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Luiz Carlos Merten

21.fevereiro.2012 12:35:54

De volta!

Olá! Estou na redação do Estado, onde acabo de voltar à minha rotina, fazendo os filmes na TV de amanhã no ‘Caderno 2′. Teremos ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de Glauber, às 10h30, no Canal Brasil. ‘O sertão vai virar mar…’ É bom ir a um grande festival como Berlim, mesmo que alguém – quem? – tenha me perguntado por que a Berlinale não tem a fama de outros festivais, como Cannes e Veneza? Cannes é o maior dos festivais, Veneza, apesar do seu permanente estado de crise – o diretor geral foi mudado, de novo – beneficia-se da cidade, e do calor. A Berlinale tem frio e neve, que restringem o glamour. Tem uma seleção que beneficia o social e o político. Todo ano a seleção é muito discutida, mas um festival que abrigou ‘A Separação’ no ano passado e premiou este ano os Irmãos Taviani, além de atribuir seus outros prêmios de importância ao húngaro ‘Just the Wind’, de Bence Fliegrauf, e ao canadense/africano ‘War Witch/Rebelle’, de Jim Nguyen, só me merece aplausos. Foi uma longa viagem de volta. Saí às 6h30 da manhã de Berlim para fazer conexão em Paris. O que menos tive, estes dias todos, foi sol. Berlim estava sempre encoberta. O céu sobre Berlim era cinzento, plúmbeo. Nevava direto. Paris eastava límpida, céu azul, sol forte. Arrependi-me bde não haver reaberto minha passagem, para ficar mais uns dois dias, pelo menos. Há sempre tanta coisa para ver em Paris! Mas é semana de Oscar e meu editor, Ubiratan Brasil, que é o enviado do jornmal a Los Angeles, viaja amanhã ou depois. Achei melhor voltar. Meu voo era diurno. Eu, que durmo que é uma beleza em avião, fiquei as 11 horas e pouco lendo – e vendo filmes. Revi ‘O Desprezo’, clássico do mês na Air France, e devo confessar que, com ‘Viver a Vida’, é o meu Godard preferido. Godard foi, é, o grande revolucionário da linguagem e da política, mas poucos filmes dele criam personagens de verdade, nos projetam num drama que não seja só o espelho de seus conceitos autorais. ‘O Desprezo’ é maravilhoso, tem Brigitte e Fritz Lang, com aquelas suas falas que são antológicas. Emendei com um Benoit Jacquot antigo, que não conhecia, ‘A Tout de Suite’, com Isild Le Besco. Havia visto um pedaço no voo de ida e, no encontro com o diretor, em Berlim, por ‘Adeus à Rainha’, lhe disse que havia me parecido o seu ‘Acossado’. Ele me retrucou que nunca pensou em ‘A Tout de Suite’ desta forma, mas que é o olhar que os estrangeiros portam sobre seu filme. Acrecentei – ‘À Bout de Souffle’ pelo ângulo de Patriciá/Jean Seberg, aqui Isild, a burguesinha que se liga ao jovem árabe para viver perigosamente uma vida de assaltos. Existem cenas que só o cinema francês ousam construir. Isild morre de te4são pelo jovem árabe. Arrasta-o para sua casa após uma noite de balada. Vai junto a amiga. Dormem os três na mesma cama. Pela manhã, a garota vai para a escola, quando Isild volta ao quarto ele está se arrumando para ir embora. Sem uma palavra, ela tira a calinha, a câmera segue o olhar dele, que vira o nosso olhar. Concentra-se no sexo da protagonista. Ele a olha nos olhos, tira a camisa. Simple as that. Vi mais dois filmes, um com Jean Dujardin, como policial tramatizado pela morte da filha, e a nova versão de ‘A Guerra dos Botões’. Houve duas, recentes, que estrearam simultaneamente na França, no ano passado (de Christophe Baratier e Yan Samuell). Havia visto a versão antiga, em preto e branco, de Yves Robert, de 1961. Em plena nouvelle vague, com o Bandido Giuliano invadindo as telas, era feio, para um jovem que começava a ter veleidades de crítico, gostar da acadêmica adaptação do livro de Louis Pergaud. Mas eu gostava de Robert, e me divertia com suas comédias que depois foram refilmadas por Hollywood, ‘Loiro, Salto, de Sapato Preto’ e ‘O Doce Perfume do Adultério’, que inspirou ‘A Dama de Vermelho’. Mas de Yves Roberts, amo mesmo são dois filmes tardios, do começo dos anos 1990, seu díptico adaptado de Marcel Pagnol, ‘A Glória de Meu Pai’ e ‘O Castelo de Minha Mãe’. Tenho uma vaga lembrança de ‘A Guerra dos Botões’, mas não creio – não me lembro – que, há 50 anos, Robert tenha filmado o amargurado retorno do ex-chefe do bando de Longevernes, que volta ao vilarejo depois de conhecer o horror da Guerra da Argélia. Chorei, como gostaria de ter chorado – tenho de rever o filme de Martin Scorsese – em ‘A Invenção de Hugo Cabret’. Toda infância e pré-adolescência têm seus ritos, mas o mundo mudou tanto que, aqueles folguedos, aquele romance – do líder dos Longevernes, Lebrac, com a menina que o substituirá – me pareceram de outra época. E o filme de Samuell, o que vi no voo da Air France, me tocou por isso.

