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‘Os Imorais’

Luiz Carlos Merten

23 setembro 2008 | 16:45

Leandro me pede que escreva sobre ‘Os Imorais’. Antes de falar do filme tenho de falar do diretor, Stephen Frears. Lembro-me de que quando ele veio ao Rio para uma mostra – ainda não era o festival que começa depois de amanhã -, Frears deu uma entrevista para Sérgio Augusto. O filme era, se não me engano, ‘The Snapper’, uma adaptação de Danny Doyle que passou aqui como ‘A Grande Família’. Não me lembro do teor da entrevcista, só do título. Frears dizia que os filmes dele não eram cínicos. Houve uma época em que eu empacava com ele por achar que seus filmes não eram só sobre gente cínica, eram cínicos também. Mas tem coisas dele que eu sempre adorei, os noir, especialmente ‘Gumshoe, Detetive Particular’, com Albert Finney, que homenageia o tipo de anti-herói que Bopgart encarnava à perfeição. Com o tempo, rendi-me aos encantos de Frears. ‘Os Imorais’ era o filme que ele queria fazer depois de ‘Sammy e Rose’, convidado por Martin Scorsese, mas os trâmites para a liberação e adaptação do livro de Jim Thompson foram tão complicados que Frears teve tempo de fazer, no intervalo, ‘Ligações Perigosas’. Duas adaptações, o romance epistolar de Choderlos de Laclos e a genial novela barata de Thompson, que ficou famoso como um dos gurus do romance noir, além de ter sido roteirista de ‘Glória Feita de Sangue’, de Kubrick. Apesar das diferenças óbvias, de ambiente e época, a França do século 18 e a Los Angeles cobntemporânea, os dois filmes compartilham a mesma idéia de que as pessoas são predadoras. Ambos os filmes, como os livros, falam da capacidade humana de manipular o próximo. Está para nascer família menos família do que a de Lily, Anjelica Huston, uma trambiqueira que reencontra o filho que abandonou oito anos antes. O garoto, John Cusack, virou um criminosozinho de segunda e tem essa amante ambiciosa e vulgar (Annette Bening), que, de cara, entra em rota de colisão com a mãe. Frears nunca teve muitas ilusões sobre a espécie humana. Em seus filmes, por maior que seja o afeto, as pessoas estão mais preocupadas é com elas mesmas (salvo, talvez, em ‘Herói por Acaso’). Como vigaristas profissionais, os três personagens de ‘Os Imorais’, fazendo jus ao título, só pensam em tirar proveito, enganando-se uns aos outros. Cusack e Annette são bons, Anjelica faz a diferença, porque é esplendorosa. Aliás, onde anda essa mulher, o que tem feito? Lily não é mais complexa do que as outras figuras em cena, mas Anjelica se vale de pequenos gestos furtivos para expressar a vulnerabilidade que ela esconde por trás de óculos escuros. Até onde me lembro, ‘Os Imorais’ não é uma obra-prima, mas é um filmaço. E tem cenas ótimas.