BERLIM – José Padilha está mostrando a sessão oficial de Tropa de Elite 2. Pela manhã, a sessão de imprensa não lotou, mas ninguém saiu e houve aplausos (discretos) no final. A coletiva também não estava cheia, mas o público internacional presente estava mais interessado pelo filme do que na coletiva de Tropa 1. No encontro com Jeff Bridges – éramos cinco à mesa -, um jornalista croata e outro grego discutiram por causa do filme. O grego bateu na tecla do filme fascista, o croata, sem saber que havia um brasileiro, tomou a defesa de Padilha. Disse que, do ponto de vista cinematográfico, não sabia se o filme era melhor, porque o primeiro era muito excitante. Mas, do ponto de vista político, este é muito mais complexo e rico. Ou seja, o coleguinha croata entendeu tudo.
BERLIM – Entrevistei há pouco Jeff Bridges, que veio mostrar a nova versão de Bravura Indômita, dos irmãos Coen. Os tietes de Ethan e Joel vão gostar de saber que Bridges disse em alto e bom som que eles são os maiores autores do cinema norte-americano atual. Sobre o clássico de Henry Hathaway que deu o Oscar para John Wayne, disse que “não é mau”.
Bridges conta que, quando jovem, resistiu o quanto pode ao desejo do pai, Lloyd Bridges, de que o irmão e ele virassem atores. “Como todo jovem, eu queria ir na contramão de meu pai, o que agora percebo, era idiota.”
Jeff queria ser músico e até hoje canta e compõe. Foi o papel em A Última Sessão de Cinema que lhe fez tomar gosto pela coisa e ele agradece a Jeff Corey, que foi quem mais o incentivou. Corey fazia o papel que agora é de Josh Brolin na versão dos Coens. Jeff revela que tentou incentivar as filhas a atuarem, mas elas foram contra (como ele, no passado). O mais próximo que ele conseguiu foi agora, com uma delas, em Bravura Indômita. A mais velha, Jessie, foi sua assistente pessoal. É pena, porque hoje ele acredita que atuar está no sangue e que as filhas também poderiam fazer carreira, como Beau Bridges, seu irmão, e ele. O melhor conselho que admite ter ouvido foi da mãe – “Keep doing as long as you amuse yourself”, (continue fazendo (atuar) enquanto se divertir).
BERLIM – Não é só a cadeira vazia no júri nem a retrospectiva de Jafar Panahi que tentam chamar a atenção para o drama do cineasta iraniano vencedor do Urso de Ouro por Fora de Jogo, Offside, aqui na Berlinale. Outdoors espalhados por toda a capital alemã mostram a foto de Panahi e lançam a pergunta – onde está? Os protestos são unânimes contra o regime do presidente Mahmoud Ahmadinejad, que transformou o cineasta em bode expiatório num processo no mínimo discutível para intimidar a oposição e a classe artística iranianas. Mas esse não é o único protesto a movimentar o 61° Festival de Berlim. Agora mesmo, próximo ao Palácio do Festival, houve uma passeata pedindo a liberação da Itália do “velho sátiro e ridículo”. Quem? Silvio Berlusconi, claro.
