KIKITO
Estou feliz da vida. Terminou agorinha o 34° Festival de Gramado que consagrou o mexicano El Violín como melhor longa latino para os três júris – público, crítica e júri oficial. O longa de Fernando Vargas Quevedo já era o meu preferido desde o Festival de Cannes, quando tentei, sem êxito, dar-lhe a Caméra d’Or como melhor filme de diretor estreante, colhendo a oposição dos irmãos Dardenne, que presidiam aquele júri. A tríplice vitória equivale agora a uma lavagem da alma e o filme ainda ganhou o prêmio de melhor ator para o extraordinário Don Angel Tavira, que faz o velho músico maneta que leva vida dupla – tocando violino em pequenos lugarejos do interior do México para encobrir a atividade como elemento avançado da guerrilha.
Na competição brasileira, o público e os críticos fizeram a mesma escolha, optando por Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim. O júri oficial conseguiu o prodígio de, entre cinco concorrentes, dividir o prêmio de melhor filme entre dois – Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, e Anjos do Sol, de Rudi Lagemann. A escolha é tanto mais surpreendente porque são dois filmes muito diversos, aos quais terei de voltar. Serras é radicalmente experimental; Anjos é linear, de uma dramaturgia mais tradicional. Mas ambos trabalham ficcionalmente com elementos de documentário. É o que torna minimamente defensável a escolha de um júri que, pela disparidade do resultado, parece não ter querido tomar partido.
CINEMA EM CONSTRUÇÃO
Esther Saint Pizier, diretora do Festival de Toulouse, esteve em Gramado para participar do encontro chamado Cinema em Construção, anunciando os filmes brasileiros que o programa apóia e serão mostrados, no mês que vem, em San Sebastian. São dois filmes paulistas – Via Láctea, de Lina Chamie, e A Casa de Alice, de Chico Teixeira, que recebeu o apoio da Petrobrás no concurso de roteiros que a empresa promoveu no ano passado. Como participante do júri daquela premiação, posso dizer que o roteiro de A Casa de Alice tem tudo para ter resultado num grande filme. O de Lina Chamie não é menos interessante. E como os dois filmes são de São Paulo provocaram o comentário de um cineasta carioca – “Vocês (ele incluiu o repórter, que é gaúcho e paulista de adoção) são tão bairristas em São Paulo que pode ser que agora se acalmem um pouco.”. Era uma referência à reação que provocou entre os diretores de São Paulo a nova premiação da Petrobrás, que não contemplou nenhum filme do Estado.
SANDY E JÚNIOR
Sandy parece uma boneca. Tem aquele rostinho lindo demais, que você não se cansa de contemplar. Pois ela e o irmão viraram estrelas de Gramado, na quarta-feira. Vieram mostrar no Gramado Cine Vídeo o clipe com a música Estranho Jeito de Amar, cumprindo extensa programação quie incluiu deixar a marca de suas mãos na Calçada da Fama que Gramado criou e assistir, à noite, ao filme Anjos do Sol, sobre prostituição infantil, o que pode ter sido um choque para a dupla, que vive, pelos menos para os fãs, num mundo de fantasia. Os críticos se desesperam. Dizem que esse tipo de glamour não tem nada a ver com cinema. Mas é Gramado e, com todas as mudanças anunciadas, sem tapete vermelho e a nova Calçada da Fama, a coisa não funciona por aqui.
KIKITOS
Passam hoje os últimos concorrentes aqui em Gramado. O longa brasileiro é o documentário Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim, que já parece um tanto velho, depois de ser premiado (em outubro!) na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo do ano passado. Ontem, passou o melhor latino da competição, El Violín, do mexicano Francisco Vargas Quevedo, que era o preferido do repórter do Estado, quando integrou o júri que outorgou a Caméra d’Or para o melhor filme de diretor estreante em Cannes, em maio. O longa brasileiro, muito forte, foi o documentário Atos dos Homens, de Kiko Goifman, que fala de violência e massacres. Quando a câmera treme, não é por estilo, adverte o diretor, mas pelo medo que ele estava sentindo de filmar na Baixada Fluminense. E houve um curta que já nasceu cult – Manual para Atropelar Cachorro, de Rafael Primo, sobre neuroses urbanas e que mistura várias técnicas e estilos, incluindo mangás.
