Encontros com homens notáveis
- 23 de abril de 2012
- 19h37
- Por Luiz Horta
Fui visitar Gilles Lapouge.
E fui porque passei um tempo da minha vida adulta, muito antes de pensar que trabalharia no Estado, tentando imitá-lo – seu texto incisivo, suas frases curtas, mas carregadas de peso, seus juízos cortantes e éticos, mas com os adjetivos inesperados e vocabulário refinado.
Imitava sua erudição francesa, a indignação irônica, o conhecimento de todos os assuntos, um certo cansaço do mundo, tão ilógico, tão insolúvel. Nunca consegui ser um pé de página de tal estilo, mas certamente, de tanto pelejar, algo terá ficado, como o aluno de desenho que fica reproduzindo Paul Klee e acaba saindo da nulidade e alcançando uma aceitável mediocridade.
Fui visitá-lo tenso, apesar da gentil acolhida pelo telefone: “Venha agora, desça no metrô tal que é mais perto, você me verá na janela e eu te verei e abrirei a porta”. Fui entrevistado. Quem pode dar conta de conversar com um jornalista assim, sem sê-lo? Com seu bom português e meu péssimo francês fomos conversando. Ele queria saber por que o jornalismo de vinho, em que me formara, e me cross-examinou sobre minha pretensão de gostar de arquitetura sendo formado em filosofia. Expliquei minha ligação com Merleau-Ponty, caprichei muito na pronúncia, cujo túmulo visitara na véspera.
Contei que do escritório iria ao Quai Branly, ver o jardim de Gilles Clément. “Minha filha é paisagista”, disse Lapouge. E passamos a falar de jardins, de construções. Perguntei quem ia ganhar as eleições: Hollande. Sarkozy fez besteiras demais. E Hollande é inteligente, todo mundo diz “ele é inteligente. Não sabemos por que, não vimos essa inteligência, mas ele é inteligente” deu um sorriso maroto. Tinha escrito ali, falando, um de seus parágrafos, em pleno ar.
Resolveu me dar um livro, e enquanto revirava o ambiente atrás do volume, ia narrando os objetos que me interessavam. Um relógio tipo cuco, muito antigo, com uma grande pedra como peso. “Invenção de um frade alemão, os religiosos precisam de bons relógios, eles têm hora para tudo: hora de falar na Virgem, hora de mencionar São José…” Outro parágrafo, eu, encantado.
“Sabe que aqui ao lado tem uma igreja, e passam sempre senhoras e batem na janela pensando que eu sou o pároco, já até quiseram se confessar”, riu. “Eu não quis ouvir pecados alheios.” Fez uma ligação óbvia e disse: “Fui grande amigo de Jacques Lacan. Grande amigo.”
Notei dois saleiros no meio dos livros, mas tive vergonha de perguntar o seu porquê. Já achava que a meia hora que eu pedira passava de hora e meia e era tempo de zarpar.
O senhor trabalhou na Major Quedinho (antigo endereço do Estado)? “Sim, mas já estava no jornal antes, num prédio horrível, anterior ao do centro. Só o Ruy (dr. Ruy Mesquita) e eu nos lembramos de lá. Tenho 61 anos de jornal.”
Eu não sabia como terminar. Ele achou um livro sobre as utopias, autografou. “Espero que o senhor goste.” Achei engraçado ser chamado de senhor. Boa parte das estantes eram caixas de Bordeaux vazias. Meu livro sobre as utopias estava soterrado debaixo de uma de Pichon Lalande.
Na parede, ao lado de velho relógio alemão, um chaveiro plástico sem chave: “ I (coração) SP”.
“Como o senhor vai embora?” “De Vélib (bicicleta de aluguel).” Espantou-se. “Mas é muito esperto! Eu já tentei andar naquilo e não consigo entender como pagar uma bicicleta, é um processo complicado de registro para alugar, desisti. Mas moro perto, de qualquer modo.”
Bateram na janela, duas senhoras. “Lapouge, l-a-p-o-u-g-e”, soletrou. “Não, não, Lapouge.” Seriam beatas atrás do padre ou só um engano? Aproveitei e me despedi.
“Estarei no Brasil em maio. Vou lançar novo livro, um dicionário amoroso do Brasil.” Já saiu? “Sim, tem na Fnac, na Gallimard, tem em todas as livrarias.” “Vou comprar (comprei no dia seguinte, é otimo) e o senhor autografa em maio.” Agradeci. Fui para o museu. Foi importante para mim, como rever um orientador que nunca soube que orientou tanto uma tese que nunca escreverei.
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O dia em que fui McLuhan
- 25 de março de 2012
- 6h53
- Por Luiz Horta

