CANNES - Assisti ontem ao filme palestino Les Chevaux de Dieux, sobre a formacao de um grupo de terroristas islamicos. O filme me provocou uma emocao muito forte. Juntei-me ao copro de aplausos e os atores jovens estavam na sala de Un Certain Regard, foi muito forte. A noite, Thomas Vinterberg mostrou La Chasse, A Caca. Mads Mikkelsen faz o bom camarada que eh acusado de molestar uma menina no jardim de infancia. Sua vida vira um inferno, o colapso atinge seu filho, que, ao defender o pai, eh agredido pelos antigos parceiros de Lucas (eh o nome do personagem). Gostei demais de Mikkelsen, mais um nome a acrescentar aos de possiveis melhores interpretacoes masculinas e o filme tambem eh muito bacana, mas o tempo todo eu me perguntava como isso vai terminar? Termina mal, no sentido de que Vinterberg naoh soube propor um final comncvincente para o drama que retrata. O filmer tem tres ou quatro finais e ele encerra com o pior. O bom seria o reemncontro de Lucas com o pai da garota que o acusou. Ela o faz inocentemente, mas eh o olhar dos adultos, completamente irracional nesta era de politicamente correto, que desencadeia a tragedia. Eh um bom film,e, mas poderia ser melhor. Jantamos, um grupo de brasileiros, apos o Vinterberg e, a 0h30 (madrugada), fomos ver, Carlos Eduardo (de Londina) e eu, o Dracula de Dario Argento, em 3-D. O pai de Asia Argento foi recebido com honras, como `mestre`, no tapete vermelho de Cannes. Asia estava com ele. O palais estava lotado de admiradores e quase veio abaixo aplaudindo os dois, pai e filha. O filme, mal comecou, teve de ser interrompido por problemas no sistema digital. Ocorreu o mesmo no Recife, lembram-se? Assisti aos primeiros filmes de Dario na estreia, voces nem eram nascidos (a maioria, pelo menos). Naquele tempo, ninguem o levava a serio. Hoje, Dario eh reconhecido como genio – mais ou menos como Jose Mojica Marins no Brasil (eh o Mojica italiano? Pode ser…). Acho legal essa ausencia de preconceito, mas tenho de admitir que a estetica cafona de Argento permanece nos anos 1970. Eh muito brega, com aquele vermelhaoh todo de sangue e efeitos que fazem questaoh de naoh ser especiais. A sessaoh terminou quase 3 da manhah e as 7 jah estava de peh para assistir a Michael Haneke, Amor. Assim como naoh sabia que The Hunt era sobre abuso, tamnbem naoh sabia que Amour trata de terceira idade, a relacaoh de um casal de velhos. A saude dela vai deteriorando, e tudo se passa numa casa que Jean-Louis Trintignant, o marido, tenta manter funcionando. A coletiva foi muito concorrida. Trintignant parece estar nas ultimas, digo fisicamente, porque a cabeca permanece lucida, a mil. Emmanuelle Riva, que se acaba no filme, estah, pelo contrario, rija na realidade. Ninguem consegue ser cinefilo sem amar Riva em Hiroshima, Meu Amor. O filme de Haneke eh bom, mas doloroso – ou doloroso, mas bom. Naoh me empolgou, ele, em geral, naoh me empolga. Admiro a falta de sentimentalismo, eu que sou taoh transbordante. Riva e Trintignant saoh excepcionais. Ele tem grandes competidores ao premio de melhor ator. Ela concorre sozinha a melhor atriz, mas, enfim, eh um mito e o juri talvez prefira alguem mais jovem.
