CANNES – Nunca houve tantas estrelas no júri de Cannes como neste ano. Escolhido o presidente, ele escolhe, de comum acordo com o festival, a composição restante do júri. Ao lado de Steven Spielberg estão Ang Lee, Cristian Mungiu, Nicole Kidman, Christoph Waltz, Daniel Auteuil, Naomi Kawase etc. Spielberg e Ang Lee estiveram na disputa do Oscar (que Ang Lee venceu). Ambos trocaram amabilidades. Ang Lee disse que Spíelberg sempre foi seu ídolo. Spielberg disse que é um amigo a quem admira. E Steven acrescentou que o bom de Cannes é que ninguém faz campanha pelos filmes, como no Oscar. Serão eles, os nove jurados, em busca do filme que poderá ser uma descoberta, e uma revelação. Vendo Spielberg falar da família cinema e de Cannes como um evento global, multicultural, um ponto de encontro, emocionei-me a ponto de quase chorar. No fundo, o que todos buscamos é uma experiência visceral – Spielberg, Ang Lee, você, eu. Daniel Auteuil disse uma coisa linda. Ao ser convidado, pesquisou na internet todos os ‘filmes palmés’, que receberam a Palma de Ouro. E chegou à conclusão de que viu a maioria e que foram filmes que fizeram sua cabeça, formaram o homem e artista, o ator e diretor, que é. Participar do júri que vai escolher a próxima Palma de Ouro, talvez apontar um caminho, é muito mais que um privilégio. É um sonho. O que Auteuil disse, ate M. le president assina embaixo. Saída coletiva do júri acreditando que o entendimento é possível. Tantas pessoas diferentes – diferentes origens, culturas. O mesmo respeito pela diversidade, o mesmo amor pelo cinema. O Grande Gatsby está aqui em Cannes fora de concurso. Foi produzido em 3-D e o início é muito legal, com o selo de Jay Gatsby na tela plana e ela adquire profundidade, e cor, o que é uma forma de Baz Luhrmann reinventar a abertura de Moulin Rouge, lembram? Justamente o 3-D. Por quê? Para atingir a profundidade dos sentimentos? Para realçar ainda mais os fogos de artifícios? Já sei até os coleguinhas que vao dizer isso, coitados. Daqui a pouco, a competição começa para valer, com Heli, de Amat Escalante. Torço para ser surpreendido, para que seja um grande festival.
CANNES – Cá estou, desde ontem. Cheguei a tentar adar uma geral na Croisette, com todos aqueles outdoors de filmes que, daqui a pouco, estarão ocupando as telas de todo o mundo. Não consegui me conectar ontem e hoje emendei uma coisa na outra – a sessão de O Grande Gatsby, a coletiva do filme de Baz Luhrmann, a coletiva do júri. Vamos por partes, mas antes de começar – com o filme de abertura – permitam-me contar, para manter o tom confessional de diário do blog, que, pela manhã, ao sair do hotel, estava atrasado e chovia. Corri feito doido e, numa curva de esquina, dei uma derrapada no piso molhado e caí, espetacularmente. Juntou um monte de gente, todos preocupados com o pobre velhinho. Não sei como não me quebrei. Fiquei todo dolorido depois, mas vamos em frente. Descobri, finalmente, por que Luchino Visconti queria tanto contar a história de Scott Fitzgerald e Zelda e quem me contou, por meio de seu próprio filme, foi `Baz`. Visconti tinha até os atores para os papéis, que queria que fossem Warren Beatty e Julie Christie, no tempo em que viviam juntos. Como o Marcel Proust viscontiano, Em Busca do Tempo Perdido – o volume que ele queria era Sodoma e Gomorra, o mais realista, com um perfume de Balzac -, Scott e Zelda, que era como o filme de Visconti ia se