[still do filme "Annie Hall" de Woody Allen]
Quem se lembra do filme “Annie Hall” de Woody Allen sabe da cena. Na fila de um cinema, um profesor da Universidade de Columbia pontifica sobre filmes, invocando as teorias de Marshall McLuhan em sua defesa.
Allen e Diane Keaton, que estão logo atrás, ficam exasperados com o papo academico-boring do sujeito.
Até que ele, Woody, perde a paciencia e diz: “vc não sabe do que está falando”.
O professor retruca: “sou professor de semiologia com doutorado em McLuhan” e canta vitória. Allen vai até um canto da sala e apresenta o próprio McLuhan, que detona o sujeito: “vc não entendeu nada da minha teoria”. E´ bem mais engraçado que isso, mas é o sonho de qualquer pessoa, ter um especialista na hora para encerrar uma conversa pedante.
Pois eu estava comprando mortadela no St.Marché aqui de Higienópolis, ouvindo meu iPod, longe de tudo e veio um moço gesticulando. Tirei os fones e aconteceu a mclunatice.
“Vc é o Luiz Horta?”.
“Sou”.
“Estou com um vinho que juro que está bouchonée, dá para avaliar?”.
Fui, cheirei, estava completamente tomado por TCA.
Elogiei o atendente, que acho se chama Melck, bom ter um funcionário que sabe o que está vendendo com conhecimento técnico de defeitos e tal. Ele abriu outra garrafa, provamos, estava ok, um Barbaresco.
Fiquei me sentindo o McLuhan do cerrado.
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O “seu” Miguel
- 23 de março de 2012
- 8h02
- Por Luiz Horta
Miguel Novak era leitor do blog desde o princípio, antes mesmo de estar alojado aqui no Estadão. Comentava nos posts, com mais entusiasmo que os posts mereciam. Era também um amante dos vinhos. Toda vez que o encontrava no Ici ou no Diner 210, mandava uma tacinha de vinho para sua mesa, que ele louvava com generoso e simpático exagero. Ele era meu amigo, embora o tenha visto uma dúzia de vezes. Vai me fazer falta saber que ele não vai mais dizer que este post é ótimo. Estou muito triste.
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Vinho que não viaja
- 24 de novembro de 2011
- 6h56
- Por Luiz Horta

Txacolí é tão local quanto o queijo idiazábal e a língua basca. Há uns poucos produtores que exportam suas elegantes garrafas renanas (formato mais presente nos vinhos alsacianos e nos alemães do Mosel e do Reno, daí o nome), caso da vinícola Txomin Etxaniz, que ilustra a coluna.
Estive justamente nessa empresa. Fui buscado (arrastado descreveria melhor a criatura, despertado às 7 da manhã de um dia frio, em San Sebastián) no hotel e, ainda sem café, seguimos pela estreita estrada costeira que se espreme entre montanhas e o Mar Cantábrico. Imagine uma roda gigante horizontal, a sensação era essa, vertiginosa.
Alguns quilômetros adiante, numa centésima curva, parecendo um barco encalhado, apareceu o restaurante Elcano, onde servem os melhores frutos do mar da Península Ibérica. Olhando para baixo, um despenhadeiro, está o porto de Getaria, tão minúsculo que parece um brinde de Kinder Ovo. Olhando para cima, mas bem para cima, os vinhedos escalam a montanha. A sede da Txomin Etxaniz é praticamente uma pista de decolagem de asa delta. Venta bastante, o ar marinho fustiga e as uvas ali, pelejando para amadurecer. Disso tudo brota uma fineza mineral esplêndida. O vinho tem uma ponta de agulha, aquelas microbolhas que picam a língua, como nos vinhos verdes. A uva branca dos txacolís é a autóctone Hondarrabi Zuri. Já provei tentativas de dar outro status aos txacolís: tinto, feito de Hondarrabi Beltza, ou com passagem em madeira e até mesmo colheita tardia e fortificado. Puá para as três versões: mataram o charme do frescor original. Txacolís são como os bascos, daquele jeito ácido, duro, feito para acompanhar a comida da região, pintxos, bacalhau com pimentão, pequenos chipirones fritos. Há outra denominação de origem, a Biskariako Txakolina, mas prefiro a Getariako Txakolina. Um vinho assim não viaja bem. Trouxe algumas garrafas em diferentes oportunidades, mas quando as abri aqui, não ventou, não tinha maresia e ele virou um camponês desajeitado, sem saber como proceder na metrópole. Quem quiser que vá bebê-lo em Getaria (e aproveite para visitar o museu do estilista Balenciaga, que era de lá).

