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Luiz Carlos Merten

31.dezembro.2011 21:22:38

Feliz 2012

Nove da noite, quando estou começando a digitar este post, o último de 2011. Havia prometido publicar minha lista de melhores do ano. Vamos lá – Melancolia, Super 8, Poesia, Meia-Noite em Paris, A Pele Que Habito, Cópia Fiel, O Garoto da Bicicleta, As Canções, O Palhaço. Contei e tenho nove títulos, os mesmos que enumerei na capa do ‘Caderno 2′ com os destaques do ano, colocando o foco na consagração da terceira via para o cinema brasileiro, defendida por diretores/autores como Selton Mello e José Eduardo Belmonte – e o primeiro já chegou lá, com 1,4 milhão, o número deve ter aumentado, de espectadores para um filme que eu achava difícil, pelo tom, pela delicadeza, como ‘O Palhaço’. Falta um, se eu quiser que sejam dez. E por que não ‘Incêndios’, de Denis Villeneuve? Ou ‘Missão Impossível – Protocolo Fantasma’, de Brad Bird? Naturalmente que minha lista seria outra se tivessem estreado Hugo, O Cavalo da Guerra, Drive. Um grande ano de 2012 para todos nós. Principalmente, grandes filmes…

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31.dezembro.2011 12:22:15

Gostei, muito

Muita gente quer saber se gostei de ‘Millenium – Os Homens Que não Amavam as Mulheres’. Sim, muito. Tive o privilégio de conversar com David Fincher, em Londres. Participei de uma coletiva, uma mesa redonda e tive uma individual com o diretor. Falando sobre sua adaptação da série de livros de Stieg Larsson, ele disse que não quis fazer outro filme sobre serial killer. O criminoso está lá, o formato é de thriller, mas a força do filme vem da análiase que Fincher faz da relação entre homem e mulher, entre o personagem de Daniel Craig e a garota com a tatuagem do dragão, Rooney Mara. Idade, cultura, classe social, até sexualidade – ela é bissex -, tudo deveria separá-los, mas eles têm a sua história, que é linda, e triste. Achei ‘Millenium’ um dos filmes mais bem feitos que já vi e a trilha – Fincher, com sua experiência de videoclipes, selecionou cada música – é excepcional, totalmente integrada ao relato. Estamos no finalzinho do ano, a cerca de 12 horas de 2012, e o período é de listas. Ainda pretendo publicar a minha com os destaques do cinema em 2011. Na maioria das listas que tenho visto, en passant, ‘A Árvore da Vida’ está sempre presente. Não preciso insistir – vocês sabem – que não gosto do filme de Terrence Malick, que me parece uma fraude, ou quase. Tudo o que ouço – não li muita coisa – fortalece minha impressão, mas li o que Enéas de Souza escreve na ‘Teorema’ que me foi enviada pelo pessoal de Porto Alegre. Enéas é um raro (o único?) crítico que me acrescenta alguma coisa porque ele nunca me passa a sensação de que quer provar seu ponto de vista, e que é o certo. Tem dois ou três infelizes, com o pé na psicanálise, que quando tento ler me fazem chorar – e que deviam ir correndo para o divã, para ver se amadurecem. O que me fez ler o texto do Enéas foi a frase inicial. Ele diz que ‘A Árvore da Vida’ é um daqueles filmes que você ama ou odeia. No caso dele, Enéas não só amou como achou muito chato. E desenvolve sua visão do filme, que constroi um pensamento cinematográfico sobre os EUA desde os anos 1950 até hoje. Bom, isto é claro, mas e daí? Terrence Malick associa a ‘americana’ com uma visão cósmica do universo, flertando com o Kubrick de ’2001′, só que com dinossauros no lugar dos macacos. É uma coisa complicada de explicar, mas vocês vão perceber quando virem ‘Millenium’. Fincher manteve a ambientação sueca da trama, mas é lógico que ele está querendo falar sobre a ‘América’.  O filme dele é sobre a confiança – tem tudo a ver com a era Obama – e me lembrou muito o de Malick. Como, por que? Pela luz. A iluminação propõe uma cosmogonia sagrada e profana que remete à graça cósmica, mais, para mim, do que o filme de Malick. E o curioso é que, através de Fincher, redescobri um filme que amei, mas do qual me havia perdido, o ‘Luz Silenciosa’, de Carlos Reygadas. Sei que tudo isso deve estar parecendo muito cifrado e o que mais me desconcerta é a confissão que vou fazer agora. Amo os filmes que tratam da relação entre pais e filhos, até porque sou pai e, por meio deles, coloco em discussão, em foro íntimo, a relação com minha filha, que é a pessoa a quem mais ano no mundo. Em princípio, um filme sobre um filho que, finalmente, compreende seu pai deveria ter me deixado chapado, mas o de Malick me deixou a impressão de ser doente. Amo a obra-prima malade de Alfred Hitchcock, como François Truffaut se referia a ‘Marnie’. Por mais que me force a gostar de ‘A Árvore da Vida’, a pretensão do filme me produz constrangimento. É muito barulho para o pouco que consigo reter da ‘americana’ de Malick.