chamar, nunca se concretrizou, até Baz Luhrmann fazer o `seu` Gatsby. Lembro-me de que, quando o entrevistei no Rio, Baz me disse que eu havia sido o único jornalista, no mundo!, a fazer a ponte entre Moulin Rouge e Rocco e Seus Irmãos, que ele também ama. There was a boy, a very strange enchanted boy. Não seria esta uma definição para Rocco, o idealista interpretado por Alain Delon? A dúvida é agora sobre quem o enchanted boy virou? Jay Gatsby ou o narrador da história, Nick? Um silêncio de morte seguiu-se ao fim da sessão de O Grande Gatsby. Como sempre, houve uma debandada, muita gente saiu correndo para o próximo compromisso. Eu fiquei até o fim. Bem no finalzinho, aplausos. Scott escreveu O Grande Gatsby aqui pertinho, em San Raphael, e enquanto ele terminava a great american novel, Zelda, sua mulher, o traía numa praia não muito distante de onde está agora o palácio do festival. O ano era 1924 e o escritor enviou a seu editor uma nota em que dizia ter consciência de haver escrito seu primeiro romance realmente pessoal. Scott era autodestrutivo, Zelda foi o seu abutre, puxando-o para baixo. Ernest Hemingway, que se dizia amigo de Fitzgerald, escreveu um texto duro sobre a ligação do casal, mas sem o abutre duvido que Scott Fitzerald tivesse escrito seus textos admiráveis. Jay Gatsby forja uma persona, uma identidade, uma fortuna por amor a Daisy. Cria um mundo de sonho para tentar seduzi-la, mas Daisy, como sonho, é inatingível e ele morre na tentativa. Ela nem tem consciência do mal que causa. O filme tem uma primeira parte que é puro Moulin Rouge – cinema do artifício. Na saida, ouvi muitos coleguinhas dizendo que Baz Luhrmann ja fez aquilo, e melhor, o que confesso que achei curioso, porque nao me lembro de muitos críticos elogiando o musical com Nicole Kidman. O que me lembro é de muita gente me chamando de louco, por defender o filme. Quer dizer que agora gostam? Entendi. Depois da primeira parte cheia de fogos de artifícios, vem a segunda, dura como aço, e cruel. Leonardo DiCaprio tem aquela cara de bebê. É perfeito no papel. Durante todo o tempo, dissimula suas emoções. Pobre menino rico – o pobretão no ninho dos poderosos. Ele pode adquirir o dinheiro, mas não a linhagem. Tom Buchanan e Daisy passam como rolos compressores sobre ele. Só quem sabe disso somos nós – o público, Nick, o narrador, Scott o escritor (e Baz, o cineasta). Se vocês me perguntarem se gostei de O Grande Gatsby, não tive uma paixão fulgurante como a que senti por Moulin Rouge – e até escrevi um livro, Cinema – Entre a Realidade e o Artifício, movido pela paixão. Mas Gatsby me perturbou, ficou comigo. A trilha é uma coisa de louco. Muita gente fazia comparações estapafúrdias com o livro, depois da sessão. Coisa de quem, obviamente, não leu Scott Fitzgerald, ou o leu superficialmente. Foram feitas perguntas demais para Leo na coletiva. Nada do que ele disse acrescentou, de verdade. Eu acho, eu acho, eu acho. Baz Luhrmann tinha no set especialistas em Fitzgerald. Talvez nem precisasse. Viscontianamente, ele entendeu a tragédia de Gstsby. O desencanto, a derrota, a decadência. O problema não é de onde vem o dinheiro de Gatsby, mas se ele, afinal, é um homem ético, um bom homem. O 66.º Festival de Cannes começou. Uma maratona de 12 dias que todo cinéfilo, tenho certeza, me inveja por cobrir há mais de 20 anos. Mas é a boa inveja. Vou tentar ser os olhos e ouvidos de vocês nesta Croisette.