Clodoaldo resolveu me corrigir. Havia escrito ‘Cheguei em casa’ e ele desembestou (é gauchismo) que deveria ser ‘cheguei a casa’. Só se for na tua, Clodoaldo. Cheguei à casa do Clodoaldo, aí teria até crase. Se é na minha, está certo – cheguei em casa. Feita a pequena ressalva, acabo de assistir a ‘Entre Irmãos’, o novo Jim Sheridan, que transpõe a história de Caim e Abel para os EUA contemporâneos, para falar das consequências da Guerra do Iraque na vida norte-americana. O começo do filme parece uma mistura de vários outros. Tobey Maguire faz o militar que se despede da mulher (Natalie Portman) e regressa ao Iraque. Naquela paisagem desolada – os signos da destruição estão em toda parte -, ele diz que se sente em casa. Lembra ‘Guerrra ao Terror’, e Kathryn Bigelow é mais ‘viril’ (como diretora) do que Sheridan. Logo o helicóptero do cara cai, tem um corte, toca a campainha na casa e ali estão os dois militares com a malfadada notícia. Se fossem Woody Harrelson e Ben Foster, o filme poderia ser ‘O Mensageiro’ (e o de Oren Moverman também é melhor). Não é que não tenha gostado de ‘Entre Irmãos’, ou esteja querendo implicar. Na verdade, não gostei (muito), mas não é a pior experiência do mundo ficar olhando Jake Gyllenhaal, Natalie Portman e Tobey Maguire, este último se esforçando para provar que é bom ator (e que deveria, talvez, ter sido indicado para o Oscar). O filme avança e recua em relação às situações e personagens. O pai, o irmão desajustado etc, todos provocam uma reação imediata contrária no espectador, mas logo em seguida ‘Entre Irmãos’ relativiza os pontos de vista e reabilita – humaniza? – esses personagens. Caim é o bom moço que só necessita de uma oportunmidade para se revelar como tal, o pai repressor reconhece que falhou com os filhos etc. Sinceramente, o filme não me acrescentou muito, nem como tentativa de compreensão dessa guerra que corre o risco de substituir a do Vietnã no imaginário dos gringos. Algumas ideias são boas. Na primeira vez, à mesa, Gyllenhaal, saído da cadeia, faz uma observação para o fato de o irmão estar indo para a guerra, matar os bad guys, Gyllenaal pergunta quem são os maus, a sobrinha (filha de Tobey e Natalie) responde que são ‘os barbudos’ (árabes, claro) e o pai milico, Sam Shepard, exige respeito da ovelha negra, porque o outro filho é o herói da família. Existem várias cenas interessantes para documentar a implosão do grupo familiar, mas não creio que, no limite, ‘Entre Irmãos’ tenha resultado um bom filme. O recurso psicanalítico – Tobey Maguire se autodeprecia para purgar sua culpa, vejam o filme para saber do que é culpado – me pareceu meio fácil. Por outro lado, existem finais ‘abertos’ que me parecem necessários em certos filmes (esperem pelo romeno ‘If I Want To Whistle, I Whistle’, do qual gostei tanto em Berlim, para conferir). Aqui, fiquei só com uma sensação de impotência. O diretor e seu roteirista simplesmente não souberam como potencializar num desfecho satisfatório a tragédia de culpa que narram.
O título do post é uma pequena brincadeira com o filme famoso de Abbas Kiarostami, só que lá a pergunta é sobre a a casa do amigo. Jafar Panahi foi detido no Irã por seu apoio à oposição ao governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad. No mês passado, o cineasta havia sido convidado para o Festival de Berlim, para participar da retrospectiva dos 60 anos da Berlinale, mas as autoridades não lhe permitiram viajar. Não é de hoje que Panahi enfrenta problemas com o regime dos aiatolás, mas o cerco parece estar-se fechando, e não apenas sobre ele. Em Berlim, entrevistei Rafi Pitts, que participava da competição com ‘The Hunter’. O filme é sobre esse homem cuja mulher é morta durante uma manifestação antigovernamental. Ele se vinga matando policiais e vira alvo de uma caçada, no fim da qual a própria corrupção da polícia iraniana é colocada em xeque. De volta a Panahi, seu escritório foi revistado e o computador apreendido, esses procedimentos padrão para suspeitos de atividades subversivas, não importa onde. O curioso é que Panahi, não faz muito tempo, tentou entrar nos EUA para levar ‘O Círculo’, um de seus melhores filmes, acho que ao Festival de Nova York e o governo do então presidente George W. Bush lhe negou o visto. O cara consegue ser perigoso aos olhos de todo o mundo, e por seus filmes, exclusivamente. Em Berlim, Rafi Pitts estava cheio de expectativa de que ‘The Hunter’ pudesse passar no país. Ele me contou, inclusive, por que terminou fazendo o protagonista. No Irã, os filmes necessitam de aprovação para ser feitos e, quando isso ocorre, somente a equipe que foi habilitada pode participar da filmagem. O diretor se desentendeu com o ator, que foi despedido. Se entrasse com um pedido de aprovação para o novo intérprete, ele se arriscava a ver o projeto trancado ou, pelo menos, retardado. Preferiu fazer o papel, porque, afinal, seu nome já estava aprovado. A questão é – o filme vai passar? Panahi, Mohsen Makhmalbaf, Abbas Kiarostami, todos esses diretores têm sido censurados no Irã. Mesmo quando seus filmes são premiados no exterior, não encontram cota de tela. Makhmalbaf, de uma maneira mais atuante, tem cerrado fileiras com a oposição. Rafi Pitts começa o filme dele com uma imagem emblemática – a dos guardiães da revolução iraniana armados sobre uma bandeira dos EUA, desenhada no chão. Hoje, a ideia é a de que a revolução foi traída por seus guardiães e um novo movimento nas ruas se fortalece na luta por liberdades. O cinema tenta refletir sobre o fenômeno, mas a situação não é fácil. Enquanto artistas são censurados e perseguidos, o cinema iraniano que faz sucesso nas telas locais é alienado como em qualquer lugar do mundo. Comédias inócuas, de preferência.