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31.dezembro.2011 11:37:38

Daniel Piza

Estou em choque. Havia acordado tarde – fiquei ouvindo o barulhinho da chuva na cama. Depois do banho, ia me atracar no blog, para postar alguma coisa sobre ‘Millemium – Os Homens Que não Amavam as Mulheres’. Antes, chamei meu amigo Dib Carneiro Neto, que mora perto, para tomarmos café na Trigonella, uma padaria aqui em Pinheiros, na Arthur de Azevedo com a Virgílio. Entrou João Luiz Sampaio, também vizinho, esbaforido – aonde vai correndo? Ao jornal. A pergunta saiu automática – quem morreu? Daniel Piza. Como? Na terça ou quarta, conversando com meu editor, Ubiratan Brasuil, ele me havia dito que o Daniel ia morar em Nova York. Já havia acertado com o jornal. Ficaria lá uns dois ou três anos. Havia pensado comigo – Daniel vai fazer o seu Diário da Corte, substituindo Paulo Francis, que foi uma de suas referências. Morreu de um ataque fulminante do coração – é o problema de ter infarto ainda jovem. No último dia de 2011. Às vésperas de um ano que prometia ser de mudança para ele. Fiquei, confesso, em choque. Não era íntimo do Daniel, volta e meia discordava dele, nunca liguei muito para a sua gafe – ele trocou Cristo por Judas e escreveu que havia morrido enforcado. Quem nunca errou, na imprensa, que atire a primeira pedra. E quanto a padronizar o pensamento, longe de mim querer que todo mundo pense igual. E eu o conhecia, sei lá, há uns 20 anos, ou quase. Completei no dia 10 (de dezembro) 23 anos de São Paulo. Só de ‘Estadão’, são 22 anos – uma vida. José Onofre era o editor quando cheguei no ‘Caderno 2′. Logo em seguida, Hamilton dos Santos foi editar o ‘Cultura’  e vieram aqueles dois franguinhos para trabalhar com ele, que imediatamente viraram motivo de chacota dos veteranos. Os dois viraram jornalistas importantes, Carlos Graieb e Daniel Piza. Não vou dizer que os vi crescer – o Graieb eu nem vejo há tempos -, mas Daniel virou chefe no jornal, estava sempre por ali, rondando. E ele sempre me provocava, mas com lealdade. Rezando na cartilha da grande cultura, ele me dava a impressão de emular o pensamento de Paulo Francis, que gostava de cinema – Bergman, Bergman, Bergman -, mas não acreditava que a sétima arte, com sua origem nas feiras populares, pudesse alcançar a profundidade, por exemplo, da literatura como expressão do pensamento humano. Daniel não parecia acreditar, como eu, que pode existir vida inteligente nos blockbusters e que é possível gostar de Christopher Nolan como do mais miúra dos diretores. Às vezes, rendia-se. Aos 66 anos, e às voltas com médicos – só nesta semana fiz uma cauterização no couro cabeludo, tive de tratar da rótula e estou com uma infecção de ouvido -, sou um sobrevivente. Não só no jornal, mas na vida. Tantos amigos já se foram. Companheiros de geração, gente mais jovem. Lembrei-me agora do Gabaju, Gabriel Bastos Jr. Embora garoto, ele era meu guru na área de quadrinhos. Gabaju era um touro, o maior pegador da redação do ‘Caderno 2′. Você olhava para ele e dizia – esse guri vai viver 100 anos. Teve um aneurisma e morreu na flor da idade. Jotabê Medeiros assumiu seu lugar como meu consultor de HQs, mas volta e meia quando estreia um desses filmes com heróis da Marvel eu me lembro do Gabaju. Lembrei-me dele em Dubai, depois de ver o ‘Tintin’ do Spielberg, mais Indiana Jones do que Hergé. Gabaju teria gostado? Não me arrisco a dizer do que Daniel Piza teria gostado, mas sua morte me desconcerta. Já estava me preparando para o seu Diário da Corte, que agora não haverá. Daniel Piza despede-se da gente com 2011.

