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Esnobismo anti-Bordeaux chega ao fim

  • 13 de março de 2013
  • 23h00
  • Por Luiz Horta

Um brinde com Eric Asimov

Era comum, até recentemente, ver jovens sommeliers de Nova York se congratulando por esnobar os raçudos Bordeaux, que viam como símbolo antiquado de riqueza e presunção, coisa do passado. Consideravam tais vinhos fora de moda e, pior, irrelevantes. Como as coisas mudam rápido… Não, os vinoscenti do Brooklyn não adotaram Bordeaux como mais uma atitude irônica. Mas a resistência acabou por fazer do lugar (que ainda é a principal região produtora do mundo) um inesperado local alternativo. Muitos dos que exibiam seu sentimento anti-Bordeaux como uma medalha, passaram a gostar dos seus vinhos. “Acho que virou uma forma de novo Jura”, diz Daniel Johnnes, importador e responsável pelos vinhos do Grupo Dinex de Daniel Boulud, comparando Bordeaux com a região quase esquecida do leste da França, que virou a queridinha da vanguarda dos enófilos na última década. “Era tão pouco cool beber Bordeaux que quem bebe agora é muito cool.” Talvez ele exagere um pouco. Verdade que se Bordeaux não virou a coisa mais legal do mundo, pelo menos superou o desprezo anterior. Jovens bebedores e sommeliers agora respeitam a história e a tradição do lugar, e apreciam os seus vinhos. O novo interesse é verdadeiro e Johnnes, que fez mais que qualquer um para aumentar o gosto americano pelos borgonhas nos últimos 25 anos, passou em 2010 a importar uma coleção de Bordeaux de preços módicos, de denominações de origem menos conhecidas, como Côtes de Bordeaux Castillon e Montagne-St.-Émilion. “Foi um estouro, superou em três vezes nossa expectativa”, exulta.

FOTO: Luiz Horta/Estadão

Há mais acontecendo, o mais significativo talvez tenha sido a BurdiGala, uma degustação festiva realizada no mês passado, com uma dúzia de produtores renomados servindo vinhos e batendo papo com os convidados. O evento (o nome é um trocadilho com Burdigala, nome histórico em latim da região de Bordeaux) culminou com um jantar black-tie para 200 pessoas preparado por Alain Ducasse e servido sob a cúpula bizantina da Igreja de São Bartolomeu, no East Side. Se trajes formais, chef com três estrelas Michelin e um cenário pomposo não são exatamente contrários à imagem esnobe que infernizou Bordeaux anteriormente, o genial da ocasião foi reunir os 40 sommeliers mais importantes da cidade, formadores de opinião decisivos na área de vinhos, para um serviço perfeito e entusiástico. “No nosso mundo, sempre quisemos surpreender os outros sommeliers oferecendo vinhos de regiões pouco conhecidas ou vinhos raros” disse Bernard Sun, chefe de bebidas do grupo de Jean-Georges. “Desta vez houve unanimidade.”

Se os consumidores voltarão a beber Bordeaux, serão vinhos de denominações menos conhecidas. A qualidade cresceu muito, mas ainda é preciso garimpar. “Bordeaux pode ser muito complexo, com estrutura incrível e um dos vinhos mais capazes de envelhecer”, comentou Pascaline Lepeltier, gerente do Rouge Tomate, que tem uma das melhores cartas de Manhattan. “Fazendo o dever de casa dá para encontrar coisas sensacionais. Não é fácil nem óbvio.”

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 17/3/2013

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Tem uma formiga no meu Malbec

  • 6 de março de 2013
  • 23h10
  • Por Luiz Horta

Estou impressionado pelo número de menções na coluna ao homem terroir, o consultor chileno Pedro Parra, saxofonista frustrado que trocou o instrumento por uma pá e virou único Ph.D. em solo da América do Sul. Nos últimos meses ele apareceu em artigos trabalhando com a família Zuccardi, com o enólogo do Vieux Télegraphe, com a Undurraga no projeto terroir hunter e com seus próprios vinhos do Clos de Fous. Não surpreende, portanto, que surja de novo como um D’Artagnan do subsolo junto dos três mosqueteiros da bodega Altos Las Hormigas.

Os formigueiros e seu D’Artagnan de terroir. Alberto Antonini, Pedro Parra, Antonio Morescalchi e Attilio Pagli estão em São Paulo apresentando os vinhos. FOTOS: Divulgação

A história das garrafas das formigas é bem conhecida aqui, os vinhos foram trazidos desde sua criação pela Mistral e agora mudam de importador, passando para a World Wine. Quatro dos formigueiros estão em São Paulo, pela primeira vez juntos, para a apresentação das novas safras e degustação dos vinhos.

