congratulando por esnobar os raçudos Bordeaux, que viam como símbolo antiquado de riqueza e presunção, coisa do passado. Consideravam tais vinhos fora de moda e, pior, irrelevantes. Como as coisas mudam rápido… Não, os vinoscenti do Brooklyn não adotaram Bordeaux como mais uma atitude irônica. Mas a resistência acabou por fazer do lugar (que ainda é a principal região produtora do mundo) um inesperado local alternativo. Muitos dos que exibiam seu sentimento anti-Bordeaux como uma medalha, passaram a gostar dos seus vinhos. “Acho que virou uma forma de novo Jura”, diz Daniel Johnnes, importador e responsável pelos vinhos do Grupo Dinex de Daniel Boulud, comparando Bordeaux com a região quase esquecida do leste da França, que virou a queridinha da vanguarda dos enófilos na última década. “Era tão pouco cool beber Bordeaux que quem bebe agora é muito cool.” Talvez ele exagere um pouco. Verdade que se Bordeaux não virou a coisa mais legal do mundo, pelo menos superou o desprezo anterior. Jovens bebedores e sommeliers agora respeitam a história e a tradição do lugar, e apreciam os seus vinhos. O novo interesse é verdadeiro e Johnnes, que fez mais que qualquer um para aumentar o gosto americano pelos borgonhas nos últimos 25 anos, passou em 2010 a importar uma coleção de Bordeaux de preços módicos, de denominações de origem menos conhecidas, como Côtes de Bordeaux Castillon e Montagne-St.-Émilion. “Foi um estouro, superou em três vezes nossa expectativa”, exulta.

FOTO: Luiz Horta/Estadão

Há mais acontecendo, o mais significativo talvez tenha sido a BurdiGala, uma degustação festiva realizada no mês passado, com uma dúzia de produtores renomados servindo vinhos e batendo papo com os convidados. O evento (o nome é um trocadilho com Burdigala, nome histórico em latim da região de Bordeaux) culminou com um jantar black-tie para 200 pessoas preparado por Alain Ducasse e servido sob a cúpula bizantina da Igreja de São Bartolomeu, no East Side. Se trajes formais, chef com três estrelas Michelin e um cenário pomposo não são exatamente contrários à imagem esnobe que infernizou Bordeaux anteriormente, o genial da ocasião foi reunir os 40 sommeliers mais importantes da cidade, formadores de opinião decisivos na área de vinhos, para um serviço perfeito e entusiástico. “No nosso mundo, sempre quisemos surpreender os outros sommeliers oferecendo vinhos de regiões pouco conhecidas ou vinhos raros” disse Bernard Sun, chefe de bebidas do grupo de Jean-Georges. “Desta vez houve unanimidade.”

Se os consumidores voltarão a beber Bordeaux, serão vinhos de denominações menos conhecidas. A qualidade cresceu muito, mas ainda é preciso garimpar. “Bordeaux pode ser muito complexo, com estrutura incrível e um dos vinhos mais capazes de envelhecer”, comentou Pascaline Lepeltier, gerente do Rouge Tomate, que tem uma das melhores cartas de Manhattan. “Fazendo o dever de casa dá para encontrar coisas sensacionais. Não é fácil nem óbvio.”

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 17/3/2013

Bordeaux de prateleira

  • Por Luiz Horta

Vinho e supermercado eram palavras que se repeliam como água e álcool. Razões havia: tratamento desleixado, prateleiras superiluminadas cozinhando garrafas, más experiências (tive diversas) com vinhos totalmente perdidos – Beaujolais Nouveaux de 2005 vendidos em oferta 5 anos depois da safra, festivais de vinhos oxidados (bom, importadoras também fazem ofertões muy amigos…) e as seleções repetitivas, sem imaginação. Além do preconceito: o medo de aparecer com um vinho desconhecido e barato e ser motivo de ridículo nos meios enochatos.

Em 17/2/2011, o Paladar fez uma capa sobre o assunto, que até hoje repercute. Encontro gente que ainda se guia por ela para fazer compras de vinhos, e cita a matéria. Era sobre comprar vinho para o dia a dia, com a carne, as frutas e uma barra de chocolate, pagar no caixa e ir para casa, beber sem muita firula. Lembro como foi divertido, instrutivo e surpreendente rodar vários lugares e escanear prateleiras em busca de vinhos bebíveis sem susto. Não eram tão poucos quanto eu julgara, também cheio de predisposições negativas. Saiu uma listinha de clássicos naquela edição. Alguns continuam seguros para qualquer contingência, como o Periquita, os Concha y Toros mais simples, a linha Volpi da Salton. Um dos supermercados visitados foi o Saint Marché da Praça Panamericana, de onde destaquei um bom espanhol, o Pinuaga.