*** Txacolí 2010
Txomin Etxaniz
Nariz fechado, carbônico (sempre bom servir Txacolí fazendo jorro para retirar um pouco do gás) e de limões-sicilianos. Boca muito mineral e acidez que faz salivar. Para comida e para matar a sede
Viagem engarrafada
Parada nº 42/100
Getaria, Gipuskoa, País Basco, Espanha
Hondarrabi Zuri
Uva local, com acidez alta, bem cítrica e um pouco floral
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Vinho de Quinta-Feira
- 24 de novembro de 2011
- 6h52
- Por Luiz Horta
O vinho desta semana dá brincadeira. Não entendam mal. O Invisível 2010, Herdade da Ervideira (R$ 152, Mr. Man, tel. 3030-7100) é excelente, ótimo para a época (explicarei em seguida), mas também é sensacional para aplicar uma pegadinha em seus amigos enófilos. Servi com o rótulo oculto e com ar querubínico perguntei: que uva é esta? Houve várias tentativas de resposta, bem pensadas como lógica e segundo aroma e sabor. Ninguém jamais acertaria. Eu diria um Chardonnay encorpado com leve traço de madeira. Como se vê na foto, é de Aragonez, nome alentejano da Tinta Roriz, que, por sua vez é um dos nomes portugueses para a… Tempranillo. Um branco feito de uva tinta. Terminada a brincadeira, é um belo vinho para acompanhar bacalhau, muito bem feito e com delicadeza e equilíbrio. Vai alegrar a refeição e garantir a adivinhação como jogo de salão.

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Adivinhe quem veio para o jantar – As crônicas mundanas de Glupt!
- 24 de novembro de 2011
- 6h49
- Por Luiz Horta
Fui jantar com um crítico famoso, Nick Lander, do Financial Times. Cheguei muito cedo pois o bistrô que ele escolhera, chamado Miroir, no 94 da Rue des Martyrs, em Montmartre, era perto para mim e ele vinha de Londres, de trem. Foi ótimo esperar. Deu para praticar o esporte intelectual de observação de hábitos em outras cidades, mais conhecido como orelhada das mesas do lado.