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29.dezembro.2011 00:11:51

Mais do mesmo?

Meu amigo Dib Carneiro foi ver hoje um programa duplo formado por ótimos filmes nacionais - ’O Palhaço, de Selton Mello, e ‘As Canções’, de Eduardo Coutinho. Ele amou e fez uma ponte muito interessante entre os dois filmes, que tratam de gente humilde, sem medo de ser sentimental (nem de chorar). Estava outro dia no aeroporto com minha filha Lúcia, indo para Porto Alegre, e encontramos a Jordana Berg, montadora do Coutinho. Ela retrucou essa gente que fica dizendo que Coutinho oferece mais do mesmo. O filme é menos do mais, uma depuração nunca vista e que a mim encanta. Não sei como se procura, mas o Dib escreveu um texto muito bonito sobre os dois filmes no Facebook. Fica a dica e eu volto a Tarzan. Não mais Cheetah, não mais Johnny Weissmuller. O ‘meu’ Tarzan, tirando Christopher Lambert – mais para garoto selvagem do que para rei da selva -, é Gordon Scott, num filme de 1959. ‘A Maior Aventura de Tarzan’, de John Guillermin. Gordon Scott faz um Tarzan mais maduro, e numa cena ele chega a dizer que está envelhecendo. O filme tem vilões maravilhosos – Sean Connery, antes da fase 007 -, mas o que me encantava, pois nunca mais revi ‘A Maior Aventura’, era a namorada do vilão. Scilla Gabel ficou famosa como dublê de Sophia Loren. Guillermin e o produtor Sy Weintraub com certeza devem ter pensado nisso, mas a morte de Scilla é tão espetacular que ouso dizer que se trata da grande cenas de ‘todos’ os filmes com o homem-macaco.

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28.dezembro.2011 23:49:37

Cheetah!

Cá estou de volta a São Paulo – desde seguinda-feira à tarde – e não tenho tido tempo de postar. Andei tendo alguns problemas e precisei ir a médicos, mas acompanhei os comentários - sobre o Terence Stamp, principalmente. Havia tentado acrescentar um post no fim da manhã. mas na hora de salvar meu texto desapareceu. Há tempos que não ocorria isso. Era sobre Cheetah, a macaca de Tarzan, que morreu aos 80 anos num santuário de primatas, na Flórida. Quem me informou foi minha colega Eliana, pauteira do ‘Caderno 2′. Procurei na internet, mas minha dúvida continua – assim como Lassie era fêmea na ficção, mas o cão era um macho da raça collie, pergunto-me. Cheetah era mesmo fêmea ou, quem  sabe, outro macho disfarçado? Seu primeiro filme datava de 1932, portanto só pode ter sido ‘Tarzan, the Ape Man’, de W.S. Van Dyke, com  a dupla clássica Johnny Weissmuller/Maureen O’Sullivan. Quem viu sabe que o filme se apropria de elementos de ‘Tarzan, O Filho das Selvas’, de Edgar Rice Burroughs, ao mesmo tempo que dispensa toda a parte que se refere às origens do homem-macaco como Lorde Greystoke – e que se constituem no material do admirável ‘Greystoke, A Lenda de Tarzan, O Rei da Selva’, de Hugh Hudson. De Tarzan,. eu entendo. Já contei que o primeiro livro que comprei foi ‘Tarzan, o Rei da Selva’, na antiga Coleção Terramarear. Somente depois li ‘O Filho das Selvas’ e todos os demais volumes, me deliciando com a imaginação delirante de Edgar Rice Burroughs. Sempre lamentei que Hollywood nunca tenha adaptado o escritor ao pé da letra. Tarzan em Pelucidar, no Centro da Terra; Tarzan encontrando os descendentes de Camelot e do Império Romano. E eu sempre am,ei as mulheres – La, a sacerdotiza de Opar; Nemone, da cidade de ouro; e a mulher-leopardo (sou capaz de reconstituir as frases do escritor, quando as longas, aduncas garras são colocadas na heroína, para que ela mate em honra do deus-leopardo). Quem for atrás de ‘Tarzan, the Ape Man’, verá que o filme, muito mais que uma aventura exótica, na selva, narra uma bela história de amor. Jane aparece antes de Tarzan. Ela acompanha o pai, que busca um cemitério de elefantes. A própria Jane busca… O quê? Excitação, o amor. Tudo isso ela encontra com Johnny Weissmuller. Na hora H, Tarzan e Cheetah salvam Jane, que foi aprisionadas por uma tribo de pígmeus para ser ofertada a um gorila gigantesco. Pouca gente se lembra disso – ninguém? -, mas Van Dyke antecipou/inventou King Kong, que só surgiu no ano seguinte. no clássico de Merian Coopper e Ernest Shoedsack. Em princípio, pode-se pensar que Cheetah participava da série só para acrescentar um tempero insólito, mas a macaca foi mais que isso. Em ‘O Filho de Tarzan’, Boy, Johnny Sheffield, é recolhido por Tarzan e Jane depois de haver sido salvo por macacos amigos de Cheetah ( como o próprio Tarzan no relato original de Rice Burroughs). Que Cheetah tenha vivido tanto – e sobrevivido a Weissmuller e O’Sullivan – é um mistério que não vou tentar esclarecer. Fica só o registro – morreu Cheetah. Não vou dizer que chorei por ela, mas muito lembrei dos livros e filmes da minha infância e juventude.

