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Luiz Carlos Merten

24.outubro.2006 09:42:57

Debate

Resisti o quanto pude a falar em eleição, até porque não me sinto muito confortável para tratar do assunto no blog, mas não posso deixar de comentar o que vi ontem no debate. É tão evidente. Alckmin vai perder porque o discurso dele é de quem ainda concorre ao governo de São Paulo. O Estado é a locomotiva do Brasil? Claro, mas numa campanha para presidente ele deveria estar falando para o Brasil. É o que o Lula faz, e bem, e por isso as acusações não colam nele. Lula matou a charada, no fim – disse que quer governar para 190 milhões de brasileiros enquanto o Alckmin fala para 35 milhões de paulistas. Não estou nem tomando partido. É só uma análise técnica. Simples e elementar. Lula vai ampliar a vantagem para presidente e Alckmin vai se reeleger governador, quando (ou se) quiser voltar ao Palácio dos Bandeirantes.

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24.outubro.2006 08:49:45

O melhor Serra

Conversei ontem com Alberto Serra, o diretor (catalão) de Honor de Cavalleria, que já é, desde logo, um dos meus candidatos ao prêmio da crítica na Mostra. Adorei o filme do Serra quando o vi em Cannes, como integrante do júri da Caméra d’Or, mas não devo ter sido muito convincente, porque não consegui emplacar nem o Honor de Cavalleria nem Hamaca Paraguaya, da Paz Encina (maravilhoso, também na Mostra) e muito menos El Violín, do mexicano Francisco Vargas Quevedo (mais um na Mostra). Era o único latino naquele júri francófono e predominantemente europeu. Não estava lá como representante do cinema da América Latina ou Íbero-Americano, mas foram minhas preferências. Gosto muito do Violino, mas confesso que o filme me decepcionou um pouquinho em Gramado. É forte, é poderoso, a segunda parte me toca e o ator Don Angel Tavira já faz parte das minhas emoções inesquecíveis no cinema, mas há algo de formalista e acadêmico no começo, à Figueroa, que agora me incomodou (e que era o que reprovavam os irmãos Dardenne, que presidiam o júri da Caméra d’Or). Cavalleria e Hamaca, de qualquer maneira, são irretocáveis e qualquer um poderia levar o prêmio da crítica. Alberto Serra, aliás, me disse que chegou a São Paulo vindo da Viennale, o Festival de Viena, onde há chance de que seu filme, hoje ou amanhã, receba o prêmio da crítica, porque o pessoal de lá gostou muito. Daqui, segue para Londres, onde Honor de Cavalleria integra a programação do London Film Festival, devendo passar no fim de semana. O filme baseia-se no Don Quixote, de Cervantes. A propósito, Serra é graduado em teoria da literatura. Admira Kiarostami e Sokúrov, mas Orson Welles e Robert Bresson foram as referências mais explícitas. O primeiro fez um Quixote que Serra abomina (e é mesmo muito ruim), mas tem dez minutos fantásticos, quando os atores recitam o texto de Cervantes e há um vento que invade a trilha sonora. O vento de Welles e o barulho das armaduras de Bresson em Lancelot du Lac. As duas influências foram (ou são) muito conscientes em Honor de Cavalleria. Vou voltar a falar do filme, que passa amanhã na Mostra, mas agora só quero dizer que comentei com o Serra ter visto em Londres a exposição do Velásquez na National Gallery, que foi uma revelação para mim. Falei nos olhares agônicos dos personagens do Velásquez e o Serra me disse que, na Espanha, os críticos mais eruditos, se é que se pode dizer assim, reconheceram no filme dele sinais da grande mística espanhola do século 16. Até nisso, Honor de Cavalleria é complexo e fascinante. Não é experimental (Serra não gosta da palavra), mas foi um filme feito fora do sistema tradicional e, mesmo com uma narrativa que não tem começo nem fim, segue alguns mandamentos do cinema popular (tem aventura, personagens). A ousadia do Serra foi ter filmado um fragmento do monumento de Cervantes. Só um fragmento do Quixote basta para criar outra coisa. Afinal, mesmo com formação em literatura comparada, Serra é cineasta. Aos 31 anos, sem nenhuma experiência prévia (exceto pequenos filmes domésticos), ele fez este filme que a mim, pelo menos, representa, com Hamaca Paraguaya, o que deva ser um cinema que pensa – e arrisca. Arrisca tanto que, na Espanha, lançado com seis cópias, Honor fez 7 mil espectadores. Ou seja, o problema do mercado, para o cinema que ousa, é o mesmo em todo mundo.