CANNES – Deixei para ver o Christian Mungiu ontem no fim da noite, 22 horas. Havia visto o comeco de `Era Uma vez na America`, em presenca do elenco – Robert De Niro, James Woods, Jennifer Connelly (acompanhada do marido, Paul Bettany). Aquele telefone que toca, a trilha de Ennio Morricone, o tempo estendido por Sergio Leone. Fernando Severo ia amar… Jantei e encarei o Mungiu. `Beyond the Hills`, Alem dos Montes. Havia encontrado alguns coleguinhas brasileiros e soh Orlando Margarido manifestou entusiasmo. Eu amei. Uma historioa contempooranea, mas que dah a impressaoh de ser intemporal, sobre a vida num monasterio. Uma das novicas recebe a visita de uma amiga. Houve algumas coisa, um affair entre eles, mas nada eh perfeitamente claro, exceto que a recem chegada quer convencer a garota a ir com ela para a Alemanha, abandonando a Romenia (e o monasterio). A forasteira, Alina, entra em colapso, o `pai`, que comanda o grupo a submete a um exorcismo que termina em tragedia. Como em `4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias`, seu longa vencedor da Palma de Ouro, Mungiu mostra duas garotas ligadas por um ekle forte e um homem que influencia as duas. Mas agora o tom eh diferente, para quen o autor possa continuar falando da responsabilidade no mundo pos-comunista. `Beyond the Hills` talvez seja o filme mais rigoroso, como mise-en-scene, que vimos ateh agora. Mungiu narra sua historia por meio de elaborados planos sequencias. Mas, por mais que tenha gostado do estilo, foram as personagens que me apanharam. As duas garotas, a novica que vai se distanciando da outra e esta ultima que ficou presa num sentimento que sua ex naoh experimenta mais. Qualquer coisa que disser corro o risco de entregar informacoes valiosas. Cal0-me, mas o Mungiu veio para pleitear sua segunda Palma. Vou almocar e, na sequencia, entrevisto Gael Garcia Bernal e o diretor Pablo Larrain, de `No`. O filme chileno eh muito bom. Depois eu conto.
CANNES – Mariana Morisawa criou o trofeu Bruto do Dia e faz a selecaoh com as meninas da critica brasileira (alguns marmanmjos participam, mas esta eh outra historia). O bruto de hoje eh Tom Hardy, que faz o irmaoh mais velho de `Lawless`. O novo filme de John Hillcoat jah tem distribuicaoh no Brasil – pela Imagem – e estreia em setembro, dois dias depois do meu aniversario. Guarde a data, 14. Gostei bastante. `Lawless` retoma a vertente do cinema da depressaoh e da lei seca, que tanto fascina os diretores dos EUA. Hillcost eh australiano e acha que essa atracaoh se deve as possibilidades metaforicas – a comparacaoh e o entendimento da epoca atual. Naoh havia gostado muito do longa anterior do cineasta, na verdade naoh havia gostado nada de `A Estrada`, com Viggo Mortensen, mas desta vez Hillcoat me apanhou. O filme conta a historia de tres irmaos que criam uma lenda de invencibilidade. Rodrigo Fonseca, do `Globo`, comparou o filme a `Era Uma Vez na America`, cuja versaoh integral passou ontem, mas HIllcoat, mesmo gostasndo de Sergio Lerone – eh um daqueles autores que transcendem o cinema de genero, disse -, admitiu que sua inspiracaoh foi Arthur Penn, `Bonnie & Clyde`, claro, e as fotos do periodo. Achei o filme muito bem interpretado – por todo o elenco, o que inclui, alem de Tom Hardy, Shia Labeouf, Jason Clarke, Jessica Chastain, Mia Wasikowska e Guy Pearce (como o bad guy) -, mas o que me encantou foi o roteiro, assinado por Nick Cave. `Lawless` baseia-se numa historia real e ele disse que o livro, escrito pelo mais jovem dos irmaos, Matt Bondurant, eh muito bem escrito, com dialogos que bastou transpor para a tela. Eu confesso que me decepcionei um pouco. Gostei tanto de certas cenas, e dialogos, e os creditava ao proprio Cave, que tambem fez a musica. Um momento entre Shia e Hardy, em que o irmaoh mais velho explica para o `garoto` de que estofo eh feito um homem. Outro de Hardy e Jessica, em que ela diz que ele acredita no proprio mito e naoh percebe a realidade. Num filme viril, de homens, as mulheres saoh otimas, e a cena em que Shia fraqueja, e chora, e ela o consola me evocou… `Rocco`? Naoh sei se `Lawless` eh palmarizavel, mas eu gostei bastante e nesse show de interprertacaoh que tem sido os filmes da selecaoh – mesmo aqueles de que naoh gosto -, o filme de John Hillcoat situa-se entre os melhores. Mas tenho de concordar com o Thiago Stivaletti. Estamos no sabado, quarto dia do festival, e ainda naoh houive nenhum `coup de coeur`. Talvez o novo filme de Christian Mungiu. No proximo post, vamos lah.
