Vivi hoje uma experiência curiosa. Para mim, os canais da TV paga chegavam ao 66 e eu, de preferência, ia do 61, onde começa a rede Telecine, ao 66, do Canal Brasil. Vivia zapeando, para lá e para cá. Minha ex-mulher Dóris, mãe da Lúcia, está em Sampa e veio me visitar. Comentei com ela sobre o canal 5Monde, ela me disse que era no 150. Nem sabia, vejam como sou desligado, que o espectro numérico da Net ia tão longe. Fui ao tal canal 150, resolvi retornar e cheguei por acaso ao 142, da TVE, TV espanhola. Dei de cara com aquele guri cantando. Tomei um susto – era Joselito. No final dos anos 50, enquanto se processava na França a nouvelle vague e o CPC da UNE gestava o Cinema Novo, o cinema espanhol, em pleno franquismo, era movido a fenômenos como os astros cantantes mirins Joselito e Marisol e, claro, pela diva Sara Montiel e seus atrozes melodramas. Para se lembrar de Joselito, o sujeito tem de andar por volta de 60 anos, como eu, mas ele fazia o maior sucesso nos cinemas brasileiros. O mundo todo mudava e o Joselito tinha, como se diz, um rouxinol na garganta. Foi uma experiência e tanto revê-lo hoje em seu segundo filme, ‘La Saeta del Ruiseñor’, dirigido, como o anterior ‘El Ruiseñor’ e os posteriores ‘El Ruiseñor de las Cumbres’, ‘Escucha Mi Canción’ etc, por Antônio del Amo Algarra, ou simplesmente Antonio del Amo, como se assinava normalmente. Esse cara pertenceu à geração da Guerra Civil espanhola e combateu na armada republicana, mas desenvolveu sua carreira cinematográfica sob o franquismo. Nos anos 30, como crítico, ele escrevia numa publicação influente da época, ‘Filme Popular’, defendendo um cinema engajado e comprometido com a mudança social. Numa cena do filme, Joselito abandona o pueblito e é levado a Sevilha, para se apresentar num programa de calouros, na rádio. A cena é digna de Almodóvar – aliás, espero voltar a entrevistar Almodóvar para lhe perguntar se, por acaso, esses filmes fizeram parte de seu imaginário infanto/juvenil. Que prato teria sido comentar o Joselito – e ‘La Saeta del Ruiseñor’ – com Bigas Luna, na entrevista que fiz nesta semana. De volta ao filme, o tal programa de rádio em que o pequeno herói se apresenta é patrocinado por Productos Dorotea, ‘que hacean bella la más fea’, como repete a toda hora o apresentador. Mas o que achei realmente interessante é o seguinte. Del Amo tem quatro ou cinco filmes que, segundo os críticos, são obras honestas e críticas sobre a Espanha dos anos 40 e 50, mas, de resto, a avaliação que se faz dele é de um cara que renegou seu princípios e passou a fazer um cinema alienado e alienante. Pior que isso – um cinema comprometido com o regime. Tenho para mim, pelo que vi em ‘La Saeta del Ruiseñor’, que Del Amo não era burro, não, ou então, como dizia Godard, toda ficção é sempre um documentário sobre a época em que foi feita. O filme é de 1957 e uma série de signos e referências têm a ver com o atraso da Espanha de Franco em relação ao restante da Europa, ao excesso de religiosidade do povo espanhol como um entrave ao desenvolvimento e a importância conferida aos norte-americanos para alavancar o país. Como Carlitos em ‘Luzes da Cidade’, Joselito se envolve com uma menininha cega e resolve juntar dinheiro para que ela consiga ver. Cai de pára-quedas na história um gringo que todo mundo pensa que é o empresário que vai dar projeção ao garoto. O cara tem um carrão dirigido pela filha, uma loira fake nascida de mãe espanhola. Joselito e o namorado de sua irmã, um tipo meio espertalhão, mas do bem, viajam num fordequinho que sofre uma pane e anda para trás, entrando num túnel. Pegam carona no carrão de Mr. Marshall e chegam à cidadezinha recebidos com fanfarras. Tudo isso podia ser produto do acaso, mas hoje pode ser visto como um retrato metafórico muito interessante da Espanha no fim dos anos 50. Perguntei-me, depois de ver o filme, que fim teria levado Joselito? Que fim levou Marisol, que era a Joselito loirinha e de fita (não vou dizer de saia)? O guri era um monstro cantando. Tinha uma garganta de ouro, segurando os agudos nas tais ‘saetas’ durante minutos. Um vozeirão, na contracorrente do que viria a ser, por exemplo, a doçura de João Gilberto na Bossa Nova. O negócio de Joselito era soltar a voz, e como ele soltava! Existe esse momento – é quando os gringos o ouvem pela primeira vez – em que ele canta no alto do monte e o eco fica repetindo sua voz, como se ele estivesse cantando em vários canais ao mesmo tempo. Recorri à internet. Joselito não resistiu à passagem para a vida adulta, mas sua vida daria um romance, ou um filme – que Almodóvar bem poderia realizar. Ele foi ser mercenário na África e, mais recentemente, participou de um reality show chamado ‘Sobreviventes’, na TV da Espanha. Estou até agora atordoado, perdido nas lembranças entre Saras, Joselitos e Marisóis. Preciso me recuperar logo. Daqui a pouco começa o último capítulo de ‘Capitu’ e eu não quero perder o final da microssérie de Luiz Fernando Carvalho.
