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Balanço mas não caio de 2013

  • 2 de janeiro de 2014
  • 17h06
  • Por Luiz Horta

Este foi um ano atípico para mim, pois passei mais tempo fora que no Brasil. Daí que fazer uma retrospectiva, aquela tradicional lista do que marcou a passagem dos meses, fica bem fora da realidade cotidiana dos anos anteriores.

Foi um ano de grandes refeições, como um jantar no Le Cinq do hotel Four Seasons George V de Paris, com visita aos subterrâneos de vinhos preciosos mantidos por Monsieur Eric Beaumard, extraordinária figura, de fulminante simplicidade e simpatia. E a visita de Joan Roca a São Paulo, mesmo longe de seu Celler de Can Roca, fazendo uma gloriosa comida.

A ida ao Noma de Copenhagen foi outro ponto perfeito de um ano completo. Vou tomar fôlego para falar de assunto que Eric Asimov tratou recentemente no New York Times: o complexo desafio que é para um sommelier a harmonização com menus longos e com ingredientes inesperados, como os de René Redzepi ou a notória formiga de Alex Atala no D.O.M. Queria me estender mais sobre o assunto, fica para uma coluna futura.

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[René Redzepi e sua lista de Copenhagen]

Mas, curiosamente, o tom foi mais o da simplicidade, das boas comidas feitas em casa, nos cinco meses passados em Berlim, com Rieslings evidentemente deliciosos, que podem ser resumidos em dois nomes, J.J. Prüm e Clemens Busch. Do último ainda falarei, pois fiz uma degustação exemplar que merece uma coluna inteira.

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[Varandinha de Berlim, com Riesling e simplicidades]

A minha primeira viagem à Borgonha, a visita a lugares “sagrados” do vinho, o encontro com personagens como o “meu tipo inesquecível” (alguém se lembra disso na velhíssima Seleções do Reader’s Digest?) Philippe Pacalet foram um privilégio. Os Pacalets (Monica, sua mulher brasileira e ele) cozinharam espetacular poulet de Bresse, comemos na cozinha com garrafas sendo abertas sem contenção e do jeito que passei a gostar, na bagunça.

 

Aliás, o que aprendi em 2013 foi: chega de degustações organizadas, tacinhas enfileiradas, ambientes de concentração e pesado silêncio de velório. A graça do vinho é a confusão, a garrafa aberta para ser bebida e não avaliada, a desnecessidade e esnobismo do desfile de rótulos. Opina-se, claro, mas sem pretender qualquer opinião dogmática. Papo de boteco com vinho.

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[Philippe Pacalet e o decantador ovarius]

Devo estar esquecendo muita coisa, quero fixar a foto do Pacalet fazendo uma brincadeira com um decantador ovarius tapando o rosto; a varanda do nosso apartamento berlinense em uma quente noite de calor, com queijo, Riesling e pão; os bistrôs Pirouette e Pramil em Paris, sugeridos pelo concierge do George V, que sabe indicar também lugares de 20 euros, os que frequenta quando deixa a casaca e veste o jeans; a cervejaria Mikkeller em Copenhagen seguida de uma visita ao túmulo de Kierkegaard, logo ao lado,no parque cemitério que fica no final da mesma rua; o bate papo de horas com Redzepi na cozinha e a lista de seus lugares favoritos que rascunhou e guardei (a cervejaria foi sugestão dele) e o divertido embalsamador de presuntos e pesquisador do exótico, Ben Reade, do Nordic Food Lab, barquinho ancorado em frente ao Noma.

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[Pithivier de aves de caça do Le Cinq, no Four Seasons George V, Parriça]

E já no apito final comi o prato do ano, um pithivier de aves de caça, no Le Cinq, uma espécie de torta muito louca com foie, perdiz, codorna, pato… um prato que parece do século XIX servido a um burguês com gota, sensacional, inigualável, retrato do inverno. Com um Cantenac Brown foi uma forma de sintetizar o ano em uma harmonização. Puro prazer, pura alegria, sem artifícios. Pode parecer paradoxal, mas é a coisa mais simples, aves selvagens e Bordeaux evoluído, algo que séculos aperfeiçoaram. A suma da gastronomia francesa.

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[Cantenac Brown, Bordeaux perfeito para o sabor de carne de caça]

Um ano em que aprendi a viver e levar o vinho menos a sério, portanto a respeitá-lo mais.

 

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Três natais em um ano

  • 2 de janeiro de 2014
  • 11h44
  • Por Luiz Horta

Passei dezembro na França, visitando a Alsácia, por uma semana (contarei tudo em breve) e depois flanando por Paris. Isso me deu a encantadora possibilidade de atravessar tradições natalinas bem peculiares. Do mesmo modo que as crianças francesas sonham com Tintin e Milou e não com Mickey Mouse, elas esperam seus presentes de outras figuras não criadas nos Estados Unidos.

