RECIFE – Fui ver ontem à tarde ‘O Homem de Ferro’ no Shopping Tacaruna, pertinho do Cine-Teatro Guararapes. Não fui a pé para o festival, no fim da sessão, porque sou preguiçoso, mas teria dado. Cheguei a tempo de ver os curtas, o longa. Fiz meu trabalho direitinho, viram? Engraçado, não é? ‘O Homem de Ferro’ era como se chamava o filme de Andrzej Wajda sobre o sindicato Solidariedade (e o diretor ganhou a Palma de Ouro, acho que em 1982). Vi o filme de Jon Favreau numa sessão-pipoca, dublado e no meio de uma criançada que se divertia muito. (Já ouço os protestos – todos colonizados, coitadinhos, até o autor do post, alguém mais ‘ideologizado’ vai dizer.) Mas vamos lá. Eu também me diverti com ‘O Homem de Ferro’, e agora quero ver o filme na versão com legendas. Sei que o Jotabê Medeiros, que fez a crítica para o ‘Caderno 2′, não gostou, mas o Jota leva os quadrinhos mais a sério do que eu. Ele quer fidelidade ao espírito. Eu não cobro isso dos clássicos da literatura adaptados para cinema, vou cobrar das HQs? Só se fosse louco. Acho que o filme é cheio de problemas. Legal que o Favreau tenha pegado o Robert Downey Jr. para fazer o papel, mas ele deve ter pensado no marketing. Um super-herói alcoólatra só tem a ganhar com um ator drogado e bêbado, ou não? Mas eu confesso que gosto mais do Downey Jr. na segunda parte, depois que ele abandona os porres (ihhhh! Será que estou tirando a graça?). Ele de bêbado até vai, mas ter ‘saído’ com todas as capas de ‘Playboy’ do ano? Aquele cara? Pura fantasia de Hollywood. Acho que o personagem de Terrence Howard – o ‘amigo’ – me convenceria mais na cama com 12 gostosas, mas ele ficou muito bobo, ou talvez tenha sido a dublagem. Apesar disso, a aventura é bacana, a personagem da Gwyneth Paltrow é ótima (e a resposta dela para a ‘biscate’, logo no começo, é hilária). A ‘crítica’ à indústria armamentista é um bom mote, e o filme faz a transição do Vietnã, onde o personagem surgiu, para o Afeganistão com desenvoltura. É preciso atualizar, não é? Mas eu confesso que gostei foi de uma coisa que nem consegui racionalizar direito. Já havia gostado da humanização do robô – da máquina, na contracorrente de Kubrick, ’2001′, em ‘Transformers’, de Michael Bay, aquela coisa do olho. Como humanizar um olho mecânico? Aqui, o Favreau meio que retoma a idéia. O herói é aquela armadura, mas dentro dela bate um coração, como nos lembra Gwyneth Paltrow, e no limite é esse coração que salva Robert Downey Jr. na hora H. O ator expressa isso melhor que a pulsão sexual. Me convence. Mas em dois filmes, dois blockbuster seguidos, isso já está virando uma tendência da indústria. Prometo pensar sobre o asssunto, e vamos ver se a tendência prossegue em ‘Speed Racers’, dos irmãos Wachowski. Ah, sim, só para concluir. Quando disse, no almoço, que tinha ido ver ‘Iron Man’, coleguinhas – não vou dizer quais – não deixaram por menos. ‘Também vou/vamos”, disseram. “A gente precisa ver cinema de verdade.’ Também não é assim, moçada. Cinema de verdade são os filmes citados pelo Mário Kawai
nos comentários do post anterior – menos o de Terry Gilliam, insisto -, ou então “Estômago’, já em cartaz nos cinemas, e ‘Operação Condor’, o belo documentário de Roberto Mader que estréia hoje. Vejam!
