Eu, às vezes, me pergunto – como as pessoas, sensatamente, podem levar críticos a sério? Como integrante da categoria, não consigo. E nem me levo excessivamente a sério. Mas tem gente que se acha… Assisti hoje pela manhã a ‘W/E’, o longa de Madonna sobre o romance do século (20), entre Wallis Simpson e o rei Eduardo, o homem que renunciou ao trono por amor. O filme foi exibido no ano passado no Lido, fora de concurso. Madonna foi tratada a pontapés. Com alguma indulgência, disseram que ela estava superséria, em sua nova persona de cineasta. E o filme foi rotulado de melodrama banal para baixo. A persona de diretora nem era tão nova assim, pois Madonna já havia feito, há uns três ou quatro anos, aquele ‘Dirty, Filthy Thing’. O filme anterior era godardiano. Imagino o risinho irônico dos coleguinhas. Godard é meu! Te manda, Madonna. Ela pegava um personagem marginal, sórdido, e o tratava num registro de metalinguagem. Muito interessante. Madonna agora muda o tom e o estilo. O filme dela engole todinho ‘O Discurso do Rei’, que nunca me fez a cabeça. ‘O Discurso’ ganhou o Oscar. Madonna sequer foi indicada. Seria demais para meus pobres colegas admitirem que uma popstar, e usam a definição no sentido mais pejorativo, possa ser inteligente. Se fosse burra, como eles imaginam, não seria Madonna. Melodrama banal? Se há uma coisa que ‘W/E’ não é, é isso. A narrativa se desenvolve em dois planos. O romance do século e, na época atual, uma burguesa insatisfeita com o marido e obcecada pelo caso. Ambas se chamam Wallis. A da atualidade tem um caso com um segurança russo, Evgeni. W/E, de novo. Todo mundo acha que Madonna se projeta na Wallis antiga por ter sido uma celebridade. O filme é menos óbvio que isso. Numa cena, um comentário em of diz que Eduardo não era dominado por Wallis – como seu irmão e sucessor, o gago Bertie, é dominado pela mulher. Ele era possuído, possessed, por ela. O tema de Madonna é justamente essa possessão, que não é demoníaca. Como se constroi isso na tela? Por meio de uma mise-en-scène baseada no movimento circular. A câmera está sempre se movendo. Travellings e panorâmicas, mais a música, criam um efeito hipnótico e encantatório. Uma cena impressiona. Wallis e Eduardo estão na sala da casa dela. Wallis ainda é casada com outro. Ela prepara um drinque para Sua Alteza. O jogo de mãos, filmado em detalhes, cria um balé que tem contraponto nos gestos do (ainda) príncipe, que fuma. Que que é aquilo? Será que Madonna viu ‘Pickpocket’? Duvido que algum crítico tenha perguntado isso na coletiva do Lido? Na cabeça deles, ela é analfabeta, nem deve saber quem é Robert Bresson. Sem dúvida que a parte ‘antiga’ é melhor que a contemporânea, mas aquela não existiria sem essa, não faria sentido para nós. “Só nos fazem mal aqueles a quem autorizamos que façam isso’, diz a duquesa. É uma personagem complexa e apaixonante. De cara, é agredida pelo primeiro marido e perde o bebê, o que a impedirá de engravidar do seu príncipe. São parasitas, ele a priva de uma nacionalidade, e ela cede. Por amor? Por responsabilidade. Como abandonar um homem que renunciou a um trono? E ela carrega a culpa de não haver correspondido, de não lhe haver dado a descendência que Eduardo queria. Ele escapou da sua prisão – já era o subtexto de ‘O Discurso do Rei’, a investidura e o cerimonial do cargo como uma cadeia dourada. Cria uma prisão para a sua Wallis, que dançará, figuradamente, até a morte (dele). Confesso que fiquei meio em choque. Que raio de gente se acha superior e se recusa a ver o que é tão evidente?