Havia comprado a revista francesa ‘Transfuge’, edição de fevereiro, com Bernard-Henri Lévy na capa. O filósofo, marido de Arielle Dombasle, está sendo vítima de uma campanha de descrédito na França, acusado de plágio. A entrevista é anterior aos últimos acontecimentos, mas tem um título revelador – ‘O último engajado’. Na verdade, é o que talvez incomode os detratores de BHL. Sem querer entrar em discussão sobre sua importância como ‘pensador’, o cara se pauta pela coragem na tomada de posições e defesa de causas impossíveis. Havia lido a entrevista, até por deferência a Arielle, atriz de Eric Rohmer, que participou da homenagem ao grande diretor promovida por ‘Cahiers du Cinérma’ em Paris, na semana passada. Mas havia também em ‘Transafuge’ um dossiê que me interessou bastante e que deixei para ler no avião. Comemoram-se 20 anos da morte de Alberto Moravia e isso, mais uma biografia editada na França, levou a revista a dedicar um dossiê ao autor italiano. BHL, por sinal, gosta muito de Moravia e o que mais o atrai é justamente a forma como arte e vida se compõem e fecundam. Ele chega a afirmar que acredita, cada vez menos, na separação entre o homem e o artista e Moravia é justamente um dos avatares dessa interação. Li todo o dossiê e é muito bacana, com uma análise de Moravia e suas mulheres, uma delas a escritora Elsa Morante – e a forma como as mulheres viram esfinges na escritura moraviana –, mas confesso que estou acrescentando o post por causa do texto de Damien Aubel, que analisa a ‘dívida’ (dette) da sétima arte com o cinema. Se me pedissem para enumerar as adaptações de Moravia para o cinema ia citar Godard (‘O Desprezo’), Bertolucci (‘O Conformista) e Francesco Maselli (‘Os Indiferentes’). O espectro é muito mais amplo e inclui Mario Soldati (‘A Insatisfeita’), De Sica (‘Duas Mulheres’), Damiano Damiani (‘Vidas Vazias’), Mauro Bolognini (‘Agostino’) e Cédric Khan (outra versão de ‘O Tédio’). Cada vez mais me convenço que o filme mais ‘clássico’ de Godard é também o melhor do diretor e é justamente ‘Le Mépris’, com Brigitte Bardot e Fritz Lang na pele desse grande diretor (ele próprio) que quer adaptar a Odisséia e reflete sobre a fatalidade do combate entre o homem e os deuses, metamorfoseados em estátuas de pedra, com olhos não vazios, mas maculados pela pintura. Godard dizia que o cinema, como a pintura, revela o invisível e foi isso que ele buscou na sua adaptação de Moravia – mostrar o invisível. Só que ele terminou fazendo outra coisa. Moravia, no cinema, é sempre fatal e carnal. Suas histórias tratam da injustiça e da fatalidade. Me deu vontade de acrescentar esse post rapidinho. Estou na redação, indo – atrasado – para a cabine de ‘Brothers’, de Jim Sheridan. Mas pretendo voltar a Moravia. Ele amava o cinema, era amigo de Pasolini – tão diferentes e tão próximos. Assunto não vai faltar e quero viajar um pouco nesses filmes antigos. A jovem Claudia Cardinale era um assombro em ‘Os Indiferentes’, melhor que o filme, talvez, mas ao lembrar de Maselli me lembro da textura daquelas obras em prodigioso preto e branco que talvez fossem a última herança do neo-realismo no cinema italiano em progressão do começo dos anos 1960.