RECIFE – Não sei quando será a estréia de ‘O Escafandro e a Borboleta’ e não sei nem mesmo se o filme de Julian Schnabel terá este título no Brasil. O Rodrigo, da Imagem, bem que poderia resolver o impasse para a gente. Alô-alô, Rodrigo… Quero dizer que minha manhã aqui no Recife foi punk. Os computadores não funcionavam e, mesmo quando o sistema começou a operar no Cine PE, estava difícil acessar a internet e, conseqüentemente, enviar as matérias para o Caderno 2. Tive de correr a uma lan house aqui na praia da Boa Viagem. Como é que se diz -Deus (ou o diabo?) dá nozes a quem não tem dentes? Eu, para lá e para cá e este mar lindo aqui na minha cara. Só olho – onda para me atingir só se for tsunami (Xô!). Do asfalto, nem da areia, não saio. Como conseqüência, ainda não postei nada sobre o que promete ser a notícia quente do dia. ‘Blindness’ vai abrir Cannes? Na verdade, comecei a suspeitar disso na semana passada, porque tinha uma visita marcada aos estúdios de som da Álamo e na última hora me ligaram pedindo desculpas porque não ia dar. Fernando Meirelles estava ocupando a Álamo com seu staf 24 horas por dia. Por que ele estaria trabalhando tão febrilmente na finalização do filme que adptou de Saramago? Por causa de Cannes, com certeza. A notícia transpirou hoje forte na rede, mas nem a O2 nem o site de Cannes confirmam. Mas que leva jeito de ser verdade, é sim. Confirmada a nova, êta nois! Vai ser uma brasileirada bacana na Croisette.
Régis faz análises muito interessantes do cinema de Hollywood nos anos 60 e 70, em ambas pegando carona em textos de outros autores. Não conheço os livros que tu citas, ó Régis, mas me parece correta a análise das transformações que estavam ocorrendo no cinema norte-americano, simplesmente a partir dos cinco indicados para melhor filme de 1967. Concordo que, embora ‘No Calor da Noite’, de Norman Jewuison, tenha sido o vencedor da categoria, ‘A Primeira Noite de Um Homem’ (The Graduate), de Mike Nichols, e ‘Uma Rajada de Balas’ (Bonnie & Clyde), de Arthur Penn, foram os filmes que restaram daquela seleção. Para o meu gosto pessoal, o segundo ainda é melhor, tendo reinstaurado o gosto pelo cinema de gângsteres que culminaria, no começo dos 70, com os Oscars para os ‘Chefões’ – melhor filme e ator (Brando), o primeiro; melhor filme e diretor (Coppola), o segundo. Mas o filme de Mike Nichols foi decisivo para uma liberação dos costumes – da própria linguagem ao abordar o sexo -, à qual não acredito que tenha sido estranho o precedente de ‘Quem Tem Medo de Virginia Woolf?’, primeiro longa do diretor, adaptado da peça de Edward Albee, com o casal Burton/Taylor, sobre a lavagem de roupa suja do casal George/Martha. Hollywood já vinha mudando, com os sucessivos ataques ao Código Hays, que disciplinava o uso do sexo e da violência nas telas. Era todo um movimento que havia sido desencadeado pela literatura (‘On the Road’, de Kerouac, no fim dos anos 40), o teatyro (as peças de Tennessee Williams, Eugene O’Neill e Arthur Miller) e a música, ou melhor, o rock (Bill Haley e Elvis Presley nos 50), sem falar no Preminger, que já vinha martelando o Código há tempos. Mas eu confesso que o que mais impressiona é o Oscar de 68. O mundo havia ardido no célebre Maio, e o que foi que a Academia de Hollywood premiou em abril do ano seguinte, para representar o melhor de 68? ‘Oliver!’, a versão musical de ‘Oliver Twist’, de Carol Reed (o filme, não o romance, que é de Dickens). Quais eram os demais indicados? ‘Funny Girl’, ‘Romeu e Julieta’, ‘O Leão no Inverno’ e ‘Rachel, Rachel’. Nenhum desses filmes representa minimamente as transformações do mundo naquele ano que não termina nunca, nem o de Paul Newman. É como se o espelho do Oscar quisesse negar a realidade. Até o Oscar de melhor filme estrangeiro foi para o monumental (e acadêmico) ‘Guerra e Paz’, do russo Bondartchuk. As mudanças só apareceram em 1970, quando foram anunciados os vencedotres de 1969 e deu ‘Perdidos na Noite’, de John Schlesinger, na cabeça (com ‘Z’, de Costa-Gavras, como melhor filme estrangeiro).
