Eu, às vezes, me pergunto – como as pessoas, sensatamente, podem levar críticos a sério? Como integrante da categoria, não consigo. E nem me levo excessivamente a sério. Mas tem gente que se acha… Assisti hoje pela manhã a ‘W/E’, o longa de Madonna sobre o romance do século (20), entre Wallis Simpson e o rei Eduardo, o homem que renunciou ao trono por amor. O filme foi exibido no ano passado no Lido, fora de concurso. Madonna foi tratada a pontapés. Com alguma indulgência, disseram que ela estava superséria, em sua nova persona de cineasta. E o filme foi rotulado de melodrama banal para baixo. A persona de diretora nem era tão nova assim, pois Madonna já havia feito, há uns três ou quatro anos, aquele ‘Dirty, Filthy Thing’. O filme anterior era godardiano. Imagino o risinho irônico dos coleguinhas. Godard é meu! Te manda, Madonna. Ela pegava um personagem marginal, sórdido, e o tratava num registro de metalinguagem. Muito interessante. Madonna agora muda o tom e o estilo. O filme dela engole todinho ‘O Discurso do Rei’, que nunca me fez a cabeça. ‘O Discurso’ ganhou o Oscar. Madonna sequer foi indicada. Seria demais para meus pobres colegas admitirem que uma popstar, e usam a definição no sentido mais pejorativo, possa ser inteligente. Se fosse burra, como eles imaginam, não seria Madonna. Melodrama banal? Se há uma coisa que ‘W/E’ não é, é isso. A narrativa se desenvolve em dois planos. O romance do século e, na época atual, uma burguesa insatisfeita com o marido e obcecada pelo caso. Ambas se chamam Wallis. A da atualidade tem um caso com um segurança russo, Evgeni. W/E, de novo. Todo mundo acha que Madonna se projeta na Wallis antiga por ter sido uma celebridade. O filme é menos óbvio que isso. Numa cena, um comentário em of diz que Eduardo não era dominado por Wallis – como seu irmão e sucessor, o gago Bertie, é dominado pela mulher. Ele era possuído, possessed, por ela. O tema de Madonna é justamente essa possessão, que não é demoníaca. Como se constroi isso na tela? Por meio de uma mise-en-scène baseada no movimento circular. A câmera está sempre se movendo. Travellings e panorâmicas, mais a música, criam um efeito hipnótico e encantatório. Uma cena impressiona. Wallis e Eduardo estão na sala da casa dela. Wallis ainda é casada com outro. Ela prepara um drinque para Sua Alteza. O jogo de mãos, filmado em detalhes, cria um balé que tem contraponto nos gestos do (ainda) príncipe, que fuma. Que que é aquilo? Será que Madonna viu ‘Pickpocket’? Duvido que algum crítico tenha perguntado isso na coletiva do Lido? Na cabeça deles, ela é analfabeta, nem deve saber quem é Robert Bresson. Sem dúvida que a parte ‘antiga’ é melhor que a contemporânea, mas aquela não existiria sem essa, não faria sentido para nós. “Só nos fazem mal aqueles a quem autorizamos que façam isso’, diz a duquesa. É uma personagem complexa e apaixonante. De cara, é agredida pelo primeiro marido e perde o bebê, o que a impedirá de engravidar do seu príncipe. São parasitas, ele a priva de uma nacionalidade, e ela cede. Por amor? Por responsabilidade. Como abandonar um homem que renunciou a um trono? E ela carrega a culpa de não haver correspondido, de não lhe haver dado a descendência que Eduardo queria. Ele escapou da sua prisão – já era o subtexto de ‘O Discurso do Rei’, a investidura e o cerimonial do cargo como uma cadeia dourada. Cria uma prisão para a sua Wallis, que dançará, figuradamente, até a morte (dele). Confesso que fiquei meio em choque. Que raio de gente se acha superior e se recusa a ver o que é tão evidente?
Bacana é um expressão quase fora de moda e denunciadora da idade de que a usa. Mas diante do seu texto, como não usá-la. Bacana! Espero que seus pares não atirem pedras na “Geni”.
Pô, Merten. Pensei que o filme era dispensável, mas com essa sua análise sinto-me obrigado a assistir! Parece que deve ser coisa boa, vou ver se passo no Conjunto Nacional pra ver no CineLivrariaCultura (acho que lá vai passar).
Achei o filme ruim demais. Pretensioso e cheio de maneirismos banais. Longe de mim pré-julgar alguém, seja Madonna, a faxineira do escritório ou o colega de crítica. Acho até que Madonna é bem inteligente e não tem nada de analfabeta em termos de cinema. Não vi seu primeiro filme, mas este me pareceu um desastre que se arrasta além do suportável. Legal que tenhas gostado. Viva a diversidade. Mas a mim não desceu nada bem este filme.
é maravilhoso quando um crítico não se rende ao coro cantada em uníssono nos quatro cantos…
Como a frase foi escrita errada, tomo a liberdade de publicá-la novamente.
Bacana é um expressão quase fora de moda e denunciadora da idade de quem a usa. Mas diante do seu texto, como não usá-la. Bacana! Espero que seus pares não atirem pedras na “Geni”.
não esperem uma obra prima, isso nem os indicados ao Oscar na maioria das vezes são. Se esquecer que Madonna dirigiu, melhor ainda. O filme é de extremo bom gosto, não deve atrair o publico de Senhor dos Anéis. Madonna como os críticos de cinema sendo burra, se tornou a artista mais importante da história da música no planeta, é para qualquer um. NÃO. Ela quer ser reconhecida no meio cinematográfico, será fácil? NÃO. Tentem tornar Julia Roberts numa cantora de sucesso nos patamares de Madonna ?
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