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Dessa vez não sofri

  • 15 de maio de 2013
  • 23h29
  • Por Luiz Horta

Prefiro a existência virtual à física. Gosto de escrever, mas detesto falar em público. A primeira degustação que dirigi, alguns anos atrás, foi um sofrimento prévio enorme, dias pensando que o assunto terminaria e o tempo sobraria. E minha voz fraca, não chega lá no fundo do auditório e preciso usar microfone, onde acabo produzindo ruídos estranhos de gargarejo. É comum, no meio da prova, cheirar o microfone em lugar da taça e fazer papelão. Apesar disso, passada aquela degustação, ganhei mais confiança e fiquei menos travado diante da plateia.

No 7.º Paladar – Cozinha do Brasil participei da aula Como Escrever sobre Vinho. Na verdade, foi mais “como é feita uma coluna Glupt!”. Para me garantir, destaquei uma região que conheço bem: a Rioja. Elegi somente os Reservas. Escolhi os vinhos, que foram comprados e servidos às cegas, como habitualmente faço. Os participantes inscritos eram amigáveis e interessados, generosos também por fazerem boa cara para minha pouca prática de palco. Fiquei lá na frente, sem muito conforto mental.

FOTO: Tadeu Brunelli/Estadão

Os vinhos tiveram desempenho bem significativo, todos estavam corretos, embora dois fossem menos brilhantes que o esperado. Analisamos a tipicidade, aquelas qualidades que mostram que são de onde vieram, estavam lá os traços que Saul Galvão chamava “DNA da Rioja”: a uva Tempranillo, só ou em corte, com seus aromas de tabaco, a presença notável de carvalho, em geral americano e bem integrado, a acidez saborosa e o equilíbrio.

Os participantes votaram nos seus prediletos. Dois ficaram empatados em primeiro: o Heras Cordón Reserva 2005 (R$ 144, Grand Cru Importadora, tel.: 3062-6388) e o Viña Tondonia Reserva 2001 (R$ 237, Vinci, tel.: 3130-4500). Depois veio o Viña Salceda 2005 (R$ 237, Mistral, tel.: 3372-3400). Como o vencedor aparece com destaque e sempre coloco duas ou três garrafas adicionais ao lado, pedi que escolhessem qual seria a destacada. Foram muito sensatos, eu tinha contado que o decano da família López de Heredia, os geniais produtores do Tondonia, morrera no mês passado e eu pretendia dedicar uma coluna a ele, optaram então por destacar o Heras Cordón e falar depois dos vinhos todos da vinícola dos Tondonias. O Heras Cordón surpreendeu de fato, bem elegante, taninos finos, muito expressivo. Gostei pessoalmente do Viña Salced, mas não entrei na votação, estava muito bom, com taninos um pouco mais duros. Na foto, aparece um vinho extra, uma surpresa que servi no final. Um Cabernet chinês, que ninguém adivinhou, claro. Era decente e foi um bom exemplo de como incluo estas esquisitices na coluna. Depois de tantas taças (eu falei para cuspirem, mas não vigiei se me ouviram…), ficamos batendo um papo instrutivo para mim sobre o que os leitores esperam. Não sofri, quero repetir.

Vinho chinês não veio para brincar
Comprei o Cabernet da China na enorme loja de departamentos berlinense KaDeWe, por 7,90 euros. Achei que era só pegadinha. Na aula, foi adequado, taninos secantes, corpo médio. Veio após os Riojas, coitado. Mas é vinho e não uma piada.

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Vinhos acentuam brilho do Noma

  • 1 de maio de 2013
  • 20h00
  • Por Luiz Horta

A coisa não começou muito bem. Fui de metrô até o Noma, a reserva era para meio-dia. Cheguei pontual, com ligeira folga de tempo. Fazia muito frio e vento de carregar Mary Poppins. Fiquei fazendo fotos de turista na entrada quando o maître veio me buscar. Abriu a porta do restaurante e dei de cara com a brigada inteira, em formação de tropa a ser passada em revista, com René Redzepi à frente, esperando. Perdi a nonchalance. Sem saber o que fazer, lembrei do conselho do famoso coreógrafo americano Ted Shawn: “When in doubt, twirl” (em dúvida, rodopie). E tropecei. Mas o constrangimento passou, com o sommelier John Sonnichsen alegrando meu fiasco da chegada com os vinhos adequados. Não é fácil combinar vinhos, em geral. Harmonizá-los com liquens, musgos, fígado de bacalhau e camarão vivo, além de uma série de berries cujo nome desconhecemos, é pura loucura. Minha tarefa, felizmente, não era escolher os vinhos, mas entender as opções já feitas pelo treinadíssimo John, com quem marcara entrevista. E foi sublime.