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26.dezembro.2011 09:00:25

Terence Stamp

PORTO ALEGRE – Erro muito no blog e em geral não me importo, porque sempre é possível corrigir e há também o fato de isso estimular a participação (mesmo que seja para me esculhambar). Mas o René me desculpe. Minha cronologia de Terence Stamp estava certa. ‘Billy Budd’ é de 1962, ‘O Colecionador’ foi feito três anos depois, em 1965. Se os produtores de ‘Billy Budd’ tiveram alguma dúvida em contratá-lo não foi pelo filme de William Wyler, mas pela estreia dele em ‘Term of Trial’ – como se chama mesmo o filme de Peter Glenville no Brasil? Passa-se numa escola tradicional, num internato, com Laurence Olivier, Simone Signoret e Sarah Miles. Terence faz um estudante meio perturbado, maledicente. Já que estou escrevendo sobre isso, quero acrescentar que não foi esquecimento, mas embora tenha citado apenas os três grandes papeis – nos filmes de William Wyler, Federico Fellini e Pier Paolo Pasolini -, Terence Stamp teve um começo de carreira retumbante e apareceu também em filmes de Joseph Losey (‘Modesty Blaise’), John Schlesinger (‘Longe Deste Insensato Mundo’) e Ken Loach (‘Poor Cow’, cujo título brasileiro é quilomético e tem ‘lágrima’). Terence Stamp virou ícone sexual e teve affairs com Brigitte Bardot e Jean Shrimpton. Esta, não sei se foi a primeira top model, mas foi outro ícone dos anos 1960 (na moda e no cinema). Quando Jean lhe deu um pé vocês sabem onde, Terence Stamp despirocou e foi viver uma vida de peregrinação na Índia, onde permaneceu por mais de dez anos. Ele retomou a carreira e conheceu novo sucesso como a drag queen de ‘Priscilla’, mas ficou confinado aos papeis de coadjuvante (com raras exceções). Gosto muito dele em ‘Superman 2′. No filme de Richard Lester, Terence Stamp vem de Krypton e faz um estrago na Terra. Uma de suas vítimas cai no solo e lamenta, ‘Oh God’, ó Deus, ao que ele retruca – ‘Não é God, é Zod.’ adoro a piada, que carrega um elemento de autocrítica e gozação com o que Terence Stamp representou, inclusive pela desmedida de muitos de seus personagens. E não estou esquecendo, lá no começo, do faroeste dele. ‘Duas Pátrias para um Bandido’, de Silvio Narizzano – eu amava ‘Georgy Girl’. Nunca revi o filme, mas no meu imaginário o filme é tão ‘italiano’ quanto os spaghettis de Sergio Leone e Sergio Corbucci (e muito provavelmente foi o que aproximou o astrop de Fellini e Pasolini).

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25.dezembro.2011 22:19:36

De novo!