Papai Noel na Alsácia é São Nicolau, que faz sua entrada em cena no dia 6 de dezembro, com as devidas companhias gastronômicas para os adultos. Come-se  quantidades descomunais de foie gras e a especialidade chamada baeckeoffe, uma calórica torta assada com carnes de vitelo, porco e cordeiro entremeadas por batatas. Com as castanhas, os biscoitos amanteigados típicos do período e os poderosos chucrutes, a presença dos Rieslings, Pinot Gris e Gewurztraminers é de rigor. Enquanto minha expectativa era por Rieslings botritizados como combinaçãocom a comida, quem se destacou foi o Pinot Gris Vendanges Tardives Trimbach 1999, um inesperado e sutil vinho doce de uma uva normalmente neutra e pouco dada a este tipo de aparição longeva e complexa, pelo menos até onde a minha ignorância sobre ela me permitia. Voltei convertido ao Pinot Gris alsaciano (e o Pinot Noir e o Pinot Blanc de lá também).

Meu segundo Natal, o tradicional, em Paris, tem menos terroir, a cidade está ocupada demais com sua beleza, olhando-se refletida no Sena o tempo todo. Meu natal parisiense foi mais urbano, Missa do Galo na espetacular igreja de St.Eustache, concerto de orgão com o grande Jean Guillou, pain d’épices, marrons em confit com vinhos doces de Maury, Sauternes e champagne.

Como capital e centro do país, para onde os vinhos e melhores produtos acabam indo, Paris me deu tempo de pensar sobre a terceira festa, visitando museus (ando em uma erudição insuportável, preciso voltar ao normal, deve ser a água). A tradição dos Reis Magos (péssima tradução que ficará para sempre, na verdade, no curto relato de Mateus, homens sábios vindos de terras distantes, sem número preciso, a tradição fixou em três) não é desprezível. São eles que trazem presentes em grande parte da Europa e o dia de reis é a festa mais importante em muitas cidades. Em Barcelona é o feriado maior, passei um dia de Reis lá, anos atrás, e a cidade foi para a rua ver o desfile dos visitantes, que desembarcam no porto, são recebidos pelo prefeito e recebem as chaves da cidade.

Há em todos museus  franceses dedicados à pintura pré-moderna muitas representações destas figuras. Eles são provavelmente apenas um símbolo dos continentes conhecidos, quando começaram a ser exibidos em cenas da Natividade. Europa, Ásia e África e traziam o que todo mundo sabe à exaustão: ouro, incenso e mirra.

Mirra sempre intriga, pois ouro e incenso são autoexplicativos. Na verdade uma bela alegoria sobre a dor que aquele recém nascido vai passar na sua vida futura, na morte de cruz, mirra é um analgésico ancestral e também óleo usado para embalsamar. Mas a coluna é sobre vinhos, eu sei, e estou demorando a chegar neles.

Trouxessem os reis vinhos seriam doces, porque os pratos são para eles, como o Pinot Gris que me encantou, o ouro poderia ser um  Sauternes para o foie, o incenso um Madeira que tem tanto aroma de incenso e tostados para as castanhas e a mirra, antes que a piada e a metafóra se estiquem demasiado, termino não com um remédio para ressaca, mas um delicioso Porto Ruby para a rosca de reis. Depois de 1 mês de festas, o dia 6 de janeiro, dia da Epifania, marca a hora de um cálice adional para encerrar a temporada e começar o ano revisitando o que terminou. No próximo post faço um balanço final de 2013.

Feliz dia de Reis!

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Bimbalham os Sinos

  • 11 de dezembro de 2013
  • 17h26
  • Por Luiz Horta

Se o Douro fosse uma ópera, seria algo grandiloquente como Tannhäuser de Wagner, um cenário grandioso, uma vastidão dramática só de pedra e água.

Suba um pouco o tom (e a altitude da paisagem) e dá para ter uma ideia do que é a Romaneira, lá no cume, assistindo ao rio bem de cima, com brumas. Romaneira é a 5ª Sinfonia de Mahler, um desdobramento sem fim de montanhas, de climas, alegre, melancólica e monumental. Acho que, com a imponência dos Andes ao fundo de Mendoza, não há nada parecido no mundo dos vinhedos.

A propriedade é costela da Quinta do Noval. Quando estive lá pertencia ao mesmo grupo francês Axa Millésimes, sob o comando de Christian Seely. Depois, o próprio Seely (que esteve em São Paulo recentemente) comprou a Romaneira com um sócio brasileiro, cujo nome ainda permanece ambíguo. Já ouvi várias pessoas mencionadas; sem confirmação, prefiro não citar nenhuma.