Não sei se vocês desertaram do blog, porque ultimamente não tenho tido comentários para validar. Os blogs do ‘Estadão’ estão mudando e eu preciso ‘migrar’, como se diz, para que os comentários de vocês entrem automaticamente, sem necessidade de validação. Dito isso, quero voltar a ‘How the West Was Won’, A Conquista do Oeste, a que assisti em Paris, numa cópia plana. O Cinerama foi um dos formatos inventados por Hollywood para enfrentar a concorrência da televisão, nos anos 1950. Os filmes em Cinerama eram rodados com três câmeras distintas, embora com a particularidade de só possuírem um visor, que controlava a sincronia das três imagens contíguas e que eram projetadas sobre uma tela curva (nos extremos), a partir de três projetores diferentes. Tal processo era obviamente complicado e remetia à tela tríplice que Abel Gance criara no cinema silencioso para o seu ‘Napoleão’. O problema com as cópias planas dos filmes produzidos originalmente em Cinerama é que ficam muito evidentes os pontos de junção das três telas. Isso incomoda bastante em ‘A Conquista do Oeste’, mas confesso que gostei de ter (re)visto o filme. Embora irregular, a produção de 1962 é interessante como representação do nascimento de uma nação, mesmo que a conquista do Oeste pouco ou nada tenha a ver com a realidade e seja muito mais uma afirmação daquilo que o proprio cinema havia mostrado antes. Já disse que o episódio ‘fordiano’, da Guerra Civil, é de longe o melhor, construído sobre uma ideia do ‘tempo’. Zeb (George Peppard) parte para a guerra e, ao retormnar, encontra túmulos, não gente. Há algo de mágico na luminosidade da cena da partida, quando ele avança por aquela aléia de árvores e olha para trás para lançar um último olhar sobre um mundo que logo será colocado em xeque. O conceito geral é bonito. As histórias das duas irmãs, Eve e Lily, Carroll Baker e Debbie Reynolds, são conflitantes e complementares. Uma se liga à terra e cria raízes, sendo a Penélope da odisséia de mestre Ford. A outra é uma aventureira que expressa a mobilidade ontológica e social dos construtores da identidade nacional. Desde que (re)vi o filme, na sexta, estou na cabeça com o tema cantado por Lily/Debbie – ‘home in the meadows’. E há aquela conversa antológica entre os generais Sherman e Grant, quando John Wayne – tinha de ser ele – filosofa sobre a guerra e o dever do soldado, num cenário de estúdio que remete a outro clássico, anterior, de Ford, ‘O Homem Que Matou o Facínora’. Até por causa do título, ‘A Conquista do Oeste’, o tom do filme é épico, com muitas cenas espetaculares que exploram as possibilidades do formato Cinerama. O episódio de Ford é a exceção por ser rigorosamente intimista. O mestre não filmou nem as cenas de combates da Guerra Civil. São cenas de arquivo de outros filmes produzidos pela Metro (‘A Árvore da Vida’, de Edward Dmytryk). Só para concluir o assunto ‘Cinerama’. O formato foi explorado principalmente em documentários ou filmes turísticos, de paisagens, que os críticos chamavam de ‘travelogues’. Um raro exercício de ficção, antes de ‘A Conquista do Oeste’, foi ‘O Mundo Maravilhoso dos Irmãos Grimm, de Henry Levin, no mesmo ano (1962). ‘A Conquista’ costuma ser tratado a pontapés pelos críticos, como colonialista, reacionário etc. Mesmo me arriscando a levar pedradas, quero dizer que os 25 minutos do episódio de John Ford são antológicos, a prova de que um grande diretor consegue pegar uma encomenda e dar-lhe uma identidade, uma assinatura. Tentem ver e depois me digam se não.