A empresa começou quando Alberto Antonini, enólogo toscano viajante, ex-Antinori, descobriu em Mendoza, em 1995, terras cheias de potencial, infestadas por formigas. Com dois sócios, Morescalchi e Pagli, comprou 260 hectares e plantou Malbec, só Malbec. Os vinhos sempre foram agradáveis, expressivos e densos.

A incorporação de Parra ao projeto, em 2006, deu a eles uma personalidade adicional, um sentido de lugar, coisa que faltava (e ainda falta em muitos vinhos argentinos) nos rótulos da empresa. Fez mais, desenvolveu um belo exemplar de vinhedo único, o Vista Flores Single Vineyard.

Os vinhos básicos são muito bons, satisfatórios no descompromisso, para todo dia, em especial o Bonarda Colonia Las Liebres. A casta Bonarda, gata borralheira da viticultura mendocina, esmagada pelo sucesso da Malbec e pela qualidade dos Cabernets da região, nunca foi levada muito a sério, mas quando é, dá gostosos vinhos frutados para consumo rápido, um ou dois anos no máximo, que podem ser servidos frescos, passados pela geladeira ou balde de gelo. É vinho para ter sempre à mão e levar para refeições relaxadas, tomar uma taça com sanduíche de mortadela ou fazer perfeita companhia a uma pizza de calabresa.

Vista Flores Single Vineyard 2007 – Excelente
Nariz profundo de frutas roxas, floral de violeta. Na boca, taninos delicados, mineralidade, aula das possibilidades da Malbec (R$ 350, World Wine, tel.: 3383-7477)

Colonia Las Liebres Bonarda 2012 – Muito Bom
Minha ideia de felicidade, vinho muito frutado, tinto que pode ser tomado gelado, para o dia a dia, amigo de comidas simples e sem rituais, matador de sede (R$ 39)

Malbec Terroir 2010 – Muito Bom
Agradável floral no nariz, corpo médio, boa acidez, concentrado sem ser gordo, toque mineral e taninos muito bem trabalhados, passa por ripas de carvalho francês. Ótimo vinho (R$ 74)

Malbec Reserva 2009 – Muito Bom
Mais complexo no nariz, toque cítrico e de madeira. Taninos marcados, finos, boa evolução, passa 18 meses em carvalho francês e é um vinho elegante e suculento (R$ 102)

Malbec Clásico 2012 – Muito Bom
O irmão mais simples da família, faz bom par com a Bonarda, para beber logo, sem compromissos e aos goles amplos. Fácil, amigável, entrega o que promete, um Malbec para o cotidiano (R$ 49)

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 7/3/2013

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Ventos de renovação franceses chegam a Mendoza

  • 6 de março de 2013
  • 23h05
  • Por Luiz Horta

Um brinde com Sébastien Lapaque

Quando se escuta falar em vinicultor francês em Mendoza, o que vem ao pensamento é uma multinacional, com investimentos em escala industrial, bodegas gigantescas edificadas no sopé da Cordilheira dos Andes e assinada por um arquiteto mundialmente renomado.

Quem poderia acreditar, então, que os ventos de renovação que arejam os vinhedos da França nos últimos 25 anos chegariam tão longe, até a Argentina?

Quando chegou à região em 2005, Vincent Wallard trazia apenas uma bagagem, a concepção de vinhos tais como os ideados pelos vinhateiros franceses da Nouvelle Vague.

Uma ideia afinada a cada estação, enquanto participava das colheitas e vinificações em Bourgueil, com Catherine e Pierre Breton; em Bandol, no château de la Tour du Bon; e no Languedoc, no Domaine des Dimanches de Emile Heredia. Foi com o último, produtor na época residente na região de Coteaux du Vendômois, que sonhou fazer um vinho em Mendoza, virando as costas para os padrões estabelecidos pelos modelos internacionais.

“Meu encontro com Alberto Cecchin, herdeiro de uma antiga família de vinicultores com propriedades bem no centro da região de Maipú foi decisiva”, explica Vincent Wallard. Alberto tinha descoberto os vinhos alternativos e estava interessado no movimento Slowfood. Sua vinícola foi aos poucos sendo convertida para a prática da agricultura biô, mas ele ainda avançou mais, ousando produzir um Malbec sem adição de dióxido de enxofre, nas safras dos anos 2006, 2007, 2008 e 2009, que foi a mais recente a ser comercializada.