Só você mesmo Merten! Que delícia evocar esses ídolos da minha infância. Joselito e Marisol eram grandes sucessos nas saudosas matinês interioranas. Na última vez que vi Marisol, que foi casada com o Antonio Gades, ela fazia participação especial em “Bodas de Sangue” e “Carmen”, do Saura”. Uma curiosidade é que o galã de seu primeiro filme foi o Anselmo Duarte. Ela filmou no Brasil “Marisol no Rio”.
Em “Mamma Roma” do Pasolini tem uma cena lindíssima onde a Ana Magnani dança com o filho uma música do Joselito.
Merten,
Poderiam ser atrozes melodramas os da Sarita Montiel, mas,ela própria era mais que uma diva. Povoa até hoje meu imaginário e meus ouvidos com ” La Violetera” . Qui muher!
Até mais.
eu sei que você não é muito fã de wall-e, mas é melhor o senhor esperar pelo robozinho no oscar. ele está papando vários prêmios dos críticos, não só como melhor animação, MAS COMO MELHOR FILME TAMBÉM.
p.s.: achei “capitu” maravilhosa!
“Segundo de los 4 hijos de una pareja de campesinos vitivinicultores, Almodóvar nació el 25 de septiembre de 1949 en Calzada de Calatrava, en el sur de España. Su infancia transcurrió como la de cualquier chico provinciano de su época, entre juegos, fiestas religiosas y algunas escapadas al cine para ver películas protagonizadas por Marisol, Rocío Dúcal y Joselito, entre otras estrellas.
“
Merten, como sou videota juramentada corro os canais todos o tempo todo quando não estou presa a algum filme ou programa intessante .Descobrí o TCM, canal 91 da NET no começo de Agosto. Só séries dos anos 60 e filmes daí para trás,clássicos no geral .Vale uma olhada.
Feliz por vêlo na correria de sempre.
Sr. Merten,
recorro a suas palavras – ” Para se lembrar de Joselito, o sujeito tem de andar por volta de 60 anos, como eu, mas ele fazia o maior sucesso nos cinemas brasileiros.” – prá dizer-lhe que só os atuais sessentões tiveram o privilégio de curtir Joselito com a mesma idade dele… Conforme a Wikipedia “José Jiménez Fernández, mais conhecido por Joselito, (Beas de Segura, Jaén, 11 de Fevereiro de 1947) é um ator e cantor espanhol que teve seu apogeu enquanto criança, sendo uma das mais famosas vozes infantis do século XX.” Além disso, informa que o filme
Saeta del ruiseñor é de 1957.
Nasci em BH/MG, em 1948, filho de pai médico, barítono, amante de ópera – especialmente – e de música boa, como dizia ele… Mineiro tinha muitos filhos – éramos 11, todos muito musicais, afinados,, etc. etc. Na mesma época, encantou-nos, também, Sete Noivas para Sete Irmãos além de outros musicais que vieram a seguir. Cheguei, acidentalmente, em seu site quando procurava imagens de Rouxinol (Ruiseñor) – essa avezinha canora tão admirada em todo o mundo. Diante desse simpático “encaminhamento” não poderia deixar de me manifestar… Be happy!!
Joselito, o “Rouxinol” espanhol, será meu e-
terno ídolo. Vejo a música espanhola através das
canções de Joselito. Outro, como ele, jamais ha
verá – pelo menos para mim. Gostaria muito que e
le soubesse que eu existo. Infelizmente, não sei
como falar com ele. Seria a realização de um so-
nho de toda uma vida. Mas, parece que morrerei
sem falar com Joselito…
Por favor, ajude-me a realizar esse sonho.
Ah, eu também gostaria de ir à Espanha só para conhecer Joselino, claro se ainda é vivo.Gostaria de conhecer toda sua biografia, infelizmente já li várias naqui na internet, mas nenhuma conclui dizendo se ele ainda é vivo…
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Tenho todos os dvds de Joselito: Joselito y Pulgarcito, El Falso Heredero, El Ruiseñor de las
Cumbres, La Vida Nueva de Pedrito Andia, Escucha
mi Canción, Bello Recuerdo, El Caballo Blanco, El
Pequeño Ruiseñor, Los dos Golfillos, Saeta del Rui-
señor, El Pequño Coronel, El Secreto de Tomy.