CANNES - Daqui a pouco, 18h45 daqui, Martin Scorsese apresenta em Cannes Classics a versão restaurada de ‘Era Uma Vez na América’. Imagino que meu amigo Fernando Severo largaria tudo para viajar na meia-hora a mais que o filme de Sergio Leone adquiriu, mas eu confesso que vacilo. São 4h13 minutos, o que significa que a sessão irá até quase 23 horas – com apresentação e tudo mais vai passar – e, neste caso, vou perder, também em Cannes Classsics, ‘A Balada de Narayama’, a versão antiga, de Keisuke Kinoshita, aslém do novo Christian Mungiu, ‘Beyond the Hills’, que concorre à Palma. Um grande festival como Cannes é feito de escolhas, e isso é o que a gente mais tem de fazer aqui. Para complicar minhas escolhas da noite tem o filme de Xavier Dolan, ‘Laurence Anyways’, com Melvil Poupaud como homem que quer mudar de sexo e virar mulher, mas, para não perder a relação, tenta convencer a namorada a virar homem. “Albert Noble’ é fichinha perto disso, não?
CANNES – Tenho corrido tanto para ver filmes, fazer entrevistas e redigir textos para o jornal que nem tem me sobrado tempo para o blog. Fechou-se um ciclo hoje pela manhã, com o novo filme de Matteo Garrone, ‘Reality’. Gostaria que Pedro Bial, com quem conversei no Recife, depois de assistir a seu belo documentário (em parceria com Heitor D’Alincourt) sobre Jorge Mautner, estivesse aqui. ‘Reality’ é sobre um sujeito que destroi a vida dele querendo entrar para o Gran Fratello, o BBB dos italianos. Garrone é o diretor de ‘Gomorra’ e fez outro puta filme, com uma trilha fantástica, mais uma, de Alexandre Desplat. Mas se o filme fecha um ciclo é por causa do ator, o exstraordinário Aniello Arena, que está preso na Itália. Em fevereiro, os irmãos Taviani ganharam o Urso de Ouro por ‘Cesare Deve Morire’, sobre aquela trupe de presos que monta Shakespeare, ‘Júlio César’, na cadeia. Agora, o preso saiu da cadeia para participar de outro filme, mas do set ele retornou ‘en galera’, como se diz. Impossibilitado de deixar o país – a Justiça vetou o pedido -, não veio para o tapete vermelho, mas Deus, estamos ainda no terceiro dia e por mais que tenha gostado do Matthias Schoenaert, do novo Jacques Audiard, vou torcer para que Arena ganhe o prêmio de interpretação masculina. O cara é poderoso, e essa história de um sujeito que vai perdendo a identidade é muito forte. Luciano, é o nome do personagem, se sente vigiado pela equipe de seleção do ‘Fratello’ e, na tentativa de agradar à produção, ele passa a representar um papel, como se sua vida fosse uma ficção. Garrone criou um jogo de espelhos muito rico ne complexco para refletir a realidade e eu realmente gostaria de que o Bial, como intelectual que é é – a par de ser nosso sr. BBB -, assistisse a ‘Reality’ para apadrinhar o filme de Garrone no Brasil. O Grande Irmão, George Orwell já chegou e Matteo Garrone, depois da Máfia de ‘Gomorra’, encara outro assunto forte (e polêmico).