Já disse que gosto de ‘Fugindo do Inferno’ e que o filme tem a cara do grande espetáculo que John Sturges fazia na empresa United Artists, nos anos 60. Ele havia iniciado a década com sua transposição de ‘Os Sete Samutrais’ para o Wild West, que resultou em ‘Sete Homenas e Um Destino’, aliás, ‘The Magnificent Seven’, Os Sete Magníficos. Depois, reuniu boa parte do elenco daquele filme de gênero (western) numa eletrizante aventura de guerra – ‘Fugindo do Inferno’. Já disse que Steve McQueen, no lombo daquela motocicleta, faz parte do meu imaginário. Mas faz mais sentido comparar ‘Fugindo do Inferno’ com outros filmes sobre fugas de prisioneiros durante a 2ª Guerra – com ‘O Expresso de Von Ryan’, de Mark Robson, com Frank Sinatra, que é de 1965. O filme de Sturges foi feito dois anos antes e é melhor do que o de Robson. Não creio que exista muita possibilidade de se relacionar ‘Fugindo…’ com ‘A Um Passo da Liberdade’, que foi o último filme de Jacques Becker, em 1960. Ele já estava tão debilitado que seu filho, Jean Becker, que virou mais tarde diretor de ‘Verão Assassino’ e ‘Conversas com Meu Jardineiro’, teve de filmar alguns planos, a pedido do pai. No filme francês, um grupo de presos planeja sua fuga. O cineasta faz uma minuciosa descrição dos planos, construindo seu filme muito claustrofóbico – e nos detalhes – para concluir com a traição de um dos integrantes do grupo. Becker baseou-se num relato de José Giovanni, que colaborou no roteiro (e depois o roteirista também virou diretor). ‘A Um Passo da Liberdade’ é despojado, claro, mas sua simplicidade é enganosa. É um filme complexo sobre o desejo humano de liberdade e um estudo admirável da natureza humana em condições adversas. Bresson, cinco anos antes, havia feito ‘Um Condenado à Morte Escapou’, baseado na história real da fuga de um dirigente da Resistência francesa de uma prisão que os nazistas consideravam inexpugnável. Só que Bresson esvaziou seu filme de toda referência à Resistência, concentrando-se no que lhe interessava – a abstração e a universalização do relato. Dei uma paradinha – estou na Redação do ‘Estado’ e fui ao ‘Dicionário’ de Jean Tulard, porque me lembrava que ele dizia uma coisa em que acredito sobre o Bresson. Sua temática essencial, escreve Tulard, consiste no tema visual das paredes nuas, tema espiritual correlato à pureza. Isso tem tudo a ver com as paredes nuas da cela de ‘Um Condenado à Morte Escapou’, que Bresson transforma na busca da graça, no sentido divino, por meio da expiação do sofrimento pelo personagem, interpretado por François Leterrier. E a visão que o diretor tem da liberdade é muito interessante. A idéia de Bresson é a de que o cara está vivo na prisão, tentando fugir. Quando salta aquele muro, e o final é abrupto, entra uma música – de quem? Bach? – que tem um toque fúnebre, como se o cara morresse ao recuperar a liberdade. Vou contar a vocês. Já disse que gosto do filme do Sturges, mas os de Becker e Bresson… Estão num outro compartimento, o das obras-primas!