E os vinhos não destoam. Mais jovens e menos famosos que Noval, são mais fáceis de abordar , sem a guarda que os do Noval pedem. Seu parentesco é claro: mesmo enólogo, o talentoso António Agrellos; mesmo tanoeiro (uma figura élfica, com décadas fabricando barricas, arte de domar o carvalho com paciência até que se torne um tronco oco reconstruído para receber o vinho); quase o mesmo terroir e mesmas castas, em corte de Touriga Nacional, 40%, Touriga Franca, 30%, e Tinta Roriz, 30%.

FOTOS: Reprodução

Sino da Romaneira 2008 – Muito Bom
O mais simples da família. Tem todas as características dos Douros de mesa: estrutura, tanicidade, boa acidez e uma doçura apenas imaginada, potência e delicadeza, com um preço inacreditável pelo prazer que proporciona (R$ 75 na Portus Cale, tel.: 3675-5199)

Porto Tawny – Muito Bom
Como o Natal já é um fato, que batam os sinos da Romaneira com um Porto Tawny (R$ 55) com o panetone e o pudim de claras com ovos moles.

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 12/12/2013

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O Davi do Cone Sul

  • 27 de novembro de 2013
  • 22h10
  • Por Luiz Horta

Na semana passada, falei da Viña Progreso, voo solo do jovem Pisano, quinta geração da família fazendo vinho na região de Canelones.

O Uruguai, tão pequeno, tão pouco conhecido, país do tamanho de uma região vinícola europeia, vai cumprindo seu papel de valente terroir, impondo-se pela qualidade dos vinhos, já que nunca se imporá por volume de produção ou por tamanho. É um player pequeno, mas capaz de derrotar os adversários com grandes vinhos. Falei e reitero: é o melhor lugar de vinhos aqui do Cone Sul, se levarmos em conta o número de rótulos e de vinícolas que tem. Não tem vinho ruim no Uruguai, tem medianos, mais simples, melhores, mas imbebível, nenhum.

Aproveito o fato de ter provado, em sequência, a linha de vinhos de dois produtores no espaço de um mês para voltar ao país – agora um pouco mais para fora do tradicional entorno de Montevidéu, onde ficam os mais conhecidos vinicultores.

A Garzón está próxima de Punta del Leste, sem tradição vinícola forte, mas com solo e, principalmente, clima atlântico de brisas frescas e colinas moderadas, onde a videira se dá bem. Por ali fica a Alto de La Ballena, que já foi descrita em coluna anos atrás. O chão é argilo-calcário.

Curiosamente, e para minha felicidade, a Garzón ousa concentrar sua produção nos brancos. Tem um Pinot Grigio muito gostoso, Albariños, um rosado de Pinot e dois Tannats. Como tudo na região, é bodega garagista, pequena, de produção medida em escala humana.

Todos os brancos uruguaios que bebi, e não foram poucos, têm grande personalidade, mas, lá como aqui, as pessoas bebem menos brancos que tintos, ainda por cima tendo a Tannat com grande estilo e forte apelo comercial no mercado externo. Lembro, sem querer esgotar a lista, dos excelentes Sauvignons Blancs do Castillo Viejo e dos precisos e frescos de Pizzorno.

A única vez em que participei de uma colheita foi justamente em uma noite de lua cheia na Castillo Viejo. A brigada usava capacetes de mina, daqueles com luzinha. Munidos de tesouras de podar, iam cortando os cachos de uvas maduras na madrugada, para manter o frescor aromático da casta. Colhi alguns cachos e percebi como é dura a vida de vinhateiro. Depois de tanta tensão ao longo do ano, diante das mudanças climáticas, no momento auge de recolher o fruto do que é seu modo de vida, ainda resta um pouco de medo de perder toda aquela uva pela chegada brusca do sol. Ao amanhecer, já tínhamos terminado tudo. Ufa!

Também brancos dignos de nota são o Torrontés da Pisano, o Albariño pioneiro dos Bouzas e o vetusto Preludio branco da Juanicó. E muitos outros. A Garzón produz dois Albariños, um reserva com estágio em madeira (R$ 97, na World Wine) e o que destaco ao lado. Preferi o frescor do sem madeira. A uva já fornece bom corpo e o vinho é fantástico.

