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Deus é brasileiro

Luiz Carlos Merten

segunda-feira 30/06/14

Não, nada a ver com o filme de Cacá Diegues, saído do conto de João Ubaldo. Desde ontem estou com este post entalado. Pela manhã, fui ver a animação sul-africana Khumba no Market Place e aproveitei e fiquei por lá para ver o jogo no cinema. Estava há tempos querendo viver essa experiência. Meu amigo [...]

Não, nada a ver com o filme de Cacá Diegues, saído do conto de João Ubaldo. Desde ontem estou com este post entalado. Pela manhã, fui ver a animação sul-africana Khumba no Market Place e aproveitei e fiquei por lá para ver o jogo no cinema. Estava há tempos querendo viver essa experiência. Meu amigo Dib Carneiro juntou-se a mim e participamos do que foi uma aventura e tanto. Imagino que melhor que aquilo só ver o jogo em campo. Todo mundo já falou de Brasil e Chile. Tantas vezes dizemos que Deus é brasileiro, mas sempre faltava a prova. O Senhor a deu. Três defesas como fez o Júlio César, mais a trave… Uma trave seria estatística. Duas traves, só milagre. Dá para tomar cerveja, o povo leva berrante, a festa é imensa no escurinho do cinema. No escurinho, sim. Vê-se o jogo como se assiste a um filme. Foi um épico, e não poderia ter sido mais hollywoodiano. Quais são os grandes temas do cinema de Hollywood? O retorno à casa e a segunda chance. Mandamos ontem o Chile para casa e o Júlio César teve a sua segunda chance, e tinha de ser nos pênaltis, para se purgar daquele outro gol que tirou o Brasil da Copa de 2010, na África do Sul. Pode ser que tenha sido o ambiente, mas houve uma armação de guerra que me levou à loucura. Felipão com a planilha escolhendo seus batedores. Um clima de expectativa e nervosismo. Um monte de gente dando força para o Júlio, ele chorando e o Ronaldo dizendo que não era o momento de chorar. O cara que amarelou na outra Copa… Pensei comigo – chora, Júlio. E para mim ele chorava de agradecimento, por saber que seu momento chegara. Foi um jogo de merda, mas passou como um filme maravilhoso. Ação, humor, drama, suspense. Teve tudo. O astro – Júlio César, que levou o Brasil para o próximo degrau rumo ao título. Assisti depois a Colômbia e Uruguai, e pelo que vi Deus vai ter de entrar em campo de novo. Tem gente dizendo que com a Colômbia vai ser mais fácil. Com aquele artilheiro, o ‘Rames’, aquele goleiro e aquele conjunto? James fez dois gols. Um foi de raça, sozinho. O outro foi uma sucessão de passes envolvendo quase o time todo. Um passava para o outro, e o outro estava ali, até que a bola chegasse aos pés do artilheiro, para ele arremessar. ‘Rames’ é f… Um craque. A bola roda o campo inteiro procurando os pés dele. O mais angustiante em Brasil e Chile é que os caras chutavam de qualquer jeito para tirar a bola da pequena área e quando ela chegava no campo do adversário não tinha ninguém. Só ‘eles’. Parecia bumerangue. A bola voltava. Vou morrer de pena de ver a Colômbia, tão guerreira, ser despachada, mas espero que isso ocorra. Só que, para isso, Felipão, o apático Neymar, Fred, todo mundo vai ter de entrar na linha, mesmo com risco de ser atropelado pelo trem colombiano. Só tenho medo de que nossa sorte fique de novo nas mãos do Júlio, e que o herói de ontem possa ser crucificado de novo. Estou pensando seriamente em abandonar o Anhangabaú. No escurinho do cinema, é muito melhor.