Ele é um entusiasta dos vinhos biodinâmicos e naturais. Concordamos de cara no gosto comum pelo Jura. Animou-se tanto por termos os vinhos do Domaine Tissot no Brasil que trouxe o iPhone para mostrar sua foto com Stephane Tissot, em visita recente ao vinicultor.


John Sonnichsen harmoniza vinho até com camarão vivo. FOTO: Luiz Horta/Estadão

O restaurante tem dois sommeliers; o outro estava em Champagne, fazendo contatos. Procuram sempre fazer visitas a pequenos vinhateiros. O Noma possui carta ampla, com grandes Bordeaux e tal, vinhos de luxo, para o público jet set que quer pagar caro e beber líquidos preferidos. Já a paixão, bem sintonizada com o pensamento focado em sabor e produto e não em pompa, do chef Redzepi, é por vinhos alternativos. Das dez taças que compuseram meu menu, conhecia só o nome de Overnoy.

Meus destaques foram o citado Savagnin 2003 Maison Pierre Overnoy, Pupillin, Jura, e o espetacular Saumur Champigny Clos Rougeard 2006, teteia de Cabernet Franc. A preocupação de Sonnichsen é evitar taninos agressivos e caprichar na acidez e fineza. Um ótimo Kabinett do Mosel, o Kestenbusch 2011 Weingut Trossen, completou meu trio inesquecível. A ênfase é nos brancos, e os tintos têm um espírito delicado.

Em ambiente de comida tão relevante, importa deixá-la falar. As bebidas e a seiva de bétula (que entra no lugar da água, maravilhosa, lembra água de coco sem doce) trabalham pelo brilho dos pratos.

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 2/5/2013

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De receitas ao Instagram

  • 1 de maio de 2013
  • 19h59
  • Por Luiz Horta

No bate-papo pós-almoço com René Redzepi, na cozinha de cima do restaurante, que serve também como escritório, enquanto a brigada comia seu rango (bem apetitoso, costelinha com kimchi, deu para vislumbrar) e eu esperava a hora de visitar o Nordic Food Lab, falamos de seus planos. Ele lembrou dos tempos heroicos do Noma, quando fiz uma reserva em 2003 e ele mesmo respondeu o e-mail (“eu atendia o telefone também”) e comentou, casualmente, que está preparando novo livro, cujos originais acaba de entregar à editora Phaidon.

Novo livro de René Redzepi revela receitas e rotina do Noma. FOTO: Lefteris Pitarakis/AP

Terá três partes. A primeira é um diário do restaurante no ano de 2010; a segunda, 103 receitas produzidas naquele mesmo ano; e a terceira, um caderno pequeno, estilo moleskine, com imagens no jeito rapidinho do Instagram, de fotos tiradas pelo staff e com comentários divertidos do chef. O lançamento está previsto para novembro.

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 2/5/2013

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Vinhos alpinos (ou quase)

  • 17 de abril de 2013
  • 23h30
  • Por Luiz Horta

A França é tão densamente vinícola que se permite ignorar regiões inteiras, menosprezando-as como “regiões sem vinhos”. É verdade que umas poucas, como a Normandia, são mesmo desprovidas de uvas, pelo clima grotescamente gelado e úmido (mas com cidras excelentes, para compensar).

Entre os diversos supostos buracos negros de viticultura, vão sendo descobertos enclaves de delícias. O Jura já venceu a barreira do desconhecimento – não há enófilo que não sorria diante de uma garrafa de Vin Jaune. Agora foi a vez de conhecer a Savoie, a Savoia, esbarrando na Suíça, com clima alpino, altitudes grandes para o padrão europeu de plantio (cerca de 600 metros nos pré-Alpes) e castas autóctones ou das regiões vizinhas: Pinot Noir, Gamay, Mondeuse, nos tintos; Roussanne, a tão suíça Chasselas, a esperada Chardonnay e a autóctone que me encantou, a Jacquère, nos brancos.