FOTOS: Divulgação

Albariño 2012 – Muito Bom
Muito aromático, flores brancas e toque de pedra molhada. Na boca tem ótimo corpo, é presente sem ser pesado, acidez saborosa que faz salivar. Convida a umas ostras ou mariscos na plancha. Um achado, prova definitiva da qualidade dos brancos uruguaios. (R$ 53, na World Wine)

Tannat 2011 – Muito Bom
Belo nariz de frutas escuras, violeta, taninos presentes, mas em evolução, equilíbrio e elegância. Um Tannat fino sem deixar de ser o verdadeiro vinho do país; final longo e agradável. É amigo dos assados, da carne com camada de gordura. (R$ 53, na World Wine)

Tannat Reserva 2011 – Muito Bom 
Um pouco mais sóbrio que o outro, algo de tostado e de madeira no nariz. Na boca o carvalho aparece um pouco, mas de modo correto, é mais potente e tem visível capacidade de guarda. Feito com precisão. (R$ 97, na World Wine)

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 28/11/2013

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El pibe que virou mestre

  • 20 de novembro de 2013
  • 20h05
  • Por Luiz Horta

Conheci Gabriel Pisano antes de ele virar gente, como sobrinho entusiasmado de Daniel e Gustavo e filho de Eduardo Pisano. Foi na minha primeira viagem ao Uruguai e ele devia ter uns 15 anos. Subia e descia numa escadinha de madeira e tirava com a pipeta provas de vinhos para experimentarmos. Nem podia beber, cheirava e disfarçava, mas dava muito palpite. Já tinha a chispa de inovação na tradição que é a prática dessa família ímpar, que parece dirigida por Wes Anderson.

Depois daquela minha primeira ida ao micropaís voltei diversas vezes. Gabriel cresceu, acaba de ser pai, se tornou um criador, estagiou no Priorato (Espanha), na Austrália e no Chile. Mas permaneceu rigorosamente uruguaio.

Inventou, com a aquiescência dos tios (“meu pai e meus tios adoram tudo que faço, fico querendo uma opinião sincera porque eles são condescendentes demais”, reclama entre sério e irônico), o licor de Tannat, o espetacular fortificado de uvas passificadas Etxe Oneko (R$ 137, Mistral), um dos grandes êxitos da vinícola. Nem tinha 20 anos. Agora ele tem a própria bodega, a Viña Progreso, em Canelones, como a Pisano.

Sem perder os taninos. Gabriel cresceu, ficou pai, viajou – e está mais uruguaio que nunca. FOTO: Luiz Horta/Estadão

Gabriel Pisano tem a melhor matéria-prima possível. E sabe usá-la. A Tannat já foi indesejada por sua agressividade de taninos. Depois de um século de aculturação uruguaia, ganhou uma elegância excepcional, sem perder um toque de rusticidade que é seu encanto. A técnica que ele aprendeu na Austrália, trabalhosa, de fermentar com a barrica sem tampa enquanto se revolvem as cascas, amacia o vinho e dá uma sutileza aveludada totalmente nova.

Gabriel contou das suas inquietações, que gostaria de ficar mais no vinhedo como o pai, emocionou-se às lágrimas pensando nisso; que é forçado a viajar, vender, demonstrar vinhos, mas seu lugar é lá.

Provei com ele alguns vinhos, seu Tannat fermentado com a barrica aberta (Sueños de Elisa Open Barrel, R$ 205, importados para o Brasil pela Vinci, tel. 3130-4500), todo feito à mão, maceração lenta em carvalho, leveduras do meio ambiente. É um grande vinho, taninos finos, corpo delicado, mantendo-se Tannat. É preciso amaciar sem jamais perder os taninos.

Serviu um Sangiovese que me encantou. Como fã da uva, esperava algo gordo e super maduro, longe dos encantos da Toscana. E um Viognier que me fez lembrar de quando o tio dele, Daniel, em uma manhã gelada, me levou ao vinhedo de velho Tannat, uma aula sobre a capacidade da casta. O solo, a brisa de rio e mar fazem do privilegiado terroir uruguaio o melhor do continente, em tão pouco espaço de um país quase portátil.

A prova

FOTOS: Divulgação

1. O Sangiovese da Viña Progreso tem notável DNA italiano, foi um dos meus favoritos e destaque aqui da coluna (R$ 66).

2. O Viognier (R$ 66) fresco, delgado, refinado, melhor que muito Viognier feito com mão pesada por aí. “Acidez? Temos de sobra, e cultuamos essa virtude, é do solo e do clima”, diz Gabriel Pisano.

3. O Viña Progreso Tannat Reserva 2008 (R$ 66), vinificado de modo mais convencional, é delicado e aromático, com taninos evoluídos e suculentos.