Sábado pela manhã fui ver o Faroeste Caboclo de René Sampaio. Gostei bastasnte do longa de René Sampaio, cujo curta Sinistro é bem legal. Faroeste Caboclo começa como terminam muitos bangue-bangues, com um duelo. E entra, em flash-back, a história do garoto que vira homem, sempre se questionando sobre suas escolhas e se, na realidade, ele escolheu alguma coisa, po0rque seu destino parece traçado (pelo acaso, pelo azar). Quando ele tenta mudar, as coisas não dão certo. O garoto mata um homem, vai para a Febem, vira traficante em Brasília, se envolve com a filha do senador. Lembrei-me de Terror e Êxtase, que Antônio Calmon adaptou do livro de José Carlos Oliveira, em 1979, com Denise Dumont e Roberto Bonfim. A cocotinha do baixo Leblon vira refém do bandido revoltado, liga-se a ele. Faroeste Caboclo é, num outro formato, o que Terror Êxtase talvez quisesse ser, se Antônio Calmon tivesse acertado a mão, mas quem sabe o filme dele não era tão ruim? Denise Dumont, afinal, ganhou o prêmio de melhor atriz da APCA, Associação Paulista dos Críticos de Arte. Gostei demais de Fabrício Boliveira, da minissérie Subúrbia, de Luiz Fernando Carvalho, que faz o ‘herói’, e de Iris Valverde, cujo despudor é uma coisa maravilhosa. Íris se reinventa depois da Sue Ellen de Avenida Brasil. Até coloquei no meu texto na capa de hoje do Caderno 2. Não existem filmes brasileiros – longas – em Cannes, neste ano. Faroeste Caboclo poderia estar lá, senão na competição, em alguma mostra paralela. Viraria cult, acreditem.
Decididamente, não. Que maneira de começar um post, mas estou respondendo à pergunta que Márcio Abreu, da Companhia Brasileira de Teatro, fazia no título de sua montagem anterior. Todo mundo nu, mas sem safadeza. Teatro sério, de indagação (estética, social e existencial). Achei, com todo respeito, uma m… Épatant no mau sentido, para chocar (mas não é a palavra) pequeno-burguês. E aí fui ver no sábado a nova montagem do grupo, Esta Criança. Êpa! Gostei demais. É verdade que Renata Sorrah representa um plus a mais, como diria Daniel Filho, e puxa o restante do elenco para cima. O que é aquela mulher em cena? Poderosa… Histórias de família, de pais e filhos. Na primeira, uma filha, que vai ser mãe, conta como vai ser diferente da mãe dela. Na última, a mãe pede perdão à filha e ela se regozija quando a mãe vai embora. No miolo, a história da mãe que vai com a amiga ao necrotério para identificar o corpo do filho. É a grande cena, a mais impactante e, ao mesmo tempo, a mais previsível – ou alguém tinha dúvida? Gostei do texto de Joel Pommerat, dramaturgo que já conhecia e que de alguma forma me lembrou William Inge, que escreveu para Elia Kazan op roteiro de Clamor do Sexo. É tão natural filhos terwem resseentimento pelos pais, mas a maturidade, dizia Kazan, é quando a gente percebe isso, consegue perdoar e seguir em frente. Acima de tudo, o que me impressionou em Esta Criança, e Márcio Abreu deu-se conta disso, é que não é preciso tirar a roupa para se desnudar em cena. O diretor imprime sua marca – os personagens cantam, como cantavam em Isso Te Interessa? Só uma coisa – por que em inglês? Para mostrar o mundo global em que estamos inseridos? É um belo espetáculo, uma bela montagem e a concepção cênica, aquele espaço torto no palco do Sesc Vila Mariana, me pareceu muito forte.
