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Luiz Carlos Merten

13.setembro.2006 14:14:28

Hiroshima, Nosso Amor

O público jovem que vê hoje Hiroshima, Meu Amor já está acostumado às histórias narradas fora de ordem cronológica, à dissociação entre imagem e som e a várias outras inovações que Alain Resnais introduzia no clássico de 1959. É até bobagem dizer isso, porque raros entre nós, se é que resta alguém, assistiram à estréia de Cidadão Kane em 1941, para poder avalizar o impacto muito maior que o clássico de Orson Welles teve para o público da época. Sabemos disso e podemos apenas imaginar o significado, mas o importante é o que os filmes, tanto tempo depois, ainda nos têm a dizer. Hiroshima fez avançar a linguagem do cinema por meio de conquistas que hoje, não sei é a palavra certa, já estão banalizadas, incorporadas até à linguagem audiovisual da TV. Quando vi Hiroshima pela primeira vez (não na estréia, mas alguns anos depois), essas coisas ainda eram novas e o filme me causou impacto. Lançado agora em DVD (pela Aurora, empresa do Recife que também lançou Noite e Neblina de Resnais e faz um importante trabalho de resgate de autores americanos dos anos 40 a 60), o filme continua maravilhoso pelos diálogos literários, pela beleza da fotografia, da música, pela mágica dos atores (Emmanuelle Riva e Eiji Okada), mas principalmente pela história de amor. O japonês encontra essa mulher, uma atriz francesa, que filma em Hiroshima. Vão para a cama, falam sobre os efeitos devastadores da bomba (o filme foi encomendado a Resnais para lembrar a bomba de Hiroshima, numa épopca em que EUA e URSS ameaçavam o mundo com o holocausto nuclear), mas logo surge essa outra história, da mesma mulher com um soldado alemão, numa cidadezinha francesa, durante a 2ª Guerra. Como um psicanalista, o homem retira do inconsciente da mulher a lembrança desse passado longínquo. Esse homem psicanalista antecipa o Giorgio Albertazzi que faz a mesma coisa com Delphine Seyrig no filme seguinte de Resnais, O Ano Passado em Marienbad. A tragédia da bomba cede espaço à tragédia individual. É uma história linda, de amor e conhecimento. Sempre desconfiei das pessoas que não se deixam levar pela magia de Hiroshima. E acho uma das frases imortais do cinema a de Okada, quando Emmanuelle lhe pergunta por que ele quer tanto saber sobre a história dela em Nevers e o cara resoponde: “Porque foi lá que eu tenho a impressão que quase te perdi” (em gauchês mesmo,porque os franceses usam ‘tu’). A futura diretora Marguerite Duras, que assina o roteiro, temia estar fazendo literatura, mas Resnais a incentivava a ir cada vez mais longe com a musicalidade das frases e palavras, que ainda realçava mais na voz dos atores. A grandeza do DVD está em nos devolver, com imagens e sons perfeitos, os filmes que ficaram na nossa memória e outros que vão ficar, porque estão sendo sempre redescobertos, por todas (as novas e as velhas) gerações. Faço a apresentação do filme no DVD. Não ganhei nada por ela, não digo nada que não esteja repetindo aqui. Não ganhei em valor pecuniário, mas em valor afetivo vou ter de agradecer sempre à Aurora. Hiroshima, como Rocco e Seus Irmãos, como Rastros de Ódio, é um dos filmes da minha vida. E se eu puder estimular você, que lê, a compartilhar este mistério, maravilha. Espero que sejamos dois, que sejamos multidões, a cultivar este filme raro.

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5 Comentários Comente também
  • 13/09/2006 - 21:43
    Enviado por: NELSON CHIDA

    Caro Luiz Carlos Merten,

    Confesso que sou fã e assíduo leitor de seus comentários sobre o cinema, há anos.
    Gosto de cinema desde a adolescência e me interesso não só em assistir o bom cinema, mas também conhecer a história e ler a crítica.
    Fico contente em ver que diversos títulos que assisti no cinema e até na TV (bons tempos), tem sido lançados em DVD como o caso deste “Hiroshima”, que, por sinal, assisti em fita VHS, sem legendas.
    Falando em filmes da vida, tb tenho uma lista considerável, incluindo estes citados por vc. E, na minha lista tb estão os japoneses Mizogushi e Ozu. Vc acha que poderão sair em DVD, clássicoscomo “Contos da Lua Vaga depois da Chuva”, “O Intendente Sansho”, “Oharu”, “A rotina tem seu encanto”, dentre outros?

    Abraço,

    Nelson

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  • 13/09/2006 - 23:29
    Enviado por: AdaMaria

    Filme maravilhoso. Li mais cedo e estou comentando agora.
    Outra coisa: Por favor pode dizer onde está o blogdonoblat. Sumiu da lista. grata AdaMaria.

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  • 14/09/2006 - 16:43
    Enviado por: Verônica Mambrini

    Esse também é um dos meu filmes preferidos… Se a filha do Merten estiver lendo, avisa ele que no http://www.digestivocultural.com deve sair amanhã um texto sobre ele e sobre a palestra? Brigada.

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  • 15/09/2006 - 23:28
    Enviado por: Calos Silva

    O DVD de Hiroshima Meu Amor é um dos melhores já lançados no mercado brasileiro. Pela primeira vez, as distribuidoras brasileiras estão pensando nos filmes e na importância deles. Além da bela e emocionante apresenteção de Merten, o DVD traz um documentário muito inteligente e um livreto com um ensaio fantástico do crítico José Haroldo Pereira. Pela primeira vez, um DVD editado no Brasil lembras as edições da americana The Criterion Collection e da coleção Masters of Cinema da britânica Eureka. Parabéns a Merten e a Aurora DVD pelo trabalho.

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  • 16/09/2006 - 00:26
    Enviado por: rodrigo fiume

    Merten, meu caro, nesta parte ele também não diz algo mais ou menos assim: “Foi ali que eu corri o risco de nunca te conhecer”?
    Pena não ter o DVD em widescreen.
    Grande abraço. Rodrigo Fiume

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