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23.outubro.2006 16:41:41

Zanin me contou

Fui comentar com o Zanin (meu colega Luiz Zanin Oricchio, que tem blog próprio no Estado, você sabe) o estranhamento que me causou As Tentações do Irmão Sebastião e ele me contou uma coisa que não posso deixar de reproduzir aqui. O filme passou no Cine Ceará, onde o Zanin conversou com o diretor José Araújo e ele relatou uma história interessantíssima. O Exu dentro do filme, o Diabo que aparece para tentar o jovem Sebastião, é do candomblé. Ou seja, o cara não estava representando e sim, incorporando de verdade um exu, com todos os problemas daí decorrentes. Tinha dias que ele dizia pro Araújo – hoje não vai dar, hoje, ele (o Exu) não virá. Tinha outros em que vinha e era imprevisível, escapando a todo controle no set. Até isso faz parte do mistério das Tentações, que pode desconcertar (e até não satisfazer integralmente), mas não merecia aquela debandada do público. Como filme inclassificável, poderia ter merecido um pouquinho mais de boa vontade do público da Mostra que é, afinal, um espectador cinéfilo, do tipo que espera ser surpreendido vendo coisas que fujam ao ramerrão da indústria (ou será que me engano?).

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23.outubro.2006 16:17:43

Zanussi vem aí

De tanto postar textos no blog não estou tendo tempo de ir ver os filmes que me faltam (e interessam) da Mostra. Estava saindo, mas aí me veio a novidade que quero postar logo. Minha amiga Ursula Groszka, verdadeira embaixatriz cultural da Polônia em São Paulo (e no Brasil), me ligou para dar a boa nova. Nos primeiros dias de novembro, logo que a Mostra terminar, estará chegando a São Paulo o diretor Krszystof Zanussi. Vêm ele e um punhado de seus filmes, especialmente os dos anos 80. Zanussi é um autor fundamental do cinema polonês, para muita gente o mais característico da tardia nowa fala, a nouvelle vague local, que chegou meio atrasada ao país. Zanussi estudou na Escola de Cinema de Lodz, que foi o celeiro de onde saíram grandes diretores, incluindo Roman Polanski, que a Ursula já trouxe a São Paulo para outro mega-evento. Ainda não sei quais os filmes do Zanussi que vamos poder ver – Ursula não fez a curadoria –, mas o primeiro dele, Estrutura de Cristal, é uma obra-prima. Dos seguintes, Camuflagem consegue ser melhor do que O Homem de Mármore, do Wajda, ao qual costuma ser comparado por sua crítica à corrupção e ao conformismo dominantes na burocracia que governava a Polônia nos anos 70. Constância vai ainda mais fundo nessa linha (e também costuma ser comparado a outro clássico de Wajda, Sem Anestesia). Conheço pouco dos filmes mais recentes do Zanussi, mas o retrospecto dele é impressionante e pode fazer da sua vinda um verdadeiro acontecimento cinematográfico na cidade.