Vocês me conhecem. Sabem que, para muitas coisas, sou como Jack (o estripador). Vou por partes. Estava em Cancun quando Cannes divulgou sua seleção oficial. Fiz uma leitura vertical, em busca de brasileiros. Não havia. Depois, vieram o Recife, o Festival Varilux. Cannes parecia uma coisa distante. Agora, chegou. Embarco hoje à tarde para Paris e, de lá, para Nice, seguindo por terra – é a praxe – para Cannes, onde devo chegar amanhã à tarde. Pela diferença de horário, ainda ser´~a pela manhã no Brasil. Ontem, ao redigir a matéria de abertura do 66.º festival – está na capa de hoje do Caderno 2 -, foi que me dei conta do que me espera. A seleção me pareceu mais interessante, com todos aqueles nomes na competição – Arnaud Desplechin, Roman Polanski, Takashi Miike, Hirokazu Kore-eda, Asghar Farhadi, Abdullatif Kechiche, Nicolas Winding Refn, Paolo Sorrentino, Jia Zhang-ke, James Gray, Ethan e Joel Coen (este é para vocês), François Ozon etc. E em Un Certain Regard, Claire Denis, Sofia Coppola, Hany Abu-Assad. E tudo vai começar na quarta com O Grande Gatsby, de Baz Luhrmann, que enfrenta um senhor desafio – a dele é a quarta adaptação do romance de Scott Fitzgerald e apesar de alguma coisa boa aqui, outra ali (a interpretação de Alan Ladd na versãop de Elliott Nugent, de 1949, a trilha de Nelson Riddle, vencedora do Oscar, na de Jack Clayton, em 1974), o cinema nunca fez justiça ao livro. Baz Luhrmann fará? Ponho fé que sim, porque a obsessão de Jay Gatsby por Daisy e o engano desse homem pelas aparências – o fato de se tornar milionário não o coloca no mesmo nível da mulher amaa - tgêm tudo na ver com Baz. Me animei mais, mas me animei principalmente ao ver o que Cannes Classics vai exibir – as versões restauradas de Cleópatra, de Joseph L. Mankiewicz, Hiroshima Meu Amor, Charulata, Os Guarda-Chuvas do Amor, Lucky Luciano, Tarde de Outono (Ozu!). Tem até um Hitchcock, e não é um qualquer, mas Vertigo, Um Corpo Que Cai, que acaba de ser escolhido na Inglaterra como o melhor filme de todos os tempos. E pensar que, por causa da convergência de horários, vou terminar perdendo muita coisa disso (dos ‘meus’ clássicos”). To choose or not to choose? Às vezes, somos escolhidos. Lá vou eu, mas ainda não é agora.
Ainda tento me adaptar ao novo horário de fechamento do Caderno 2, que transferiu o eiuxo de minha atividade da manhã para a tarde. E fui ver hoje O Reino Encantado sem saber muita coisa, ou melhor, sem saber nada, exceto que era animação, e dos produtores de A Era do Gelo. Assisti a alguns trailers – Turbo, sobre um caramujo turbinado que disputa corrida de carros, e Rio 2, que me deixou nos cascos, mais assanhado que criança diante de vitrine de doces. E veio o tal Reino, encantado por Chris Wedge, o parceiro de Carlos Saldanha no primeiro Era do Gelo. Vocês sabem que comigo não tem esse negócio de achar animação um gênero menor, ou infantil. Amo Ratatouille, O Rei Leão, O Submarino Amarelo e Branca de Neve e os Sete Anões como os grandes filmes que são - p(r)onto. Confesso que pirei com Reino Encantado. No início, nem estava gostando muito da história sobre o combate entre as forças da vida e da morte numa floresta. Há a protagonista, uma garota que chega para visitar o pai e ele é um pesquisador que acredita que, na floresta, existem seres minúsculos, liliputianos, que lutam por sua preservação. A ‘mensagem’ é claramente ambientalista e, por conta dessa crença – mais um cientista louco -, o casamento acabou e a jovem, órfã, viveu a vida toda longe dele. Ocorre o improvável. A heroína é reduzida a proporções mínimas e se liga a general do Exército verde que também está tendo problemas com o garoto que cria como filho, em substituição ao pai biológico. Lembram-se de Robôs, também de Chris Wedge? Já era sobre a relação pai-filho, e sobre um pai substituto. Achei muito interessante, e até me emocionei pela forma como as relações se estabilizam, entre a jovem e o pai, o rebelde e seu superior (no Exército verde). Mas assim como o general sofre com a morte da rainha do verde, fiquei meio desconcertado porque há um princípio de romance que não se concretiza quando a protagonista volta ao tamanho natural. Há uma espécie de sublimação – ela e o verdinho seguem se comunicando, mas cada um em seu mundo. É o problema de muitas animações, que defendem a diferença, tudo muito legal, mas não conseguem encarar a questão da sexualidade, como se ela não fizesse parte do universo infantil, dentro da família. Uma leitura mais atenta de Bruno Bettleheim, e de sua psicanálise dos contos de fadas, seria bem libertadora. Feita a ressalva, gostei demais de O Reino Encantado e da vertigem que as novas tecnologias trazem para o desenho animado. Há uma cena de voo em que o pássaro do jovem soldado, depois de passar pelo buraco da agulha – um desfiladeiro -, plana sobre a água. Que que é aquilo? A perspectiva, realçada pelo 3-D, me levou numa viagem maluca. Não existem mais limites – já dizia James Cameron. A imaginação é o limite. O dinheiro é outro. Animação, com essa tecnologia, é muito cara. Mas que impressiona, a mim, pelo menos – ah, isso sim.