CANNES – De madrugada, decepcionado com o que havia sido a programação de abertura do 65.º festival, manifestei o desejo de que o segundo dia chegasse logo. Ele veio e foi, como esperava, melhor. Estou seis horas à frente de vocês, o que significa que já passam das 18 horas, aqui. Daqui a pouco terei de escolher entre a abertura da mostra Un Certain Regard e a da Quinzena. ‘Mystery’, de Lou Ye, em Um Certo Olhar, e ‘The We and I’, de Michel Gondry, na Quinzaine. O dia começou hoje com ‘De Rouille et d’Os’, de Jacques Audiard, o diretor de ‘Um Profeta’. Um bruto, interpretado pelo belga Matthias Schoenaerts, se envolve com a instrrutora de um show aquático que perdeu as duas pernas no ataque de uma orca. Há dez anos, Audiard diz que não poderia ter feito este filme porque não havia tecnologia para tornar tão real a amputaçãso das pernas de Marion Cotillard. O filme é sobre um homem que se reconcilia com a mulher, um pai que se reconcilia com o filho, um irmão com a irmã. No limite, um homem que se reconcilia consigo mesmo. Vocês vão me desculpar, mas chorei de soluçar. Um crítico! Na plateia do maior evento de cinema do mundo! Foda-se! Quando esse homem, enfim tocado, diz à mulher que a ama… O cinema pode ser uma coisa maravilhosa. Matthias é um sobrevivente. Começa o filme catando lixo, restos de alimento para alimentar o filho. Executa várias funções, inclusive a de instalador de filmagens ilegais das pessoas (pelos patrões) e de lutador, naquelas lutas de last man stands. Vale tudo. Cada porrada que o sangue parece que vai saltar da tela. Audiard filmas muito bem, e não apenas as cenas de lutas. Matthias é um brucutu, um vigor animal nas cenas de sexo. Não liga nem um pouco se Marion não tem as pernas. É tudo uma questão de estar OP, operacional, ou seja, disponível. Desejo não é problema. Se está livre, ele manmda ver. Não me lembro de outro filme como esse, com esse recorte ao mesnmo tempo social, existencial. “LDe Rouille et d’Os’ foi feito aqui mesmo, em Cannes, por causa do sol. O festival começou. Cheguei a me arrepender de não ter gostado de ‘Moonrise Kingdom’, porque fiz uma entrevista ótima com Wes Anderson. Adorei algumas coisas no filme – os sets, a sensação de que se trata de uma animação em live action. Ele me explicou como fez isso com o décor, os atores. Conversamos sobre música, a trilha de Alexcasndre Desplat, com direito a uma suíte final em que os instrumentos vão entrando separadamente. Faz eco com a cena do começo, em que um concerto de Purcell é reinventando, nos mesmos moldes, por Benjamin Britten. Esse olhar para as partes e a tentativa de integração no todo é o cerne da mise-en-scène der Wes Anderson. Ele gostou da metáfora. Entrtevistei-o na Praia do Carlton Hotel e corri para o sétimo andar do próprio hotel, onde já rolavam as entrevistas de ‘Madagascar 3′. Confesso quie fui no automático com Chris Rock e Ben Stiller, me envolvi mais com Martin Short e Jada Pinkett Smith, mas Jessica Chastain… Jessica quem? Quem é cinéfilo, sabe. Jessica esatá fechando aqui, como diz, o ano mais extraordinário de sua vida. Em maio passado, ela era uma desconhecida quando estourou, aqui em Cannes, com ‘A Árvore da Vida’, de Terrence