Não contei para vocês. No sábado, em Paris, fui (re)ver ‘A Vida Íntima de Sherlock Holmes’. Um dos últimos filmes de Billy Wilder, a produção de 1970 foi planejada para durar três horas e meia, mas o estúdio – a United Artists – optou por distribuí-la numa versão de 125 min. Wilder criou fama como diretor virulento, mas sua aproximação do mito do detetive criado por Conan Doyle, por menos conformista que seja, praticamente esgota suas ousadias no prólogo. O ‘vício’ de Sherlock – a 7% solution de cocaína –, a sugestão de homossexualidade na ligação com Watson (vejam que não estou usando homossexualismo; fui advertido de que tinha de ser mais correto em relação ao termo; o ‘ismo’ pressupõe doença) tudo isso é tratado no episódio inicial, da bailarina russa que espera que Sherlock seja o pai de seu bebê. O restante do filme é um relato de mistério, que se converte no trabalho talvez mais atípico da carreira do grande diretor. Digo talvez porque, no fim dos anos 1950, Wilder já se exercitara no mistério, usurpando de Agatha Christie o tema de ‘Testemunha de Acusação’. Existem críticos que consideram, ‘A Vida Íntima’ o filme mais hitchcockiano que Hitchcock não realizou. Se existe filiação, não é tanto pelo suspense, mas pelo clima gótico e romântico que aproxima este filme de ‘Rebecca, a Mulher Inesquecível’, de 1940. Wilder suprimiu dois episódios inteiros – e Sérgio Leeman, com quem almocei, depois de assistir a ‘Vida Íntima’, me contou como chegou a uma descoberta assombrosa. Um dos episódios ‘excluídos’ da versão definitiva chegou a ser localizado, mas possui apenas imagem, sem áudio, enquanto o outro tem áudio e nenhuma imagem, o que inviabiliza qualquer tentativa de recuperar a obra na sua integralidade. O importante é que, mesmo tendo seu trabalho adulterado, o diretor conseguiu dar unidade ao relato, na medida em que tudo, na abertura de ‘Vida Íntima’, remete – e fecha – a investigação que Sherlock e Watson levam sobre o desaparecimento do marido da falsa viúva e a sua implicação (dela) no roubo dos planos do novo armamento que a Marinha de Sua Majestade, a rainha Vitória, está desenvolvendo e que não é outra coisa senão o submarino. Aliás, a cena em que a rainha desautoriza o submarino porque é a negação do cavalheirismo na guerra – onde se viu atacar as embarcações inimigas sem que elas tenham a chance de se defender? –, é maravilhosa. Confesso que saí do cinema em estado de graça, tocado pelo romantismo do filme. Acrescento que, cada vez mais, acho ‘Irma la Douce’ um filme essencial de Wilder, embora Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, o considere ‘execrável’. Wilder começou na comédia e provou sua excelência no filme noir, antes de retornar à comédia, pela via do romantismo um tanto cínico de ‘Sabrina’ e ‘Amor na Tarde’. ‘O Pecado Mora ao Lado’ e ‘Quanto Mais Quente Melhor’ são os extremos humorados de suas provocações. Com ‘Irma la Douce’, acho que ele retomou o romantismo que deu o tom de sua última fase, com ‘A Vida Íntima’ e ‘Amantes à Italiana’ (Avanti!). Adorei (re)ver ‘A Vida Íntima’ no cinema, naquela telona, e o filme ainda tem Genevieve Page. Ela foi a princesa (dona Urraca) de ‘El Cid’, de Anthony Mann, e a Madame Anaïs, dona do bordel de ‘A Bela da Tarde’, de Luis Buñuel. Filmou com Christian Jacque (‘Fan Fan la Tulipe’), George Cukor e Charles Vidor (‘Sonho de Amor’, sobre Lizt) e Riccardo Freda (‘Cilada Sangrenta’). Era uma atriz classuda, sofisticada e muito interessante, lembrando um pouco (pelo físico) Eleonora Rossi Drago, mas loira e com uma voz meio anasalada, muito particular. Até por ela, ‘A Vida Íntima de Sherlock Holmes’ foi um regalo para mim. Fiquei pensando – o filme saiu em DVD no Brasil? E a propósito, Brad Pitt será mesmo o Moriarty de ‘Sherlock 2′, que Guiy Ritchie parece já estar tocando? Vocês sabem alguma coisa?