Un Certain Regard, Um Certo Olhar. Minha amiga Ildsa Santiago, do Festival do Rio, será jurada da mostra que compõe a seleção oficial com a competição. Pode ser que esta venha a supreender, e tem muitos nomes bons, mas de cara achei a seleção de Un Certain Regard mais exigente. Ilda vai ver muita coisa boa, espero. Procuro ver filmes das demais seções,.mas a prioridade é a compdetição e o problem,a é que muitas vezes os horários batem. Por isso mesmo, gosto der ficar aqueles dias em Paris depois, quando as mostras Un Certain Regard e Semana da Crítica migrasm para lá. No ano passado, assisti a Beasts of the Southern Wild e o filme do filho de David Cronenberg, Virus, no Reflets Médicis. Já falei aqui, e não vai nenhuma originalidade nisso, que a ausência do cinema brasileiro na seleção oficial somente depõe contra o festival. Pode ser problema de datas, pode ser o escambau, mas com certeza não é falta de qualidade da produção nacional. A gente vê tanto filme ruim nesses grandes eventos que pode apontar pelo menos uns 20 nossos que são muito melhores. E não é um problema específico do cinema brasileiro – é do latino em geral. O africano, então, nem se fala. Cannes privilegia a Europa, a Ásia e os EUA, que garante o glamour do tapete vermelho. Não tenho problema nenhum com isso. Hollywood continua fazendo grandes filmes – é verdade que os que eu considero maiores não são os que agradam a muita gente, na crítica inclusive – e a grande patrocinadora de Cannes é a L’Oréal, uma empresa cujo lucro está ligado à beleza e que, portanto, quer ver aquele tapete vermelho cintilando. O que já percebi é que o diretor artístico Thiérry Frémaux tem uma manreira meio torta de mostrar que prestigia o Brasil. Em anos sem longas nacionais, existem sempre brasileiros no júri, ou nos júris. Ilda está no júri de Un Certain Regard, eu mesmo já integrei o júri da Caméra d’Or. Neste sentido, imagino que nossos diretores e produtores prefeririam não ver brasileiros nos júris, e isso sem nenhum rancor.
Fui ver Pedalando com Molière e me encantei com o filme de Philippe Le Guay que, além do mais, proporciona grandes atuações a Fabrice Luchini e Lambert Wilson. O ator recluso, um misantropo, recebe a visita de outro ator que estourou na TV (com um folhetim sobre médico, a la Dr. House) e lhe propõe que retorene à cena numa nova montagem de Molière e de… Le Misantrope. Os diálogos da peça são incorporados à realidade de ambos, a tal ponto que, de repente, os diálogos do dramaturgo se ajustam ao que os protagonistas estão dizendo e vivendo. Luchini veste-se como Alceste, a vida imita a arte e ele cospe frases que levarão a iniciativa (a produção) a um beco sem saída. Muito interessante, inteligente e os atpores,. repíto, são ótimos. No embalo de Pedalando com Molière e O Homem, Que Ri, no Festival Varilux, e somando os dois filmes ao Resnais, Vocês ainda não Viram nada, e a duas peças em cartaz, o Murakami de Monique Gardenberg e o Rain Man de José Wilker, fiz um terxto para op Caderno 2, sobre a maneira como esses filmes e peças se constroem nas bordas das duas linguagens. Resnais, Jean -Pierre Améris (O Homem Que Ri) e Le Guay levam o teatro para o cinema, o palco para a tela, enquanto Wilker e Monique seguem o caminho inverso. Conversei com ela, que me disse como pensa cinematograficamente, como a câmera é a extensão de seu braço e, quando pensa ou escreve um texto, ele já vem visualizado. Rogério Sganzerla definia o estilo de Monique como ‘cinema vivo’. Pode ser que as histórias aque compõem O Desaparecimento do Elefante componhasm um espetáculo irregular, mas e daí? Adorei o conceito, a realização, a iluminação e a forma como Daniela Thomas cria