Constatação mais óbvia para nós, acostumados às brigadas-batalhões: a quantidade de pessoas no serviço. Duas moças davam conta dos 36 lugares. O chef, Sébastien Guénard, circulava entre cozinha e sala, conversando, cortando presunto, finalizando pratos e chefiando (sua tarefa principal). Mas chefiando quem? Dois ajudantes na cozinha do tamanho de um armário. E se tratava de um ex-sub de Ducasse no Aux Lyonnais!
Depois, a atitude dos comensais, que iam chegando e jogando os casacos uns sobre os outros, num amontoado único de abrigos e guarda-chuvas.
Mas o que nos interessa, enófilos que somos, vem agora: a relação com o vinho. Esmiucei a carta, li tudo, produtores, safras, preços, vinhos em taça e no final pedi um Jura Domaine l’Aigle a Deux Têtes, esperando que o nome não fosse uma promessa de ressaca. A garçonete abriu a garrafa, serviu a dose e só então lembrou de me mostrar o rótulo. Nada de rituais, provinha, assentimento com a cabeça, exame da rolha e ar de conhecedor; vapt-vupt, vinho como algo trivial.
E o melhor. Nas mesas ao lado, chegavam, perguntavam que vinhos havia, nem olhavam a carta, ouviam: “Tem um Arbois, um Pic Saint-Loup, um Rhône, um Nuit Saint-Georges”. Escolhiam pela denominação de origem, sem se interessar por nada mais, um vinho escolhido pela região. As taças? De vidro.
Quando Mr. Lander chegou, fez o mesmo que eu, conversou sobre vinho, escaneou a carta, perguntou se eu gostava de Morgon e foi de Lapierre 2010. A comida era ótima, sopa de castanhas com pedacinhos de porco, um peixe misterioso com legumes e tortinha de maçã com creme, queijos Saint-Nectaire, brie.
Nick Lander comentou sobre a notícia quente daquele dia, a escolha de Eric Asimov para novo crítico de restaurantes do New York Times. “Ele vai passar dificuldades, a demanda é insana, Nova York é um mundo demasiado grande e você não tem tempo para nada. E tem estrelas para atribuir, arte de desagradar a todo mundo ao mesmo tempo, ou, como dizia meu avô russo, você nunca está certo fazendo algo pela metade.” Contou que está escrevendo um livro sobre os grandes restaurantes do mundo, 20 escolhidos, com entrevistas com restaurateurs, que sairá no ano que vem. “Nesta edição ainda não entrará São Paulo”, sorriu se desculpando. Comentou sobre um novo brasileiro que abrirão em Londres: “Tomara que mais próximo do Mocotó que o equívoco anterior” (houve um Mocotó londrino, nada a ver com o da Vila Medeiros, que flopou com estardalhaço). Depois falamos brevemente do incrível dia em que ele cozinhou para Ferran Adrià (ganso selvagem) e lavaram os pratos juntos.
Encontrá-lo é sempre ótimo, verdadeiro cavalheiro, mas a história do vinho sem pompa me roubou a noite. Como Nick Lander nunca mostra seu rosto, só suas meias, tirei uma foto para confirmar que era ele mesmo, meias vermelhas de torcedor fanático do Manchester United. Não é difícil ser feliz, basta estar em Paris.
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Vinho de Quinta-Feira
- 24 de novembro de 2011
- 6h46
- Por Luiz Horta

Vinho de Quinta-Feira
Ah, Riesling austríaco, como você faz isso comigo? Se fosse mais barato, eu só beberia você e mais nada. Com esse aroma de pêssegos frescos, essa facilidade de ser amigo até de carne, essa acidez que mata a sede, como passar a língua numa navalha sem se cortar. A verdadeira pausa que refresca. Com um tartare de ostras no restaurante Arturito, o Loimer Terrassen Riesling Kamptaler Reserve 2009 (R$ 178, The Special Wineries, tel. 4306-6151) me deu a melhor combinação do ano. Ah, Riesling austríaco, chega mais perto, venha ser sul-americano! E merece elogios o garçom Paulo, que manteve o vinho impecavelmente na temperatura durante um jantar inteiro.
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Numa aldeia irredutível
- 24 de novembro de 2011
- 6h45
- Por Luiz Horta
Irouléguy é uma denominação de origem francesa tão pequena, na fronteira com o País Basco espanhol, que o paralelo com Asterix é inescapável. Uma pequena aldeia de vinhateiros, com uvas estranhas e bons vinhos.

A fonte do rótulo das garrafas já diz sua origem. É a fonte basca, visível em todos os cartazes, placas e impressos da região, dos dois lados da fronteira. Letras baseadas em antiquíssimas inscrições tumulares perdidas no entardecer dos tempos (anterior à noite dos tempos) e na codificação do alfabeto por Sabino Arana.
Os tintos são da nossa conhecida Bordalesa Beltza, chamada aqui de Tannat. O Uruguai foi um dos grandes destinos para o êxodo basco nos séculos 19 e 20 (os Pisanos são Arretxea pelo lado materno e produzem um grande vinho com esse nome).
Os brancos são da dupla de Mansengs, a Petit e a Grand, e da Courbu, que também têm nomes locais: Izkiriota Ttipia, Izkiriota e Xuri Zerratia, respectivamente.
Deixando tais migalhas de conhecimento de lado, não foi nada fácil achar vinhos da região. Na verdade, mais esbarrei neles que os encontrei. Provei um Domaine Arretxea tinto, um Domaine Brana branco e o Herri Mina branco ao lado, que foi o destaque.
Conhecia o Herri Mina tinto, bebido com um extraordinário porco ibérico assado. Era, se não estou enganado, Tannat e Cabernet Franc.
A surpresa é saber que o proprietário do Domaine e enólogo é Jean-Claude Berrouet, nascido no vilarejo de Itxassou, bem no meio do Pays Basque, cujo trabalho anterior foi ser enólogo de um certo Château de Bordeaux, chamado… Pétrus.
O branco de Berrouet é um verdadeiro retrato das Mansengs, bem ácido, como são os vinhos da região, cheio de marmelo no aroma, com aquele traço arenoso da fruta (não me perguntem como se percebe uma arenosidade no aroma, não sei responder, mas sinto) e algo longínquo de casca de laranja, grapefruit e cravo. E a Courbu entra para dar corpo e algo de doçura.