De lá para hoje, a rede Saint Marché, com o elétrico Bernardo Ouro Preto no comando, virou colecionadora de rótulos com importação exclusiva. Bernardo viaja para todas as feiras – Vinitaly, Prowein, Vinexpo… –, prova, escolhe e azucrina os produtores (a palavra é dele). Gruda no sujeito até conseguir o vinho por bom preço. Como compra em escala (contêineres) para distribuir na sua rede de16 lojas e Empório Santa Maria, geralmente vence. E aqui, quando os vinhos chegam, pratica o que motiva esta coluna: repassa o preço bom ao consumidor. Não parece estar perdendo dinheiro.

Venceu duas resistências de uma só vez: vende mais barato e tem qualidade, e faz isso em supermercados. Os inseguros que têm vergonha de chegar em um jantar levando uma garrafa comprada ali na esquina, mesmo que o vinho seja ótimo, não se acanham em apresentar um produto de supermercado nobre. Finalmente, pois ingleses, americanos, franceses, fazem isto sem constrangimento. Pense bem, a Grand Épicerie do Bon Marché, em Paris, com esse nome pomposo e de fazer biquinho, é sortida, incrível, meu lugar favorito para comprar comida, mas é um supermercado. Vinho é o que está na taça, não o pacote da loja que envolve a garrafa.

Fui provar os 80 rótulos que já compõem a lista de importação própria de Bernardo. Tem ótimo Chianti Classico, bons espanhóis, bons chilenos, e oito Borgonhas, de um básico a um Gevrey-Chambertin, todos abaixo de R$ 300. Decidi escrever sobre os Bordeaux. São 12 vinhos, 11 abaixo de R$ 200. Elegi tais 11 para degustar às cegas, com amigos que não sabiam do que se tratava. Ouvi suas opiniões e selecionei os cinco de que gostei mais, um deles, por casualidade, o La Salle de Château Poujeaux, que faz parte do grupo de jovens vinicultores que estão dando uma arejada na cara vetusta da região, o Bordeaux Oxygène.

Um detalhe sobre os vinhos do Saint Marché. Há Bordeaux mais classudo no meio, mais ligeiro, mais complexo. E um dos que mais agradaram ao grupo, como vinho para ter em casa e beber sem grandes rituais, o Le Bordeaux de Maucaillou, um básico, custa R$ 57. Eis uma boa lista para acompanhar assados festivos de final de ano.


La Salle Poujeaux | FAVORITO
Nariz complexo com toque de alcaçuz. Boa boca, ótima acidez, taninos marcados. É um vinho longo. Está pronto para beber, mas aguenta esperar um bom tempo. Muito bom (R$ 98).


Château Larteau | MUITO BOM
Nariz de fruta escura, bem profundo. Na boca é elegante, equilibrado, longuinho e satisfatório (R$ 76).

Chantegrive Graves | MUITO BOM
Toque verdoso no nariz, dá para sentir um pouco da madeira. Na boca, taninos delicados e boa acidez. Equilibrado e fino (R$ 119).


Frank Phellan | BOM 
Toque rústico no nariz que agrada. Taninos levemente secantes, bem bordelês. Pronto para agora. Bom vinho com comida (R$ 135).


Le Bordeaux de Macauillou | BOM
Nariz sedutor. Na boca é muito bom, taninos delicados, acidez no lugar; uma surpresa (R$ 57).

FOTOS: Divulgação

VIAGEM ENGARRAFADA

Parada 55/100
Bordeaux, França
Corte bordalês
Boas garrafas, a bom preço, em supermercado em São Paulo

>> Veja todos os textos publicados na edição de 13/12/12 do ‘Paladar’

Coisas graves acontecem no vale do Uco

  • Por Luiz Horta

Jean-Jacques Bonnie tem jeito de tenista escandinavo, é de origem belga e fala português perfeito, com forte sotaque lusitano, aprendido da ama portuguesa na infância. E é produtor de vinhos. Em menos de um ano estive com ele em três países diferentes, bebendo seus tintos e brancos. O curioso é que só consegui prová-los todos ao mesmo tempo em São Paulo. Bonnie está sempre em fase de colheita e vinificação, pois enquanto na França os líquidos descansam nas barricas, na Argentina é tempo de vindima, e vice-versa.

