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Luiz Carlos Merten

31.janeiro.2012 11:52:04

Meu novo êxtase

Tenho me indisposto com muita gente falando mal de ‘J. Edgar’. Vou me indispor mais um pouco, inclusive com minha supervisora de área no ‘Estado’, a editora executiva Laura Greenhalgh, que amou o filme (e não se conforma porque Leonardo DiCaprio não foi indicado para o Oscar). Mas fui rever ontem ‘A Separação’ e agora sou eu que não me conformo – debatam quanto quiserem o filme do Clint, mas eu fora. Não quero mais perder meu tempo. Só quero falar agora do Ashgar Farhadi, indicado para os Oscars de roteiro e filme estrangeiro. Havia visto o filme dele em Berlim no ano passado. Gostei demais, apostava que ganharia o Urso e exultei quando ganhou. Só que, ontem, ao rever ‘A Separação’, dei-me conta de que é muito melhor. Poucos filmes me deixaram tão tenso e, embora estivesse cansado, não consegui desgrudar o olho da tela. Tinha medo de piscar, porque poderia perder alguma coisa. (Na noite anterior, revendo ‘L’Apollonide’, experimentei o mesmo tipo de tensão, mas ‘A Separação’ é superior.) A mise-en-scène é fluida, com aquela movimentação da câmera (e a montagem) que faz avançar o relato. Os planos dos personagens dentro da casa – pai, mãe e filha, essa última filha do diretor – me impressionaram porque cada um ocupa um plano ou espaço diferente, separados por vidros, móveis, é maravilhoso. Mas isso é só parte do fascínio. A complexidade das situações e dos personagens me lembrou Yasmina Reza, ‘O Deus da Carnificina’, que Roman Polanski transformou em filme (e que havia visto no teatro, dirigido pela autora, com Isabelle Huppert, em Paris, antes da versão brasileira). Os personagens se envolvem numa teia que vai ficando cada vez mais espessa, e da qual não conseguem sair. O pai mente, a doméstica mente e ambos terminam reféns das próprias mentiras. Ele é intransigente nos seus valores – morais e religiosos –, mas é covarde, inclusive do ponto de vista físico. Intimida-se diante da brutalidade do marido da empregada. A mulher, mais flexível – ela aceita de cara o novo preço proposto pelos carregadores do piano, logo no começo –, é o elo forte da relação. Na entrevista que fiz com ele em Berlim, Farhadi disse que a cena do piano, sem função narrativa, erra fundamental para ele, q2ue se sentia mais próximo da mulher, embora, ao contrário dela (e como o marido), se sinta impossibilitado, moralmente, de deixar o Irã. Nem me passa pela cabeça querer censurar o debate sobre ‘J. Edgar’, mas simplesmente deixar claro que o grande filme que muita gente identifica no de Clint, para mim, é o de Farhadi. Isso, sim, é um filme, conforme escrevi no título do meu texto no jornal, com a entrevista do diretor, antes de rever ‘A Separação’. Farhadi já havia ganhado o Urso de Prata, também em Berlim, por ‘Procurando Elly’ e, se vocês forem retraçar a carreira dele na internet, verão que fez muita TV (e até ganhou seus Emmys por episódios de séries). Acho que esse pode ser um outro debate proposto pelo filme. A fluidez – do relato, dos diálogos, da mise-en-scène –, tudo isso pode ter, e certamente tem a ver com essa experiência anterior de Farhadi, mas – insisto –, isso, sim, é um filme. Abbas Kiarostami, Jafar Panahi, Mohsen Makhmalbaf, preciso repensar o cinema iraniano à luz de Ashgar Farhadi. Como ele consegue? Num regime ditatorial, e tão duro com a liberdade de expressão, quanto o de Mahmoud Ahmadinejad, ele é crítico, incisivo e, até onde sei, tem sido poupado pela repressão. Pela repercussão internacional que, em pouco tempo, atingiu?

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5 Comentários Comente também
  • 31/01/2012 - 12:31
    Enviado por: marcio

    Neste filme sensacional, atras de toda grande mulher tem um grande homem.

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  • 31/01/2012 - 19:28
    Enviado por: Bruno Cerqueira Schnitz

    Opa, espero que depois minhas aparições neste blog sejam “vetadas” (risos).

