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Luiz Carlos Merten

07.agosto.2012 13:04:12

André Luiz

Consegui finalmente entrevistar André Luiz Oliveira, cujo belo filme ‘Sagrado Segredo’ me encantou. Desde que o vi, no sábado, no Arteplex Itaú, com meia-dúzia de gatos pingados na plateia, tenho pensado muito na complexidade dessa obra que desafia classificações e que dialoga de forma tão intensa, tão ‘intestina’, com a produção anterior do artista. É a segunda vez que ouço André dizer uma coisa que me fascina. ‘Sou cineasta de vez em quando.’ Ele faz filmes a cada dez anos, um por década. Não filma impunenente, mas para dar vazão a inquietações profundas que o consomen – sobre a arte, a vida. ‘Sagrado Segredo’ tem a crucificação de ‘Meteorango Kid’, a relação com o sagrado de ‘A Lenda de Ubirajara’ – os índios na natureza – e a maluquice do ato de fazer cinema no Brasil de ‘Louco por Cinema’. Tudo isso se articula agora com um documentário sobre o grupo que realiza a via sacra de Planaltina, no Distrito Federal, com a entrevista que André Luiz Oliveira fez com o físico quântico Amit Gonswami e com reminiscências profundas que afloraram com a morte do pai do diretor, no começo dos anos 2000. Para unir tudo isso, André cria sua ficção – a história de um diretor que quer fazer um filme e vive um momento de dúvida, como o próprio Cristo na noite angustiante do Morro das Oliveiras. ‘Sagrado Segredo’ está em apenas um horário no Arteplex Itaú. Não desanime. Antecipadamente, e por mais que eu goste do ‘Matraga’ de Vinicius Coimbra, já é o melhor filme brasileiro do ano – porque duvido que surja outro tão visceral. Assisti ao filme depois de ver ‘Um Homem Adorável’, no Festival de Cinema e Cultura Asiática. O filme indonésio é sobre essa garota que descobre que seu pai é travesti. Eles se tocam por uma noite e depois dizem-se adeus. O pai se sacrifica, muito possivelmente nunca mais vão se ver. O tema da paternidade é essencial em ‘Sagrado Segredo’. Terá sido isso que mexeu tanto comigo no filme? Emocionei-me a ponto de chorar, e isso num filme perfeitamente racional, que usa fundamentos de física quântica para tentar explicar a religião. Realmente não entendo os coleguinhas que rezam pela cartilha do cinema de autor e ficam reticentes diante do mais radical (e marginal) de todos. Os ‘deslocamentos’ que André propõe não são entendidos nem assimilados, salvo exceções. Seriam ‘malfeitos’. Um caralho… Estava correndo para fazer minha matéria para amanhã, na expectativa de chamar a atenção do público do ‘Estado’. Mas vou ter de deixar para quinta. Morreram o compositor Marvin Hamlisch e o crítico Robert Hughes. O curioso é que, justamente nos filmes da TV de hoje, terça, acrescentei ‘Golpe de Mestre’ como destaque da TV paga (às 22 h) e lembrei que Hamlisch ganhou o Oscar por sua trilha, pelos arranjos geniais que fez integrando o rag(time) à história da dupla de trapaceiros Paul Newman e Robert Redford, quando eles aplicam o golpe do título no gângster Robert Shaw, no delicioso filme de George Roy Hill. Aguardem!

comentários (3) | comente

3 Comentários Comente também
  • 08/08/2012 - 10:55
    Enviado por: Paula Cunha

    Merten, assistirei ao filme ainda esta semana. Estou sentindo falta de filmes que me instiguem assim. Estou acompanhando a mostra de cinema asiático no Cine Livraria Cultura e tive algumas supresas positivas. A gente envelhece, mas ainda consegue manter a capacidade de se encantar. Ainda bem! As suas críticas me ajudam a manter essa curiosidade. MIl abraços, Paula.

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  • 10/08/2012 - 19:09
    Enviado por: josé contino lisboa

    Querido Luiz Carlos
    Tua postagem 08/08 me emocionou. Narrou alguns fatos da época em que éramos colegas na faculdade de arquitetura, de tempos que marcaram, indelevelmente, nossas vidas, me fez lembrar, também, de amigos queridos. Faço 69 anos em 21 de agosto.
    Grande abraço

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  • 13/08/2012 - 10:38
    Enviado por: Paula Cunha

    Merten, assisti ontem o filme. Aproveitei o Dia dos Pais (já que perdi os meus dois, o oficial e o que escolhi) e peguei quase uma sessão exclusiva para mim e uma senhora que sentou na primeira fila. Não cheguei a chorar mas concordo com vc. O filme é bom e a mistura de gêneros me instigou bastante. Ele não pode ser enquadrado em nenhuma categoria. O diretor deveria filmar mais. Agora, ficarei atenta ao seu trabalho e procurarei os títulos anteriores. Mil abraços, Paula.

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