Nunca fui muito fã de Roger Corman, embora ache, claro, seu trabalho como produtor, dando a primeira oportunidade a talentos como Francis Ford Coppola e Jack Nicholson, interessante. Gosto médio de sua série de adaptações de edgar Allan Poe com Vincent Price, e gosto mesmo é dos filmes de gângsteres. ‘Machine Gun Kelly’, que se chamou no Brasil ‘Dominados pelo Ódio’, ‘Massacre de Chicago’ e o melhor de todos, ‘Bloody Mama’, quye ficou sendo aqui ‘Os Cinco de Chicago’, com Shelley Winters no papel de uma mãe sanguinária que impulsionava os filmes ao crime. ‘Os Cinco de Chicago’ é de quando? 1969/69, portanto contemporâneo de ‘O Resgate de Uma Vida’ (The Grissom Gang), que Robert Aldrich fez logo a seguir, adaptando James Hadley Chase, e que é um filme que eu amo de paixão. Aliás, vou dizer para vocês, existem filmes de gângsteres célebres como o ‘Scarface, Vergonha de Uma Nação’, de Howard Hawks, e ‘Alma no Lodo’ (Little Caesar), de Mervyn LeRoy, que estabeleceram a reputação de Paul Muni, George Raft, Edward G. Robinson, etc, e existe a série do ‘Chefão’, de Coppola, que não é um filme de gângsteres tradicional, mas no gênero, no gênero mesmo, minhas preferências vão para ‘Os Cinco de Chicago’, ‘O Resgate de Uma Vida’ e o ‘Scarface’ de Brian De Palma, que prefiro ao de Hawks, mesmo que Hawks seja maior autor do que De Palma jamais poderá ser. ‘Bloody Mama’ é demais e por que é mesmo que meu deu de falar de Roger Corman nesta manhã de segunda-feira, fim de feriadão? Porque há dias estou para lembrar que morreu a ruiva Hazel Court, atriz de alguns dos filmes ‘poenianos’ de Corman -’Obsessão Macabtra’, ‘O Corvo’ e ‘A Máscara da Morte Vermelha’. Tenho para mim que ‘O Corvo’ é o melhor de toda a série, com aquela fotografia deslumbrante (de Floyd Crosby, o operador de Murnau) e o roteiro brilhante (de Richard Matheson) que leva um confronto burlesco entre atores míticos como Price, Peter Loore e Boris Karloff. Ou seja, de quem menos falei neste post, que devia ser sobre ela, foi sobre Hazel Court. Acho que o que faltou para Hazel virar cult foi que algum daqueles italianos – Mario Bava – a adotasse, como fizeram com Barbara Steele. Ela era muito interessante, e fez muitos filmes na Hammer, além de todos aqueles episódios em séries da TV norte-americana (‘Dr. Kildare’, ‘Rawhide’ etc)..
Não li o texto de ‘Veja’, mas vejo – sem trocadilho – que a revista está usando a mesma foto de capa, de agência, que havia elogiado na edição do ‘Estado’, falando sobre ela aqui no outro dia. Volto ao assunto. O que mais me havia impressionado na tal foto era o rosto encoberto do pai, o que me pareceu perfeito para consolidar uma imagem de dissimulação no inconsciente do observador. Achei que seria irresponsável destacar isso, até porque o clima de condenação do pai e da madrasta já estava estabelecido e eu não queria participar do linchamento moral da dupla. ‘Veja’ agora estampa – ‘Foram eles’. Tudo aponta que sim e a polícia pediu o indiciamento do casal, mas ambos continuam negando, e isso após 17 horas de interrogatório, só na sexta-feira. Ou eles estão dizendo a verdade ou possuem uma resistência que os fará arder no inferno – aliás, no inferno os pobres já estão, considerando-se o horror em que o pai e a madrasta estão imersos. Creio, e nisso não estou sozinho, que nunca vamos saber com certeza, a menos que algum deles resolva confessar, ou outra pessoa assuma a autoria do crime hediondo. Estou na Redação do ‘Estado’ e meu editor, Dib Carneiro, me chamou a atenção para um texto de Sérgio Augusto no ‘Aliás’. O pai e a madrasta podem até ser culpados, mas a imprensa se antecipou na condenação e favoreceu o clima de linchamento moral. Não estou aqui para criticar os coleguinhas, principalmente da televisão. Eles sabem o que fizeram, vendendo a alma ao Diabo em troca de audiência. Mas essa história mexeu comigo e me interessa como tragédia. A morte – o assassinato – de Isabella foi só o primeiro ato. A tragédia verdadeira começa agora. As fotos de ontem na saída da delegacia – o pai abobalhado, a madrasta em lágrimas – satisfaz a massa que queria o sangue do casal. ‘Se’ cometeram o crime, mas ambos negam, eles merecem. A tragédia é que, mesmo sem confissão, tudo já está destruído. A família, a honra, os filhos. “Se’ foram eles, e se o pai realmente jogou Isabella ainda viva por aquela janela, como conviver com isso? O caso me perturba muito. Dá filme – e quem sabe a ficção iluminasse a pergunta que não cala, como e por que? –, mas não sei se gostaria de vê-lo. É muita dor.