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Um dos destaques da 30ª Mostra está sendo a retrospectiva do cinema político italiano. A título de contribuição para o debate, coloco aqui abaixo um texto do Luiz Israel Febrot, publicado no Estado, em 25 de fevereiro de 1984, no qual o autor discute a validade do filme policial como instrumento de análise política, concluindo que se trata de uma estética ineficiente. Nem me lembro mais sobre o que estava pesquisando no arquivo do Estado, possivelmente sobre o Damiano Damiani, que é um autor que me interessa bastante – acho que devem ser as duas únicas coisas sobre as quais Carlos Reichenbach e eu sempre estivemos de acordo, Damiani e o Brian De Palma de Scarface –, quando encontrei o texto que me pareceu muito revelador e que gostaria de ter republicado, mas sem chance. Ele é longo (prepare-se!), mas acho fundamental porque levanta questões que eram formuladas na época e permanecem atuais, a despeito de todas as mudanças ocorridas no cinema e no mundo. Eis o texto –
A trama policial é um instrumental estético insuficiente para analisar a complexidade do jogo social e a natureza essencial do poder, tanto no romance como no teatro ou mesmo no ensaio. Dashiell Hammett, autor de novelas policias célebres, era mais culto e politizado que sua companheira Lillian Hellman; no entanto, o grande nome da arte americana é Lillian e não Hammett. Álvaro Lins, mestre do ensaio literário brasileiro (oh, tempos de crítica literária em rodapé!), em erudito mas pouco crítico estudo, “No Romance Policial”, reconhece implicitamente seu menor valor. Antônio Cândido, em artigo sobre o filme “Investigação sobre um Cidadão acima de qualquer Suspeita”, analisa o papel da polícia, lembrando que Fouché a tinha transformado num instrumento preciso e onipotente, necessário para manter a ditadura de Napoleão – mas criando dentro da ditadura um mundo paralelo, que se torna fator determinante e não apenas determinado.
Só o setor político da polícia (CIA, KGB, SNI, etc.), tem, por si, força específica, porém o mais das vezes articulado ou entrosado com o poder político. O poder policial dificilmente é o principal poder da engrenagem social – ainda que possa em determinadas circunstâncias assumir força própria incontrolável. A intriga “policial-artística” sofre de mais um vício congênito: o diabolismo, equivalente à teoria conspiratória para destruir a sociedade, nos moldes de “Os Protocolos dos Sábios de Sion”. Essa visão diminui a importância das forças vivas do corpo social e transforma o embate social num mero jogo de intrigas, ciladas, falsos e apócrifos, de pessoas ou grupos mal-intencionados. É a tentativa de explicar a história através da forma do nariz de Cleópatra, como dizia George Bernard Shaw. A discussão sobre poder e polícia vem a propósito de “Advertência”, de Damiano Damiani, produção italiana de 1980, em exibição na cidade.
“Advertência” parece ser o final de um filão do filme político cuja trama o sujeito é a polícia e cujo objeto é a análise social, geralmente o poder ou a corrupção. Esse filão representou para o cinema italiano um recuo e não um avanço, que, embora volumoso, foi qualitativamente ralo. O início desse filão político-policial, devido ao impacto, foi o já clássico “Investigação sobre um Cidadão acima de qualquer Suspeita”, de Elio Petri, 1970; depois, sucederam-se incontáveis filmes policiais. O balanço (final?) desse filão não parece ser totalmente positivo.
A revelação cinematográfica mundial do pós-guerra foi o cinema italiano; e, no cinema italiano, o neo-realismo. A França tardou a recuperar-se dos problemas da guerra e a Alemanha perdeu (não fisicamente) quase todo o seu estoque de diretores. A linha neo-realista italiana, simbolizada por Cesare Zavatini-Roberto Rossellini-Vittorio de Sica, produziu os frutos que dela se esperava e em seguida surgiu uma geração de cineastas de tendência e visão Multiformes, mas a maioria batizada em torno da realidade italiana ou européia. A temática política ou abordagem social mais direta foi o seu objetivo e temário. A “Ladrões de Bicicleta” e “Umberto D” seguem-se Gillo Pontecorvo com “A Batalha de Argel”, 1965, e o extraordinário “Queimada”, em 1969; Bernardo Bertolucci realiza Prima della Rivoluzione, 1965. O corajoso Le Mani Sulla Citta, de Francesco Rosi, é de 1963, e “O Caso Mattei”, de 1972; um ano antes , Giuliano Montaldo havia filmado “Sacco e Vanzetti”. “O Conformista”, de Bernardo Bertolucci, é de 1970 e de 1971 é o polêmico e agressivo filme de Elio Petri, “A Classe Operária vai ao Paraíso” (posterior a “Um Cidadão acima de qualquer Suspeita”). E, em 1976, Bertolucci apresentaria “Novecento”, um afresco da sociedade italiana.