Malick. Vieram depois a indicação para o Oscar e diversos filmes, incluindo ‘Madagascar 3′ e ‘Lawless’, de John Hillcoat, que participa da competição deste. Achei-a maraviolhosa, calorosa e não sei mais quantos adjetivos poderia arranjar. O jeito que elas fala de cinema, de diretores, dos filmes que ama. Qual a maior emoção deste ano tãso especial? Ela diz que foi ter levado a avó à festa do Oscar. Foi a avó que lhe deu força quando resolveu ser atriz, foi a avó quen lhe apresentou ‘O Mágico de Oz’ e, quando Judy Garland canta ‘Over the Rainbow’, a menina Jessica estava conquistada para a arte, o cinema. Tive uma bela tarde. Hoje, de voltas ao Grand Théâtre Lumière, o Palais – a sessão de ontem foi na segunda sala em importância, a Claude Debussy -, pensei comigo como sou privilegiado quando se elevaram os acordes do ‘Carnaval dos Animais’, que acompanha a vinheta do festival. A câmera sobe uma escadaria até o topo, onde se descortina a Palma de Ouro. Quem nunca viu, deve encontrar facilmente o vídeoclipe no YouTube. A emoção de aqui estar. Os filmes, as entrevistas. Um dia isso vai se acabar , mas, por enquanto, I’m in heaven.
CANNES – Vocês vão achar que eu deliro, mas a melhor coisa que vi nestre primeiro dias do 65.º festival – o maior evento de cinema do mundo – foi a animação ‘Madagascar 3′,. com uma nova personagem, uma policial francesa, cuja meta na vida é caçar um leão e que, por isso mesmo, move implacável perseguição a nossos conhecidos dos filmes anteriores. Diverti-me bastante e isso é bem mais do que posso dizer dos filmes que iniciaram a compertição. ‘Cahiers du Cinéma’ amou o novo Wes Anderson, mas eu não fiquei muito convencido com ‘Moonrise Kingdom’, que conta a história de amor de dois pré-adolescentes de 12 anos nos EUA de 1965. Eles fogem e são perseguidos pelo xerife, pela família e por uma assistente social (o garoto é órfão). O filme é sob medida para justificar a fama de excêntrico do diretor Anderson. Tem um visuial interessante, como se fosse uma versão live action do longa anterior do cineasta, a animação ‘O Incrível sr. Raposo’, era o incrível, não?, mas não vai muito além disso. Acho potencioalmente interessante a ideia de Anderson de reorganizar a vida, e o mundo, em busca de uma perfeição que ele sabe ser impossível, mas, por mais válido que seja o esforço, o fracasso é inevitável, como diria John Hustron. O delegado geral Thierry Frémaux, que assina a curadoria da seleção oficial – competição mais Un Certain Regard – deu uma entrevista dizendo que não sofre nenhuma pressão nem interferência, mas escolher os filmes para um grande festival, como Cannes, significa abrir mão dos próprios gostos. Ele seleciona o que é importante para o festival, não necessariamente aquilo que prefere, mas eu me pergunto o que há de tão importante em ‘Moonrise Kingdom’, que não consegui ver. O concorrente da noite, a que acabo de assistir – já é passado da meia-noite na Côte d’Azur -, pode também não ser bom, mas pelo menos ‘Baad el Mawkeaa’, Depois da Batalha, de Yousry Nasrallah, é a primeira ficção egípcia após o levante popular que derrubou a ditadura de Hosni Mubarak, em fevereiro dso ano passado. Há, por assim dizer, uma urgência