Provei apenas dois vinhos, ambos com preço bem amigável, mas a garrafa do branco esvaziou bem mais rápido. A Jacquère do Domaine de l’Idylle é uma uva enganosa. Parece simples, neutra, discreta, boa acidez, bem suíça. Tem um ponto bem distante de doce na boca, bastante para fazer que combine com chucrute e carne de porco, por exemplo. Predomina um grande frescor da acidez, que faz beber mais e com goles amplos. Mas inocente ela não é. Servida não muito gelada, liberou aromas de pera e toque cítrico; porém o que seduziu foi a mineralidade e a capacidade de ir combinando com toda a comida, inclusive queijos de cabra frescos. Ganhou complexidade para enfrentar uma torta de maçã ácida e ainda deu uma sambadinha magistral com abricots e frutas. Não sobrou gota.

O produtor é biodinâmico, familiar, tradicional, pequeno, tem 18 hectares no parque natural do maciço de Bauges, todo em solo argilo-calcáreo, e é um dos Vignerons Independents, o que quer dizer em francês de vinho moderno: do lado claro da força. É o Domaine de L’Idylle, que o importador Geoffroy de Sayve conheceu em uma de suas peregrinações e foi “amor ao primeiro gole”, como disse quando confessei que o branco tinha se tornado um favorito instantâneo para mim.

O tinto era gostoso, no estilo frutado e amplo dos vinhos com baixos taninos e bom de beber passado velozmente pela geladeira. Tem diversas virtudes de bebebilidade, principalmente a acidez (queria muito uma palavra em português tão descritiva quanto mouthwashing) salivante. É vinho para assados, aves sobretudo – e vivo escrevendo esta heresia: vai com um frango assado. Mas por que não? O que comemos domingo não é um franguinho? Poderia dizer (e funcionaria) que seria ótimo com codornas, perdizes e outras caças, mas ouso no máximo, na nossa mistura de asfalto e concreto sugerir um pato bem crocante. Mesmo assim, o branco me arrebatou de tal maneira que fico com ele.

FOTOS: Divulgação

Cruet 2011 – Favorito!
Domaine de l’Idylle. Branco da casta autóctone Jacquère, fresco, mineral, com aroma de peras e leve toque adamascado. Mata a sede com generosidade, combina com uma refeição inteira. Estou encantado (R$ 55, Delacroix, tel. 3034-6214)

Arbin 2011 – Muito Bom
Domaine de l’Idylle. Muita fruta, taninos macios, para beber frio com aves assadas. Gostoso e suculento, feito com a casta Mondeuse, faz lembrar um Gamay mais encorpado, agradável e bom de beber (R$ 72, Delacroix)

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 18/4/2013

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Kasher, sem tremedeira

  • 10 de abril de 2013
  • 22h30
  • Por Luiz Horta

Quando me falavam em provar vinhos kasher eu tremia. Eram horríveis, doces, de uvas não viníferas. Nunca pensei que ia poder usar na mesma frase a palavra excelente em conexão com um vinho kasher.

Outra surpresa nesta coluna foi ter gostado, mas gostado muito, de um Prosecco, uva medíocre que só resulta em espumantes pop-pop para casamentos. As duas coisas aconteceram na prova dos vinhos trazidos por uma nova importadora, a Confraria Kasher.

Para serem classificados como kasher (adequados para consumo, em tradução bem livre) e autorizados para os judeus que observam as práticas religiosas, o vinho (como os alimentos) precisam ser produzidos segundo as regras alimentares do kashrut, uma normativa estabelecida secularmente. Uvas colhidas e manuseadas na cantina por religiosos, supervisão do processo de vinificação e aprovação de um rabino e – o que destruía todos os líquidos – pasteurização.

Além disso, eram usadas, em geral, uvas de Vitis Labrusca, variedades americanas, que dão no nosso vinho de garrafão. No caso a mais comum era a Concord, ainda bastante utilizadas nos vinhos das cerimônias e para a missa católica. Imagine um vinho de garrafão muito doce e pasteurizado. Era o que tínhamos.

Anos atrás provei inúmeros, com ajuda do simpático caviste Simon Knittel da Kylix Vinhos (que vende, na sua ótima loja, outros vinhos também, esclareço) e não deu para arrancar maná de pedra, eram todos suco de uva enjoativo.