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 21/11/2013

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Vinho de quinta-feira: Le Bordeaux de Maucaillou 2009

  • 20 de novembro de 2013
  • 20h00
  • Por Luiz Horta

Bordeaux é caro? Alguns são, bastante. Mas há bons vinhos da região para serem consumidos logo, com qualidade e perfeita expressão bordelesa, tanto no nariz quanto na boca. O Le Bordeaux de Maucaillou 2009, blend de Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc, tem casca de laranja seca, alecrim e algo de cera de abelhas nos aromas, leve toque verde da Cabernet Franc e é expressivo e gostoso na boca. Corpo médio, boa acidez, é elegante e tem boa presença; fica ótimo com embutidos e enfrenta com destemor uma carne assada; a garrafa se esvaziou de maneira rápida. Custa justos R$ 62,90 (Empório Santa Maria, tel.: 3706-5211, e também na rede St. Marché, tel.: 5054-9000).

FOTO: Divulgação

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 21/11/2013

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Tinker Taylor Soldier Spy

  • 18 de novembro de 2013
  • 22h57
  • Por Luiz Horta

Lembrei desta rima inglesa,  Tinker, Tailor/Soldier, Sailor/Rich Man, Poor Man/Beggar Man, Thief (que deu origem a um famoso thriller de espionagem, escrito por John le Carré e levado a TV com Alec Guinness e ao cinema com Gary Oldman) só pelo nome do porto Taylor’s. Ainda estou frustrado por não ter provado todos os vintages servidos aqui semana passada (que Marcel Miwa provou e cobriu para o glupt!).

Abri alguns portos no final de semana, comparei, mais pela graça do exercício. Porto é sempre bom e com estilos tão marcados que compará-los é só um jogo, sem que um se sobreponha a outro.

O primeiro foi o Quinta de la Rosa LBV 2007, belo nariz de frutas secas e um toque importante de cacau amargo. Na boca é equilibrado e harmônico, sutil tanto na doçura quanto na acidez. Importado pela Ravin, custa R$ 128 e combina com um queijo de massa dura como ninguém.

O seguinte foi o Noval LBV 2005, Unfiltered, ainda com muita fruta no nariz, amplo e sedutor. Na boca tem mais acidez e doçura notável, é um espetáculo, que será arredondado pela passagem do tempo (se aguentarmos esperar, eu não aguentei). Vai bem até com chocolate. Importado pela Adega Alentejana, custa R$ 178.

O outro, um Tawny, era o Taylor’s 10 years, que não deveria ser comparado aos anteriores, pois é de outro estilo, mas foi ele que motivou a prova, pela rima inglesa (Taylor, got it?) e é soberbo, com leve nariz medicinal, algo de esparadrapo, boca austera, deliciosa e merece até ser tomado só, olhando uma tarde pela janela. Passou a ser importado pela Qualimpor, com preço em torno de R$ 130, mas não achei no site o valor exato.

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Taylor’s made

  • 14 de novembro de 2013
  • 18h57
  • Por Luiz Horta

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Mais um evento que não consigo ir, tem tanta coisa acontecendo que é preciso ter o atributo dos santos, a bilocação, a capacidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo, e se desdobrar. Salvou-me o jornalista Marcel Miwa que estave na vertical de porto Taylor’s e escreveu o post abaixo.

Taylor’s made, por Marcel Miwa

[fotos Henry Araujo]

“Confesso que no universo dos vinhos fortificados tinha (já explico o tempo verbal) uma predileção pelos Jereces e Madeiras, deixando o Porto como terceira opção. Claro que as variedades das uvas, regiões, técnicas de produção e sabores são diferentes, mas entre os três talvez sejamos mais críticos com o Porto, pela maior proximidade da nossa cultura e maior frequência de consumo.

Considerando os últimos seis meses, fui compelido a colocar o vinho do Porto novamente entre meus fortificados favoritos. Culpa dos produtores. Numa rápida revisão lembro que no meio do ano Dominic Symington esteve por aqui e apresentou duas (excelentes) novidades das propriedades da família: O Porto Vintage Graham’s Stone Terraces 2011 e o Porto Capela da Quinta do Vesuvio 2011, ambos feitos de pequenas parcelas de vinhedos e lançados somente nos anos considerados excepcionais, quase o conceito de um Vintage dentro de um Vintage.

Em setembro, foi a vez de Christian Seely, diretor da AXA Millésimes (que controla a Quinta do Noval, além de outras propriedades em Bordeaux, Borgonha, Languedoc e Tokaj), apresentar toda a linha da Quinta do Noval. Não tive a emoção de provar o mítico Porto Vintage Quinta do Noval Nacional 1963, experiência que saiu no glupt! aqui  http://blogs.estadao.com.br/luiz-horta/e…), mas pude provar na apresentação de Seely, aqui em São Paulo, uma generosa taça do Porto Vintage Quinta do Noval Nacional 2011, precedida pelo Porto Vintage “normal” da Quinta do Noval 2011.