    Não sei onde vc está vendo tanta gente gostar de “J. Edgar” (que não vi). Só ouço opiniões contrastantes. Por outro lado, não aguento mais essa unanimidade festiva em torno de “A Separação”. Virou um emblema de “inteligência”, “sensibilidade” e “humanismo” pré-à-porter no eixo culturete dos Arteplex e Unibancos da vida, teçer loas sem fim à esse filme. Existe também o charme de causa (quase, sempre tem um a favor) unânime de vociferar contra o Mahmoud Ahmadinejad. Mas, na boa, não é por desgostar do cara que vou hipervalorizar este filme. Existe uma boa vontade pró “Separação” massacrante, justo desde Berlim, que de maneira doida, hiper-premiou-o, com Urso de Ouro, e de Prata para todos os atores e atrizes do filme, sendo esnobadas as cadeiras onde os intérpretes sentam em algumas cenas – e que por sinal tem mais “expressividade” que alguns dos que atuam.

    O próprio Farhadi já demonstra estar de saco cheio de estar sendo usado como emblema político pela mídia liberal-bem intencionada do Ocidente contra Ahmadinejad, que toda hora lhe cobra um discurso, uma ação mais ferrenha. “Sóu cineasta, não político profissional”.

    Não consigo entender mesmo como vc apreciou a mis-èn-scene, para mim o sinal mais claro de como o filme é valorizado em demasia, com escala de planos preguiçosa e enquadramentos de composição frouxa. Enfim, já quase apanhei outro dia num corredor de cinema ao me posicionar contra o filme, mas Farhadi já não me convencera com aquele subantonionismo (“Aventura”) de “Procurando Elly”, e continua não me convencendo.

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  • 31/01/2012 - 22:53
    Enviado por: bruno

    Eu vi um filme com uma trama bem feita, uma história bem contada em que não restam no fim das contas nem heróis nem vilões, apenas todos os mal entendidos e a falta de comunicação das pessoas fruto da realidade (ou instituições) daquele país que o diretor tinha talvez por objetivo analisar de maneira mais sutil.Eu achei muito bom, mas nada de inspirador.Não vi nenhuma bela cena ou diálogo que tenha me impactado.Só para usar dois exemplos de filmes que para mim são bem mais interessantes que a separação e que poderiam ser lembrados nessas competições internacionais, lope e medianeiras são cheios de recursos, artifícios, um abusando da beleza do idioma espanhol através da obra do poeta e o outro focado nas belas montagens que o diretor cria para entender a cidade através da solidão dos protagonistas.Mas não são lembrados.

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  • 03/02/2012 - 12:50
    Enviado por: Paulo Antunes

    Que belo debate este que surge do post do Mertem a propósito do filme “A Separação” e o nosso colega Bruno Cerqueira. Caros, aprendi muito com vcs. e os motivos pelos quais um considera o filme muito bom, excepcional e o outro reivindica menos, menos. Olha da média do que consigo extrair das duas manifestações, mais o que vi e senti (e isso conta muito no cinema, não é mesmo, afinal, já nos ensinaram que os filmes se completam com os espectadores, suas histórias, referenciais, cultura, vivência, posicionamento político, ideológico, partidos artísticos etc.), passei a ver o filme diferente. Continuo gostando muito do filme, sem a paixão de tantos outros. Eu acabo de rever “O Cavalo de Turim”, do Bela Tarr (agora em DVD), já havia visto no CineSesc e fiquei magnificado, estupefato. Para mim um dos grandes filmes que me impactaram nos últimos anos. Será que coloquei mais lenha na fogueira?

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  • 03/02/2012 - 22:33
    Enviado por: Bruno Cerqueira Schnitz

    Na minha fogueira “Cavalo de Turim” arde com enorme admiração :) Vi tudo que Tarr fez, e claro, apesar de ter amado muita coisa, não gostei de tudo – achei “Man on London”, com a ótima Tilda Swinton, fraco, fraco. Mas sem dúvida é dos gigantes do cinema atual, e se é verdade mesmo que “Turim” é o último filme que ele dirigiu, e que agora vai se dedicar ao ensino para jovens diretores… obrigado, Béla, muito vc fez pela arte do cinema

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