A tarefa de levar a revolução cultural seguinte até Mendoza, a de produzir um Malbec argentino por maceração semicarbônica, caberia à dupla Wallard e Emile Heredia, seguindo os jovens vinhateiros franceses da atualidade, ávidos por vinhos gostosos e cheios de fruta, taninos delicados e uma acidez presente oriunda da uva, coisa essencial em Mendoza, onde o problema de sua ausência é, geralmente, corrigido com uma boa dose de ácido tartárico adicionado na cantina.

Em março de 2011, 14 toneladas de uvas colhidas no momento exato, quer dizer, com muita acidez natural presente, foram vinificadas com mínima intervenção, o que permitiu a eles produzir, na Bodega Cecchin, 8 mil garrafas de 750 ml e 1.200 magnuns do vinho chamado de Cuatro Manos, vinho natural de Mendoza, com uma delicadeza e um sabor e frescor que o posicionam longe dos Malbecs tradicionais andinos. O Cuatro Manos está mais próximo de seus irmãos gêmeos franceses, feitos com a casta Côt, nome da Malbec nos arredores do Loire.

Esse vinho de autor, poético, cruzou de volta o Atlântico, nas mãos de Vincent Wallard, em novembro de 2012, para ser vendido em alguns cavistes e restaurantes excepcionais de Paris, Londres e Quebec. Foi um primeiro ensaio. Mas o renascimento promovido por Wallard e Emile Heredia comprova que um vinho francês com um espírito novo é possível na América do Sul. Sonho agora com uma experiência igualmente apaixonante acontecendo no Brasil!

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 7/3/2013

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Deguste olhando o mapa

  • 28 de fevereiro de 2013
  • 1h20
  • Por Luiz Horta

Um escritor chileno do século passado, Benjamín Subercaseaux, definia a paisagem do país em um título de livro saboroso: Chile, ou uma Geografia Louca. Tem deserto no norte e geleira no sul; pouco mais de cem quilômetros separam os Andes do Pacífico; e há vinícolas no perímetro urbano da capital, às quais se chega de metrô. Em clima tão variado e espaço tão pequeno, sobram terroirs. O Chile é invencível em possibilidades para vinhos.

Quando uma grande empresa como a Undurraga decide explorar tal potencial é um acontecimento, aula de variedades de uvas e de solos diferentes. Conheci a série T. H. (T. H. são as inicias de terroir hunter, mais ou menos, caçador de terroirs) em uma visita dois anos atrás, apresentada pelo jovem enólogo Rafael Urrejola, que tem a assessoria do onipresente Pedro Parra, o mister terroir da América do Sul. O projeto começou em 2007 e hoje envolve 35 microrregiões. Naquela degustação só conheci três vinhos – um Pinot excelente e dois brancos.

Agora, com a importação da linha completa pela Abflug (tel. 2306-7959) comparei 10 vinhos dos 12 existentes (R$ 110 cada garrafa, independentemente da casta ou safra). Confirmei algumas predileções e tive boas surpresas. São seis regiões: West Limarí (Chardonnay), Casablanca (Pinot e Sauvignon), Maipo (Cabernet e Syrah), Lo Abarca (Sauvignon e Riesling), Leyda (Sauvignon e Pinot) e Maule (Carignan). É notável a diferença, por exemplo, entre os três Sauvignons Blancs ou os dois Pinots Noirs, uma pequena aula de influências de clima sobre vinhos. Pela qualidade, não são caros. Recomendo comprar todos entre amigos e repetir a prova, olhando no mapa e entendendo a decisiva presença dos ventos frios do oceano no maravilhoso Riesling e nos ótimos Pinots, ou da altitude e amplitude térmica de Maule no suculento Carignan.

Viagem engarrafada
- Parada nº 59/100, Chile
- Carignan, Riesling e outras
Uma só vinícola e um enólogo dão aula de geografia do vinho chileno em série de garrafas

Sauvignon Blanc Leyda 2010 – Muito Bom
Nada tropical, sério, austero, um SB de outra dimensão. Delicioso de beber, mas com complexidade e corpo. Impressionou.

Carignan Maule 2009 – Muito Bom
Nariz floral de violetas, toque de alcatrão. Equilibrado na boca, fino, taninos em evolução, acidez matadora de sede.

Pinot Noir Leyda 2009 – Muito Bom
Expressivo, carnudo e sanguinolento. Boa acidez, corpo delicado, elegante, suculento e com taninos finos. Muito típico da casta.

Riesling Lo Abarca 2010 – Muito Bom
Nariz puro e típico da casta. Límpido, bom corpo, ótima acidez mineral, equilibrado e longo, com potencial de guarda

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 28/2/2013

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Deu branco no ouriço

  • 20 de fevereiro de 2013
  • 21h48
  • Por Luiz Horta

Tem vinho para tudo, embora nem tudo precise de acompanhamento de vinho. Estamos em um momento meio maníaco, como se precisássemos de vinho no banho, vinho com pipoca, vinho para ver futebol e outro para eleição papal.