Por Luiz Carlos Merten
Antônio Fagundes recebe hoje à noite o troféu Oscarito, que o Festival de Gramado dedica, todos os anos, a uma grande personalidade do cinema brasileiro. Ninguém é mais global que Fagundes e o festival havia prometido, para 2006, uma mudança de perfil, privilegiando a discussão do cinema sobre o glamour do tapete vermelho. Justiça seja feita – o homenageado do 34° festival com o troféu Oscarito encarna o lado mais glamouroso de Gramado, mas Fagundes, além de ser global, é ator e de grandes papéis em filmes importantes.
Seu sucesso é inegável. Havia mais gente na porta do Palácio dos Festivais para vê-lo, ontem à noite, do que a qualquer outra personalidade do cinema. Aonde vai, Fagundes é adulado, fotografado, pedem-lhe autógrafos. O assédio é constante. Não é nenhum desdouro para Andrea Tonacci, o principal concorrente brasileiro da noite da inauguração, que passou despercebido na entrada do palácio. Tonacci concorre ao Kikito com Serras da Desordem. Uma enquete feita com o público na porta do cinema deu que a maioria nunca tinha ouvido falar do cara e alguns até achavam que Andréa era nome de mulher. Gramado, aos 34 anos, fornece um belo cenário, mas ainda não conseguiu formar uma cultura de cinema na serra gaúcha.
O que mudou desde que Fagundes começou a fazer filmes, há quase 30 anos? “A gente sempre fez cinema contra alguma coisa. Continuamos fazendo com problemas de público, de orçamento, de mercado em geral, mas há uma vantagem – há 30 anos havia a censura do regime militar e agora, pelo menos disso, estamos livres.” O que representa o troféu Oscarito para um ator que, segundo os próprios cálculos, já ganhou cerca de 30 prêmios por sua atividade no teatro, cinema e televisão? “Acho que a comédia é sempre alvo de preconceito dos críticos, como se fosse uma coisa menor, o que não é. Aristófanes é menos lembrado do que Sófocles e Ésquilo embora subsistam mais obras dele do que dos outros dois. Shakespeare é mais popular do que Molière. Fazer humor é difícil. Exige talento e uma noção muiito precisa do tempo. O troféu Oscarito me honra porque, além de tudo, ele era um gênio do humor e um cara com grande capacidade de improvisação.”
Fagundes está atualmente com a peça As Mulheres da Minha Vida, em cartaz. É um texto de Neil Simon, dirigido por Daniel Filho, com o qual ele já alcançou a marca de 150 mil espectadores. “Gosto de dizer que o teatro é a pátria do ator e fazê-lo é uma necessidade interna. Quanto ao sucesso da peça, acho que é a prova dos problemas que o cinema enfrenta no País. O teatro é tradicionalmente considerado elitista, enquanto o cinema é um meio popular, mas somente quatro filmes, entre os 33 que foram lançados este ano, fizeram mais do que 150 mil espectadores. Teve um que fez menos do que 50 pagantes. Quer dizer, nem a família do cara que fez foi ver o filme. Quero continuar fazendo teatro e TV, mas precisamos levar o público para as salas de cinema.”
Por Luiz Carlos Merten
Nada como a memória para resgatar a história de um festival. Há 34 anos, em 1973, o 1° Festival de Gramado começou com chuva, mostrando só filmes brasileiros. Foi o ano em que Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor, ganhou o Kikito de melhor filme e Darlene Glória ficou com o troféu criado pela artista Elizabeth Rosenfeld e destinado à melhor atriz do evento. Ontem, o 34° Festival de Gramado, agora de cinema brasileiro e latino, começou de novo com chuva e Darlene Glória está de volta às telas no filme Anjos do Sol, de Rudi Lageman, que será exibido amanhã à noite, no horário do jogo entre São Paulo e Internacional. Uma leva de jornalistas está planejando a descida da serra para assistir ao histórico jogo no estádio Beira-Rio, em Porto Alegre.