PORTO ALEGRE – Fui ver de novo – pela quarta vez! – ‘Missão Impossível – Protocolo Fantasma’. Uma em Dubai, outra no Rio, a terceira em São Paulo e agora aqui em Porto. E é sempre uma (re)descoberta. Quando o filme é bom, a capacidade de surpreender é inesgotável. O interessante é que há um certo número de filmes estreando neste final de ano e que tratam da morte e da superação. ‘MI-4′ é sobre uma ressurreição, aliás, duas. ‘Compramos Um Zoológico’ é sobre o luto e a superação, ‘Os Descendentes’ é sobre o perdão e como a família segue unida após o duplo trauma – a mãe em coma, o pai descobrindo seu adultério. Foi um tema recorrente no cinema, no ano que se encerra. O garoto fragilizado olhando no fundo dos olhos do monstro espacial para descobrir o olhar da mãe e estabelecer uma comunicação em ‘Super 8′, de JJ Abrams. A avó que sofre de Alzheimer, a desconfiança no neto e a palavra que lhe permite renascer em ‘Poesia’. Existem sempre múltiplas maneiras de avaliar o desempenho do cinema no ano. A bilheteria pode ser uma delas. Selton Mello fez história provando que a terceira via é possível com o 1,4 milhão de espectadores de ‘O Palhaço’. Em números, ‘Crepúsculo – Amanhecer’ fez o maior público do ano, com 6,8 ou 7 milhões de espectadores, mas em reais o maior faturamento foi de ‘Rio’, a animação de Carlos Saldanha. O digital consolidou a revolução iniciada em 2001, com ‘Dançando no Escuro’, de Lars Von Trier. Barateiam-se os custos de produção e aumenta cada vez mais o circuito digitalizado de exibição, mas não sem problemas. Na quarta-feira, na sessão de imprensa de ‘Cavalo de Guerra’, de Steven Spielberg, tivemos de esperar quase uma hora pelo ‘sinal’. Na Mostra, esse tipo de problema foi recorrente. Ainda em termos de tecnologia, o 3-D avança como rolo compressor, mas, de volta a ‘MI-4′, quando perguntei a Brad Bird por que o filme dele era 2-D quando o 3-D dá as cartas em Hollywood, ele respondeu que justamente por isso, para fugir ao padrão. E acrescentou o que você pode verificar – o 2-D nas salas Imax impressiona mais que o 3-D. Tecnologia, faturamento, tudo isso é válido, mas a estética, de preferência política, me parece sempre o critério definitivo. Tantos bons filmes em 2011. Continuo insistindo para que vocês façam suas listas aqui no blog. Estou achando que andam muito preguiçosos.

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25.dezembro.2011 12:07:41

‘Billy’