Harmonização se tornou uma palavra curinga, quase cacoete, perdeu o sentido. Gosto da máxima, acho que de Hugh Johnson: olhe a região e o que há para comer com o vinho que produzem e lá está a harmonia criada pela natureza. Harmonizações têm tornado as refeições geradoras de ansiedade em lugar de oportunidades de prazer.

Recuso a excessiva cientifização das combinações de comida e bebida. Tem dias de só beber uma coisa e relaxar. A troca sem fim de taças e estilos de vinho fica enfadonha, todo mundo tenso, “será que o branco barricado vai dar certo com meu suflê?”. O pior que pode acontecer é dar errado, então é só abrir outra garrafa ou tentar outro dia. Nunca é o apocalipse. Mera série de tentativas e erros.

Feito o desabafo, passo ao que chamei teoria geral do descompromisso, inventada no embate entre vinhos e ouriço.

Levei três garrafas para o restaurante e depois acrescentei duas outras em outro jantar. Podia pedir um saquê; há tantos estilos da bebida, que é bem próprio para comida japonesa (a regra de Johnson de novo). Já foi até assunto de uma capa do Paladar. Mas me lembrei, rindo, da boutade perfeita de Saul Galvão: “Sushi com saquê é pleonasmo de arroz”. E nem tudo é sushi e arroz na cozinha japonesa.

Na degustação feita para a matéria de capa sobre uni comemos quase nada de arroz, um único bolinho. Logo, os vinhos cumpriram o que se esperava deles, uns mais, outros menos. Nenhum ficou horrível, apesar da minha aposta original, o Jerez Manzanilla, ter sido o menos entusiasmante. O que funciona de verdade com o marinho, quase maresia, do ouriço? Branco bem ácido com alguma doçura residual presente.

LEIA MAIS: E aí, vai ouriçar?

Não era o que eu previa, mas foi o que a língua exausta me disse: um alívio para o mar.

O Chablis, elegante, foi ótimo com os frutos do mar, crus ou cozidos levemente, com sushi e com pratos com ovos. Com uni dependeu do prato, excesso de salinidade é ok, porque Chablis é mineral, mas o iodo atrapalha um pouco seu desempenho.

O leve, refrescante e frutado espumante de Moscatel, coisa que eu acho uma grande vocação brasileira e estou provando para outra coluna, foi muito bem. Era doce e com baixo teor de álcool e agradou bastante na boca.

O Jerez foi chocante. Não combinou, apesar de ser fácil com frituras e peixes no estilo espanhol, lulas fritas; ficou bem só com o tempurá. Quem reinou foi o Riesling, acidez focada e ligeiríssima doçura que apareceu em contraste com o sal e aguentou até o wasabi.

Não fiquei totalmente convencido, reforçando o que disse no início, não era um dia para vinhos. Melhor mesmo seria chá, litros de chá-verde, que amacia e acaricia a língua fatigada.

Bossa 4 Moscatel – Bom
Hermann
Uma boa novidade, vinho elaborado para a importadora Decanter, com todo o frescor da Moscatel. Leve, mineral e doçura certa. Com 7% de álcool, é uma delícia e custa pouco (R$ 25, Decanter, tel. 3073-0500)

Mont de Milieu 2009 – Muito bom
La Chablisienne
É o mineral do grupo, foi bem com frutos do mar. Boa acidez, longo, cheio de frescor, é coisa séria. Fácil
de beber (R$ 120, Interfood, tel. 2602-7255)

Riesling Herrenweg 2009 – Muito bom
Domaine Barmès Buecher
Alsaciano típico, é o que melhor se deu com os ouriços. Boa evolução, aroma melífluo, acidez e açúcar em equilíbrio e corpo refinado (R$ 90, Casa Flora, tel.: 2842-5199)

La Bota de Manzanilla Pasada – Excelente
Equipo Navazos
Era meu trunfo, um vinho magnífico dos detetives do Jerez. Mas não sabe brincar, e ouriço também não. Não
se entenderam, apesar de o vinho ser um favorito. Sem importador no Brasil

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 21/2/2013

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O Crusoé de Mallorca

  • 13 de fevereiro de 2013
  • 21h00
  • Por Luiz Horta

Toda ilha é uma ilha. Por mais próxima do continente que esteja, continuará cercada de água, com isolamento e limites determinantes. Talvez por isso eu sinta os vinhos produzidos em ilhas como originais, esquisitos, impertinentes. Mesmo antigos e tradicionais, como os Madeiras, são fruto de uma visão afastada das grandes massas de terra, carregam uma poesia adicional, mais no estilo homem versus terroir que cúmplice dele.