na história da jornalista que se envolve com um homem do povo, manipulado por um político corrupto e o problema é que o filme procura dar um testemunho amplo – sobre a luta do povo, a condição das mulheres, a corrupção e a miséria -, tudo isso sem muito rigor, ou sem rigor nenhum. Mas é curioso que, após o irrealismo de ‘Moonrise Kingdom’, a competição já tenha entrado num tipo de realismo epidérmico, que tenta colocar na tela o que, no fundo, o público já viu na TV, aquela movimentação na praça central do Cairo. Preocupado em marcar entrevistas e assistir ao debate do júri, perdi o documentário sobre Roman Polanski, que pretendo ver amanhãs. Mas vi o de Woody Allen, de Robert B. Weide, que é, digamos, agradável, mas em momento algum tenta dar conta da personalidade do autor. Por experiência própria, sei que Woody não foge a sua contradições e encara responder a perguntas que talvez sejam constrangedoras – eu, no ano passado, fiz questão de dizer que ele era muito maior artista na época de Mia Farrow e ele aceitou discutir o asssunto numa boa. Já é tarde, vou dormir. Amanhã é outro dia e a quinta começa com Jacques Audiard e Marion Cotillard, ‘De Rouille et d’Os’. Tomara que o segundo dia seja melhor que o primeiro. Só não resisto a acrescentar que ‘Cahiers’ talvez tenha acabado com as chances de David Cronenberg na Palma de Ouro. A revista elege ‘Cosmópolis’ como favorito. ‘Cashiers’ tewm sido o maior pé-frio. Tudo o que a revista elege vai pro brejo. Estou nos cascos para ver o novo Cronenberg. Espero que o filme seja bom e que a preferência de ‘Cahiers’ não o prejudique, embora ainda seja cedo demais para prognósticos.
CANNES – Uma das coisas boas de um grande festival como Cannes é a possibilidade que oferece para se realizar grandes entrevistas, com diretores que fazem a diferença. Já marquei com Ken Loach, Sergei Loznitsa, Abbas Kiarostami. E não só diretores. Almocei com Neusa Barbosa, Orlando Margarido, Pedro Butcher, Paulo Sérgio Almeida e José Carlos Avellar. Jantei com Flávia Guerra e Tiago Stivaletti. Amanhã, começa a correria e, por certo, vamos continuar nos encontrando, mas o ritmo já será outro, as preocupações, outras. Adoro caminhar pela Croisette, como fiz hoje, saboreando os pôsteres que anunciam (grandes?) filmes a caminho. Duas mulheres se pegando? Rachel McAdams e Naomi Rapace em ‘Passion’, de Brian De Palma. Batman e Homem-Aranha. O novo James Bond, ‘Skyfall’. Marion Cotillard e Joaquin Phoenix, de volta, uma dupla de sonho no novo James Gray, ‘Low Life’. E Monica Bellucci. O tempo está passando também para ela, veja-se ‘As Idades do Amor’, em cartaz no Brasil, mas a Malena continua um mulherão. As marquises anunciam que Monica estará na nova comédia de Danièle Thompson., ‘Des Gens Qui s’Embrassent’. Uma das mais belas homenagens que o cinema já prestopu ao eterno feminino foi para a Bellucci. ‘Malena’, de Giuseppe Tornatore. Logo na abertura do filme, o menino, um guri, está na praça com os amigos. O piá ainda uisa calças curetas, é um frangote. Mas, acom,panhando cxom os olhos o movimento de Monica/Malena, a gente assiste ao volume crescer dentro da calça. A primeira ereção a gente não se esquece. Estou falando em