Tenho pensado bastante sobre o encontro de sexta-feira na Fnac de Pinheiros, para aassinalar os 90 anos da United Artists. Bem no finalzinho, alguém na platéia pediu que Rubens Ewald Filho fizesse uma relação dos melhores filmes da empresa, que se diferençava das outras de Hollywood por haver sido criada por atyistas (Chaoplin, Mary pickford, Douglças Fairbanks e David W. Griffith) e não por tycoons que entendiam o cinema somente como negócio. A UA abrigou os principais produtores independentes do cinema norte-americano nos anos 40 e 50 Kramer, Samuel Goldwyn, Hecht-Lancaster e Hill etc, e isso era certamente diferente. Rubinho começou citando, claro, ‘West Side Story’ (Amor, Sublime Amor), porque ele é louco por musicais, e especialmente pelo de Robert Wise e Jerome Robbins, foi para ‘Doze Homens e Uma Sentença’, eu acrescentei ‘Um Estranho no Ninho’. A lista foi sendo elaborada às pressas, e lá pelas tantas eu citei dois filmes de ‘gêneros’ de John Stuirges, dos quais gosto e que acho que têm a cara da UA – ‘Sete Homens e Um Destino’ (The Magnificent Seven), a transposição para o Wil West do filme de espada ‘Os Sete Samurais’, de Akira Kurosawa, e ‘Fugindo do Inferno’. Ontem de manhã, em casa, liguei a TV e dei uma zapeada pelos canais da rede Telecine. Estava passando ‘Fugindo do Inferno’ (The Great Escape) e eu estacionei meu carro. Critico que se preze só vê os defeitos daquele filme. Situações fabricadas, patetismo dos heróis, é isso que você lê (e ouve). Eu acho a narrativa eletrizante e Steve McQueen faz parte do meu imaginário montado naquela moto. Só que eu acho que deveria ter tratado um pouquinho mais a sério (pelo menos…) o pedido da lista e, mesmo correndo o risco de ser de novo incompleto, esquecendo obras importantes, aqui vai ela (no próximo Post).
Perdi o bonde da história. Somente hoje, ao checar sala e exibição de um filme que quero ver no Guia do Estado, encontrei, lá na rubrica Especiais, a notícia do ciclo ‘Vida Louca, Vida Intensa, Uma Viagem pela Contracultura’, no Sesc Pompéia. Antônio Gonçalves Filho me falou que ia rolar, mas na minha cabeça seria em maio e eu fui atropelado pela descoberta de que ontem, na aberttura, passou o ‘If…’, de Lindsay Anderson. O filme terá nova exibição na terça, 20h30. Amanhã, acho que às 14 horas – é bom checar -, passa ‘Sem Destino’, de Dennis Hopper. Não tenho muito interesse por ‘The Trip’, do Roger Corman, que tinha um horroroso título nacional, algo como ‘Viagem ao Mundo Alucinado dos Sonhos’ – se não era isso, era parecido. A cena do baseado, no cemitério, em ‘Easy Rider’ dá de 10 nas firulas visuais do velho Corman para celebrar o LSD. Adoraria ver, e vou fazer força para isso, ‘Scenes from the Life of Andy Warhol’, de Jonas Mekas, primeiro documentarista que me impressionou e a quem tive acesso assistindo a ‘Guns in the Trees’, que ele fez com o irmão, Adolph, na Faculdade de Arquitetura de Porto Alegre, nos anos 60. Foi uma noite memorável, para mim,, porque foi projetado – em 16 