***
Herri Mina
Blanc 2005
Cheiro de marmelos frescos e de marmelos cozidos com um toque de especiarias. Na boca é uma delícia, matador de sede, pede frutos do mar. Mineral, bem longo
Viagem engarrafada
Parada nº 41/100
Irouléguy, Aquitânia, França
Gros Manseng e Petit Manseng
Uvas brancas bem ácidas, capazes de evolução e excelentes com comida
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Plavac Mali é tudo azul
- 20 de outubro de 2011
- 18h56
- Por Luiz Horta
Não, Plavac Mali não quer dizer “saúde!” ou “boa sorte!” em croata. É o nome de uma uva tinta autóctone do vasto patrimônio de castas do pequeno país costeiro nos Bálcãs. Plavac quer dizer azulado; e mali, pequeno, descrevendo o tamanho e coloração dos bagos, ou seja, a uva azulzinha. A importadora Decanter está trazendo um tinto de Plavac Mali e um branco da igualmente autóctone Posip. Provei ambos. O país tem inúmeras sub-regiões, as do interior, mais influenciadas pela bacia do Danúbio, e as da costa, pelo Adriático.

Os dois vinhos, da vinícola Korta Katarina, são do sul da Dalmácia. Confesso que antes de prová-los tive devaneios de Tintin, ia beber vinhos saídos diretamente do “Cetro de Ottokar” ou do reino de Zenda. O exótico é sempre o outro. Imagine um croata sabendo que existem vinhos no Brasil… A sensação é a mesma.
Mas foi desarrolhar as garrafas e ficar inebriado pelo caráter aromático dos vinhos. O tinto é pura cereja fresca, bem madura, uma cesta de frutas vermelhas ao sol, e flores, dá até para ouvir abelhas zumbindo (e eu ainda não tinha bebido). Na boca continuou um espetáculo frutado, com acidez excelente e taninos potentes, mas abertos a uma conversa. O álcool é alto (nenhuma surpresa diante de tanta madurez), mas não atrapalha.
Estava preparado para gostar mais do branco, pois a Posip foi considerada parente da Furmint húngara (que resulta nos Tokajs, mas também em brancos secos deliciosos). O tinto, entretanto, conquistou minha atenção.
Passado o impacto de alegria que a Plavac Mali proporcionou, fui provar o branco. Ótimo nariz de pêssegos maduros e suculentos, algo de marinho e mineral e casca seca de grapefruit, boca muito fresca, com corpo e consistência. Pediu (e ganhou) um lombo de porco assado.
A curiosidade é que a Plavac Mali era tida como sendo a mesma Zinfandel californiana. Exames de DNA mostraram que é um cruzamento espontâneo entre ela e a Dobricic, outra casta nativa. A vinícola Korta Katarina pertence à família Katarina e homenageia os jardins costeiros da Croácia, chamados Kortas.