A articulação entre o tipo de filme produzido e a situação político-econômica italiana é um exercício a ser inferido do estudo comparativo filme-atmosfera social. Não através do critério de causa e efeito imediato e necessário, nem tampouco através de uma cronologia linear. Mas da análise global de ambos. Enfim, o período relacionado representa duas década muito criativas e polêmicas par ao cinema italiano, que então firma seu nome internacional. Eis que em 1970 irrompe “Investigação sobre um Cidadão acima de qualquer Suspeita”, de Petri, que em certo sentido expressa o clima diferente da sociedade italiana e um ângulo diverso de abordagem do fato social (mera questão de perspectiva?), e também o início de um filão industrial-cinematográfico.
E “Advertência”, de Damiano Damiani, parece indicar o esgotamento do filme político-policial. O autor já havia anteriormente incursionado no mesmo terreno com “Confissões de um Comissário de Polícia a um Procurado da República”, 1971, também de originalidade duvidosa. “Advertência” é um filme de lugares-comuns tanto na intriga como nas situações, personagens e ambientes. Mas contém idéias surpreendentes; expõe exatamente o contrário do que o público espera e o que o filme parece pretender no início. O público compartilha da opinião de Antônio Cândido no artigo já citado, que lembrava, a propósito de Balzac, que este “viu a solidariedade orgânica entre ela (polícia) e a sociedade, o poder de seus setores ocultos e o aproveitamento do marginal para fortalecimento da ordem. Em seus livros há um momento onde o transgressor não se distingue do repressor”. Álvaro Lins considera que uma das condições do romance policial é o enigma.
A resposta de Damiano Damiani ao entendimento generalizado é paradoxal e primária: a polícia é honesta e o enigma está situado no lugar errado. No filme, o enigma não é o motivo, a atividade concreta ou a moral dos financistas que estão corrompendo o corpo policial; e, sim, quem é o policial corrupto? Resposta não há, pois o filme se esquece de identificar esse policial e prefere responder que a polícia como um todo é uma entidade honesta, cuja atividade visa só ao bem público. Honesto é o comissário Berrezi-Giuliano Gemma e honesto é também o comissário-chefe Martorano-Martin Balsan – embora um desconfie do outro. O entrave ao combate eficaz ao crime e à prisão rápida dos criminosos, no filme, é a Procuradoria, a Magistratura. A polícia, além de ser isenta de responsabilidade, recebe um incentivo comovente: se o policial confiasse no colega, ela seria mais eficiente… Por enquanto, essa situação não tem fundamento na Itália, nem em nenhum outro país conhecido.
A deficiência do filme está presente também na abstração do objetivo. Um grupo de homens de finanças, em busca de imunidade, corrompe e mata. Mas qual é a atividade criminosa que os banqueiros pretendem encobrir, qual é o seu conceito de moral e de sociedade bem organizada? O filme não responde. Há insinuações sobre drogas, câmbio (entrevista coletiva com a imprensa), mas nada de concreto. Pode-se responder que o filme pretende analisar as formas de corrupção com que se pretende envolver a polícia. Mas se ignorarmos o motivo concreto que conduz à corrupção, a análise social inexiste e a trama concentra-se na vazia ação pela ação. Em “O Inimigo do Povo”, de Ibsen, quando se denuncia o caráter imoral do prefeito e os cidadãos de bem que preferem que continue a poluição das águas de banhos e potável, visto que a denúncia significaria prejuízo financeiro, há a denúncia e a comprovação aceitável do caráter anti-social do procedimento dos denunciados, e a luta de um homem realmente moral e de bem, o dr. Stockmann, tanto assim que a denúncia se verifica no primeiro ato. Enquanto em “Advertência”, como em outros filmes, os corruptores são meramente pessoas, o “eterno ser humano” e não entidades sociais e psicológicas.