mm – um duplo que me marcou, o filme dos Mekas e ‘Rabindranath Tagore’, de Satyajit Ray, sobre o grande porta. Só depois vi os filmes de Robert Flaherty e o ciclo documentário do inglês Grierson. Vocês entendem portanto, como Mekas foi importante para mim. Mas volto a ‘Se…’ e ‘Sem Destino’. Em 1969, o Brasil vivia sob uma ditadura brutal e a gente curtia a ressaca de Maio de 68 quando Lindsay Anderson fez seu filme que ganhou a Palma de Ouro. No Brasil, ele foi lançado em 1970. Assisti a ‘Se…’ num cinema que se chamava Moinhos de Vento e, depois, virou Coral, lá em Porto. Não me lembro mais qual era o nome, na época. ‘A guerra é o último ato de criação possível’, pensam os garotos de ‘Se…’, que se rebelam contra o ‘sistema’,. representado pela arcaica estrutura daquele colégio tradicional, e terminam o filme de armas na mão, disparando contra tudo e todos. Se… Lembro-me que havia uma romaria de jovens para ver o filme, e que ele era aplaudido. Isso faz parte da minha vida. Malcolm McDowall! Que coisa. Não me esqueço também de uma frase de Jack Nicholson para Wyatt e Billy, os personagens de Dennis Hopper e Peter Fonda em ‘Sem Destino’, obviamente inspirados em Wyatt Earp e Billy the Kid. Ele diz – ‘Você sabe, esta é geralmente uma boa terra. Não sei o que anda acontecedndo com ela.’ Não é preciso mudar um tempo de verbo, uma vírgula – a frase continua valendo hoje, ou vale hoje mais do que nunca para definir os EUA, a ‘Amédrica’ de George W. Bush (há 40 anos era a de Lyndon B. Johnson). Pode ser atrasado, me desculpem, mas o ciclo vai até dia 30 e merece toda atenção. O Sesc Pompéia construiu um cineminha de 80 lugares, que chamou de Cine Beatnik, para abrigar o evento. Só para lembrar – ‘Sem Destino’, que ganhou o prêmio para diretor estreante no mesmo ano da Palma de Ouro para ‘Se…’ e do prêmio de direção para Glauber Rocha, por ‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’, tudo em Cannes, foi o 15º filme do ciclo motprcycle gang, que Roger Corman havia iniciado anos antes, refletindo sobre um fenômeno tipicamente norte-americano. Desde 1947 – Jack Kerouac, ‘On the Road’, Pé na Estrada -, bandos de beatniks e hippies percorriam os EUA montados em motocicletas. Espero que o ciclo do Sesc Pompéia apresente um filme que para mim foi fundamental – como só a primeira semana está no Guia do Estado, não sei o que vem depois, mas fiquem atentos. Se (If…) passar ‘Vanishing Point’ (Corrida contra o Destino), de Richard C. Sarafian, não percam porque é uma obra-prima. Vocês sabem que sou passional e, às vezes, exagero, mas Sarafian fez simplesmente os dois maiores filmes norte-americanos por volta de 1970, o citado ‘Corrida contra o Destino’ e, na seqüência, ‘Man in the Wilderness’ (Fúria Selvagem), com Richard Harris e John Huston. Melhor que Altman, que Arthur Penn, que Schlesinger (que estava fazendo ‘Perdidos na Noite’). Melhor que tudo, ou todos. Grande Sarafian. Depois, foi a queda vertiginosa. Um dia ainda vou tentar decifrar este enigma.