PORTO ALEGRE - Não, não é o Billy Elliott, mas o Budd. Não irei diretamente ao ponto. Permitam-me seguir meus atalhos, como sempre. Sempre me perguntei se foi mera coincidência. Por volta de 1960, enquanto os novos cinemas pipocavam ao redor do mundo, Hollywood embarcou em duas aventuras custosas. Duas superproduções históricas, hoje a gente diria ‘blockbusters’. A Cleópatra de Elizabeth Taylor e ‘O Grande Motim’, de Marlon Brando. A Fox já estava em plena pré-produção de uma Cleópatra com Joan Collins quando os custos começaram a inflacionar, a estrela foi substituída por Liz Taylor e ela pediu não apenas o maior salário até então pago por um papel – US$ 1 milhão – , como substituiu o diretor Rouben Mamoulián por um homem de sua confiança, Joseph L. Mankiewicz, com quem havia feito ‘De Repente, no Último Verão’. O que ninguém poderia prever era o pesadelo em que se transformariam as filmagens, com as sucessivas doenças e internações hospitalares de Liz que foram prorrogando as datas e aumentando os custos. Quando a produção finalmente deslanchou, o filme já estava custando não sei quantas vezes mais que o previsto e Mankiewicz ainda teria de enfrentar as consequência midiáticas do então considerado ‘affair do século’, quando Liz se enrabichou com Richard Burton e no mundo inteiro não se falava em outra coisa. “Cleópatra’ quase levou a Fox à bancarrota e o que salvou o estúdio foi o sucesso de ‘A Noviça Rebelde’, com Julie Andrews, em 1965. Simultaneamente, a Metro também quase foi para o brejo quando Marlon Brando despediu o diretor Carol Reed e exigiu que o roteiro de ‘O Grande Motim’ fosse reescrito também não sei quantas vezes. As filmagens no Havaí viraram outro pesadelo porque Brando queria saber de tudo, menos filmar, o que não deve ter sido fácil para Lewis Milestone, o diretor substituto, administrar. Brando, na época, era o terror dos diretores e também despediu Stanley Kubrick no set de ‘A Face Oculta’, assumindo a direção do western mais inusitado do cinema (com grandes cenas, é verdade). ‘O Grande Motim’, depois de muita confusão, estreou em 1962 para o repúdio unânime da crítica e eu sinceramente não sei se é tão ruim, porque nunca revi o filme. A lembrança que tenho nem é de Brando, mas de Richard Harris, que rouba as cenas em que aparece, pelo menos no meu imaginário. ‘O Grande Motim’ baseia-se num episódio real, o motim a bordo do Bounty, quando a tripulação, atiçada pelo imediato Fletcher, sublevou-se contra o capitão autoritário. No mesmo ano, 1962, estreou outro filme – é a coincidência a que me refiro no começo do post – que também coloca em discussão o autoritarismo nos mares, só que esse outro tem algo mais. ‘Billy Budd’ baseia-se no livro póstumo de de Herman Melville e como toda obra do autor mergulha fundo no estudo da natureza humana e em temas de natureza mais metafísica. Billy, o grumete, poderia ser um personagem de Jean Genet. Belo, inocente, ele perturba a calma no interior de um navio, até pelo interesse – homoerótico – que desperta no capitão Claggart (Robert Ryan). Billy costuma ser comparado ao príncipe Michkin, de ‘O Idiota’, de Dostoievski. Sua beleza dói nos olhos dos outros, sua bondade incomoda. Temos outra situação de motim – de sublevação contra os maus tratos a bordo. O próprio diretor, o ator Peter Ustinov, faz o papel de Vere, o suboficial que vive segundo a letra da lei e que vai aplicar uma justiça sumária, o que sela a tragédia (não só para Billy, mas também para os que o cercam). Acabo de rever ‘Billy Budd’, que saiu em DVD. Há quase 50 anos, o filme foi demolido pela crítica, agora virou cult, no que, para mim, vai um certo exagero, porque não tem muito fôlego. Mas é curioso falar de ‘Billy Budd’. O que ‘O Grande Motim’ tem de espetacular, ‘Billy’ tem de intimista, como se tivesse sido feito ‘contra’ o outro. A cor é substituída pelo preto e branco, os cenários são estilizados e até a ação tem algo de teatral. (não ponho isso como defeito.) Melville discute tudo – bem e mal, culpa e inocência etc -, Ustinov busca transformar suas digressões filosóficas em ação. Não creio que ‘Billy Budd’ seja um bom filme, mas achei bom rever o filme. Um pouco pela belíssima fotografia de Robert Krasker – François Truffaut tinha toda razão quando dizia que os filmes em P&B eram mais bonitos -, mas também, e principaslmente, por causa de Terence Stamp, que iniciava aqui a carreira que o levou a filmar com William Wyler (‘O Colecionador’), Federico Fellini (‘Toby Domnit’, o episódio de ‘Histórias Extraordinárias’, adaptado de Edgar Allan Poe) e Pier Paolo Pasolini (‘Teorema’). O interessante é que Billy Budd já carrega as sementes de todos os papeis que o erigiram em mito dos anos 1960. Como ator, Peter Ustinov ganhou duas vezes o Oscar de coadjuvante, não me lembro se pelo Nero de ‘Quo Vadis?’, de Mervyn LeRoy, ou se pelo Batiatus de ‘Spartacus’, de Stanley Kubrick, mas com certeza pelo integrante do bando de ‘Topkapí’, de Jules Dassin. Ele também foi (duas vezes) Hércules Poirot. Foi um grande característico, com tendência ao maneirismo. Como diretor, além de ‘Billy Budd’, fez ‘Romanoff e Juliet’, transpondo a tragédia lírica de Shakespeare para a Guerra Fria, com John Gavin e Sandra Dee. Estou aqui viajando nas lembranças. Nunca soube que Peter Ustinov fosse gay, mas, mesmo que não fosse, ele devia entender do babado. Terence Stamp é bonito demais ou é o olhar dos outros sobre ele que faz do personagem algo quase insuportável de ver. Assistindo de novo ao filme, fiquei convencido de que Richard Brooks teve ‘Billy Budd’ como referência ao fazer ‘Lord Jim’, que adaptou de Joseph Conrad. Mas Brooks era mais um bicho de cinema. ‘Jim’ é um dos meus cults, vocês sabem.