Está na capa do ‘Caderno 2′ de hoje. Ubiratan Brasil era nosso homem no Oscar e entrevistou o produtor Thomas Langmann, de ‘O Artista’. Comecei a ler o texto, uma história de amuleto que me cansou, mas pelo título, ‘Fenômeno construído’, e pelo olho e legenda, concluí que Langmann credita aos irmãos Weinstein o sucesso, e a premiação, de seu filme. Faz a fama e deita na cama. Há 13/14 anos, os Weinstein, na Miramax, realmente orquestraram uma bem sucedidida campanha de marketing para impor ‘Shakespeare Apaixonado’. Desde então, eles tentaram várias vezes, com vários outros filmes, e nunca mais deu certo, a ponto de a Miramax ter ido para o brejo. Retrospectivamente, pode-se argumnentar que, por mais que o marquieteiro dos Weinstein tenha trabalhado direito – é que nem marketing político -, o filme, como qualquer candidato, tem de ter qualidades que o tornem confiável/palatável para a fatia de mercado que quer atingir. ‘Shakespeare’1 tinha um roteiro muito esperto (de Tom Stoppard), que explicava o artista pela obra e biografava o bardo de forma muito simpática e original. Com os atores certos, de Joseph Fiennes a Geoffrewy Rush, de Gwyneth Paltrow a Judi Dench (que gasnhou lá seu único Oscar, de coadjuvante), a campanha deu certo. Digamos que os Weinsten tenham feito tudo bonitinho, de novo.. Tenho para mim que Langmann deveria ter agradecido a Thierry Frémaux. No ano passado, depois de assistir a ‘O Artista’ em Cannes, Elaine Guierini e eu já arrioscávamos – isso é filme para ganhar Oscar. As próprias publicações no festival – ‘Variety’, ‘The Hollywood Reporter’ – já apontavasm nessa direção. Quando o entrevistei, pelo telewfone, Michel Hazanabvicius me contou como fora difícil convencer Jean Dujardin a fazer o filme da vida dele (Michel), na verdade, o filme da vida de ambos. Dujardin tinha medo de que um filme em preto e branco, sem diálogos, ficasse muito experimental e, na França, ele ficou muito abaixo das bilheterias da dupla com o agente 0117. Foi muito ousado, da parte de Thierry Frémaux, pegar um filme de um diretor popular e colocar na competição do maior festival do mundo. Creio até que foi para evitar o vendaval de críticas – que ele sabia que o filme iria calar – que Frémaux só anunciou tardiamente a entrada do ‘Artista’ na seleção cannoise. E, se ele ousou, Robert De Niro confirmou, atribuindo, como presdidente do júri, o prêmio de interpretação a Jean Dujardin. De Niro sacou tudo – foi a partir de Cannes, avalizado por Cannes, que Dujardin fez esse verdadeiro passeio, papando todos os prêrmios do mundo (menos o César, prova de que santo de casa não faz milagre). É curioso, o reconhecimento de ‘O Artista’ começou com De Niro e, no limite, o filme destruiu o sonho do segundo Oscar do mentor doi astro, Scorsese. Psicanaliticamente, se poderia fazer mil viagens – De Niro matou o pai etc. Chega, Merten. Acabo de validar um comentário de alguém falando mal de ‘O Artista’ e dizendo que prefere o partido teórico de Martin Scorsese em ‘A Invenção de Huigo Cabret’. ‘O Artista’ seria só um filmezinho piegas e sentimental. Não assino embaixo e até vou reproduzir parte de uma conversa que tive com minha ex-colega de ‘Estadão’, Cecília Thom,pdson, que me ligou ontem para conversarmos sobre o Oscar. Cecília obserevou, e eu tambérm creio nisso, que a vitória de ‘O Artista’ não deixa de ser um produto (consequência?) da era Obama. Como? Como ela, não creio que o ‘fenômeno’ tivesse sido possível com George W. Bush. Durante seus anos na Casa Branca, não era só o árabe quew era exorcizado como suspeito número um (após o 11 de Setembro). Como a França esteve sempre na oposição a Bush Jr., o francês era demonizado na mídia e, em ‘n’ séries e programas de humor, havia sempre a piada do tipo ‘O cara fede, é sujo, deve ser francês’. Acho que ‘O Artista’ comporta muito mais níveis de leitura, mas, é claro, dependem de quem os faz. Já disse quie havia gostado de ‘Hugo Cabret’, uma raridade, porque a fase Scorsese/Di Caprio, para mim, é o ó. Tentei rever outro dia um pedaço de ‘Ilha do Medo’ na TV e parei.O filme é puro exercício de manipulação, que saco. De volta a ‘Hugo’, gostei, mas cada vez que penso no filme ele não cresce. Vai diminuindo… Jotabê Medeiros, de volta das férias, me disse ontem uma coisa que ficou comigo. Ele, decididamente, não gostou. DFissde que ‘Hugo’ é spielbergiano. E Spíelberg, só quem sabe fazer, é o próprio.