Tenho todos os cds de suas belas canções: Donde Estara Mi Vida, Doce Cascabeles, Colorin de
la Niña Bonita, En un Pueblito español, Campanera,
El Pastor, Fandangos, El Lucero, El Cplero Quiereme mucho El Toro y la Luna, Violin Gitano,
Pueblecito de Estrellas, Granada, Malagueña, Ca-
ballito lucero, e tantas outras mais.
Passo os meus dias de sessentão aposentado
curtindo os filmes de Joselito e ouvindo suas be-
las canções de amor. Que diferença dessas músi-
cas medíocres que se ouve hoje nas rádios…
Pena que “el Ruiseñor de España não saiba,
sequer, que eu existo neste Brasil que tanto o o-
vacionou nos anos 60.
Por favor, ajudem´me a falar com Joselito – an
tes que eu morra, ou ele.
Olá
Meu pai deseja entrar em contato com o senhor, ele também é fã do Joselito!!
Atenciosamente.
Ana Paula
Para mim, o que marcou os anos 60 foi o aparecimento de Joselito nos telões. Aqui em
Natal as filas para assistir aos seus filmes eram
quilométericas. Eu via todas as sessões do dia,
todos os dias.
Há pouco tempo, antes do início da par-
tida de futebol, aqui no Frasqueirão, eu implo
rei ao rapaz do serviço de áudio do estádio que
me deixasse levar ao ar uma linda canção de Jose
lito. Foi assim que todos, principalmente os ses-
sentões, puderam ouvir “El pastor” na bela voz de
rouxinol de Joselito. Para mim, o estádio foi “bati
zado” naquela noite! Que Deus abençoe Joselito,
sua esposa e suas duas filhas.
Fui apaixonada pelo Joselito! Jamais deixarei de amá-lo, ele encantou minha adolescência, tenho todos os lps que chegaram ao Brasil naquela época, vi todos os filmes, Escucha mi Canciom eu vi 6 vezez.
Como meus Lps estão arranhados, servem apenas de lembrança, guardo-os com amor.Gostaria muito de poder comprá-los e se houver cds atuais, me encantaria adquirí-los. Se alguém puder encaminhar a ele um abraço afetuoso desta fã brasileira e gaúcha, será um presente.
Marta Caldela.
Merten,estava exatamente procurando por Joselito quando me deparei com seu blog.E neste exato momento estou ouvindo suas músicas Clavelitos e Granada através do Sonora Terra. Meu pai foi dono de cinema e eu, que hoje tenho 54 anos (perto dos 60 mesmo) era fã de Joselito (confesso que não me lembrava mais de Marisol) e não perdia os filmes deles. Inclusive Marisol no Rio.
gostaria de saber se esse fenomeno da musica espanhola dos anos 60 ainda vive e em que pais ele vive, também o que tem feito aos 66 anos de idade
grato josé
Ao ler este blog, fiquei embevecido.Também, nos anos 62 assisti em Sao Paulo todos os filmes do Joselito.Queria fazer uma viagem à Espanha somente para conseguir seus filmes.Mas tive sorte.Consegui com uma pessoa de Joao Pessoa todos os filmes dele.Hoje passo as tardes assistindo seus filmes no lugar dos enlatados americanos, ao contrário de seus filmes cheios de emoção, beleza e inocência.Me sinto reaalizado.Grato Juca
Agradecendo ao Merten esta cutucada na saudade. Na minha terra, Frederico Westphalen-RS, caminhões vinham do interior com as carrocerias lotadas de fãs do Joselito, ansiosos para ve-lo nas sessões das 19h e das 21h, aos domingos – dia reservado para os campeões de bilheteria. Os inesquecíveis Cine Teatro Floresta e Cine Teatro Jussara (900 confortáveis poltronas!!!) eram pequenos para os filmes do Joselito. Tinha gente que não se importava em ficar de pé. Só queriam se empolgar com as canções (a cada três ou quatro minutos, Joselito caprichava nos trinados), e derramar algumas nem tão discretas lágrimas, na hora em que o drama pegava pesado. Inocentes, aqueles tempos… Que Deus cuide com carinho do Joselito e sua família. Ele alegrou muita gente com seus filmes nos anos 50 e parte dos anos 60.
Quem viveu nos anos 60, viveu a melhor época da música popular brasileira, mexicana, espanhola.
O cantor mirim Joselito, aquele que tinha um rouxinol na gargante, cantava e encantava a todos: jovens, crianças, velhos.
Eu tive esse privilégio. Curti muito aquela anjo.
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