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23.outubro.2006 14:35:05

Para lembrar Perlov

Já ficou tarde para sugerir que o leitor corra ao Unibanco Arteplex, para ver o Diário 1 e 2 de David Perlov. A exibição começou às 14 horas, mas às 16h10 tem o Diário 3 e 4 e às 18h20 o 5 e 6. Na verdade, foi a Flávia Guerra que me lembrou – quando Perlov esteve no Brasil, para ser homenageado pelo Festival do Cinema Judaico, em 2003, entrevistei-o no hotel. Era um velhinho simpático e comunicativo, que andava se queixando da fadiga. A entrevista foi publicada em 11 de novembro (e a Flávia a encontrou no arquivo do Estado, em busca de informações sobre o diretor). Perlov conta no texto como causou alvoroço no festival judaico. Foi um dia ou dois antes da entrevista, quando se sentiu mal. ‘Pensaram que ia morrer”, ele me disse e estava achando divertido. Na verdade, 14 dias mais tarde, em 13 de dezembro, Perlov morreu em Tel-Aviv, o que faz daquela fadiga algo premonitório. E agora o seu Diário está aqui na Mostra. Cineasta israelense de origem brasileira, Perlov tinha pouco mais de 20 anos quando foi a Paris para estudar pintura. Descobriu o cinema e mudou o eixo de sua vida. Virou diretor. Tinha 43 anos quando houve outra grande mudança de eixo. Ele fazia pequenos filmes e documentários institucionais em Israel, onde passara a residir, quando teve o estalo. Em vez de dirigir sua câmera para o mundo, para filmar os outros, Perlov resolveu que iria dirigi-la para si mesmo, fazendo o Diário. E começou essa série em que vida pública e privada coincidem e o autor, falando de si, consegue documentar as transformações do mundo. Foi uma conversa muito legal com ele e o Perlov me disse que, na sociedade da imagem, quando todo mundo realiza a previsão do Andy Warhol, tendo direito a seus 15 minutos de fama, o diferencial do trabalho dele era (é) a consciência crítica – de si e do próprio trabalho. Perlov tinha 74 anos. Ao se despedir, me abraçou e me disse em ídiche (que traduziu depois) – ‘Até os 130′. Era um costume israelense para nos desejar, aos dois, o dobro de sua idade. Confesso que tive uma sensação de vazio quando recebi, num frio telegrama de agência, a notícia de sua morte. Era como se o conhecesse há muito tempo, como se fosse da família. Na verdade, o conheci – pelo cinema, coisa que você também pode fazer. E o que guardo, em definitivo, foi uma coisa que ele me disse. Perlov sobreviveu à 2ª Guerra para descobrir o horror dos campos de extermínio dos nazistas. Sofreu muito, mas nunca cedeu ao desespero. O que me disse, a título confessional, como no Diário, é que se sentia incapaz de se emocionar com a dor e o sofrimento. Entendia-os, claro, sentia compaixão pelos sofredores e pelos derrotados, mas nada o emocionava mais do que ver as pessoas felizes. Uma criança ou um velho rindo eram capazes de levá-lo às lágrimas. Isso dava epitáfio. Ria da dor, mas chorava de felicidade. David Perlov, um grande cineasta.