Cheguei em casa de madrugada e, embora csansado, a excitação da correria nojornasl me impediu de dormir de imediato. Demorei um pouco, o que, para mim, é muito raro. Costumo ser muito bom de cama. É pá, pum e já estou dormindo. Mas deu para pensar um pouco. Todo ano me emociona a homenagem aos mortos do ano. O clipe tende a ser brega, música chorosa e a tal da Speranza (é assim que se escreve?) tinha de dar um tapa naquele visdual. Aliás, cheguei a pensar – não havia por quê duvidar da vitória de Viola Davis, mas o Oscar de Meryl Streep, por ‘A Dama de Ferro’, foi a boa surpresa desta edição. Existe sempre aquela máxima de que o Oscar é uma caixinha de surpresas. Na verdade, durante boa parte da cerimônia, não houve e a vitória de ‘O Artista’ foi perfeitamente anunciada nas premiações dos sindicatos. Cheguei até a achar que ‘O Artista’ levaria mais prêmios técnicos, mas a Academia preferiu despejar esses troféu no Scorsese e era o que ‘Hugo Cabret’ nem tanto merecia, mas podia ganhar. A apresentação das indicadas pelo Colin Firth foi linda, ed tenho a impressão de que o que ele disse çpasra Meryl, para Michelle Williams pode até fazer diferença na vida das duas. pelas reações, deu paras ver que ele foi nas veia. Mesmo assim, foi surpresa. Os votantes da categoria foram os mesmos que despejaram seus votos, no SAG, o sindicato dos atores, em Viola Davis, por ‘Histórias Cruzadas’, mas, aí, ou se deram conta de que era injusto e corrigiram seus votos para a Iron Lady ou então não reconheceram a Viola, que mudou o visual e virou outra pessoa, e, no desespero, reconhecendo a Meryl – soberana naquele dourado -, terminaram por dizer que era com ela que iam. Estou em casa. Acordei tarde -= quase 9 horas -, tomei banho etc, espereio pelo horásrio da rádio (a Estadão ESPN), agora vou tomar café na padaria e ir para o jornal. À tarde vou ter de sair para ver filme.
Apesar da tristeza que me produziu a morte de Erland Josephson, estou feliz da vida com a vitória de ‘O Artista’ no Oscar. Michel Hazanavicius fez história como diretor do primeiro filme de país de língua não inglesa (estrangeiro) a vencer na categoria principal. Dava como certa a vitória de Viola Davis como melhor atriz porque ela venceu o prêmio do sindicato dos atores, por ‘Histórias Cruzadas’, mas o triunfo de Meryl Streep, pela ‘Dama de Ferro’, é de aplaudir de pé, como ela foi. Gostei do prêmio de roteiro original para Woody Allen (‘Meia-Noite em Paris’) e do de melhor filme estrangeiro para Asghar Farhadi, do Irã, por ‘A Separação’. ‘Hugo Cabret’ e ‘O Artista’ tiveram o mesmo número de prêmios cada – cinco -, mas Scorsese somou prêmios técnicos e Hazanavicius ficou com o filé. Adorei a vitória de Jean Dujardin, que perdeu na França, nesta semana, o César, prova de que santo de casa não faz milagre. Ao contrário da Itália, do Japão e da Suécia, que ganharam seus prêmios da Academia com grandes diretores (Fellini, Kurosawa, Bergman etc), a França ganhou seus Oscars de filmes estrangeiro com diretores medianos. O próprio Hazanavicius não era, até aqui, um grande diretor. Na entrevista que me deu, ele reconheceu isso e admitiu que o Oscar poderá marcar um tournant em sua carreira. Disse isso antes de vencer. Espero que tenha sido sincero e, de qualquer maneira, torcia pelo ‘Artista’. Era the best. Ainda estou na redação do ‘Estado’. Acabamos de fechar a capa do ‘Caderno 2′ de segunda. Daqui a pouco tem mais. E eu prometo voltar ao blog.
