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Gramado (15)

Luiz Carlos Merten

17 agosto 2014 | 10:52

PORTO ALEGRE – Vou manter o título porque ainda vou tratar, neste e no post seguinte, do festival de cinema. Talvez tenha sido muito incisivo no meu post anterior, mas confesso que fiquei indignado com as premiações do 42.º Festival de Cinema Brasileiro e Latino. Acho bem interessante o filme uruguaio El Lugar del Hijo – que, não sei por quê, vinha chamando de El Hijo del Padre. O formato dois em um, a narrativa que segue uma via e, depois, inesperadamente, pega um atalho e toma outro rumo, me atrai bastante. Era do grupo que defendia Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasethakul, em Cannes – no ano em que Quentin Tarantino presidia o júri -, e este ano, de novo em Cannes, vibrei com o prêmio da crítica para Jauja, de Lisandro Alonso, que é um dos produtores de El Lugar del Hijo. O filme de Manuel Nieto segue o mesmo procedimento estético (narrativo?), mas não é tão brilhante nem tão rigoroso quanto Jauja. Espero que o de Lisandro Alonso, e o próprio autor, venham ao Festival do Rio ou à Mostra de São Paulo – aos dois? – para que se possa radicalizar a discussão sobre um dos mais instigantes diretores da atualidade. Havia dito ao Orlando que gostaria muito de ver o ator de El Lugar del Hijo ser contemplado com o Kikito da categoria, mas isso, no meu imaginário, ligava-se ao fato de que o filme não iria ganhar. Nesse sentido, estou mais com o prêmio do público para o venezuelano Joel Novoa, por seu Esclavo de Dios, que propõe uma síntese de Hany Abu-Assad (Paradise Now) e Steven Spielberg (Munique), mas gostaria muito de ter visto El Crítico, de Hernán Guerschuny no pódio, especialmente seu excepcional ator, Rafael Spregelburd. Felizmente a crítica, reconhecendo-se no filme, supriu a lacuna do júri oficial. Como diria Alceu Valença, palmas para os críticos. Guerschuny é um dos diretores, ou o diretor, da revista argentina HaciendoCine, que abaixo do nome, tem uma rubrica, Cultura + Indústria. Ele nos deixou, para Luiz Zanin e para mim, dois exemplares – um para cada – em seu hotel. El Crítico é capa da edição de abril, cuja grande entrevista é com Spregelburd. A chamada não poderia ser mais sugestiva -’Quando Godard conoció a Meg Ryan’. Amei. Quanto ao júri de longas brasileiros, claramente rachou. Houve um rateamento dos Kikitos e o júri, que alijou Fernanda Montenegro, atribuindo-lhe um prêmio especial pelo Domingos Oliveira, Infância, não teve coragem de fazer o mesmo com Nelson Xavier. Fernanda pairou sobre o 42.º Festival de Cinema Brasileiro e Latino. Nelson estava ali, presente, o tempo todo. O júri deve ter pensado que seria desrespeito lhe atribuir ‘somente’ seu prêmio especial. Juliana Paes foi uma excepcional melhor atriz (por A Despedida, de Marcelo Galvão), mas eu gostaria – perdão, Nelson – de ver o júri premiar os novos talentos, tipo Rafael Cardoso em Senhores da Guerra, de Tabajara Ruas, ou Eduardo Gomes, por Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas. Dividido entre A Despedida, A Luneta do Tempo, de Alceu Valença – mas como o filho dele, Ceceu, não foi o melhor coadjuvante? - e Senhores da Guerra, o júri sacou da cartola seu melhor filme, e foi Estrada 47, de Vicente Ferraz. Não foi um tertius, mas um tetrus. Tenho pensado muito nas seleção de Gramado. Acho que, a despeito da diversidade, houve, nas duas seleções, na brasileira e na ‘estrangeira’, latina, um tema recorrente, e foi o afeto. Os brasileiros foram melhores que os estrangeiros e os gaúchos, na sua mostra, foram ainda melhores. Na correria de ontem, terminei não postando nada sobre o Prêmio Eduardo Abelin atribuído a Walter Carvalho. Em nossos jantares, briguei muito – a boa briga – com Maria do Rosário Caetano, que defendia o Kikito de Cristal para Jean-Pierre Noher. O cara é muito simpático, foi um ótimo Jorge Luis Borges (no longa de Javier Torre premiado em Gramado, anos atrás), mas daí a ser uma personalidade representativa da latinidade… Talvez por ser francês, como Carlos Gardel, é isso? Volto ao Walter. Não sei quem teve a ideia de fazer com que o prêmio que leva o nome do pioneiro do cinema gaúcho lhe fosse atribuído pelo irmão, Vladimir Carvalho. O encontro dos dois no palco do Palácio dos Festivais foi a coisa mais linda do mundo. E Walter foi soberano. Invocou Eduardo Abelin, Edgar Brasil e Eduardo Galeano, O Livro dos Abraços. Disse que o cinema é uma doença, e que faz filmes para se curar. Como fotógrafo e diretor – como artista -, o que ele faz é sempre uma construção do olhar (dele e do público). No texto de Galeano, um menino, deslumbrado pela imensidão do mar, pede ao pai que o ajude a olhar. Chorei na hora, e choro agora. Já sou um velho, prestes a completar 69 anos, mas diante da tela do cinema quero ser sempre, até o fim, menino.