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E o cinema fica menor (menos perverso?) sem Eli Wallach

Luiz Carlos Merten

quarta-feira 25/06/14 23:08

Ele recebeu os mais importantes prêmios de interpretação. O Tony (de teatro) por A Rosa Tatuada, o Emmy (TV) por O Ópio Também É Uma Flor e o Bafta (cinema) logo na estreia, por Baby Doll/Boneca de Carne, de Elia Kazan. Eli Wallach trabalhou com grandes diretores – Kazan, claro, John  Sturges (Sete Homens e Um Destino), Sergio Leone (Três Homens em Conflito, que os cinéfilos reconhecem pelo título original – O Bom, o Mau e o Feio), Richard Brooks (Lord Jim), William Wyler (Como Roubar Um Milhão de Dólares), Francis Ford Coppola (O Chefão 3) e Oliver Stone (Wall Street – O Dinheiro). Em 2010, aos 94 anos, recebeu a homenagem da Academia de Hollywood, que lhe outorgou um Oscar de carreira. Eli Herschell Wallach – reparem o nome do meio – nasceu no Brooklyn, em dezembro de 1915, numa vizinhança italiana. Embora judeu, obteve reconhecimento primeir0 no teatro, fazendo o brutamontes italiano Mangiacavallo de Baby Doll, com texto de Tennessee Williams. Quando esse filme surgiu, em 1956/57, o Cardeal Spellman, de Nova York, que apoiava McCarthy e via comunismo em tudo, não deixou por menos e fez campanha para que Kazan fosse excomungado. Sórdido e revoltante foram os adjetivos mais brandos que Kazan obteve. Era daí para pior. Karl Malden faz proprietário de terras que se casa com menor de idade, Carroll Baker, e resolve manter a mulher intacta – virgem – até a maioridade dela, mas o vizinho, que já come cavalos, deflora a noivinha no curral. Para muita coisa o papel serviu e, além dos primeiros prêmios, esculpiu para Eli Wallach a fama de bruto, que ele justificou por seus papeis no western. Meio mundo vai lembrar como ele era genial integrando com Clint Eastwood e Lee Van Cleef o triângulo de Leone, mas eu, sem negar-lhe o gênio, acho que o vilão de O Bom, O Mau, o Feio – Tuco – é só desdobramento do Calvera que criou para Sturges em The Magnificent Seven. Tuco tem o impressionante nome de Benedicto Pacifico Juan María Ramirez, e isso, imagino, fazia parte da magnificência que Leone queria plasmar na tela. Mas Sturges, um gringo, foi o verdadeiro criador do spaghetti western. Bem antes de Leone, emulou Akira Kurosawa – no caso dele, Os Sete Samurais; no de Leone, para Por Um Punhado de Dólares, foi Yojimbo – e usou a trilha como sustentação dramática. Leone fez ópera com Ennio Morricone, estendendo o tempo das cenas até quase o limite da exasperação. Sturges encontrou em Elmer Bernstein o parceiro para o dinamismo que buscava. Era musical – já vinha usando canções em seus westerns anteriores -, mas não operístico, o que, no caso de Leone, era próprio da cultura italiana. É uma diferença e tanto, mas Eli Wallach não é menos bom nem emblemático como Calvera. Revi há pouco Três Homens em Conflito no Cinema da Praia, em Cannes. Toda a cena final, o trielo – duelo de três – é uma insanidade. Eli Wallach corre feito doido naquele décor enorme de cemitério, enquanto Clint, o Estranho sem Nome, não se move. É pétreo como uma rocha. Alguém há de dizer que o sucesso de Eli Wallach com Sturges e Leone limitou seu aporte para o cinema, e talvez seja verdade, mas ele foi sempre muito bom. No teatro, garantem os que o viram em cena - foi melhor. Muitas vezes em companhia da mulher, Anne Jackson, com quem estava casado desde 1948 – 66 anos! -, interpretou não apenas Tennessee Williams (Rose Tatoo, Baby Doll e This Property Is Condemned), mas também Shakespeare (Henrique IV), Ionesco (Os Rinocerontes) e George Bernard Shaw (Ândrocles e o Leão). Quase centenário, estava fraquinho quando recebeu seu Oscar. Quando caras desse calibre se vão, não dá para não pensar como Norma Desmond – o cinema fica menor.