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23.outubro.2006 13:53:19

A mamãe que sabia tudo

Mas ela ainda estava viva? Esta, provavelmente, é a primeira pergunta que os leitores farão, ao saber que Jane Wyatt morreu. Os leitores que a conheciam, bem entendido, pois Jane estava já com 96 anos e há muito tempo não fazia nada, nem cinema nem TV. Mas quem viveu os primórdios da TV no Brasil, no começo dos anos 60, e principalmente quem era garoto, vai se lembrar com saudade da atriz que fazia a mulher de Robert Young na série Papai Sabe Tudo (que nos EUA foi ao ar entre 1954 e 1960). A personagem se chamava Margaret Anderson e era uma representação da perfeição – a esposa e a mãe ideais. Naturalmente que o mundo era outro, Hollywood ainda não havia desmontado o sonho americano e os anos 60 estavam recém começando para mudar tudo (sexo e comportamento). Neste quadro, Papai Sabe Tudo era, por assim dizer, uma fantasia de outra época, quando tudo e todos éramos mais inocentes. Não sou saudosista, mas confesso que, às vezes, me ocorre lembrar das séries que via, tipo Papai Sabe Tudo e Lanceiros de Bengala (que eu adorava)e também de minhas primeiras leituras, quando era um ávido consumidor da Coleção Terramarear, da Editora Melhoramentos, lendo todos os livros de Tarzan, do Edgar Rice Burroughs. Nunca me conformei que o cinema não fez justiça à riqueza de imaginação do autor, com suas aventuras no centro da Terra, no Império Romano ou em Camelot. Naquele tempo, não havia internet, comunicação instantânea, todas essas coisas, e era possível acreditar em descendentes de tribunos romanos ou de cavaleiros da Távola Redonda perdidos na África. Eu devia ser débil mental, porque acreditava ou então sabia que era ficção e gostava porque aquilo preenchia uma necessidade que tinha de fantasia. Tudo isso me veio agora por causa de Jane Wyatt. Ela trabalhou com diretores importantes, como Frank Capra (em Horizonte Perdido) e Elia Kazan (Boomerang, lançado no Brasil como O Justiceiro). Já mais velha, foi a mãe de Spock na série Jornada nas Estrelas e no quarto filme, dirigido por Leonard Nimoy, A Volta para a Terra. Mas a lembrança que ficou foi a da mãe de Papai Sabe Tudo. Estou aqui escrevendo e fazendo a minha viagem proustiana. Jane está sendo a minha madeleine, em busca do tempo perdido. Com ela me veio à lembrança também a Dorothy MacGuire, de filmes como Sublime Tentação, de William Wyler, e A Cidade dos Robinsons, de Ken Annakin (que me fazia vibrar). Eram as mãezonas de Hollywood, humanas, carinhosas, compreensivas. Naturalmente que havia as gostosas. BB. MM, Mamie Van Doren (essa eu tirei do baú), mas a Jane era especial.