Em pleno Oscar, poderia estar acrescentando este post para falar da vitória de ‘A Separação’ ou do 3 a 1 na disputa entre os dois favoritos – fotografia, direção de arte e edição de som para ‘A Invenção de Hugo Cabret’ e figurinos para ‘O Artista’. Mas vou entrar com uma notícia triste. Morreu em Estocolmo, aos 88 anos, Erland Josephson, ator de grandes filmes de Ingmar Bergman. ‘A Hora do Amor’, ‘Gritos e Sussurros’, ‘Face a Face’, ‘Sonata de Outono’, ‘Fanny e Alexander’, ‘Sarabanda’ e ‘Cenas de Um Casamento’. Josephson sofria de Mal de Parkinson. Estou dando a notícia. Nem tenho tempo de acrescentar mais nada, pois erstou fazendo, na maior corrida, a capa do ‘Caderno 2′ de amanhã, que muda a todo instante, por causa da premiação da Academia.
Dei uma olhada nos comentários do post anterior, sobre as previsões do Oscar. Estamos, na maioria, senão todos, torcendo pelo ‘Artista’. E o concorrente francês emplacou mais um à sua galeria de prêmios. Mais um, não. Mais quatro. O Independent Spirit Award, o Oscar dos independentes, premiou ‘O Artista’ nas categorias de filme, diretor (Michel Hazanavicius), ator (Jean Dujardin) e fotografia (Guillaume Schiffman). O Spirit também foi para Michelle Williams (‘Sete Dias com Marilyn’), Alexander Payne (o roteiro de ‘Os Descendentes) e para o iraniano Asghar Farhadi (melhor filme estrangeiro para ‘A Separação’). Estamos aqui na redação do ‘Estado’. João Luiz Sampaio, Flávia Guerra, Regina Cavalcanti e eu, de olho no tapete vermelho. Minhas favoritas até agora – Jessica Chastain, Michelle Williams, Berenice Béjo, Rooney Mara e Milla Jovovich, categoria ‘belas’. Glenn Close está um arraso, naquele modelito rabo-de-peixe, categoria ‘coroas’ (com todo respeito). E o Sacha Boran Cohen, hein? Apesar da advertência da Academia, foi vestido de ditador. Ainda bem que esse cara existe, pra jogar um pouco de pimenta no politicamento correto que domina Hollywood (e a vida norte-americana em geral).
E o Oscar vai para… ‘O Artista’? Comecei assim meu texto na edição de hoje do ‘Caderno 2′. Embora o prêmio da academioa de Hollywood seja, como se diz, uma caixinha de saurpresas, vou tirar a interrogação aqui no blog. E o o Oscar vai para… ‘O Artista’, espero. Todos os indicadores apontam nessa direção. Michel Hazanavicius pode estar prestes a fazer história (com H). A França já ganhou Oscars de melhor filme estrangeiro e atriz – dois, um com Simone Signoret, num filme em lingua inglesa (‘Almas em Leilão’, de Jack Clayton) e outro no idioma nacional, com Marion Cotillard (‘Piaf’, de Olivier Dahan). A França pode estar agora a um passo de ganhar melhor filme, a categoria principal, e também melhor diretor e ator, três prêmios inéditos. Ao agradecer o prêmio do sindicato dos produtores – melhor filme -, o prtodutor Thomas Langmann fez um discurso bonito, que reproduzi em parte nãso me lembro se aqui ou se numa matéria do ‘Caderno 2′, durante a Berlinale. Alguma coisa como que ele acreditava no sucesso do filme nos EUA, mas nunca imaginou que a consagração tributada ao ’Artista’ lhe permitisse – e a Hazanavicius, sua mulher e estrela, Bérénice Béjo, e ao astro Jean Dujardin – viverem esse verdadeiro sonhon americano. Gostaria que o Oscar não fosse, como parece que vai ser, tão previspível, mas em caso de surpresa espero não ser atropelado justamente na estatueta para o melhor filme, o melhor diretor e o melhor ator, todas para ‘O Artista’. Estou acrescentando reste post na expectativa de que vocês comentem. Façam suas lidstas de apostas, lembrem os grandes acertos e as grandes injustiças. E vamos torcer pelo Carlinhos Brown, com o que poderá ser um prêmio meio atravessado – melhor canção -=, mas será, tomara, mesmo assim, o primeiro Oscar brasileiro. Estou indo hoje para Sorocaba. Vamols todos – Dib Carneiro Neto, João Luiz Sampao, Regina Cavalcanti, Camila Molina e eu – comer uma paella na casa da nossa amiga (e colega) Denise. Só volto no fim da tarde para a redação, e até lá espero pelos comentários de vocês. Ontem, foram entregues nos EUA os Spirits, o Oscar independente – que espero tenha coroado ‘Take Shelter’ e seu excepcional ator, Michael Shannon, embora Ryan Gosling, por ‘Drive’, também seja poderoso – e até nem sei se ainda ocorre a festa do limão, para os piores do ano. Só agora me caiu a ficha. Paella! Sangria! Manera, Merten, porque a noite hoje vai ser longa.