Ainda não foi desta vez que os novos curadores, José Carlos Avellar e Sérgio Sanz, conseguiram mudar o perfil de Gramado. Com o objetivo de devolver o festival aos cinéfilos e prepará-lo para o futuro, eles montaram uma agenda de debates que se antecipa interessante, mas o que faz o tititi de Gramado ainda é o glamour do tapete vermelho. O público que se posta diante do Palácio dos Festivais quer ver as estrelas da Globo. Luciano Szafir, que não é exatamente um nome destacado do cinema do País, teve uma entrada de superastro na inauguração. Rocco Pitanga precisou conter o entusiasmno das fãs, que gritavam tanto seu nome que estavam prejudicando a performance da Ospa, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, em frente ao palácio.
Dois filmes, um latino e outro brasileiro, foram exibidos na primeira noite. O mexicano Mezcal, de Ignacio Ortiz Cruz, abriu a programação. Narra uma história de desamor, morte e vingança, sob uma chuva torrencial e com recurso a um relato cíclico, tudo isso apresentando curiosos poptos de contato com Veneno da Madrugada, dse Ruy Guerra. Mezcal foi uma boa surpresa. Na seqüência, veio o filme mais aguardado da noite, Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, nome importante do cinema marginal (o udigrudi) por volta de 1970. O autor do cultuado Bang Bang mistura ficção e falso documentário para contar, de forma nãoi linear, a história (real) de um índio que sobrevive ao massacre de sua gente e atravessa dez anos de andanças pelo Brasil antes de voltar ao convívio dos remanescentes de sua tribo. Serras da Desordem começa bem, mas, depois, a desordem do título parece contaminar o projeto. Ver o personagem ser abusado, no sentido de ser tratado como uma criança incapaz, por todos ao redor, o que inclui os sertanistas que querem ajudá-lo, revela-se mais complicado do que complexo. Serras da Desordem tem problemas. Estão no seu miolo. Em Gramado, na primeira noite, o mérito foi dos latinos.
Por Luiz Carlos Merten
Tudo pronto para o 34º Festival de Gramado – Cinema Brasileiro e Latino. Precedido de uma crise que lançou dúvidas sobre a sua realização, o evento agora sai. Às 17h30 de hoje, o mestre de cerimônias José de Abreu comanda a festa de inauguração, que deve ser marcada por discursos de esclarecimento da comissão organizadora e de apoio das autoridades. Às 19 horas, de novo José de Abreu abre a mostra competitiva de filmes latinos apresentando o filme mexicano Mezcal, de Ignacio Ortiz Cruz, sobre figuras marginais que se encontram numa cantina do lugarejo mítico de Parian para jogar conversa fora e tomar a bebida alucinógena do título.
Ortiz Cruz estudou medicina, que trocou pelo cinema, tendo iniciado sua carreira como roteirista de filmes como A Mulher de Benjamin, de Carlos Carrera.
Na seqüência, começa a mostra competitriva de longas brasileiros, que será aberta por Serra da Desordem. Esta história (real) de um índio que sobrevive ao massacre de sua tribo assinala o retorno, ao cinema, do cultuado Andrea Tonacci. Também serve como cartão de visitas do tipo de cinema que os novos curadores do festival, José Carlos Avellar e Sérgio Sanz, querem mostrar na serra gaúcha, iniciando uma nova era na história de Gramado.
A idéia é que o cinema volte a predominar sobre o glamour do tapete vermelho. Tonacci é mais do que indicado para isso. Em 1971, ele realizou um dos filmes mais originais do cinema brasileiro, no contexto do movimento que mais tarde se tornou conhecido como marginal ou udigrudi. Bang Bang trata de três bandidos sem contar propriamente uma história, seja ela linear ou truncada. Irreverente, debochado mas também rigoroso, o filme parodia o policial dos anos 1940 e 50, radicalizando a revolução de estéticas que marcou os 60. Tão potente e criativo é, não vamos dizer foi, Bang Bang que a curiosidade é imensa.De volta à direção, Tonacci estará atualizado com as novas tendências do cinema atual? Estará, de novo, na vanguarda? A expectativa termina na noite de hoje, no Palácio dos Festivais, em Gramado.
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