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Parem tudo que Lucy está chegando

Luiz Carlos Merten

27 agosto 2014 | 09:42

Ainda não consegui dar conta de alguns filmes que andei vendo – O Casamento de May, de Cherien Dabis; Amores Inversos, de Lisa Johnson. Cherien é uma diretora americano-palestina que virou queridinha em Sundance. É uma mulher linda e, pela primeira vez se autodirige Lembra um pouco a libanesa Nadine Labaki, de Caramel.  O filme de Cherien é sobre essa garota que volta para Amã, à espera do noivo, só que ela não está muito certa de que queira se casar. Achei o filme bem escrito e interpretado – Hiam Abass é fantástica como mãe cristianizada – e não concordo muito que o filme simplifique os conflitos do Oriente Médio, tentando abordá-los por meio de relações afetivas. Adoro esses acertos de contas familiares e as duas irmãs são muito divertidas. O que não me convenceu muito foi o desfecho pouco conclusivo, e não por não trazer um fecho, como no admirável Um Belo Domingo, de Nicole Garcia, mas porque todos os homens da história são vacilantes, pouco carismáticos, como se Cherien não quisesse que nós, espectadores, tomássemos partido por nenhum deles. Mas é interessante e mãe e filha, afinal, descobrem que precisam se encontrar, e aceitar, antes que colocar no outro na solução de seus problemas. May in the Summer tem toda cara de produção indie, e viajei nas imagens de Amã (e do deserto), mas indie mesmo é Amores Inversos, com aquela personagem miserável, que cuida de velhinhas e adolescentes, e que é enganada por duas garotas perversas, que lhe escrevem cartas e, depois, e-mails simulando um romance. O filme também não deixa de ser interessante. Uma das adolescentes, boazinha, é enganada pela outra, do mal, o romance concretiza-se e a diretora mostra como as coisas muitas vezes podem dar certo por linhas tortas. É tudo simpático, atores ótimos – Kristen Wiig, Guy Pearce, Nick Nolte etc -, mas o formato indie compõe um gênero como qualquer outro, e isso termina por me aborrecer. Em compensação, fiquei siderado com Lucy, de Luc Besson, com Scarlett Johansson, que entra amanhã em mais de 300 salas e já está arrebentando nos EUA. E não é que Luc Besson, um diretor considerado de segunda conseguiu reabrir a vertente kubrickiana de 2001? Arthur C. Clarke – ‘A única forma de atingir o impossível é rompendo a barreira do po0ssível.’ É o que faz Scarlett, ao cabo de uma inacreditável trama policial que a leva a concretizar, na prática, aquilo que o cientista Morgan Freeman ousa apenas supor, com sua teoria (a expansão da mente). Pelo trailer, achei que Besson estava propondo uma nova Nikita, a mulher fodona, mas o filme dele é outra coisa. Scarlett vira Deus, vira Hal-900 e vai parar dentro de um computador – mas ela já estava lá como a voz de Ela, de Spike Jonze, não? Viajei, e até já produzi um texto que deve estar entrando no Portal do Estado.