sua cenografia digital. Amei a Ana Karenina de Maria Luiza Mendonça e Monique, e a diretora me disse como ‘sampleou’ outras Kareninas e até Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman, da mesma forma como músicos fazem samples de outros cantores e compositores para criar a música deles. Fiquei até com vontade de rever O Desaparecimento do Elefante, mas já tenho duas ou três peças engatilhadas para ver no fim de semana e na segunda jás estarei voando para Cannes. A Croisette me chama e eu nãso resisto àquele chamado, mesmo que a seleção destye asno esteja me parecendo desconcertante. Em princípio, Un Certain Regard parece melhor que a competição, mas eu vou como sempre – esperando ser surpreendido. E que tal ser surpreendido logo no primeiro dia, pelo Gatsby de Baz Luhrmann? Meu ex-editor, Evaldo Mocarzel, foi a Cannes naquele ano e achou o filme uma ‘excrescência’ – e o Evaldo, carioca, carregava nos Ss para destilar seu veneno contra a obra-prima de Baz, que Isabela Boscow, senão me engano, também tratou a pontapés na Veja. Não entenderam nada. There was a boy/A very strange, enchanted boy… David Bowie começa a cantar e eu já estou em trsanse, ali, onde outros só conseguem ficar, ou passar, em trânsito. O desejo de Gatsby pela sua Daisy é um material sob medida para Baz Luhrmann. Resta saber se ele acertou o tom, já que Jack Clayton errou feio na versão dos anos 1970, que tinha (aparentemente) tudo para ter sido 10 - roteiro de Francis Ford Coppola, a aura de Robert Redford e ‘aquela’ trilha. Espero que sim (que Baz tenha acertado).
Muita gente consdidera o exército de esqueletos de Jasão e o Velo de Ouro a suprema criação de Ray Harryhausen. O próprio mago dos efeitos visuais sempre teve um carinho especial pela cena, e ela é realmente pçrodigiosa, embora também me encante, na aventura mitológica de Don Chaffey, o momento em que Tritão emerge do mar com seu tridente e impede o deesabamento da montanha, para que o Argos passe pelo meio de suas pernas, rumo ao oceano. Jasão e o Velo de Ouro, Jason and the Argonauts no original, é de 1963, dois anos mais velho que Arrivano I Titani, de Duccio Tessari, de 1961, com Giuliano Gemma e Jacqueline Sassard, para mim o mais belo épico inspirado na mitologia greco-romana e olhem que adoro o Hércules na Conquista da Atlântida, de Vittorio Cottafavi. Arrivano I Titani chamou-se no Brasil Os Fiulhos do Trovão e seu tom paródico difere bastante da fantasia de Doin Chaffey e também de Fúrias de Titãs, a versão de 1981, com direção de Desmond Dsavisd, na qual estão alguns dos mais impressionantes efeitos criados por Ray Harryhausen. As cenas em que Perseu doma Pégasus, o cavalo alado, e a outra em que enfrenta a Medusa sem olhar na cara da terrível criatura são exemplares, e a segunda possui um suspense infernal, talvez o mais elaborasdo da carreira de Harryhausen. Ele nasceu em Los Angeles e, aos 13 anos, assistindo ao King Kong de Merian Coopper e Ernest Shoedsack, em 1933, decidiu que cinema era o que queria fazer e, dentro dele, se especializou em efeitos. Harryhasusen morreu nesta terça-feira, já é quase quarta, aos 93 anos. O anúncio foi feito pela família através do Facebook. George Lucas, James Cameron, ele foi o mestre de todos. Nunca teve muito dinheiro para transformar em imagens, e sons os delírios de sua imaginação. Para driblar os orçamentos reduzidos, desenvolveu técnicas como split-screen, que consiste em filmar quadro a quadro, em stop motion, miniaturas projetadas sobre telões. Nunca vou me esquecer de quando assisti a Sinbad e o Olho do Tigre. O filme de Sam Wanamaker é de 1977, mas deve ter passado em Porto Alegre no ano seguinte, ou até em 1979, porque