Foi uma das raras oportunidades para se constatar que, sim, existem diferenças perceptíveis entre os dois, algo como diferenciar o equilíbrio (quando todos os recursos estão lá e balanceados) da harmonia (além dos recursos estarem lá, há uma conexão entre eles que forma algo maior).

Para fechar no melhor estilo “last but not least”, esta semana recebemos a visita de Adrian Bridge, diretor geral da Taylor’s, outra casa de vinhos do Porto famosa pelos Vintages e com reconhecido potencial de guarda. Justamente para comprovar este potencial, Bridge (junto com seu novo importador, a Qualimpor) decidiu fazer uma vertical de Taylor’s Vintage, com algumas das melhores safras de cada década, desde 1960. Historicamente, Taylor’s não declara mais que quatro Vintages por década. Portanto, a cada década, no máximo quatro costumam ser declaradas Vintage (safras excelentes, quando se considera que o produtor conseguiu a perfeita expressão do estilo da casa) e Adrian escolheu as mais expressivas dentro desta pequena elite.

Começando pela década de 60, o primeiro Vintage foi o Taylor’s 1963, uma das safras históricas em toda trajetória do Vinho do Porto. O vinho evoluiu exemplarmente, está com textura amanteigada, notas de frutas vermelhas cristalizadas, especiarias, amêndoa, caramelo e nozes, tudo em camadas, do começo ao longínquo final. Ainda está longe de lembrar um Tawny.

Em seguida duas relativas decepções, os Vintages 1977 e 1985 não estavam no mesmo nível dos demais. O primeiro com um álcool que “pica” o nariz e com notas de frutas mais maduras, enquanto o segundo estava em uma fase tímida, fechado, austero, com caráter mineral pronunciado. Conforme Bridge ressaltou: “os Portos Vintage passam por ciclos de exuberância e recolhimento, o 1985 deve melhorar em alguns anos”. Uma das estrelas da vertical foi o Taylor’s Vintage 1994. Com a força e intensidade da juventude, ao lado da complexidade e maciez da evolução em garrafa, esta safra é o que os ingleses “velha-guarda” definiriam como “an iron fist in a velvet glove” (um pulso de ferro dentro de uma luva aveludada).
A difícil tarefa de suceder 1994 foi o Vintage 2000, com notas de juventude mais presentes, cacau, violeta e frutas negras. Tudo em equilíbrio, mas segundo o próprio Bridge, também em uma fase mais fechada. Para fechar, a dupla 2007 e 2011 vieram para mostrar que o futuro é ainda mais promissor para Taylor’s. As duas safras são como irmãos gêmeos, com pequenas diferenças na personalidade, o Taylor’s Vintage 2007 o certinho, o irmão-modelo, enquanto Taylor’s Vintage 2011 (disponível na Qualimpor, por R$ 650,00), mais rebelde e eloquente.

Parafraseando a matéria da Times “The gods of food”, com Alex Atala na capa, alguns produtos, ainda que feitos para apenas uma pequena elite, com bom fôlego financeiro, são capazes de afetar os hábitos de todos. Todos os Portos citados acima parecem seguir esta linha. Se você está disposto a conhecer o potencial destes Vintages, mas sem desembolsar uma pequena fortuna em uma garrafa, uma boa solução é apostar nos L.B.V. (Late Bottle Vintage), estilo que Taylor’s foi um dos precursores a produzir e reproduz, em uma dimensão menor, as características de um Porto Vintage. O Taylor’s LBV custa R$ 159,00, na Qualimpor”.

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-Adran Bridge, diretor da Taylor’s-

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Queijo é com branco

  • 6 de novembro de 2013
  • 23h43
  • Por Luiz Horta

Queijos e vinhos, só de escrever a dupla já ouço um bocejo de certeza. Mas as certezas estão todas erradas, as suas e as minhas. Há uma campanha do organismo francês de turismo, conclamando a que comamos mais queijos, com o laclosiano nome de Ligações Saborosas. Concordo e apoio. Gosto tanto dos lácteos que muitas vezes engulo rápido a comida só para chegar logo ao assiete de fromages, que na refeição francesa, vem depois de tudo, antes da sobremesa. Como na França queijo não brinca, fui testar a sério as combinações com vinhos.