Éramos poucos, ontem, na Fnac de Pinheiros, para o encontro que celebrou os 90 anos da empresa United Artists. Na hora foi que me informei sobre a proposta do debate. Rubens Ewald Filho organizou uma exposição de fotos e cartazes com algumas das obras famosas do esúdio. Lá estão registrados os backstages de ‘Doze Homens e Uma Sentença’, ‘No Calor da Noite’, ‘Último Tango em Paris’ e ‘Annie Hall’ (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), o que para mim foi uma novidade, pois Woody Allen não autoriza, em geral, a divulgação de fotos dos seus sets. Aquelas saíram do baú. Mas havia mais – a exposição e o debate sobre o estúdio, fundado por Chaplin, Douglas Fairbanks, Mary Pickford e David W. Griffith para assegurar independência artística, financeira e distribuição para seus projetos autorais (e por isso a United foi diferente em Hollywood) – coincide com o lançamento de um álbum que inclui acho que dez DVDs de filmes importantes da marca UA. Para celebrar nosso, encontro, foi sorteado um desses álbuns. Ganhou – adivinhem – o Felipe Brida, que postou aqui no outro dia seu comentário chamando para o evento da Fnac. Vocês podem até achar que foi coisa arranjada, mas não foi. Eu sorteei o último nome, com a sorte grande, e veio o do Felipe. Sorry, mas vocês perderam. Confesso que tive alguns choques, como a revelação, feita pelo Rubens, com base na autobiografia de Maureen O’Hara, de que John Ford era gay. Tão brincando? Maureen conta, foi o que me disseram, que um dia encontrou o Homero de Hollywood no maior amasso, beijando um homem na boca, e se ela revelava o fato era para explicar a complexa personalidade de Ford (e o seu relacionamento de amor e ódio com John Wayne). Ainda não me recuperei direito e acho que vou apagar da lembrança o que ouvi ontem. Não creio que tenha de repensar toda a obra de Ford, mas que foi uma surpresa, foi. Cukor, Murnau, Visconti tudo bem. Já eram casos contados. Mas Ford? Até tu, Brutus?
Estou aqui no Shopping Eldorado, postando antes de seguir para a Fnac de Pinheiros, onde às 7 da noite haverá a inauguração da exposição de fotos dos 90 anos da empresa United Artists, com direito a coquetel e, na seqüência, debate com Rubens Ewald Filho e eu. Vocês estão convocados e eu diria intimados a comparecer, mas amanhã, ou mais tarde, eu posto para comentar (e para dizer o que aprendi com o Rubinho sobre o estúdio fundado por Chaplin, Douglas Fairbanks, Mary Pickford e David W. Griffith, os artistas associados do nome original). Só como curiosidade – na Bartnes & Noble, antes de optar (certo) por qual volume sobre Otto Preminger comprar, fiquei um tempão namorando dopis outros livros. Um deles eu comprei e falo daqui a pouco, ‘Cinema of Obsession’. O outro era uma autobiografia de Walter Mirisch, cuja empresa associada à UA produziu grandes filmes, incluindo todos os de Billy Wilder na empresa.(Agora estou chutando. Acho que foram todos.) Se tivesse me lembrado do debate, teria comprado, até como lição de casa, pois o título já me parecia bastante atraente. Roger Corman escreveu um livro de memórias relatando como realizou dezenas de filmes de todos os gêneros e estilos, sem perder um centavo em Hollywood. O título do de Mirisch é maravilhoso, algo como ‘…E Eu não Sabia que Era Arte’. Dei uma folheada e vi que ele conta como era a parceria com Wilder, Sturges (John) e como filmes que para eles eram diversão, ou ‘trabalho’, terminaram virando cults e até sendo reconhecidos como obras-primas do cinema. Vocês sabem como eu tenho preguiça – sorry – de pesquisar na internet, mas se alguém quiser fazer a lição de casa por mim e já chegar na Fnac com o título do livro de Mirisch na ponta da língua, caso eu venha a citá-lo, agradeço. Vou lembrar de qualquer maneira uma história que acho legal e que é atribuída a um executivo da Metro (Richard Rowland) por Ronald Bernan, em seu livro que conta a história de UA. Quando circulou a história da criação do estúdio, Rowland teria dito – ‘Ah, quer dizer que os loucos agora têm a chave do hospício?’ Genial, não?
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