naquele tempo as produções não chegavam com a rapidez de hoje. O Olho do Tigre é o terceiro Sinbad de Harryhausen e o menos prestigiado de todos, mas eu curti o ataque da abelha gigante e o filme temn duas belíssimas mulheres, a bondgirl Jane Seymour e Taryn Power, filha de Tyrone e que faz a filha do mágico que acompanha o herói. Entendo que muita gente que se considera séria desdenhe esses filmes (ou aventuras), mas eu acredito que, desde as origens, dividido entre os irmãos Lumière e Georges Méliès, o cinema sempre foi dilacerado pelo desejo de realidade e a busca (materiaslização) do artifício. Harryhasusen nunca ganhou o Oscsar, de certo porque a Academia não o achava suficientemente ‘sério’. Mas em 1992, o establishment de Hollywood reconheceu sua importância e lhe atribuiu um prêmio especial de carreira. Para o bem e para o mal, Ray Hareryhausemn foi o inspirador dessa estética dos efeitos que reinma em Hollywood. Hoje, os caras têm muito mais dinheiro e tecnologia para sonhar (e fazer sonhar). Comparativamente, certos efeitos de Harryhasusen ficaram defasados. E isso, na verdade, confere um charme especial aos filmes. O artifício torna-se flagrante. Ouso dizer que Harryhausen, mais que um artista do ‘fantástico’, foi um expressionista, isso sim.
Estou em casa, depois de tomar café na Trigonella, tentando – ainda – me adaptar ao que será minha nova rotina, agora que o horário de fechamento do Caderno 2 mudou para a noite. Dei uma zapeada na TV paga e dei de cara com Leslie Caron. Leslie quem? Foi, ou é, uma atriz francoamericana, nascida em Paris de mãe originária do Kansas. Escolhida por Vincente Minnelli, virou estrela de musicais, alguns dos maiores do pai de Liza – Sinfonia de Paris, Gigi, sem contar Mademoiselle, o episódio de Três Histórias de Amor.Leslie Caron fez também Lili, de Charles Walters. Dentuça, não particularmente bonita, ela tinha seu charme. E dançava, o que era fundamental. Leslie era meio andrógina – lembro-me de ter lido em alguma parte que era chamada de garçon manqué. Leslie Caron casou-se com o diretor inglês de teatro Peter Hall – ocasionalm,ente, ele fez filmes – e, na Inglaterra, interpretou seu papel dramático mais famoso, no filme The L Shaped Room, O Quarto em Forma de L, que no Brasil se chamou A Mulher Que Pecou, de Bryan Forbes. Quase me esquecia de que Leslie estava em O Homem Que Amava as Mulheres, de François Truffaut, e no Valentino, de Ken Russell. Via-a há pouco num episódio de Law & Order, Special Victims Unit, como uma mulher que, anos atrás – décadas -, foi estuprada pelo filho da amiga e que se isolou, virando uma idosa chique porém ressentida, amargurada. Uma mulher que deixou de amar e viu a vida passar. O cara voltou a estuprar, vai a julgamento, está a ponto de se safar e a personagem vive o dilema de quebrar o juramento que fez à mãe do então garoto, de que velaria por ele. Leslie – a personagem – não quer quebrar o juramento, mas aí a policial fala em francês com, ela, uma cena muito íntima, muito bonita, e a eterna Gigi expressa o dilaceramento interior com tanta economia que me convenceu, e emocionou. O episódio chama-se Recall e é de 2006. Leslie Caron tinha 75 anos (nasceu em 1931). Viajei nas lembranças – a suite de Gershwin An American in Paris, a Belle Époque do universo de Collette em Gigi. Sobre A Mulher Que Pecou – Leslie foi indicada para o Oscar -, vou falar depois. Não sei a quem vai interessar, mas quero me debruçar sobre minhas memórias de Bryan Forbes, para tentar responder à pergunta que faz Jean Tulard no Dicionário de Cinema? De onde vem a fama, particularmente grande na Inglaterra, de Forbes?
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