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3 Comentários Comente também
  • 22/02/2012 - 16:09
    Enviado por: tiago

    Merten,
    estou louco para que você veja Hugo e jogue O Artista na boca do lixo!

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  • 23/02/2012 - 18:39
    Enviado por: Gildo Araújo

    Acabei de ler num dos livros de Zuenir Ventura que Deus e o Diabo não ganhou o Festival de Cannes por causa do crítico soviétivo Alexandre Karaganov que alegou que a obra de Glauber era “subversiva demais”. Em 64 o Festival foi presidido por Fritz Lang que considerou o filme de Glauber “uma das mais fortes manisfestações da arte cinematográfica”.

    Se em A Invenção de Hugo Cabret tem Georges Méliès, Scorcese deveria ter recheado o filme com atrizes francesas. Não assisti ao filme mais a presença da garotinha Chloë Grace Moretz acho que vale o ingresso, ela atuou na refilmagem daquele filme de Tomas Alfredson, Deixe Ela Entrar e fez uma participação em 500 Dias com Ela, a música de Carla Bruni é uma das melhores do filme.

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  • 24/02/2012 - 12:32
    Enviado por: Paulo Antunes

    Intenso esse seu post. Corrijo, como são todos os seus posts. Carregados de informação, estabelecimento de relações entre filmes, histórias. Mas este post que leio agora no serviço, me trouxe mais ensinamentos sobre Godard. E isso, em pouquíssimas linhas. De fato, concordo, com essa chave de vislumbramento da obra de Godard, que nos informa e forma dizendo “onde Godard foi, é, o grande revolucionário da linguagem e da política, mas poucos filmes dele criam personagens de verdade, nos projetam num drama que não seja só o espelho de seus conceitos autorais”. Magnifico! Também fiquei embevecido com a sua descrição de Berlim, sob neve. Estive duas vezes em Berlim sendo que em uma delas no começo de um inverno, não tão rigoroso como o atual, mas quando também transitei pelas ruas sob flocos de neve. Agora a pouco li e me emocionei pelo post do Zanin sobre o filme do Scorcese “A Invenção de Hugo Cabret”, que vejo você também reverencia pela chave das reminiscências da infância. Não vi Hugo ainda. Cumpro a jornada neste final de semana, certamente. A guerra dos botões, ainda me impacta o primeiro, embora o segundo também seja sensível, mas a gurizada do primeiro provoca reminiscências mil. Agora vou percorrer com atenção seus posts sobre o Festival de Berlim, embora com atraso, no quesito jornalístico, evento em si, será uma leitura, na verdade antecipatória do que nos aguarda o futuro cinematográfico da cidade, com aqueles filmes que ultrapassarem a barreira das compras e vendas e consigam chegar às telas, com muito atraso, claro. Certamente o filme dos manos Taviani, virá, mas quando?.

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