Lembro da minha primeira experiência de choque cultural em Paris. Entrei em uma loja, a Barthélemy, e pedi um reblochon, um dos meus favoritos. “Mas qual, Monsieur?!” exclamou quase ultrajada a balconista. Balbuciei qualquer coisa, ela me apresentou uns 10 diferentes, em voz de metralhadora, tem esse, aquele, o do lado de cá do pasto o do terreno pedregoso… estarrecido apontei dois. Suspirei aliviado, pensando que a prova tinha acabado. Ela deu um risinho e soltou a questão seguinte: “e para que dia é?”. Como que dia? “Quando ele vai ser consumido?”. Eu estava comprando no princípio da semana, para comer na noite de sábado. “Sábado? Então é este aqui, pois ele vai estar no seu auge no dia”. Paguei e sai correndo antes de mais perguntas.

FOTO: Daniel Teixeira/Estadão

Mas a coluna é sobre vinhos.

Peguei alguns exemplares disponíveis no Brasil e diversas garrafas, para constatar o óbvio: os brancos se saem melhor.
Se você só tem uma garrafa para acompanhar todos os queijos a resposta é: Gewurztraminer. O da Alsácia é o mais perfeito, pois lá a uva é verbete de dicionário, perfeita. Há opções, por outros lados, inclusive no Brasil. Os queijos mais picantes e de casca mofada (brie, camembert, coulommiers) admitem um Chardonnay com traço de madeira. Os azuis são os mais indomáveis; no caso, como era um delicado bleu d’Auvergne, sem o über sabor e sal que costumam ter roqueforts menos elegantes, saiu-se muito bem com um Bordeaux branco. E os de massa semidura como o minas e o comté gostaram do Bordeaux também. Como os vinhos ao lado são de preço com 3 dígitos, fiz uma lista de sugestões alternativas de 2 dígitos, que cumprem o papel, embora sejam, claro, vinhos diferentes. Em um orçamento mais curto o Cruet de Savoie (R$ 55, Delacroix) pode representar o Château Guiraud. Para o Gewurztraminer ficam bem as possibilidades do Angheben Gewurztraminer (R$ 45, Vinci Vinhos) ou, segurem-se nas cadeiras, um vinho de R$ 14, o Almadén Gewurztraminer (em supermercados), que é bem gostoso. E o Chardonnay Cuvée Alexandre da Casa Lapostolle pode ser trocado pelo seu vinho mais simples, o Lapostolle Chardonnay (R$ 65, Mistral).

Na minha tarefa de construir um jardim de Epicuro, fiz minha Paris portátil com este farnel e fui para o parque. Em caso de chuva, arme o cenário na sala mesmo e refestele-se.

FOTOS: Divulgação

G de Guiraud 2009 – Excelente
Nariz de sério Sauvignon, austero, na boca é consistente, acidez equilibrada, denso e encorpado, longo, delicioso. É uma curiosidade, um vinho seco de um château de Sauternes, mais famoso por seus vinhos doces (R$ 178, Zahil, tel.: 3071-2900) - Combina com todos os queijos

Cave de Ribeauvillé Gewurztraminer Terroirs 2010 – Muito Bom 
Nariz típico da casta, muito floral, toque verdoso, na boca é seco com ligeira doçura residual, fácil de combinar com queijos, É refrescante e saboroso, uma aulinha de Gewurztraminer (R$ 119, Chez France, tel.: 31-2555-1506) - Combina com  minas, comté e bleu d’Auvergne

Cuvée Alexandre Lapostolle Chardonnay 2011 – Excelente
Nariz com toque de carvalho, belo Chardonnay chileno, ótima acidez, madeira bem integrada, bom corpo, bom de beber e com a promessa de vida longa na garrafa (R$ 130, Mistral, tel.: 3372-3400) - Combina com brie, camembert e coulommiers

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 7/11/2013

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Dois momentos de Chile

  • 6 de novembro de 2013
  • 15h51
  • Por Luiz Horta

Aconteceu um verdadeiro festival do vinho chileno aqui, uma degustação às cegas e outra de safras históricas, ambas conduzidas por Patricio Tápia. Infelizmente, não pude ir, mas pedi ao jornalista, grande conhecedor de Chile e Argentina, Marcel Miwa, presente aos dois eventos, que fizesse um relato para o blog. Marcel assinou, recentemente, uma capa do Paladar sobe as mudanças no mapa classificatório das denominações de origem no Chile.

Eis aqui a opinião dele (que coincide muito com a minha).

Na semana tivemos duas grandes apresentações de vinhos do Chile (talvez esteja aí um dos ingredientes para o sucesso dos vinhos deles por aqui), conduzidas pelo especialista chileno Patricio Tapia.

A primeira foi realizada pela importadora Casa do Porto e o painel reuniu 19 amostras de grandes tintos onde a Cabernet Sauvignon era dominante. Provamos vinhos de safras que partiam de 1999 até 2010, do Aconcagua ao Maule, alguns varietais e outros com até 15% de participação de outras castas.