Mauro Brider comenta o post sobre Fritz Lang e a psicanálise e pede que fale sobre ‘Os Corruptos’, que, para ele, é a obra-prima do grande diretor. Pode ser, Mauro, mas eu confesso que gosto muito dos dois filmes de Lang com Glenn Ford. ‘Desejo Humano’, um remake de Jean Renoir, é tão bom quanto, embora sua fama seja de obra menor e aquele movimento circular da câmera quando o marido volta para casa, expondo a mediocridade do seu universo fechado que exaspera a mulher, aquilo é minimalista, feito com economia, mas tem uma potência cênica que me deixa embasbacado. Mas, para um leitor de aventuras, como eu, ‘O Tesouro do Barba Rubra’ tem um significado todo especial. Revi o filme não faz muito, num daqueles cineminhas de art et essai de Paris, e saí no sétimo céu. O que vou escrever agora talvez me crie problemas, mas Paris é o sonho romântico de muito casal. Eu curto Paris acompanhado, mas gosto mais da cidade quando estou sozinho. Vou ao nirvana, sem droga nenhuma, quando me sento naquele café, na esquina do Boulevard Saint Michel com o Sena e fico vendo a vida passar. Havia, quando era jovem, por volta de 1960 – 15 anos, fodido, sem grana – uma música que até hoje ecoa em meus ouvidos. Aprendi a falar francês no ginásio. Era bom, mas Paris me parecia simplesmente o sonho impossível. Hoje, quando ando por ali, a música vem, a toda hora. ‘Mesmo estando só eu me sinto feliz/huu/cantando a canção que embala Paris./Mulheres que passam…’ Santo Bergman, o desfecho de ‘Gritoas e Sussurros’. A vida é feita de momentos. E, de volta a Lang, o cinema dele tem muitos momentos que me inundam. No cinema norte-americano, ainda mais, mesmo que o grito de socorro de Peter Lorre em ‘M’ – ‘Alguém, me ajude!’ – seja dilacerante e a troca de olhares que precede a dança que termina em assassinato no ‘Tigre da Índia’ seja outro toque de gênio.
Véspera de Oscar, é hora de fazer os últimos prognósticos para os prêmios da Academia. Estou numa lan house do Centro. Há tempos que não vinha aqui para postar. Dei uma boa rodada até achar uma aberta, neste sábado de céu encoberto e abafado. Gravei ontem comentários para a Rádio Estadão ESPN e a Metrópole, de Salvador. Nunca fui de me ligar nos indicadores, mas este ano há um tal convergência nas escolhas das guilds que será uma surpresa se ‘O Artista’ não levar – melhor filme, diretor (Michel Hazanavicius) e ator (Jean Dujardin). Gosto demais do filme – desde Cannes, no ano passado – e, se fosse votante do Oscar, já teria cravado minha escolha. Bye-bye, Scorsese. É engraçado como, depois de defenderem os filmes de Martin com Leonardo DiCaprio, os coleguinhas são quase unânimes, pelo que ouço falar, em dizer que ‘A Invenção de Hugo Cabret’ é seu melhor filme em anos. E eu não sei? Na quinta, 23, já contei aqui que fui jantar com minha filha Lúcia. Era o aniversário dela, fomos só os dois. Ao chegar em casa, dei uma zapeada e estacionei no ‘Cabo do Medo’. Há 20 anos, por aí, quando ainda gostava de Scorsese, defendi seu remake de ‘O Círculo do Medo’, o cultuado thriller de J.Lee Thompson. Agora me dou conta de quye talvez gostasse do Thompson, antes que ele virasse pau mandado do Charles Bronson, fazendo todos aqueles filmes horrorosos. ‘Marcados pelo Destino’, se a memória não me trai, é muito bom. ‘Os Canhões de Navarone’ reinventou a aventura (e o cinema) de guerra. Não acreditava no que (re)via em ‘Cabo do Medo’. Puta filme ruim, meu, embora, para dizer a verdade, tenha gostado da pirueta final, quando De Nirto, preso pelo pé, afunda nas