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25 anos já!

Luiz Carlos Merten

segunda-feira 30/06/14

Meu amigo Dib Carneiro, que sabe que eu vivo procurando datas redondas para textos no blog e no portal do Estado, me informa que, na concorrência, Joel Zito Araújo escreve um artigo sobre os 25 anos – hoje – da estreia de Faça a Coisa Certa. Em primeiro lugar, fiquei feliz de ter notícias de Joel Zito, com quem não cruzo, há tempos, em eventos de cinema. É um cineasta preocupado com as questões da cidadania e da negritude. Joel observa, me conta o Dib, que Faça a Coisa Certa foi um divisor de águas da consciência negra no cinema. É verdade. Grandes diretores brancos – Otto Preminger, Martin Ritt – fizeram grandes filmes sobre e contra o racismo. Diretores negros, desde o lendário Arthur Michaux até Gordon Parks, trataram do assunto e,  por volta de 1970, os blaxploitation movies criaram um modelo de cinema que muitas vezes seguia as fórmulas tradicionais de ação e humor de Hollywood, apenas mudando a cor dos protagonistas. Lembro-me, há muito tempo atrás, de um filme chamado Pelo Amor de Ivy, com o jovem Sidney Poitier e não me lembro quem era ela. Os críticos da época se perguntavam – como é uma love story de negros? Naquela época, a correção política não impunha que se dissesse afroamericanos ou afrodescendentes. E eles respondiam – é como Rock Hudson e Doris Day de pele mais escura. Com isso, queriam dizer que os movimentos por direitos civis estavam estabelecendo uma classe média negra que queria se ver representada na tela, e não apenas por meio de histórias violentas de racismo. No Dicionário de Cinema, Jean Tulard faz uma definição sucinta de Spike Lee. Diz que é um realizador negro humorado e sensível às tensões raciais que perduram na ‘América’. Gueto, jazz e antissemitismo. É reducionista, mas não despropositado. Faça a Coisa Certa foi um dos representantes dos EUA no Festival de Cannes de 1989. Wim Wenders presidia e Hector Babenco integrava o júri. Preferiram premiar sexo, mentiras e videotape, de Steven Soderbergh, o que, para mim, sempre foi motivo de escândalo. A reclamação contra Spike Lee é que ele não propunha soluções para a tensão social exposta em Faça a Coisa Certa – como se fosse a função do cinema (da arte). Até onde me lembro, Pixote também não traz nenhuma solução para o problema da infância carente e nem conseguiu evitar o destino trágico de seu protagonista. Faça a Coisa Certa passa-se num dia particularmente quente, numa vizinhança prestes a explodir (e que explode). Negros, italianos, coreanos – e policiais. O ítaloamericano Sal (Danny Aiello) tem uma pizzaria, e nela cria o Hall da Fama, só com fotos de ítalodescendentes. Spike Lee trabalha para ele, Giancarlo Esposito é um dos ‘costumers’. Esposito reclama da ausência de negros no Hall da Fama. É o estopim para uma verdadeira guerra. No final, dos escombros, Spike Lee tira duas citações – uma de Martin Luther King, contra a violência, e outra de Malcolm X, a favor. A escolha é nossa, do público. Sempre gostei demais de Faça a Coisa Certa, e acho Spike Lee um autor muito interessante, mas tenho cá comigo que sua militância o levou para caminhos esquisitos. Contra Bird, de Clint Eastwood, ele fez Mais e Melhores Blues, com Denzel Washington no papel de um jazzista negro de alma branca. Compreendo sua exasperação. Spike Lee diz que é possível identificar o racismo de quem o entrevista só pelo teor das perguntas. Cobram-lhe muito fugir, volta e meia, ao problema das drogas, mas ele retruca que a droga não é um problema dos negros. É um problema da ‘América’. Por que não cobram de cineastas brancos? Amo o nome de sua produtora, 40 Mulas e Um Acre,. o que foi prometido aos escravos libertos nos EUA do século 19. 40 Mules and a Acre. Não me entusiasmei com seu Malcolm X, exceto pela interpretação poderosa de Denzel Washington. Mas gosto muito de Crooklyn – Uma Família de Pernas para o Ar e do documentrário dele sobre Jim Brown. Spike Lee foi duro com Quentin Tarantino (Django Livre) e incensou, até demais, 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen. De seus filmes recentes gosto mais dos menos ligados à questão racial – O Plano Perfeito e o remake de Oldboy, que é bem legal. Mas nada supera Faça a Coisa Certa. São 25 anos já! Os EUA já ganharam até um presidente negro, mas as tensões estão longe de estar resolvidas.