Os exemplos são inúmeros: os de uva Assyrtiko em Santorini, Monica na Sardenha, os de Vermentino na Córsega, as várias castas sicilianas e os peculiares vinhos da Ànima Negra maiorquina. Nem sempre são uvas autóctones, mas ganham características especiais nas versões insulares. O solo vulcânico da Sicília é uma prova do que estou dizendo. E o ilhéu é antes de tudo um precavido. A possibilidade de faltar tudo de repente e ele ficar lá, como um Crusoé, é grande. Por isso a vinicultura em ilhas é diferente, precisa ser inventiva, improvisadora.

Conheci Miquel Ángel Cerdá, um dos proprietários da vinícola Ànima Negra, alguns anos atrás. Um boêmio workaholic, se o termo faz sentido. Um amigo dele herdou um vinhedo com uvas estranhas para nós, Callet, Mantonegre e Fogoneu. Chamou Cerdá, que naquele momento tocava uma empresa (de um barco só) ligando a costa Valenciana na Espanha a Mallorca. Ele vendeu o barco (“transformei madeira em madeira”, contou) para comprar barricas e, mais ou menos consciente de que beberiam todo o vinho eles mesmos, pensou que pelo menos não faltariam boas garrafas à mesa.

As primeiras vinificações foram feitas em um curral abandonado, parte da propriedade, usando instalações originalmente destinadas a ordenha e processamento de leite. O vinho seguiu o estranho caminho que fazem as coisas predestinadas. Foi casualmente provado por Parker. Bem pontuado, virou líquido de desejo. Os preços subiram, os sócios viraram empresários.

Cerdá continua igual, mesmo sendo dono de uma vinícola cult. Toda vez que vem ao Brasil me presenteia com um livro de um artista de que gostamos muito: Miquel Barceló. Foi Barceló que desenhou os rótulos do Son Negre, o caro e raro vinho top da AN. Fez um peixe sobre um envelope que estava na mesa da cozinha, rasgou e presenteou aos amigos: “Está aqui seu rótulo”. Quando me encontro com ele sinto que as utopias são possíveis. Bebemos seus extraordinários vinhos e raramente falamos deles, mas da vida.

A Callet ganhou o mundo. É realmente autóctone e seu habitat ideal é o solo argilo-arenoso da ilha de Mallorca. Os vinhos da Ànima Negra, totalmente orgânicos, foram incluídos na Arca do Sabor do Slow Food. Os dois sócios começaram a explorar outras variedades regionais, em blends, como nos vinhos que descrevo ao lado.

Toda viagem a São Paulo, Miquel Àngel fala de seu sonho que é vender tudo e voltar para o mar, ficar navegando e olhando as estrelas com a família. Continua queimado de sol, de camisa aberta no peito e desconfortável nos hotéis de luxo. Seus olhos sorridentes só brilham de fato quando conta da matança anual do porco e das festas em Felanitx, essa sua cidade com som de irredutível aldeia de história em quadrinhos e meros 20 mil habitantes.

De tanto sonhar inventou Quibia, apelido que dá ao mar Mediterrâneo, um lugar mítico onde tudo é bom, nome de seu vinho branco e local não geográfico, que pertence a quem for e quiser ser seu cidadão. Um dia Cerdá vai mesmo recomprar seu barco e voltar ao mar. Melhor beber seus vinhos antes disso.

VIAGEM ENGARRAFADA
Parada nº 58/100
Mallorca, Espanha
Callet, Mantonegre, Fogoneu
Variedades autóctones da ilha valenciana, recuperadas pela vinícola Ànima Negra

ÀN/2008  - Favorito
Não fica devendo ao bem mais caro ÀN 2007. Feito de Callet com um pouco das outras variedades locais e toque de Syrah, tem nariz especiado e, na boca, está ganhando com o passar do tempo. (Esgotado em 750 ml, disponível em magnum, R$ 295)

Muac 2010 – Muito bom
É o frutado e amigável de família, feito para consumo despreocupado. Callet com Mantonegre e algo de Cabernet Sauvignon, é gostoso de beber, com acidez para comida e corpo médio (R$ 62)

Quibia 2011 – Muito bom
60% Premsal e 40% Callet vinificada em branco, ganha corpo e não perde frescor. Branco de alma tinta, com nariz cítrico e mineral. Na boca é denso, com boa acidez que implora por mariscos (R$ 87, todos na Mistral, tel. 3372.3400)

