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Eterna magia

Luiz Carlos Merten

quinta-feira 26/06/14

Tenho vivenciado experiências muito interessantes na TV paga, nos últimos dias. Quero compartilhá-las com vocês (se é que alguém está me lendo). Zapeava no outro dia quando, ao passar pelo Telecine Cult, peguei o Spartacus de Stanley Kubrick no terço final. Embora o próprio autor não tivesse muito apreço pelo filme, e tenha feito aquela piada, justamente por não se considerar ‘autor’ -Kubrick achava que o ator e produtor Kirk Douglas não lhe permitia fazer o filme que queria e em Lolita, mostrou Peter Sellers com o gesto de mãos algemadas dizendo ‘I’m Spartacus, set me free’ -, eu, diferentemente dele (de Stanley), gosto muito e vou ao inferno para tentar provar que o uso da palavra nos discursos de Spartacus, Crassus (Laurence Olivier) e Gracus (Charles Laughton) é visceral como ilustração do mais kubrickiano dos temas. A saber – a dissolução da palavra como elo que une os homens. Toda a parte que revi é justamente posterior à derrota militar dos escravos, quando Crassus crucifica os sobreviventes que se recusaram a entregar Spartacus, mas não sem antes fazer com que seu ex-escravo pessoal, Antoninus (Tony Curtis), e Kirk Douglas se enfrentem numa arena improvisada. A cena é muito boa, mas talvez tivesse outro sentido, se Kubrick tivesse podido tratar os personagens como queria. Na visão dele, Crassus seria bissexual e teria relações com Antoninus, da mesma forma como busca submeter Varínia (Jean Simmons), embora nesse caso, como ela própria diz, ele talvez somente quisesse apagar o fantasma do homem que mais temia – o amado dela, o gladiador que virou líder dos escravos. Kirk Douglas, que já bancava o renascimento de Dalton Trumbo, retirando o roteirista da lista negra do macarthismo, deve ter achado que era demais comprar uma briga também com a censura dos estúdios, para a qual homossexualidade ainda era tabu. (Gore Vidal já havia sugerido isso na relação entre Messala e Judá em Ben-Hur, de William Wyler, lembram?) Acho Spartacus tão bonito, e as cenas de Gracus alforriando Varínia e dela mostrando o filho que vai crescer livre para o homem na cruz são de arrebentar. Tinha 14 ou 15 anos na primeira vez que vi Spartacus, no antigo cine Rex, em Porto Alegre, onde já havia visto Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder. Estou nos 68, quase 70, e ao rever o épico de Kubrick sinto que continuo romântico e sonhador como aos 15. E choro igual. As outras duas experiências são de filmes de George Stevens. A briga de Shane e Wilson em Os Brutos também Amam e a despedida de Joey, que chama ‘Shane!’, mas Alan Ladd sai de cena sem olhar para trás e naquele momento, uma sombra passa pelo olhar do menino, que vira homem e encara o próprio futuro. É insuportável, para mim, de tão doloroso, lembrar, o que faço cada vez, que Brandon de Wilde morreu novo, num acidente. Lembro-me também de Paulo Perdigão, que nunca conheci pessoalmente, mas escreveu aquele livro – Western Clássico: Shane – para tentar decifrar o mistério de uma das obras mais cultuadas do cinema. O outro Stevens é Giant/Assim Caminha a Humanidade. O clã de Jordan Benedict o acompanha na homenagem a Jet Rink, que virou um fdp bilionário, o protótipo do texano racista e autoritário. Jet humilha o filho de Jordan e Leslie – o jovem Dennis Hopper, que se casou com uma mexicana - e Rock Hudson chama James Dean para uma briga a socos. A rivalidade entre eles nunca foi por petróleo nem terras, mas pela mulher – Elizabeth Taylor. Jet/Dean cai de bêbado e Jordan/Hudson desiste de bater nele, enojado. Mas depois, na lanchonete de beira de estrada, ele vai brigar – e bater e apanhar – com o proprietário que se recusa a atender chicanos. Toda essa parte final de Giant é grandiosa e superlativa. Lembro-me de uma entrevista em que Stevens dizia que filmava baseado no seu conhecimento das pessoas. O nervosismo dos cavalos durante as brigas e tiroteios de Shane, o vento que abre as portas abruptamente quando o velho tio arregimenta o clã como se fosse gado, levando todo mundo para a festa que não haverá em Giant. O velho também leva Carroll Baker para ver a débâcle de Jet, chamando pela mãe dela (Leslie!). Meio rosto de Carroll, que chora escondida atrás da porta. E o final, as duas crianças, o branco e o mestiço, unidos no chiqueirinho. Não sei quantas vezes vi cada um desses filmes. Dezenas? Só sei que a mágica se repete, a cada (re)visão. Espero poder (re)ver mais umas dezenas.

 

 

 

 

 

is algumas dezenas de vezes.