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24.dezembro.2011 23:48:36

Feliz Natal!

PORTO ALEGRE – Nem indiquei a procedência de meu post anterior, sobre ‘M. Klein’. Escrevi-o daqui de Porto, onde cheguei na quinta à noite, depois de horas de aeroporto, por conta da paralisação dos aeroviários. Saí de casa às 13h30, cheguei aqui às 8 da noite e ainda tivemos de esperar quase 40 minutos dentro do avião pousado porque não havia vaga  nos portões. Estou colocando no plural – chegamos, esperamos. Vim com a Lúcia, minha filha. ontem, foi o aniversário da mãe dela, minha ex, a Doris. É de não acreditar. Esfriou hoje, o dia inteiro o céu esteve plúmbeo. Choveu. Mais parecia inverno. Fui ver ‘Os Imortais’, com o novo Superman, Henry Cavill. Eta, filme ruim, ‘Os Imortais’, não o Superman, cujo set visitei em Chicago, encontrando o próprio Cavill, com quem tirei foto, mas tudo isso ainda está interditado. Só será possível falar do filme em meados do ano que vem, a nove ou dez meses da estreia – em maio de 2013! Nem tive tempo de contar para vocês, mas tenho feito entrevistas bem interessantes pelo telefone – com o diretor de ‘The Help’, Caminhos Cruzados, com a diretora de ‘Tomboy’. Ainda devo para vocês posts sobre ‘Millenium’, o novo David Fincher, incluindo as entrevistas com o diretor, com Daniel Craig, com Rooney Mara, que faz a protagonista feminina, e com Stellan Skarsgaard, que confirmou que vai fazer o filme pornô de Lars Von Trier no começo do ano. Ele imita o autor dinamarquês de forma muito divertida. Lars disse a Stellan que ele vai aparecer nu durante boa parte do filme, não vai comer ninguém e o pênis vai estar floppy. Stellan conta tudo isso rindo. Tenho de acrescentar que gostei – muito – de ’Cavalo de Guerra’, de Steven Spielberg, que vi na quarta-feira pela manhã.  Na saída, estava em êxtase, enquanto a maioria dos coleguinhas estava blasé. Um achou comprido, o outro, sentimental. Eu achei uma epopeia fordiana, e com cenas de cortar o fôlego, embora o desfecho, celebrando a volta ao lar, seja calcado em ‘…E o Vento Levou’. Prometo voltar a tudo isso, mas agora, e por mais piegas que seja o apelo natalino, quase sempre, ou sempre associado ao consumo, quero desejar a todos os amigos um feliz Natal com muito cinema. Tanta coisa para ver nos cinemas ou em DVD. Uma das melhores, a melhor?, bem pode ser o DVD de ‘La Rupture’, Trágica Separação, um grande Claude Chabrol, com Stéphane Audran. É outro filme ao qual prometo voltar.

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23.dezembro.2011 09:16:24

‘M. Klein’