A Confraria Kasher está trazendo cerca de 40 rótulos, inclusive champanhe Perrier-Joüet. Mas o que mais me encantou foi um Cru Bourgeois do Médoc, o Château Le Bourdieu.

Eric Asimov, colunista do New York Times, escreveu recentemente sobre a ceia de pessach, o seder e perguntou: “onde está escrito que os vinhos kasher precisam ser adocicados? Embora os judeus mantenham laços sentimentais com os prazeres dos fermentados geleiosos feitos com uvas Concord, alguns querem beber bem; beber bons vinhos”.

A técnica de purificação pelo calor foi bastante sofisticada e seu efeito religioso mantido, sem dano aos vinhos. Antes eles eram praticamente cozidos, para serem considerados totalmente kasher (a palavra Mevushal aparece no rótulo, e quer dizer que os vinhos foram levados a mais de 150 graus de calor, com o imaginado desastre causado ao líquido). Agora há ligeira e eficaz pasteurização. Nenhum dos vinhos que provei estava adulterado, todos mantinham acidez, taninos e equilíbrio perfeitos.

Château Le Bourdieu 2009 – Excelente
Nariz refinado, muito bordelês, boca intensa, ótima acidez, vivaz e longo, tão fácil de beber que acabei por tirá-lo da mesa de degustação para a de jantar. Belo Bordeaux (R$ 100).
Confraria Kasher: tel. 95205-4720

Prosecco Primo Brut – Muito Bom
Boa surpresa, um Prosecco com densidade, corpo e boa acidez, em lugar da tradicional aguinha sem graça dessa uva. Posso até falar em complexidade (R$ 66).

Château de l’Anglais 2009 – Muito Bom
Nariz com toque verdoso, gostoso na boca, sem o vigor do outro Bordeaux. Correto, equilibrado, um pouco curto na boca, taninos levemente secantes (R$ 95).

Cava Gudufredo Brut – Bom
O menos interessante do grupo, mas com um preço bom. Acidez abaixo do esperado e leve amargo final, não entusiasmou, embora bem frio seja boa companhia para petiscos (R$ 35).

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 11/4/2013

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Um rebelde gentiluomo

  • 10 de abril de 2013
  • 22h00
  • Por Luiz Horta

Um paradoxo: poder dizer que um conservador foi revolucionário – apenas por ter teimado em continuar o que era bom, sem mania de mudança. Franco Biondi Santi, um dos maiores nomes dos Brunellos de Montalcino, morreu esta semana aos 91 anos, e foi o maior revolucionário da região toscana por ter perseverado em não modernizar seus espetaculares vinhos.

Franco Biondi Santi (1922-2013). FOTO: Divulgação

Recusou o uso de barricas novas de carvalho, evitando mascarar as virtudes naturais da casta Sangiovese, lutou contra a introdução de variedades estrangeiras nos seus vinhos. Durante a guerra, emparedou com o pai safras que vinham desde o século 19. Em vertical de cem anos de produção, a revista Decanter atribuiu nota máxima ao Brunello Biondi Santi, safra…1891!

Esse turrão amável era, no dizer de todos os necrológios aparecidos na imprensa especializada, antes de mais nada, um gentiluomo del vino. A importadora Mistral (tel. 3372-3400) tem disponíveis, algumas garrafas dos Brunellos Riserva 2005 (R$ 755) e 2004 (R$ 2.785). Para quem quiser homenageá-lo da melhor maneira: bebendo.

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 11/4/2013

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Uma família vinífera

  • 4 de abril de 2013
  • 19h52
  • Por Luiz Horta

Passou por São Paulo um dos maiores personagens do mundo do vinho, don Miguel Torres. História do vinho de qualidade na Catalunha, os Torres são parte do distinto grupo de famílias produtoras de grandes vinhos reunidas no clube Primum Familiae Vini, junto com os Hugels, os Rothschilds, os Drouhins, Pablo Alvarez (de Vega Sicilia), os Antinoris, os Symingtons, os Billys (de Pol Roger) e Egon Müller.

O que, surpresa, não quer dizer obrigatoriamente vinhos caros, mas vinhos bons e feitos com esmero.

