Cheguei ontem em casa e me esperavam alguns DVDs de colecionador da Paramount, enviados por minha amiga Madalena Martins. ‘Barbarella’, o cult de Roger Vadim que estabeleceu Jane Fonda como mito sexual em meados dos anos 1960; ‘O Terror das Mulheres’, um dos meus filmes preferidos de Jerry Lewis, com aquela cena surreal em que ele vai tirar o pó do quadro com as borboletas espetadas e elas saem voando – foi a primeira vez que pernsei comigo: este cara é genial -; ‘Como Conquistar as Mulheres’, Alfie, a primeira versão, de Lewis Gilbert, com Michael Caine; ‘Geleiras do Inferno’, de William Wellman, com John Wayne; e o único que não conheço, ‘Pergaminho Fatídico’, de John Farrow, o pai de Mia, com Glenn Ford. Ah, sim, tem mais um - e é outro John Wayne, ‘Jake Grandão’, que também acaba de sair em blu-ray, um western de George Sherman em que o Duke, separado de Maureen O’Hara, volta para a casa dela porque o neto de ambos foi sequestrado e foi um erro dos bandidos, porque Big John vai pegar em armas e… Vocês sabem. George Sherman está longe de desfrutar de uma grande reputação junto aos críticos, mas pode-se assistir com prazer a muitas de suas incursões pelas pradarias do Velho Oeste (‘O Tesouro de Pancho Villa’, ‘Cavalgada para o Inferno’, ‘O Grande Guerreiro’ etc). O próprio ‘Jake Grandão’ tem certo encanto, embora boa parte dele venha da reunião, pela última vez, da dupla fordiana Wayne/O’Hara. O filme também é interpretado pelos filhos de Robert Mitchum (Christopher) e do próprio John Wayne (Patrick), o que acentua o caráter familiar, e não apenas pela trama. Aproveito o post para mudar o tom e manifestar minha indignação. Devo a meu amigo Márcio Fracarolli, da Paris Filmes, a oportunidade de ter enttrevistado – uma one a one – Woody Allen em Cannes, em maio. Mas a Paris Filmes me fez sair do sério no fim de semana. Devo ter ido só aos cinemas errados, mas queria ver o ‘Sem Saída’ de John Singleton, com o lobinho Taylor Lautner. Só encontrei versões dubladas e foi numa delas que assisti ao filme no PlayArte Marabá. Antes, só animações eram dubladas nos cinemas, mas agora, cada vez mais, os filmes saem nas duas opções, dublados e legendados, e as cópias das primeiras vão ultrapassando as segundas. Isso também é outra consequência da ascensão das classes C e D, que está mudando o mercado? Se for, lamento. Sempre achei que o Brasil, que o Gal. De Gaulle considerava ‘pas serieux’, era bem mais sério que a França pelo menos nesse quesito, porque lá, como em toda Europa – Espanha, Itália, Alemanha -, os filmes são falados nos idiomas locais. Mas até isso estamos copiando? E que raio de juventude é essa – eu devia ser o mais velho, na sala, para ver o astro da série ‘Crepúsculo’ – que tem tanta preguiça, ou será que é analfabeta mesmo, para dispensar as legendas? Vou muito ao Marabá e me irrita quando aquelas funcionáreias me advertem que as cópias dos filmes que quero ver têm legendas, como se fosse um problema. Justamente no caso de ‘Sem Saída’ a garota não disse nada, e eu deveria ter desconfiado que ali vinha bomba. Que m…, não?