Joseph Losey começa seu filme numa sala médica, onde uma mulher está sendo examinada por um especialista em raças, para ver se ela é uma ariana pura. E termina no estádio, com o embarque dos judeus que são enviados para os campos de concentração – a mulher da primeira cena está entre eles. Entre esses extremos por assim dizer ‘realistas’,‘M. Klein’ cria uma espécie de labirinto – da consciência, da mente – para descrever a experiências de isolamento do personagem interpretado (genialmente, aliás) por Alain Delon. No auge da juventude de Delon, Luchino Visconti usou sua extraordinárias beleza para esculpir a pureza e o idealismo de Rocco. Anos mais tarde, e radicalizando o uso que René Clément havia feito do ator em ‘O Sol por Testemunha’, Jean-Pierre Melville descobriu a dureza das linhas do rosto de Delon e fez dele o assassino profissional de ‘O Samurai’. Em ‘M. Klein’, Delon faz um comerciante de objetos de arte que não revela nenhuma sensibilidade para os problemas da França ocupada pelos nazistas. ‘M. Klein’ não é tanto sobre o horror das brutalidades do nazismo, embora elas estejam lá. É sobre o horror da indiferença e por isso permanece tão atual hoje quanto nos anos 1970, quando foi realizado. Pegue o exemplo de outro filme em cartaz, o ‘Machine Gun Preacher’ de Marc Foster, que no Brasil se chama ‘Redenção’, com Gerard Butler. Foster é um diretor honesto e tem bons filmes no currículo. Eu, particularmente, gosto de ‘Em Busca da Terra do Nunca’, ‘Mais Estranho Que a Ficção’ e ‘O Caçador de Pipas’. Foster também quer falar sobre a indiferença em ‘Redenção’, mostrando a exasperação de seu protagonista, um sujeito que começa criminoso, vira pastor e segue empregando os mesmos métodos. Ele chega a dizer a seus fieis que Deus não quer um rebanho de ovelhas, mas uma matilha de lobos de dentes afiados em defesa de seus princípíos. E dê-lhe porrada. ‘Redenção’ baseias-se numa história real e, depois que ela termina, durante os créditos finais, aparecem as imagens do personagem que inspirou a ficção. Tudo é verdadeiro, bem intencionado, mas a narrativa romantizada, de ação, meio que banaliza o que o diretor quer dizer sobre a violência na África e as crianças vítimas de guerras tribais no Sudão. O que faz a diferença em ‘M. Klein’ é o método de Losey. Na juventude, lá pelos seus 20 e poucos anos, ele fez teatro com Bertold Brecht. Aprendeu tudo sobre o ‘estranhamento’ que Brecht pregava para manter o espectador lúcido, para impedir que ele se alienasse no espetáculo. Esse estranhamento virou ‘distanciamento’, mas Brecht nunca empregou, até onde sei, nunca empregou a palavra. Losey conta sua história com frieza, digamos com indiferença. Delon é gélido no papel. Não se interessa pelo sofrimento dos outros, é insensível. Mas aí ele recebe esse documento, essa intimação em seu nome. Vai se queixar à autoridade. Trata-se de outro Klein, mas não, a autoridade rebate. E Klein vira prisioneiro da mesma máquina indiferente à dor do humano. O labirinto (de Borges?) vira absurdo (de Kafka?). Num certo sentido, ’M.Klein’ foi o último grande filme de Losey e a culminação de seu estilo, que volta e meia absorve elementos barrocos e, por isso, alguns críticos o acusavam de ser ‘maneirista’. Qusanfo escrevi ‘o último grande filme’, não me esqueci de ‘Don Giovanni’, que Losey fez rapidamente, mas que é o produto de toda uma vida, as depuração de sua mise-em-scène. Losey, como Elia Kazan, começou no teatro, e de esquerda. Ao contrário de Kazan, que colaborou com o mascarthismo, ele teve de se exilar, trocando os EUA pela Europa, onde fez filmes sob pseudônimo, acabando por se estabelecer na Inglaterra, onde, aos poucos, retomou suas identidade e o respeito da crítica. Michel Ciment, que foi jurado da Mostra há coisa de dois, três anos, escreveu um livro de entrevistas com Kazan e outro com Losey. Ele juntou os dois num só alentado volume, precedido de um prólogo para mostrar como as vidas de ambos, aparentemente tão distintas (no sentido de diferentes), na verdade foram sempre muito proximas. ‘M. Klein’ foi escrito por Franco Solinas, roteirista dos filmes políticos de Costa-Gavras e Gillo Pontecorvo. Era um grande profissional, mas a pegada do filme é do diretor. ‘M. Klein’ foi exibido em Cannes, não me lembro se concorrendo. Losey havia recebido, anos antes, a Palma de Ouro, por ‘O Mensageiro do Amor’, com roteiro de Harold Pinter. Tennessee Williams presidia o júri e Losey havia trasnsformado ‘The Milktrain Doesn’t Stop Here Anymore’ em ‘Boom!’, O Homem Que Veio de Longe, com o casal Burton/Taylor. Tennessee Williams fez, na época, uma polêmica declaração, dizendo que a arte, o cinema, não deveriam ser políticos. Sempre ouvi dizer, mas não estava lá para confirmar, que Losey, no mesmo dia, na coletiva de ‘M. Klein’ teria dito que toda arte, mesmo a mais aparentemente alienada, é política. Quase 40 anos depois, a estética de Losey continua impressionante, mas o que faz a atualidade de seu filme é a política. A indiferença segue sendo nosso pecado capital.

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