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Fui ver ontem o filme de José Araújo As Tentações do Irmão Sebastião e confesso que… Nem sei o que confessar. Escrevi ontem aqui que estava louco para ver o filme, mas não possuía nenhuma informação sobre ele. Nem sabia do que se tratava. Logo na abertura, descobri que o irmão Sebastião tem ligação com o mártir cristão que virou santo católico – e originou um filme famoso de Derek Jarman. Bem antes que Mel Gibson fizesse A Paixão de Cristo falado em aramaico, Jarman havia feito Sebastiane, em 1976 (há 30 anos), falado em latim. Jarman era gay de carteirinha – morreu em 1993, aos 41 anos –, além de homem de grande cultura. Fez Caravaggio, Edward II e Wittgenstein. Seu Sebastião é uma evocação homossexual do martírio do santo, revelando um imaginário meio punk (Jarman fez também Magnicídio, que era justamente sobre o movimento punk em Londres). De volta às Tentações do Irmão Sebastião, mal sabia eu que elas são as da carne, que o diretor José Araújo filma para discutir, metafisicamente, questões ligadas à transcendência. Seu Sebastião é atormentado pelo desejo (hetero e homo), sendo tentado por uma representação do Diabo com raiz no candomblé. Ou seja. Sim – é um filme sobre a miscigenação cultural. José Araújo foi aquele diretor supervalorizado quando fez O Sertão das Memórias. Era uma fase em que o cinema brasileiro retomou o caminho do sertão, com Baile Perfumado, Outras Estórias (o melhor de todos, do Pedro Bial, que depois vendeu a alma ao Big Brother Brasil) e Crede-Mi (o pior, além de mais pretensioso de todos, da Bia Lessa, diretora que sempre adorou revirar pelo avesso os clássicos da literatura européia; no palco, ela fez isso melhor do que na tela; para Crede-Mi, baseou-se no Eleito, de Thomas Mann, transposto para as dunas do Ceará, onde também se passa Tentações). O filme de Araújo não é fácil nem se constrói por meio de um imaginário exclusivamente gay como o de Jarman (embora tenha algo a ver). O mais curioso é ver como o diretor enfrenta, e resolve, os problemas de fazer, no Brasil, um filme que tem reconstituição de época e projeção futurista. Meia dúzia de detritos num canto, sacos de plástico que voam e uma trilha de ‘guerra’ constróem sua visão do futuro circa 2030. É pobre, mas eficiente. Imagino que as pessoas que foram ver o filme ontem à noite no Unibanco devessem saber menos ainda que eu (que tinha, pelo menos, referências sobre o autor). Teve gente que não precisou de mais de dois minutos para ir embora. Nem esperaram para ver aonde aquilo ia dar (e deu). Foi uma debandada fenomenal. Saía gente pelo ladrão. No final, éramos metade do que havia no começo, na sala.

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23.outubro.2006 08:43:20

Todo cuidado é pouco

Sorte não tem nada a ver com isso, ou não deveria ter, mas tomara que Heitor Dhalia seja mais afortunado amanhã do que Cao Hamburger foi ontem. O Cheiro do Ralo terá amanhã sua primeira exibição na Mostra. O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias passou ontem pela primeira vez. Cao Hamburger deveria protestar. O filme dele, que venceu o prêmio do público no Rio – e aqui, se repetisse a dose, poderia ganhar R$ 400 mil da Petrobrás –, teve o que se pode chamar de sessão tumultuada. Na maior parte do tempo, estava fora de foco, o que motivou apupos e reações indignadas da platéia, sem que nenhuma providência fosse tomada. No final da sessão, houve mais de um espectador que se recusou a votar, o que pode prejudicar o belo filme de Cao sobre o exílio interno – e, neste sentido, O Ano inova, dando outro tratamento ao tema da luta armada durante o regime militar. Não estava no Arteplex, é verdade, mas foram informações que me foram passadas por pessoas da mais alta confiança. Nenhuma sessão da Mostra deveria apresentar este tipo de problema e, menos ainda, as da Mostra Brasil, que envolvem um prêmio em dinheiro cobiçadíssimo pelos diretores brasileiros, que contam com ele para o lançamento de seus filmes.

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22.outubro.2006 13:10:44

Miss Sunshine

Nem só de Mostra vive o cinéfilo. Meu editor no Caderno 2, Dib Carneiro, foi ver Pequena Miss Sunshine e concordou integralmente com Dustin Hoffman, que na entrevista, em Londres, disse que é o melhor filme entre os que viu recentemente. Dib concordou e acrescentou uma informação valiosa. Disse que o cinema estava cheio, ontem, sábado. Ou seja, a Mostra ocupa 19 salas da cidade e concentra a atenção do público, mas existem outras boas atrações que não podem ser subestimadas. Pequena Miss Sunshine, A Família Rodante da produção independente americana, talvez seja a mais luminosa delas. Não se furte a este prazer.

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