* * * Plavac Mali 07
Korta Katarina
Nariz de muita fruta vermelha. Na boca é intenso, matador de sede, potente, com muita fruta, confirmando o aroma e taninos finos

* * * Posip 08
Korta Katarina
Mais austero no aroma que o tinto, mas com gostoso cheiro de cítrico amargo, como grapefruit, pêssegos e algo mineral. Na boca é bem presente, com boa acidez e corpo, bem seco e longo. Como dizia Saul Galvão, ‘deixa a boca limpa’
G! Favorito * * * * Excelente * * * Muito bom * * Bom * Regular
Viagem engarrafada
Parada nº 39/100
Dalmácia, Croácia
Plavac Mali e Posip
Uvas autóctones com muita personalidade. A tinta Plavac Mali é parente da Zinfandel
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Circunflexo Invertido
- 14 de outubro de 2011
- 10h34
- Por Luiz Horta
Vinho é geografia. Não que se precise saber as capitais, os pontos cardeais e o índice demográfico dos países, como era a decoreba escolar. Mas, em caso de pânico, basta abrir o mapa e muitas respostas estarão lá.
Usei o método quando fui provar os vinhos da Eslovênia (e da Croácia, que estarão na próxima coluna). Pensei: o carvalho esloveno tem sido bem elogiado e utilizado no mundo. Inúmeros produtores estão trocando os tonéis de carvalho americano pelo esloveno. E ponto. Divulgação Sauvignon Blanc, Rebula e Pinot Noir Acabava nessa frase minha sabedoria sobre a região.
Abri o mapa: bingo! Eis o país encostado nos Alpes, fazendo fronteira com Itália e Áustria, dividindo climas com parte da planície da Panônia e sob influência do gigantesco espelho d’água que é o Lago Neusiedler, onde fica o Burgenland (de onde saem bons tintos e os espetaculares botritizados austríacos, como os do Weingut Kracher). No caso dos vinhos provados, da região de Goriska Brda, as brisas mornas do Adriático e o estilo friulano, vizinho, são decisivos.
Também é importante para sua climatologia a faixa de fronteira que compartilha com a Styria, a chamada Toscana da Áustria. A Styria é famosa pelos Sauvignons Blancs elegantes, minerais e sóbrios (e pelo uso de madeira nesses vinhos, coisas do vinhateiro doidão Manfred Tement). Ou seja, nada de erudição estéril: a leitura do atlas diz o que esperar dos vinhos. Tudo resolvido via mapa. O Atlas Mundial do Vinho é o GPS do bebedor interessado. Os três únicos produtos eslovenos disponíveis no Brasil até agora são da Simcic (tem um acento circunflexo invertido sobre os “cês” que não consegui reproduzir), o que limita a avaliação dos vinhos eslovenos ao extremo sudoeste do país. Mas a promessa é boa. E qual o Simcic de que mais gostei? Justamente um Sauvignon que passa por carvalho (tonéis de 500 litros).
* * * * Sauvignon Blanc Selekcija 2008 Simcic Contido e sério no nariz, tem aroma verdoso e um pouco de sílex. Na boca é equilibrado, ótimo corpo, denso, elegante e surpreendente na sua mineralidade
* * * Pinot Noir 2008 Simcic Tem tipicidade da casta, é delicado, mas com taninos um pouco marcados. Acidez perfeita. Muito fino
* * * Rebula 2009 Simcic Nariz picante e muito cítrico, de grapefruit, casca seca. Boca muito fresca, ótima acidez, abre a sede
G! Favorito * * * * Excelente * * * Muito bom * * Bom * Regular
Quanto custa bebê-los Sauvignon Blanc Importador: R$ 140 Eslovênia: R$ 95
Rebula Importador: R$ 95 Eslovênia: R$ 45
Pinot Noir Importador: R$ 198 Eslovênia: R$ 160
Todos os vinhos são importados pela Decanter (tel. 3073-0500). Os preços internacionais são de garrafas na loja virtual eslovena e Vino.si. Os valores estão em reais, convertidos de euros pelo câmbio de R$ 2,42
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- @Chef_Paulo esta foi a entrada,,, in reply to Chef_Paulo 2010-09-14
- 6 graus em Montevideo e chovendo. quero voltar para o deserto do Sampahara? #NOT 2010-09-14
- el gauchon http://twitpic.com/2o7rp3 2010-09-14
- mata la culebra y muestra la molleja (e choto, chinchulin...) http://twitpic.com/2o7qjr 2010-09-14
- nenhuma molleja de nenhum lugar é melhor que a feita pelo parrillero oficial dos Pisano #pepedaniloparapresidente 2010-09-13
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