projetos, aleatoriamente, não nos cartazes dos filmes da competição, ou das mostras paralelas, e eles tambvém estão aqui, espalhados por toda parte. Esse clima de mundanidade e de festa é inebriante. Fazer filmes é tão difícil. Colocá-los nesta vitrine, mais ainda. Por que não festejar? O hotel em que estou, o Embassy, é cheio de fotos, como eles dizem, de légende. No meu quarto tem Elizabeth Taylor e o marido Mike Todd, aqui em Cannes; Federico Fellini, Marcello Mastroianni e Anita Ekberg, no ano de ‘La Dolce Vita’; e Romy Schneider e Alain Delon, fotografados num almoço com Luchino Visconti. Meu Deus! Dá pra ficar babando diante de gente tão bonita, que incendiou nosso imaginário – o meu, com certeza. Mudando agora de assunto, lembrei-me de que ontem, na Redação, meu editor – Ubiratan Brasil – me contou do DVD que comprou e eu digo, sigam o exemplo dele. Corram! ‘Escravas do Medo’, Experiment in Terror, de Blake Edwards. No começo de sua carreira, e ainda, ou já, nos anos 1960, Edwards dirigiu na TV séries como ‘Mr. Lucky’ e ‘Peter Gunn’. Incorporando ao cinema técnicas de TV – como Alfred Hitchcock havia feito em ‘Psicose’ -, ele realizou ‘Dias de Vinho e Rosas’, Days of Wine and Roses, um dos mais belos e sofridos filmes sobre alcoolismo, com Jacxk Lemmon e Lee Remick. No Brasil, chamou-se ‘Vício Maldito’. De novo com Lee Remick, e Stefanie Powers, e Glenn Ford, fez o experimento no terror, sobre duas mulherres (irmãs) acossadas por um serial killer e o policial que as protege. ‘Escravas do Medo’ é um thriller que, como ‘Psicose’, leva o suspense e o medo ao limite do terror. E a trilha de Henri Mancini, o parceiro sempre inspirado de Blake Eswards, é gloriosa. Se não me engano, Bira disse que o lançamento é da Magnus Opus. Se for, é pirata, com certteza, só o filme, sem extras, mas o Bira, que (re)viu, disse que a cópia é boa e a fotografia em preto e branco é esplendorosa. Misturei alhos com bugalhos, sorry. Mas estava louco para fazer essa chamada para ‘Escravas do Medo’. Vejkam e depois me digam se não curtiram.
CANNES – Pela procedencia, voces jah viram onde estou. Cheguei no fim da manhah daqui, cedissimo no Brasil, mas ontem quase perdi meu voo. Estava no jornal, fechando materias para a edicaoh, quando descobri, passado do meio-dia, que meu voo era as 16h15. Tive de fechar meu material voando, corri em casa para fazer mala e dai para Cumbica. Cheguei em cima da hora, mas tudo bem. Jah estou instalado, com minha credencial, pronto para a maratona,. que comeca amanhah. A foto de Marilyn cobre a fachada do palais, mas naoh eh a Marilyn sexy e sim, uma recatada que sopra um bolo de aniversario. Cannes festeja seus 65 anos, uma data redonda, e dentro do palais encontram-se uma serie de fotos miticas. Marlene Dietrich e Ernst Lubitsch, comemorando o aniversario dele; James Dean, Rock Hudson e Elizabeth Taylor, comemorando o aniversario dela, durante a filmagem de `Assim Caminha a Humanidade`, Giant; e Orson Welles e Rita Hayworth, secundados por Errol Flynn, com o bolo de aniversario dela. Estou soh dando noticias. Vou passar nas distribuidoras, porque tenho de fechar uns pedidos de entrevistas hoje. Depois, como diria Ibrahim Sued, eu conto.