Torres tem todo tipo de vinho. Viña Sol e Esmeralda, sua faixa simples, já me deram grandes alegrias. Desta vez, reencontrei meu estimado Mas La Plana. É sempre divertido lembrar que numa degustação às cegas, décadas passadas, Mas La Plana deu um chocolate em alguns bambambãs de Bordeaux e colocou o Penedés no mapa da Cabernet Sauvignon, tirando a região da tirania de só produzir cava.

Nesta visita tive a chance, exclusiva para o Paladar, de provar minivertical de Jean Léon, safras 1977, 1988 e 1994.

Jean Léon, o cidadão, nasceu humilde nas Astúrias, batizado Ceferino Carrión. A extrema pobreza fez a família se mudar para Barcelona nos anos 1940. Aos 19 anos, migrou para os Estados Unidos, alistou-se no Exército durante a guerra (quando mudou o nome para Jean Léon) e acabou trabalhando para Frank Sinatra e Joe di Maggio, no restaurante Villa Capri, sociedade de ambos. Em 1965, Léon abriu, com James Dean, um restaurante que pretendia ser o mais cool e exclusivo de Hollywood, o La Scala. Decidiu que o restaurante teria vinhos próprios e voltou à Espanha, comprou um vinhedo no Penedés, batizou-o de La Scala Vineyard e, ali, com o plantio de Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot, começou em 1962 a história dos vinhos que provei esta semana. Jean Léon morreu em 1969, mas deixou a vinícola aos cuidados de seu grande amigo Miguel Torres. Desde 1990, é uma das filhas do produtor, Mireia Torres, quem cuida da enologia empresa.

Dos três vinhos que bebi, o 1977, com 35 anos de idade, era o que menos me despertava expectativa. Surpreendeu: nariz sedutor, vivo, com incenso, couro, frutos secos e cor intensa, evolução inesperada. Na boca, dá sinais de começar a cansar, os taninos estão muito delicados, mas a acidez, viva. Um vinho delicioso, no fim de sua longa trajetória. O 1988 decepcionou, talvez pela garrafa; algum acidente fez com que o vinho oxidasse. Parecia mais velho que o 1977, bem decaído. O 1994 foi a estrela do trio, elegante. Vivaz, fino e muito saboroso, de extrema complexidade. Era o único dos três feito por Mireia Torres.

Continuei a degustação com o Manso de Velasco 2009 (produzido no Chile por Miguel Torres, o filho), que consegue ser chileno, nos traços delicados de piracina e eucalipto no nariz, mas com boca europeia, um grande vinho. E culminei com o Mas La Plana, ainda jovem, mas extraordinário, um dos grandes, sem dúvida, que merecerá sempre destaque. Um dos meus vinhos favoritos de toda a vida.

Mas La Plana 2006 – Favorito!
Torres
Pode ser resumido em uma palavra: soberbo. É um dos grandes vinhos da Espanha, ainda jovem, nariz intenso, enche a boca, acidez marcada, taninos finos, longo e com uma elegância pedagógica. Vinho de beber toda a garrafa, é preciso refrear a vontade (R$ 259).

Jean Léon 1994 – Excelente
Jean Léon/Torres
Estupendo. Nariz complexo, profundo e com vivacidade. Na boca, extremamente elegante, acidez perfeita, longo, encorpado sem peso algum, taninos macios (R$ 510).

Jean Léon 1988 – Bom
Jean Léon
Infelizmente uma garrafa prejudicada, provavelmente por vazamento de oxigênio através da rolha. Mostrava-se decaído e estava oxidado (R$ 454).

FOTO: Luiz Horta/Estadão

Jean Léon 1977 – Muito Bom
Jean Léon
Que surpresa! Um vinho catalão com longevidade de grande Bordeaux. Nariz de couro, folhas úmidas, flores secas. Boca com acidez viva, corpo equilibrado e longo. Está no fim da vida, mas delicioso (R$ 510).

ONDE COMPRAR
Importadora Devinum
tel.: 2532-7201
 >> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 4/4/2013

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Salton lança os Intensos

  • 28 de março de 2013
  • 17h03
  • Por Luiz Horta

O Paladar provou, em primeira mão, a linha Intenso. São vinhos como os que Angelo Salton chamava – com sua simpatia inesquecível – de honestos e que tinha especial gosto em produzir. Para o dia a dia, expressivos, fáceis de beber e que não roubam a cena da comida. Fico feliz que a empresa mantenha essa meta.