tumultuadas águas do rio e tem uma última troca de olhares com Nick Nolte, dando-se conta de que o outro venceu. Engraçado é que já tinha falado aqui no blog. Já faz um tempo, estava zapeando – como sempre – e entyrou um daqueles primeiros spagherttis de Sergio Leone, não lembro se ‘Por Um Punhado de Dólares’ ou se ‘Por Uns Dólares a Mais’. Tomei outro choque. Coisa malfilmada, mal montada. Era tudo muito cafona, mas havia a trilha de Ennio Morricone para segurar as pontas. Minimizei o som para ver só a imagem – Deus do céu, aquilo era o ó. Mas Leone aprendeu. Gosto de ‘Era Uma Vez no Oeste’ – nas partes, o todo é meio desconchavado, talvez por causa dos cortes impostos pela distribuidora – e ‘Era Uma Vez na América’, esse assim, é grandioso, impactante, mas aí o gênero é outro e os gângsteres substituem os bounty killers do western. Misturei alhos com bugalhos, como sempre, mas o que quero dizer é que Scorsese não vai ganhar, e é pena. Ele foi indicado tantas vezes, e por filmes que marcaram época. Ganhou por um que é pouco mais que medíocre, ‘Os Infiltrados’, seu remake do thriller de Andy Lau, que é melhor. Continuo insistindo na minha tecla. Scorsese era bom no tempo em que era produzido por Barbara De Fina. Diante de ‘Hugo Cabret’, cheguei a pensar comigo. Algo se passou, para esse cara ter melhorado. Vi o filme em Londres, na junkett de ‘Millenium’. Resolvi ficar até o fim dos créditos. Está tudo explicado. Ela voltou. De Fina tem crédito de produção em ‘Hugo Cabret’.
Na quarta à noite havia iniciado um post sobre os lançamentos em DVD de Fritz Lang, ou o lançamento. Recebi ‘O Segredo da Porta Fechada’ e até me esqueci do nome do outro, acho que foi o Fábio que pediu, mas não consegui localizar o post com o comentário. Já era tarde da noite, viajava cedo pela manhã – fui ao Rio, num bate e volta rápido – e resolvi deixar pronta a matéria sobre ‘Albert Nobbs’ e Glenn na edição de hoje do ‘Caderno 2’, para não complicar demais minha manhã. Voltei ontem à noite, fui jantar com a Lúcia – era o aniversário da minha filha –, a combinação moqueca + vinho me derrubou e agora, de volta à redação do ‘Estado’, vou tentar reiniciar o post sobre o DVD. Aliás, a porta do filme é cerrada ou fechada? Os dicionários de cinema fornecem a primeira opção. Exceto na França – é assim que Peter Bogdanovich inicia seu livro ‘Fritz Lang na América’ –, a obra norte-americana (hollywoodiana) do grande autor alemão sempre foi subestimada, embora some mais da metade de seus filmes. Com exdceção de ‘Fúria’ e ‘Vive-se Só Uma Vez’, os críticos construíram o clichê de que o Lang norte-americano era indigno do expressionista, uma estupidez sem tamanho, já que ‘M’ e ‘Moonfleet/O Tesouro do Babra Rubra’ compartilham a mesma visão sombria do mundo, em que o homem se bate com seu destino, e perde. Eu confesso que sigo na contramão. Não sou um grande fã de ‘Metropolis’ e creio, honestamente, que, à parte ‘M’ e algum ‘Mabuse’ – mas o melhor é o último, pós-Hollywsood, o profético ‘Os Mil Olhos’ –, a obra alemã de Lang envelheceu ou ficou datada, não me apetece tanto. Em compensação, assisto sempre com imenso prazer os filmes norte-americanos, mesmo os menores, descobrindo a cada visão coisas que me haviam passado despercebidas antes. Assisti a ‘O Segredo da Porta Cerrada’’ numa reprise do filme, nos anos 1960, em Porto Alegre. Não saberia dizer a data, mas muitos de vocês não deveriam nem ser nascidos. Sempre achei que era o filme ‘hitchcockiano’ de Lang – como ‘O Açougueiro’ é o filme ‘langiano’ de Claude Chabrol. Mais tarde, descobri que sua fama é a de ser o mais onírico, barroco e poético dos filmes que Lang fez em Hollywood. Onírico e poético, sim, mas barroco? Fui à Bíblia, o livro de Bogdanovich, em que ele entrevista o autor e o próprio Lang analisa, um a um, seus filmes. Descobri, para minha surpresa, que Lang não tinha muito apreço pelo ‘Segredo’, mas, até aí, tudo bem, os artistas nunca são os melhores críticos de sua obra. Mas Lang conta, e isso me interessou muito, que era um cinéfilo de carteirinha. (Lembro-me que ele disse uma coisa que me marcou, quando Sérgio Augusto o entrevistou no Rio, nos anos 1960. ‘Todo filme é sempre interessante, nem que seja como demonstração daquilo que não se deve fazer em cinema”, alguma coisa assim.) Lang conta que fui muito marcado pelo clima (gótico) de ‘Rebeca, A Mulher Inesquecível’, único Oscar de melhor filme de Alfred Hitchcock (mas ele não ganhou o de direção), adaptado de Daphne Du Maurier. Lang amava a cena em que Judith Anderson mostra a Joan Fontaine os vestidos, as peles de Rebeca e é como se ela estivesse ali. Lang acrescenta que nunca teve medo (pudor?) de roubar dos grandes cineastas. Aquela era uma cena de que ele queria se apropriar e julgou que seria possível no roteiro de ‘O Segredo da Porta Cerrada’, que lhe foi oferecido pelo produtor Walter Wanger, depois que o filme (o tal roteiro) já havia adquirido reputação de maldito e ninguém o conseguia tirar do papel. Lang quis repetir a cena de Hitchcock quando Michael Redgrave fala dos quartos da casa. Ele acha que não foi bem sucedido – Lang é muito sugestionável no livro. Se o filme não foi bem de público, ele o descarta. O filme é sobre essa mulher que se casa e descobre a obsessão do marido por assassinatos. O que ele guarda neste quarto que mantém fechado dentro da casa? O quarto pode ser uma metáfora do inconsciente, sobre o que há de mais secreto na mente das pessoas, um pouco como a chave de ‘Tão Forte e tão Perto’, de Stephen Daldry, que estreia hoje nos cinemas. Sempre gostei muito do clima, e dos atores do filme, embora ‘sempre’ seja uma forma de expressão, pois só ‘O Segredo’ uma vez. Estou escrevendo de memória. Lang admite que teve problemas com Joan Bennett, a quem dirigira em ‘Um Retrato de Mulher’. Ele queria que a voz do inconsciente da personasgem fosse feita por outra atriz, pois se trata da manifestação de uma outra mulher, mas Joan ficou aborrecida, disse que ele passaria atestado de que ela era incompetente etc. Lang aceitou, mas nunca se convenceu. Outra coisa é que ele acha a solução final, a ‘cura’, muito rápida. Um amigo lhe observou que, naquele tempo, os anos 1940, a psicanálise ainda era um território novo, um mistério, principalmente no cinema. Hitchcock havia feito ‘Spellbound/Quando Fala o Coração’, um ou dois anos antes. Não se sabia muito sobre ela, produzia mal-entendidos. Lang responde que ele, sim, sabia, e o verbo está grifado no texto. Teria de (re)ver ‘O Segredo’, mas até onde me lembro o filme é bom, denso – adoro quando esses austríacos e alemães (Lang, Billy Wilder) resolvem ser hitchcockianos. ‘A Vida Secreta de Sherlock Holmes’ é maravilhoso, imerso no mesmo clima de ‘Rebecca’ e ‘O Segredo’. E eu confesso que estou em lua de mel com Lang. Quando escrevi que ‘O Desprezo’, que revi no avião, na volta de Berlim, é o ‘meu’ Godard, vocês podem estar certos de que a presença de Lang, como o diretor do filme dentro do filme, contribui para isso.
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