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Meus monstros (os de Dino Risi)

Luiz Carlos Merten

04 junho 2014 | 09:25

De volta a casa. Ritorno a casa. Parece título de filme italiano. Reencontrei a velha bagunça – livros e revistas de cinema espalhados por todo lado, e os montes vão aumentar, porque comprei novos livros, mais revistas. Estrão em cartaz filmes quer ainda não vi. Uma comédia em episódios com Ricardo Darín, O Que os Homens Dizem. Não sei se eles se articulam numa história ou se são isolados, mesmo apontando na mesma direção, como o concorrente argentino à Palma de Ouro, e que foi ignorado pelo júri de Jane Campion – Relatos Salvajes. Um de meus amigos italianos, Giovanni Ottone, não se conforma que La Campion tenha presidido o júri cannois, como eu próprio não me conformei que um zero como James Schamus – Schamus on you – tenha presidido o de Berlim. La Campion acertou ao outorgar a Palçma a Nuri Bilge, por Winter Sleep, mas não estou muito certo de que o restante da premiação tenha estado à altura. O curioso, e que pude constar na França e na Itália, é que, embora houvesse bons filmes na competição de Cannes, a premiação não repercutiu. No aeroporto, na volta, já era 2 de junho – cheguei ontem, 3 -, mas as revistas francesas de cinema do mês ainda não haviam chegado aos vários Relays de Charles De Gaulle. Enfim, at home. Em casa. E com vários filmes para ver, o que, para um tipinho como eu, é sempre estimulante. Recomeço o post, e com uma reclamação. Em Florença, antes de embarcar, Francesca Della Monica, leitora fiel, já me dissera que, com as mudanças no site do Estado, simplesmente não encontrara o blog, como se tivesse deixado de existir. Ontem, no próprio jornal, colegas que gostam de acompanhar minhas andanças disseram que nem eles conseguiram dar conta de mim. Onde andará, perguntavam-se? Onde estou, pergunto eu? Sigo escrevendo. Que me leia quem vencer os obstáculos. Já disse que fiz novas aquisições para a minha biblioteca. Em fevereiro, após Berlim, havia deixado de comprar em Paris o livro de memórias de Dino Risi, Mes Monstres/Meus Monstros. Há uma diferença entre livro autobiográfico e de memórias, por mais que as duas coisas estejam ligadas. O livro de meu amado Dino Risi é o exemplo perfeito. Ele não segue nenhuma cronologia, vai pelos caminhos a que o levam suas madeleines. Não fala da feitura dos filmes tanto quanto gostaria, e às vezes nem fala, mas cria aforismos preciosos, observa o mundo e as pessoas, desnuda-se. Cinema ele fez sullo schermo. No livro, faz literatura, e boa. Na abertura, a título de dedicatória, uma advertência, quem sabe um pedido - ‘Aos que lerem com indulgência essa vida desordenada, que é a minha.’ O começo é tão surpreendente quanto revelador. Risi inicia suas memórias com um capítulo que se chama, sugestivamente, o O cão de Buchenwald. E não é a história dele, mas de Venanzio Barabini, que foi técnico – eletricista – em muitos de seus filmes. Durante a guerra, a 2.ª, Berabini foi enviado para o campo de concentração de Buchenwald. Teria morrido de inanição, ou nas câmaras de gás, se o desejo de sobreviver não o impulsionasse a… Uma loucura? Desconsiderem o adjetivo. Busquem a própria definição. Berabini ligou-se ao cão policial do comandante, que recebia, duas vezes por dia, generosas porções de comida. E ele comia com o animal, dividia com ele o alimento. Risi não conta o que ocorreu com o cão, mas Berabini recuperou a liberdade, após a guerra, voltou a Roma, engordou alguns quilos, voltou a comer comida de gente e, de sopbremesa, comeu uma das mais belas estrelas francesas dos anos 1960, Michele Mercier, a Angélica, de quem se tornou amante. Risdi acrescenta que Berrabini tinha um bigode de malfeitor que agradava às mulheres. O livro que decola assim me revelou tudo o que ainda precisava saber para completar meu retrato do mestre da comédia à italiana, o maior para mim. Risoi fez filmes como Aquele Que Sabe Viver, Os Monstros, Férias à Italiana. Ninguém, como ele, conseguiu transformar a angústia excistencial em riso. Chamei-o, outras vezes, de Michelangelo Antonioni do humor. A simples escolha de Venanzio Berabini para abrir seu livro me mostrou que não estava tão errado assim. Risi conta histórias maravilhosas de seus atores – Vittorio Gassman, Ugo Tognazzi, Alberto Sordi, Nino Manfredi, Marcello Mastroianni, Walter Chiari. Histórias hilárias de bordeis que poderiam ter estado em seus filmes. Fala dos amores – Alida Valli, com quem teve um tórrido affair durante a rodagem de um filme de Mario Soldati, de quem era o segundo assistente. Encerrada a produção, ela prometeu telefonar para ele, em Roma. Nunca o fez. Reencontraram-se décadas mais tarde, quando ambos receberam prêmios de carreira, outorgados pelo governo italiano. Lembrei-me de outra história que Francesca Della Monica nos contou, a Dib Carneiro e a mim, na casa dos pais dela, nas montanhas próximas a Florença, em Pomino. No fim da vida, Alida Valli, a Lívia Serpieri de Luchino Visconti em Sedução da Carne/Senso, participou de uma peça. No final, Francesca integrou a fila dos que foram beijar a mão da grande dama. Alida, sentada numa cadeira – um trono? -, estendia a mão, as pessoas beijavam, ela agradecia com um movimento de cabeça, um sorriso, e a fila seguia adiante. Imaginei a cena viscontiana. O prêmio que Risi e ela receberam se chamava Vittorio De Sica, e Dino conta uma história que também ilumina o ator que virou o mítico diretor de Ladrões de Bicicletas, de Umberto D, Ontem Hoje e Amanhã e Matrimônio à Italiana. De Sica era casado com a atriz Giuditta Rissoni, mas há anos tinha uma ligação estável com outra atriz, Maria Mercader, com quem teve dois filhos (e que estava a seu lado quando morreu, em Paris). Toda noite, De Sica dormia na casa de Giuditta e se levantava cedo, ia para a casa de Maria e se deitava na cama de casal para abraçar e beijar os filhos, que iam para a escola. Não devia fazer isso por hipocrisia, com certeza. Do outro lado do Atlântico, Spencer Tracy, um modelo de retidão, também se dividia entre duas mulheres e a ‘outra’, Katharine Hepburn, protofeminista na tela, levou a situação até o fim, até a morte dele, em 1967. São histórias que me encantam, e que como as narrativas compassivas de Georges Simenon, que não me canso de (re)ler, me permitem compreender e aceitar o humano, isto é, a mim mesmo.  Dino Risi conta que a vida toda, por mais que o métier no cinema fosse (seja) belo, sempre esperou com impaciência pelo fim da jornada de trabalho para poder ficar, enfim, sozinho consigo mesmo. E ele arremata a confissão – ‘Sempre me perturbou muito a intrusão de minhas criações na própria vida.’ Não sei quantos leitores um livro desses teria no Brasil, mas eu gostei demais.