Sempre interessado em discutir a família como célula-mater da sociedade – Margaret Thatcher dizia que não havia essa coisa, a sociedade, mas indivíduos e suas famílias -, Luchino Visconti sonhou durante muito tempo com um filme sobre uma família tão poderosa que pudesse praticar, impunenente, os crimes mais perversos. Ele poderia ter se apropriado da saga dos Bórgias, mas Visconti associou a esse desejo uma reminiscência. Em 1934, ele estava na Alemanha e ficou marcado pelo clima de decadência moral da República de Weimar, sob Adold Hitler. Essa família criminosa e impune só poderia se desenvolver sob o nazismo. Mais de 30 anos depois do que viu, Visconti começou a gestar o que viria a ser ‘Os Deuses Malditos’. La Caudita degli Dei, em italiano. Gotterdamerung, em alemão. Criou os Essenbecks, baseando-se nos ‘Bruddeenbrooks’ de Thomas Mann, mas também em Shakespeare, elementos trágicos de ‘Hamlet’ e ‘Macbeth’. Uma família de industriais do aço e a particularidade lhe interessava por causa das forjas e do fogo – esse elemento romântico, ligado à mitologia e que se faz presente em todas as encenações do nazismo. Começa com um jantar em família, no qual afloram os conflitos entre os que apoiam e os que se opõem ao ‘führer’. Curiosamente, era assim que também começava ‘Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse’, de Vincente Minnelli. Só que ali onde Minnelli colocava ‘melos into drama’, Visconti é duro feito pedra. Em ‘Vagas Estrelas da Ursa’, de 1965, e depois em ‘O Estrangeiro’, baseado em Albert Camus, ele introduzira a lente zoom como elemento central de sua mise-en-scène, o que lhe permitia uma aproximação mais brutal dos personagens, como se quisesse trespassar a carne para devassar o interior. Nesta noite, o patriarca Essenbeck vai morrer (será morto) e a luta por seu espólio será cruel. Martin, o personagem de Helmut Berger, vai manipular a todos e destruir a família. Seu ódio é contra a mãe, Ingrid Thulin, a quem ele vai ‘possuir’, cometendo incesto. O espectador que hoje assiste a ‘Os Deuses Malditos’ não consegue nem imaginar o impacto que teve, há 40 e poucos anos, a cena de Helmut Berger vestido de mulher, interrompendo o jantar de família com sua recriação do mito de Marlene (Dietrich) em ‘O Anjo Azul’. O clássico de Joseph Von Sternberg já era sobre a decadência moral de Weimar, mas agora Visconti radicaliza. Outra cena impactante foi a do massacre dos SA, que compunham a guarda pretoriana de Hitler. Mas eles eram comandados por um gay vicioso e Hitler, depois de se servir deles, sentiu que necessitava de outra elite e fez com que os SS massacrassem os SA, para assumir seu lugar. O filme é todo ele uma série de massacres, morais e físicos. Todo um mundo vai sendo destruído na trajetória irresistível de Martin para consolidar seu poder. De fundo, Wagner, ‘O Crepúsculo dos Deuses’. Nem por isso, ‘Os Deuses Malditos’ é anti-wagneriano. Como dizia Visconti, não era culpa de Wagner que celerados como Ludwig II e Hitler tenham se apropriade sua música, o primeiro para viver uma delirante fantasia artística e o segundo, para perpetrar o Holocausto. Estou com o DVD de ‘Os Deuses Malditos’ em casa, mas não creio que conseguirei tempo para rever o filme, antes de viajar, amanhã. O importante é que, no fim dos anos 1960, um vento de repressão varreu a Europa. O nazi-fascismo voltou a ser uma força política, apesar dos esforços para bani-lo, na Itália e na Alemanha. Vittorio De Sica já havia se baseado em Jean-Paul Sartre para fazer ‘O Condenado de Altona’, em 1962. O próprio De Sica berberia na fonte de Giorgio Bassani para fazer ‘O Jardim dos Finzi Contini’ em 1971, ganhando com o filme seu último Oscar. Vieram, na sequência, ‘O Porteiro da Noite’, de Liliana Cavani, e ‘Salô’, de Pier Paolo Pasolini. Tudo isso é história (História?). ‘Os Deuses’ de Visconti não só se inscrevem na tendência como se destacam como uma força particular. E o elenco do filme? Dirk Bogarde, Charlotte Rampling, Florinda Bolkan, mais os citados Helmut Berger e Ingrid Thulin. ‘Os Deuses Malditos’ é daqueles filmes que cinéfilo pode (re)ver cem vezes e sempre vai descobrir alguma coisa nova. Você, leitor, pode começar a maratona.
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