ÀN 2007 – Excelente
Um acontecimento, 95% Callet de vinhedo único com baixa produção. É escuro, sóbrio, majestoso. Boca intensa, muito corpo, taninos polidos. Ainda não atingiu seu auge, mas está delicioso. Um grande vinho, que custa caro (R$ 476)

>>Veja todas as notícias da edição do Paladar de 14/2/2013

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O Pinot filhote do homem-tatu

  • 6 de fevereiro de 2013
  • 21h30
  • Por Luiz Horta

Fiz duas longas degustações de Pinot Noir da América do Sul logo que assumi esta coluna, três anos atrás. O efeito Sideways – Entre umas e outras, filme que colocava a Pinot como única uva digna de atenção e achincalhava a Merlot, ainda era quente. Suas reverberações foram tão fortes que até hoje há quem plante Pinot na esperança de pegar um rescaldo do sucesso cinematográfico. São as aberrações da cultura de massa. Nem todas as uvas se dão bem em toda parte. A insistência em países sem uvas autóctones (e mesmo aqueles) em ter um Pinot seu é geralmente frustrante. Mesmo assim, insistem – em alguns casos, admito, com bons resultados.

Nas duas degustações de Chile e Argentina de anos atrás a decepção foi, mais ou menos, generalizada. Salvaram-se os patagônios de Rio Negro, que voltarão em breve a ser provados aqui: os Bardas e Humbertos Canales. Mesmo promessas como o chileno Sol de Sol, de Viña Aquitania, fruto da mesma artesania que gera o Chardonnay maravilhoso do mesmo nome, talvez o melhor da nossa região, saiu-se mal. Casualmente, voltei a provar esse vinho agora, na safra corrente no mercado brasileiro, a 2008, e que mudança! Foi isso, mais o Clos de Fous, filhote do homem-tatu, Pedro Parra, que vem escavando terroirs dos dois lados da Cordilheira, que me motivou voltar a provar a casta. “Give Pinot a chance”, pensei.

Tem uvas que são globe-trotters, adaptam-se com facilidade, as chamadas variedades internacionais. É possível achar Cabernets e Chardonnays decentes em qualquer lugar, mesmo que nada notáveis. Já bons Pinots fora da Borgonha se contam em dezenas e não em milhares. Mesmo na Borgonha, a uva temperamental só se mostra na sua beleza com parcimônia.

Pois os chilenos surpreendem. O Clos de Fous tende ao amigável, com muita tipicidade. É delicioso, equilibrado e diz com firmeza ser Pinot, do lado claro e feminino da uva. O Aquitânia é de outra prateleira, dos para guarda longa. Tem pretensões mais evidentes, no estilo másculo, com taninos marcados, excelente acidez e vai indo imutável nos seus cinco anos de vida. O Leyda é mais simples, boa compra, para beber logo e ser feliz. E o Marques de Casa Concha, com a mão certeira de Marcelo Papa, seu enólogo na Concha y Toro, é bem chileno, concentrado, denso, mas guarda boa pinoteidade. Um quinto vinho que fez bela figura foi o Undurraga Terroir Hunter T.H. Tão bela que resolvi deixá-lo para uma próxima coluna.

Agora sim, sem decepção, posso dizer que temos Pinots sul-americanos.

VIAGEM ENGARRAFADA

Parada nº 57/100
Várias regiões do Chile

Pinot Noir
A uva delicada, tão ligada à Borgonha, está com boa adaptação nas regiões mais frias do Chile

Clos de Fous 2010 – Muito bom
Nariz muito típico, sanguinolento e com toque de defumado. Na boca é excelente, longo, acidez perfeita, mineral. Surpreendente. Pedro Parra está só começando… (R$ 168, Ravin, tel.: 5574-5789 ).

Marques de Casa Concha 2010 Concha y Toro – Muito bom
Fruta madura e toque compotado. Intenso na boca, taninos para amaciar, muito bem produzido, com longo retrogosto, em um estilo potente  (R$ 110, preço sugerido. VCT Brasil, tel.: 5105-1599).

Leyda Reserva 2011 – Muito bom
Nariz frutado, boca ainda bem jovem, é mais simples, mas muito satisfatório pelo preço, tem qualidades de Pinot, sem ser notável. Bom para introduzir a casta (R$ 47, Grand Cru, tel.: 3062-6388 ).

Sol de Sol 2008 Viña Aquitania – Muito bom
Nariz de frutas escuras, vetusto, bem sério na boca, para guarda, ainda está no início de sua vida, ótima e elegante acidez e taninos presentes mas muito finos. Um grande vinho (R$ 106, Zahil, tel.: 3071-2900).