Estava pensando em deletar o post ‘De olho no circuito’, até porque pode parecer ofensivo para pessoas – artistas – que, no fundo, admiro, mas com os quais não ando em sintonia. Resolvi mantê-lo, à esapera das manifestações de vocês, mas agora quero mudar o tom e acrescentar uma notícia. Nos últimos anos, entrevistei várias vezes Barbara Broccoli, a produtora da série James Bond. É uma bela mulher e já lhe disse que acho que ela seria esplendorosa frente às câmeras, fazendo o tipo de personagem exuberante que Kim Catrall encarna hoje no cinema de Hollywood (essa segunda parte da observação é só entre nós). Graças ao sucesso de ‘Cassino Royale’, de Martin Campbell, que obteve a maior bilheteria de toda a série com o agente criado pelo escritor Ian Fleming, Barbara tem se permitido ousar. Em ‘Quantum of Solace’, convidou um diretor intinmista, Marc Foster, para comandar a aventura. Visitei o set no deserto de Atacama, no Chile, e fiquei cheio de expectativa – que o filme não segurou, ou só segurou em parte. Barbara Fleming agora radicaliza. O novo James Bond, com rodagem no segundo semestre e previsão de estreia em 2011, será dirigido por… Sam Mendes. Gostei muito dos últimos filmes dele, o ‘Revolutionary Road’, cujo título em português não lembro, e ‘Distante Nós Vamos’. Imagino que Sam Mendes, ao embarcar na aventura, vá querer imprimir sua assinatura à série. Em filmes como ‘Beleza Americana’, ‘Estrada da Perdição’ e ‘Soldado Anônimo’, ele tratou da autoridade por meio da figura paterna. São filmes sobre pais e filhos e o caso de ‘Soldado Anônimo’ é particularmente interessante, porque Mendes usa a Guerra do Iraque de Bush pai para enquadrar a de Bush filho. Imagino que ele não vá querer desistir de sua temática preferida, mas como vai desenvolvê-la? Confesso que esse é o tipo do desafio que me estimula. Tanta gente batendo na mesma tecla do experimentalismo, ou na tecla do mesmo experimentalismo. Mendes poderia continuar no tema do casal de seus filmes mais recentes. Resolveu arriscar. Gostaria muito de acreditar que ele vai me (ou nos…) surpreender. E, ah, sim, o filme marcará seu reencontro com Daniel Craig, que já estava em ‘Road to Perdition’. Não duvido que tenha partido do ator a ideia de convidar Sam Mendes, encampada por sua bela (e sexy) produtora. Só espero que essa nova rota não vá levar o autor para a (sua) perdição.
Havia me esquecido de comentar com vocês. Jacques Perrin, que fez o irmão mais frágil de Marcello Mastroianni em ‘Dois Destinos’ (Cronaca Familiare), traz hoje na cara as marcas do envelhecimento. Ninguém escapa disso – a menos que a pessoa queira ficar se esticando ou botoxando, Deus me livre. Mas Jacques Perrin me parece mais velho do que é, e isso, de alguma forma, me comove. Há décadas que ele é produtor – entre outros clássicos, de ‘Z’, de Costa Gavras, e ‘O Deserto dos Tártaros’, de Valerio Zurlini, que justamente o dirigiu em ‘Cronaca Familiare’ e, antes, ‘A Moça com a Valise’. Como produtor, Perrin acaba de estrear novo filme na França, ‘Océans’, Oceanos, com um viés ecológico, investigando a diversidade da vida no mar. ‘Positif’ aproveitou e fez uma longa entrevista com o ator e produtor, em sua edição de fevereiro. Perrin fala sobre muita coisa, mas fala, principalmente, de Zurlini. Ele lembra que o sucesso de crítica de ‘La Ragazza con la Valiglia’ o deixou se achando… Ele chegou ao set de ‘Cronaca’ convencido de que era o melhor ator do mundo. Mastroianni não conseguia encontrar o tom com ele. Perrin conta como Zurlini o fragilizou, duvidando de que ele pudesse fazer o papel, para deixá-lo na medida. Até aí, tudo bem. Grandes diretores possuem métodos muito particulares de trabalho com seus atores. Mas Perrin também conta que produziu ‘O Deserto dos Tártaros’ porque ninguém mais queria fazê-lo. Zurlini estava acabado. Teve um final difícil. As decepções amorosas o haviam lançado no alcoolismo, ‘A Primeira Noite de Tranquilidade’ é muito a história dele, no personagem interpretado por Alain Delon. Não sei se vocês conseguiriam acessar a entrevista pela internet, mas é tão legal. Valeria a pena.
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