A nova linha da Salton chega com preço sugerido de R$ 29,90 (espero que os revendedores respeitem o valor). São seis vinhos, Cabernet Franc/Malbec; Cabernet Sauvignon; Merlot/Tannat; Marselan/Teroldego; Merlot; e Sauvignon Blanc/Viognier.

Provei todos, agradáveis e sem arestas, mas gostei em especial do fresco e aromático Sauvignon com Viognier 2012, do Cabernet Franc com Malbec 2011, macio e delicado, e do delicioso e sedutor Merlot 2009.

Preço razoável. Linha chega ao mercado com preço sugerido de R$ 29,90. FOTO: Divulgação

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 28/3/2013

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Bacalhau tem sede de branco

  • 28 de março de 2013
  • 0h10
  • Por Luiz Horta

Todo ano a mesma questão: que vinho combina com bacalhau? Prefiro, num estilo talmúdico ou socrático, responder à pergunta com outra pergunta: mas de qual bacalhau falamos? Assado, Zé do Pipo, moda da feira, espiritual, fresco, a esqueixada catalã com o peixe cru ou o bolinho? Para cada receita, com suas variantes de acompanhamentos, temperos e modo de cozimento, haverá um vinho diferente.

Escolhi para responder (estou ficando bom nisso, elejo a pergunta para a qual tenho uma resposta) três pratos. O que faço em casa, bem simples, só uma posta bem alta de bacalhau, radicalmente dessalgada por dias e depois levada ao forno para dourar com muito azeite e um dente de alho. A bacalhoada mais brasileira, com caldo, batatas, cebolas, ovos cozidos e folhas inteiras de couve. E uma receita contemporânea, que tenho comido com frequência, criação do chef Raphael Despirite, do Marcel: é uma posta com pele (estilo que me encanta, bem basco), um pil-pil delicado (pil-pil é uma emulsão, molho como maionese, de alho, azeite e o colágeno do peixe), palmito pupunha e, o mais sensacional, raspas secas e defumadas de peixe bonito por cima, o katsuobushi japonês. O prato é muito bonito, está aí a foto, e soma o pungente do peixe defumado com o bacalhau (demolhado em água com gás, truque de Vítor Sobral aprendido pelo chef) e o quase adocicado do palmito e da untuosa maionese. Funciona muito bem.

Bonitos. O prato e as raspas de peixe bonito que compõem a receita do Marcel. FOTO: Sergio Coimbra/Divulgação

Redoma Niepoort 10 – Muito Bom
O branco mais simples (há o reserva), com ótima acidez e madeira sutil, vai bem com o pil-pil (R$ 128, Mistral, tel.: 3372-3400)

Vale dos Alhos 10 – Muito Bom
Uma curiosidade, um Sémillon da região de Sétubal, mineral e fino, merece o pil-pil (R$ 75, Adega Alentejana, tel.: 5094-5760)

Salton Virtude 08  - Muito Bom
Ótimo Chardonnay brasileiro, com bastante madeira, mas equilibrado. Perfeito com bacalhau ao forno (cerca de R$ 55 nas lojas de vinho)

Barón de B. 10  - Muito Bom
Da uva Antão Vaz, tem complexidade e sutileza, corpo, muito bom com a bacalhoada (R$ 100, Adega dos 3, tel.: 9466-7060)

Malhadinha Nova 10  - Muito Bom
Outro Antão Vaz, com boa estrutura, acidez delicada, também para a bacalhoada (R$ 98, Empório Santa Joana, tel.:3045-9045)

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Sem medo de ser Château

  • 13 de março de 2013
  • 23h20
  • Por Luiz Horta

Vinho também tem modismos e lá vem de volta o pêndulo apontando como desejados os vinhos dos châteaux mais famosos do mundo: os de Bordeaux. É uma das melhores e mais famosas regiões produtoras do planeta. Um bordeaux evoluído, com duas décadas de idade, é um prazer imenso, e o Novo Mundo inteiro tenta copiar o estilo e a capacidade de envelhecimento exemplares.