>> Veja todos os textos publicados na edição de 7/2/13 do ‘Paladar’

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E quem liga para a pronúncia?

  • 30 de janeiro de 2013
  • 20h38
  • Por Luiz Horta

Gewurztraminer, também conhecida apenas como Traminer, é uma uva complicada. Com esse nome impronunciável, mais comum na Alsácia e com aparições principalmente na Alemanha e Itália, sensível no cultivo, delicada na hora de vinificar, podendo resultar em vinhos desequilibrados e alcoólicos, anda meio esquecida, quase fora de moda.

Facilmente seria abandonada na vala comum das curiosidades. Mas, como toda uva caprichosa, quando dá certo, em bons vinhos aromáticos, refrescantes e bem estruturados, encanta e se torna uma mania. Tive esse encanto umas poucas vezes. Foram marcantes memórias e sou um apreciador da casta. O mundo não é só das uvas facinhas e produtivas. O desafio é importante.

Sempre achei que a Torrontés era sua parente. Ambas têm intenso aroma floral, ambas podem ter um traço amargo aborrecido no final e as duas tendem aos vinhos de alto teor alcoólico. O novo big book com todas as variedades, livro de consulta diário desde o lançamento, Wine Grapes, dirime as dúvidas de parentesco. A Traminer é europeia. Apareceu por mutação e foi mencionada pela primeira vez apenas século e meio atrás, na Alemanha.

Exatamente um ano passado, estive na Serra Gaúcha e experimentei ainda em tanque inox, recém-fermentado, o Gewurztraminer Valduga. O enólogo me deu a taça sem dizer o que era, um branco, ainda sem filtrar. O nariz era um sopro de lichia e lírio e eu acertei na hora a variedade, coisa que acontece uma vez em uma vida. Ponto para a tipicidade. Se esse negócio de traços típicos das castas existe, a prova é isto: uma uva que coincide com sua descrição. Fiquei encantado e cismei que a região era adequada para a uva.

Quando decidi fazer esta coluna, comecei a procurar exemplares brasileiros de Traminer. Confirmei o problema que tem o vinho brasileiro: a distribuição. Consegui só os três vinhos que aqui estão, embora existam outros.

O Valduga, engarrafado agora, um ano depois da minha primeira experiência, perdeu parte do aroma, mas continua muito equilibrado, bem feito, de bom corpo e acidez marcada com um contraponto elegante de doçura. Um vinho muito bom. O Angheben também é virtuoso, tem floral discreto no nariz, boa acidez, corpo mais leve, é bem fácil de beber com comida (os Anghebens são da região italiana onde a Gewurztraminer se notabiliza, o Trentino-Alto Ádige, fronteira com a Áustria). E o Luiz Argenta tem bom nariz, mas é um pouco monocromático na boca, acidez um pouco deslocada. Nenhum deles tem álcool exagerado.

 

FOTOS: Filipe Araújo/Estadão

Casa Valduga – Muito bom

Nariz de lichias, bem típico. Na boca tem interessante doçura que faz lembrar os alsacianos, gostoso de beber, bem feito e sem traço de amargo

Angheben 2012 – Muito bom

Nariz discreto, com toque floral. Boa boca, bem matador de sede, corpo médio, elaborado com cuidado, não cai nas armadilhas da uva, tem muita elegância

Luiz Argenta – Muito bom
Nariz floral com um toque lácteo, bem amanteigado. Faz, curiosamente, lembrar a Grüner Veltliner, com algo repolhoso, picante e com acidez pronunciada

+ Argenta: designs que não vêm para o bem

ONDE COMPRAR

Angheben (R$ 36, Vinci Vinhos, tel.: 3130-4500); Valduga (R$38,90, mais frete, www.bebidaonline.com.br)
Luiz Argenta (R$ 44,90 mais frete, www.boccati.com.br)

VIAGEM ENGARRAFADA

Parada 56/100
Vale dos Vinhedos, Serra Gaúcha, RS, Brasil

Gewurztraminer
Uva não muito comum, mas que tem qualidades na região

>> Veja todos os textos publicados na edição de 31/1/13 do ‘Paladar’

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Designs que não vêm para o bem

  • 30 de janeiro de 2013
  • 20h35
  • Por Luiz Horta

FOTO: Filipe Araújo/Estadão

A garrafa do Argenta merece um registro. É bem bonita vazia: vira um vaso elegante e vai enfeitar muitas mesas. Um belo trabalho de design em vidro. Mas será um terror para os sommeliers (escorregou, quando gelada, várias vezes da minha mão) e faz pensar na desnecessidade dessas criações de departamentos de marketing.