A degustação transcorreu às cegas e como se pode imaginar ainda é difícil identificar a zona de origem de cada vinho, principalmente pela heterogeneidade das amostras. Para entrar no tema da nova divisão das Denominações de Origem chilenas, foi muito mais fácil identificar se os vinhos eram dos Andes ou Entre Cordilheiras (não existem muitos Cabernet Sauvignon da Costa, devido ao clima muito frio), que um dos vales de norte à sul.

Além da mera questão estatística, de leste à oeste era 50% de chance de acertar, um vinho mais potente, por exemplo, poderia ser do Maipo central, Aconcagua, Colchagua ou até Maule ou Cachapoal. Já de leste à oeste, o “check list” para saber sua origem é simplificado: (✓) álcool, (✓) notas herbais, (✓) taninos austeros (✓) menor acidez = Entre Cordilheiras; enquanto (✓) aromas abertos, (✓)taninos finos, (✓) textura mais untuosa, (✓) maior acidez, podem indicar vinhos dos Andes. Ainda assim, há a questão da enologia, utilização de barricas de carvalho e estilo do produtor.

Lista dos vinhos degustados:
1 Ribera del Lago Cabernet/Merlot 2006 (Maule)
2 Erasmo 2007 (Maule)
3 Casa Donoso Magia Negra 2009 (Maule)
4 Miguel Torres Manso de Velasco 2009 (Curicó)
5 Le Dix de Los Vascos 2002 (Colchagua)
6 Altaïr Sideral 2005 (Cachapoal)
7 Concha y Toro Marques de Casa y Concha Limited Edition 2007 (Maipo)
8 Willian Fèvre Chacai 2009 (Maipo)
9 Haras de Pirque Albis 2004 (Maipo)
10 Perez Cruz Pircas de Liguai 2010 (Maipo)
11 Viña Aquitania Lazuli 2005 (Maipo)
12 El Principal 1999 (Maipo)
13 Domus Aurea 2008 (Maipo)
14 Ventisquero Enclave 2010 (Maipo)
15 Santa Rita Casa Real 2007 (Maipo)
16 Almaviva 2011 (Maipo)
17 Montgras Intriga 2010 (Maipo)
18 Errazuriz Don Maximiano 2010 (Aconcagua)
19 Viñedo Chadwick 2010 (Maipo)

Talvez o exercício mais interessante foi observar o gosto dos degustadores (que, imagino, representa em algum nível o gosto do consumidor). Os vinhos preferidos foram:
- El Principal 1999
- William Fèvre Chacai 2009
- Domus Aurea 2008

E fui voto vencido em todos, pois meu Top 3 foram:
- Marques de Casa y Concha Limited Edition 2010
- Pérez Cruz Pircas de Liguai 2010
- Errázuriz Don Maximiano 2010

Apenas citei meus favoritos pois foram o prenúncio do que viria pela frente. No dia seguinte, a associação Wines of Chile, promoveu uma degustação chamada “Vertical – Ícones do Chile”, onde seis dos principais tintos chilenos foram apresentados em pares de safras, com intervalo mínimo de oito anos entre elas. Aqui, apesar de não ter sido às cegas, os padrões eram mais estreitos, permitindo comparações mais precisas.

Altaïr 2002 e 2010
Santa Rita Casa Real 2002 e 2010
Clos Apalta safras 2002 e 2010
Don Maximiano Founders Reserve 2000 e 2010
Don Melchor 1996 e 2010
Montes Folly 2000 e 2010

Creio que o objetivo de mostrar a capacidade de evolução na garrafa dos tintos chilenos foi alcançado. Todas as amostras antigas estavam íntegras, uns com mais outros com menos notas terciárias (principalmente couro e tabaco), alguns próximos de seu auge como Don Melchor 1996 e Montes Folly 2000 e outros que pareciam recém engarrafados, como Clos Apalta 2002 e Altaïr 2002.

No entanto, fiquei um pouco assustado, pois em todos os casos preferi as amostras de 2010 (como no dia anterior). Será que estou sofrendo de alguma síndrome da boca novomundista? Como não costumo pontuar vinhos (a não ser por ordens superiores), fui reler minhas anotações.

Na grande maioria das amostras 2010 as palavras que mais encontrei foram “nariz limpo e cristalino”, “ótimo frescor”, “extração moderada” e “taninos polidos”. Ok, não estava tão enganado. Obviamente eram vinhos jovens e ainda exuberantes, mas foram poucas as amostras com notas de frutas compotadas, concentrados, alcoólicos e abaunilhados, os chamados “blockbuster”.

Certamente os tintos chilenos de 2010 amadurecerão com muito mais equilíbrio e nobreza que as amostras da década passada.

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