Capturei-o, junto a Helô Lupinacci, editora-assistente do Paladar, numa escala entre Mendoza e Bordeaux para almoçarmos. Ele é da família proprietária de dois châteaux em Bordeaux, o Château Malartic de Lagravière – Grand Cru Classé de Grave e o Château Gazin Rocquencourt, onde mora com a mulher, Séverine, e os filhos, em Pessac-Léognan. Os bordeaux já são tradicionais, antigas propriedades trabalhando hoje de modo impecável.

A novidade, a teteia para os Bonnies, entretanto, é a bela vinícola DiamAndes, uma das mais impressionantes que conheço em Mendoza. A cordilheira quase entra sala adentro e no dia em que almocei lá tinha caído uma nevasca na noite anterior. A paisagem ofuscava, era de sair para esquiar, se eu praticasse tal temeridade. Os Bonnies foram os mais recentes franceses a terminar a bodega, no coletivo do Clos de los Siete – projeto capitaneado pelo enólogo Michel Rolland que reúne sete produtores bordaleses em um belo pedaço de terra no Vale do Uco.

É extraordinário um importante produtor bordalês fazer, com os mesmos cuidados e qualidade, vinhos argentinos. E não é exagero traçar um paralelo entre as garrafas dos dois hemisférios.
Quando fui para a prova, pensei: os argentinos vão tomar um chocolate dos franceses, vão parecer doces e pesados, desequilibrados. Pois foi um belo empate.


Grande argentino
O imponente DiamAndes Gran Reserva (R$ 165, na Grand Cru, tel. 3062-6388) tem tantas qualidades que lamento a prova não ter sido às cegas. Eu hesitaria bastante em apontá-lo no mapa. É solene, delicado, presente e longo na boca, com um nariz muito fino. Não sei se será longevo (parece que sim, era um 2007 e estava vigoroso, com anos pela frente), mas certamente dá imenso prazer. E ainda tem bom preço, por ser relativamente desconhecido. Quando começar a ganhar prêmios, será um dos grandes argentinos, fácil. Chegou onde a Argentina quer chegar: um grande vinho com qualidades francesas, sem perder o traço local. Está no mesmo nível de outros favoritos da região – Catena Zapata Viñedo Nicasia, um Malbec single vineyard, e seu vizinho, o Alfa-Crux blend de O. Fournier.


Afinados
Os brancos não desafinam. Afinal, Bonnie vem de uma região notável pelos brancos. O DiamAndes de Uco Chardonnay (R$ 95) é amadeirado no nariz, mas não repete o carvalho na boca e é fácil de beber. A surpresa foi o Viognier (R$ 95), ainda na segunda safra engarrafada. Demonstra, de novo, que a uva tem futuro na Argentina.


Malbec com elegância
O DiamAndes de Uco Malbec (R$ 95) tem corpo, acidez, estrutura delicada e muita tipicidade. Mostra a matéria-prima exemplar que conseguem na propriedade argentina


Um bom começo
E resta falar do Perlita (R$ 65), algo como o segundo vinho do “château” mendocino de Jean-Jacques. É o moderninho, de camisa listrada (palavras do próprio produtor, que diz que a referência para a criação do rótulo está nos vidros de perfume) e feito para exibir a exuberância da fruta. É para beber logo, fresco, até frio, e serve como caminho para se chegar aos senhores mais fechados que são os demais tintos – e como apresentação a uma outra forma de beber Malbec.


Faça a prova
Não é exagero dizer que Bonnie conseguiu fazer um Graves de Uco. Uma sugestão provar, às cegas, o DiamAndes Gran Reserva (R$ 165 na Grand Cru) com o segundo vinho do produtor em Bordeaux, o Le Comte de Malartic (R$ 180, também da Grand Cru). No Argentino, 70% Malbec e 30% Cabernet Sauvignon, a Malbec faz o papel da Merlot no corte do francês (50% Merlot, 45% Cabernet Sauvignon e 5% Cabernet Franc). Minerais e longos, mostram como um bordalês pode influenciar e ser influenciado pelos Andes.

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