Jovens vinícolas caem nessa; mesmo velhas empresas tropeçam na desenhite. Acham que se modernizarem a embalagem atrairão essa entidade abstrata, os jovens. Mas os jovens parecem estar em busca de preço baixo e álcool alto, ou seja, de vodca.

+ E quem liga para a pronúncia?

Já passaram pelo momento garrafa exótica a própria Valduga e a Pericó, só para mencionar duas nacionais, que caíram na real e voltaram para os formatos convencionais.

O Argenta é bom e poderia dispensar o chamativo da embalagem exótica, confiar no líquido para conseguir mercado. A qualidade do vinho segura o que vale.

Ainda não desisti da ideia de ampliar esta degustação, com os vinhos que não consegui provar.

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França recupera castas

  • 30 de janeiro de 2013
  • 20h20
  • Por Luiz Horta

Um brinde com Maria João de Almeida

O ser humano é mesmo assim, volta não volta gosta de mudar, provar coisas novas, seguir tendências e modas. E o vinho não fica atrás. Já lá vão alguns anos que a guerra das castas começou. Logicamente, as mais conhecidas eram as francesas, que se difundiram em grande escala pelo mundo afora, mas depois o consumidor quis experimentar outras coisas, surgindo castas de outros países muito interessantes que foram conquistando o paladar dos consumidores pela diferença.

Vários especialistas sabem que Portugal tem a desvantagem de não ter quantidade suficiente, mas por outro lado confirmam a vantagem da qualidade e originalidade das nossas castas.

Espanha e Itália, por exemplo, têm maior quantidade que Portugal, mas jogam com as mesmas armas no que diz respeito às castas, já que utilizam variedades tradicionais para a produção de seus vinhos, e sabem aguçar a curiosidade do consumidor cansado de tanto Chardonnay, Sauvignon Blanc, Cabernet Sauvignon ou Syrah. Porque já são muito conhecidas e utilizadas e porque seu perfil, apesar de em cada país adotarem um comportamento diferente, acaba sempre por ter as mesmas nuances.

Entretanto a França, que na maioria das vezes está sempre na vanguarda dos conhecimentos enológicos, tardou a perceber isso, agarrada que está à produção dos seus vinhos sempre com as mesmas castas (que, apesar de tudo, continuam a funcionar no mercado). Mas agora parece que acordaram, já que alguns produtores franceses estão a tentar recuperar variedades nativas à beira de desaparecer.

Atualmente existem cerca de 7 mil variedades de Vitis vinifera no mundo, e o Instituto Nacional de Pesquisa Agrícola da França (Inra) preserva 2.600. Dessas, somente 250 estão a ser plantadas, e 95% das vinhas francesas são dominadas por 40 variedades (15% delas castas como a Chardonnay, Merlot, Pinot Noir e Syrah).

Robert Plageoles, um dos pioneiros do projeto de recuperação de castas, mora em Castelnau-de-Montmirail (centro da denominação de origem de Gaillac) e vem de uma família de viticultores. Para que as castas nativas não desaparecessem, começou a cultivar em 1982 a Ondenc, uma variedade branca típica de Gaillac, que na época era banida.

Outra cepa branca pouco conhecida e cultivada por Plageoles é a Verdanel. Essas duas se incluem no grupo das 15 variedades que historicamente eram cultivadas na região, mas deixaram de ser plantadas e agora estão voltando a surgir.

Por sua vez, Nicola Gonin, proprietário de terras em Rhône-Alpes, afirmou recentemente que o futuro da vitivinicultura francesa depende, em parte, da revitalização de seu patrimônio. Em 2005, começou a plantar a uva Persan e conta que podia ter ido à falência se tivesse continuado com as uvas tradicionais. Hoje, graças a essas variedades, vende vinho para Nova York, Chicago e Tóquio; antes disso, era um mero produtor desconhecido. Por último, a Plaimont, uma cooperativa do sul da França que lançou recentemente um vinho produzido com uvas de videiras pré-filoxera (datada de 1871), andam também a restaurar vinhas de forma a preservar a herança histórica. A cooperativa é, aliás, a detentora atual da maior coleção ampelográfica (banco de videiras) particular da França, o Conservatoire Ampélographique du Saint Mont, e tenta identificar mais variedades que possam ser salvas no futuro. Segundo Olivier Bourdet-Pees, técnico e diretor da cooperativa, o futuro dos vinhos franceses passa pela produção de vinhos com estas variedades ainda não identificadas. E é capaz de ter razão.

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