Ainda a edição de ‘Cahiers’ a que me referi no post anterior. A revista dá conta de vários lançamentos importantes de DVD na França. Uma caixa de Edgar G. Ulmer, com seis discos e 12 filmes, incluindo clássicos como ‘Detour’/Curva do Destino e raridades como ‘Flor do Mal’, The Strange Woman. O resgate do mítico ‘Sal da Terra’, de Herbert Biberman, que reabre a polêmica sobre o mais engajado e militante diretor atingido pelo macarthismo – Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, não tem muito apreço por ele. Tudo isso é válido, mas o que me interessou, de fato, foram três lançamentos de Richard C. Sarafian. Por volta de 1970, ninguém era maior que ele no cinema de Hollywood, com dois filmes cults – ‘Corrida contra o Destino’, Vanishing Point, com roteiro de Guillermo Cain, aliás, Guillermo Cabrera Infante, e ‘Fúria Selvagem’, Man in the Wilderness, em que Richard Harris está genial. Pode parecer viadagem, mas não havia homem mais belo no mundo, nem Alain Delon, do que Richard Harris como Tyreen em ‘Juramento de Vingança’, Major Dundee, de Sam Peckinpah. A galanteria de Tyreen, na cena do baile com Senta Berger. Ecos de Rhett Butler. O texto de ‘Cahiers’, uma página inteira, faz a ponte entre a estrada de ‘Corrida’ e o Velho Oeste de ‘Fúria’ para sublinhar constantes estilísticas (e temáticas). O western, segundo Richard C. Sarafian – o terceiro filme, ‘The Man Who Loved Cat Dancing’, Amor Feito de Ódio, marca o detour do autor, sua curva do destino. É, ao mesmo tempo, o último grande filme de Sarafian e o início de sua vertiginosa decadência. No ‘Dicionário de Cinema’, Tulard diz que um dia será preciso fazer justiça a Sarafian. Não se faz outra coisa há mais de 20 anos. Eleanor Perry, ex-mulher de Frank, foi a roteirista de ‘Cat Dancing’. Ela sempre se queixou da traição a seu script, o que todo autor, sem desmerecimento da contribuição dos escritores, tem direito de fazer, porque o roteiro, sendo uma ferramenta importante, não é, em absoluto, uma bíblia que deva ser seguida ao pé da letra. Nunca saberemos o que houve naquele set, mas ocorreu um assassinato, a morte de um dublê, creio. O cara seria amante de Sarah Miles, atriz de Joseph Losey e David Lean, mulher do dramaturgo e roteirista Robert Bolt, e o estúdio, ao abafar o caso, criou sei lá que efeito infernal, mas muitas carreiras, não apenas a de Sarafian – a da própria Sarah, também –, entraram em parafuso a partir de ‘Cat Dancing’. Há algo de ‘Os Profissionais’ na trama de ‘Cat Dancing’. Lembram-se do western de Richard Brooks? Os quatro pistoleiros, incluindo Burt Lancaster e Lee Marvin, perseguem Jesus Raza, que sequestrou Claudia Cardinale e, no desfecho, descobrimos que a história é bem outra. Em ‘Amor Feito de Ódio’, outra mulher é sequestrada, mas Sarah Miles escolhe cavalgar, inclusive metaforicamente, com o pistoleiro Burt Reynolds, embora ele busque no corpo dela o que jamais poderá encontrar – o da pele-vermelha que foi seu grande amor, a Cat Dancing do título original. Tulard, sempre ele, define o clima do filme como ‘onírico’, mas poderia ser ‘bizarro’. Em ‘Fúria Selvagem’, Sarafian, de alguma forma, inventou Werner Herzog. Exagero, sei, mas um ano antes de ‘Aguirre’ e quase dez antes de ‘Fitzcarraldo’, ele criou um personagem com similaridades com os daqueles filmes. O caçador Richard Harris é dado como morto e abandonado, mas ressurge, por meio de ritos xamânicos dos índios, para se vingar, perseguindo o capitão John Huston, que carrega seu navio pelas planícies do Oeste. Que filme! Vamos botar no plural, que filmes, os da grande fase de Sarafian!
Cinema é… a melodia do olhar. Nicholas Ray. Uma das grandes cenas (a maior?) do cinema em 2011, não me canso de destacar no blog, no jornal e até nos filmes da TV, é aquela de ‘Super 8’, de JJ Abrams, em que o garoto, comunicando-se com o monstro, começa a falar, como se quisesse tranquilizá-lo, sobre as perdas irreparáveis e, na verdade, está falando para si mesmo, para o vazio que ameaça devorá-lo – o verdadeiro monstro –, após a morte da mãe. A humanização do alien passa pelo olhar. Somente ontem consegui comprar a ‘Cahiers’, acho que de julho/agosto, à venda nas bancas da Paulista. A capa ostenta o número 8 e inclui uma extensa cobertura sobre o filme de JJ. Na edição anterior, ‘Cahiers’ fez o mesmo com ‘A Árvore da Vida’, entrevistando todo mundo, mas era para compensar o fato de que Terrence Malick, 171 ou…?, não dá entrevistas. Adorei a entrevista de JJ. Aliás, adoro JJ. Não me canso de rever, sempre que passam na TV paga, ‘Missão Impossível 3’ e ‘Star Trek’. Esse último revi outro dia. É lindo, e aquele final, o reencontro do jovem Spock com o velho em que se converterá/converteu, é de cortar o fôlego. O assunto com JJ é… mise-en-scène. Imagino a cara dos coleguinhas, soldados da causa que já foi, e que devem achar que um diretor norte-americano de blockbusters não entende nada de mise-en-scène. Coitados, perderam, duplamente o bonde da história, o trem, para pegar carona em Alexander Medvedkine. (A propósito, fiz para o ‘Caderno 2’ de domingo uma matéria sobre o lançamento, em DVD, de ‘Elegia a Alexandre’, de Chris Marker.) A sacada de JJ. Ele conta que teve a ideia de superpor, digitalmente, na cena em que o garoto e o ET ficam nariz com nariz, os olhos da atriz que faz a mãe nos filmes domésticos na cara do monstro. Não é à toa que aquele olhar me fascinou tanto. Vou ver se o filme ainda está em cartaz, em alguma sala por aí. JJ diz que a espetacular cena do acidente de trem lhe deu muito trabalho, mas também prazer de filmar, mas que o verdadeiro efeito especial de ‘Super 8’ é aquela troca de olhares pelo que revela do interior, da intimidade, do seu jovem protagonista. Amei.