Na clássica briga de mesa de bar a vin, tendo a preferir os bordeaux aos borgonhas. Sou grande fã da racionalidade cartesiana e da tradição bordelesa, o lugar onde a criação do homem está mais evidente. Se borgonha é pura emoção e capricho da natureza, dependendo da pureza de duas castas, do terroir e da safra, bordeaux é, em geral, a arte do blend, produto da inteligência e habilidade humanas.

All Star verde. Sylvie Courselle em seu château, o Thieuley, exemplo da nova face de Bordeaux, informal. FOTO: Luiz Horta/Estadão

É uma fascinante disputa entre as duas irmãs-rivais. E ser um borgonhólatra ou um bordólatra define muito da personalidade de alguém. Não que eu prefira só bordeaux, basta tomar um Gevrey de Philippe Pacalet e viro a casaca na hora. Quando bebo um borgonha perfeito, fico borgonhês desde criancinha. Mas o momento é bordelês de novo.
Não é uma volta espontânea, por trás do sucesso há uma grande campanha para atrair novos bebedores, espantar o preconceito geracional e mostrar vitalidade. Deu certo. Como mostra o artigo de Eric Asimov abaixo, o medo acabou, os clientes e sommeliers já não estão mais assustados pela complexidade das sub-regiões e, mais importante, não temem mais os preços. Porque bordeaux pode ser caro.

Foi o fator preço o que mais afastou bebedores. Dinheiro novo na mão de chineses e russos e alta pontuação de Parker transformaram os grandes rótulos em fortunas impagáveis, por ostentação ou especulação.

Uma vez, muito tempo atrás, bebendo um Grange com o diretor da mais famosa empresa australiana, a Penfolds, ele me disse: “Bebem mais Mouton 82 em um ano em Las Vegas que a produção inteira do Château no século…”. Tenho visto nas redes sociais que aqui acontece fenômeno parecido. Estão enxugando rótulos que são para guarda muito antes da hora, com uma voracidade que transforma tesouros em refrigerante, e o prazer vai embora junto.

Mas, felizmente, não precisa morrer na grana para beber um vinho representativo da região e impressionar a mesa ao lado. Já fiz várias colunas sobre bordeaux de bom preço. E como novos vinhos continuam chegando, vale continuar provando. A mais recente foi sobre os ótimos rótulos trazidos pela rede de supermercados Saint Marché.

Hoje selecionei 4 garrafas, de quase 20 abertas recentemente. São dois vinhos do Château du Champ des Treilles, que, apesar do nome enorme, é um fundo de quintal, projeto pessoal do diretor do grande Pauillac biodinâmico da família Tesseron, o Château Pontet-Canet. Acho o Pontet-Canet o mais bem-sucedido bordeaux biô no meio dos big names.
Os outros dois são de uma produtora que visitei no ano passado, quando estive degustando os vinhos do grupo Oxygène. Trata-se do Château Thieuley, comandado pela moça de tênis verde da foto, Sylvie Courselle, ao lado de sua irmã Marie. O Château Thieuley tem tradição, duas jovens cuidando da enologia e vinhos gostosos, cheios de alegria, por um preço correto. Enxuguei a garrafa do refrescante branco e bebi o tinto com um frango assado dominical. Há um excelente tinto mais caro (R$ 148, o Reserve Francis Courselle), mas preferi me ater aqui aos abaixo de R$ 100. E me senti muito contente.

Grand Vin 2008 – Muito Bom
Château du Champ de Treilles. Belo nariz de frutas vermelhas com toques de defumado, boca longa, acidez focada e taninos finos. Suculento (R$ 89, Delacroix, tel.: 3034-6214)

Rouge 2010 – Muito Bom
Château Thieuley. Nariz intenso, com a Cabernet Franc aparecendo. Boca macia, taninos finos e a mineralidade da região. Fácil de beber (R$ 98, Ravin, tel.: 5574-5789)

Petit Champ 2010 – Muito Bom
Ch. du Champ des Treilles. Nariz muito frutado, boca com potência e elegância, taninos presentes, acidez agradável. Mineral e de corpo médio. Muito fino (R$ 75, Delacroix)

Blanc 2011 – Muito Bom 
Château Thieuley. Puro frescor, corte de Sémillon com um pouco de Sauvignon, intensamente mineral, equilibrado, matador de sede e saboroso. Ótimo achado (R$ 95, Ravin)

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 17/3/2013

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