Havia assistido no sábado a ‘Sem Saída’, o novo thriller com o lobinho Taylor Lautner. O título é o mesmo de outro thriller – bom – de Roger Donaldson com Kevin Costner, lá pelo fim dos anos 1980. O novo ‘Sem Saída’ é dirigido por John Singleton e eu confesso que gostei de ter visto, embora não seja louco de recomendar. Entrevistei Taylor Lautner quando veio a São Paulo com Kristen Stewart para lançar acho que o ‘Lua Nova’, da saga ‘Crepúsculo’. Havia adolescentes, muitas meninas, acampadas na frente do hotel para ver a dupla e a própria Kristen me disse que a histeria seria muito maior se Robert Pattinson, o Edward, estivesse com eles. Entendo perfeitamente o sucesso de Kristen e Pattinson, mas, para o meu gosto, acho os dois muito sem graça, para não dizer insossos. Kristen ainda tem uma passividade interessante, que a credencia como heroína romântica. Já o Taylor de ‘lobinho’ não tem nada. O cara, aos 19 anos, pode ainda ter cara de bebê, mas é um cavalão, benza a Deus, e segura a onda como herói de ação que, na hora H, põe a mocinha no colo e não é exatamente para embalar. ’Sem Saída’ é sobre esse garoto que descobre a própria foto num site de crianças desaparecidas. Se isso é verdade, quem são aquelas pessoas que ele sempre considerou seus pais? O herói nem tem tempo de formular a questão e assiste ao assassinato de papai e mamãe, virando alvo de uma implacável caçada humana em que, a cada momento, tem de testar e provar suas habilidades. Quando disse que gostei de ver ‘Sem Saída’ não foi propriamente por Taylor Lautner e sim, pelo diretor. Identidade, família, o assassinato da mãe (e aqui também do pai), tudo aproxima ‘Sem Saída’ de ‘Quatro Filhos’, o filme anterior, com Mark Wahlberg, que John Singleton adaptou do westernm ’Os Filhos de Kate Elder’, de Henry Hathaway. O curioso é que, repensando a carreira do diretor, e apesar de alguns acidentes de percurso, os novos filmes são coerentes, em estilo e temas, com os anteriores – ‘Os Donos da Rua’, ‘Sem Medo no Coração’ e ‘Duro Aprendizado’. Particularmente, ‘Sem Saída’ tem uma cena muito boa – e de uma violência selvagem – quando Taylor enfrenta o sicário no exíguo espaço da cabine do trem. Tenho a impressão de que esses espaços fechados, concentracionários e claustrofóbicos vêm se multiplicando desde aquela luta no box – reminiscência de ‘Psicose’? – no segundo ou terceiro filme da série ‘Bourne’, com Matt Damon. Taylor Lautner tem futuro no cinema? Fora da série ‘Crepúsculo’? ‘Sem Saída’ indica que sim. O filme é, no mínimo, melhor do que ‘Água para Elefantes’, ou coisa que o valha, que era muito ruim, inclusive por causa de Riobert Pattinson, que não tinha química nenhuma com Reese Whiterspoon.
Meus amigos, não estou conseguindo dar conta das novidades aqui no blog. Ontem fui ao Rio, bate e volta, para visitar o set da nova comédia de Betse de Paula. Marisa Leão produz ‘Vende ou Aluga’ e isso representa um upgrade para a Betse, como diretora. O elenco inclui quatro gerações de mulheres de uma mesma família – Natália Timberg, Marieta Severo, Sílvia Buarque e a filha da Betse, … A quinta personagem é a casa no Leme em que a produção está sendo filmada. Sensacional! Já fiquei ali no Othon Leme, no Green Tulip e andei muito por aquela rua para ir a um restaurante francês muito simpático, que adoro, e nunca me chamou a atenção a tal casa, que sobe a encosta do morro, com a favela de fundo. Passei momentos muito agradáveis conversando com Natália, com Marieta. Elas retomam os papéis, de mãe e filha, que fizeram no começo da carreira de Marieta, em ‘Society em Baby-Doll’. Marieta faz uma antiga atriz, Maria Alice, que agora vive na casa caindo aos pedaços. Betse gostaria que o filme se chamasse ‘A Casa Cai’ e a trama passa-se num único dia, quando surge um comprador que poderá tirar a família da m… Para ilustrasr a glória passada de Maria Alice, ass paredes osgtyentyasm cartazes de seus hits – ‘O Ano Passsadso em Maricá’ e uma foto (montagem) em que Marieta e Leila Diniz aparecem grávidas, na praia. Issoi nunca ocorreu, é uma licença poética, Leila na sua célebre foto de biquínio, com aquele barrigão enorme e Marieta também grávida de Sílvia (e é a primeira vez que elas fazem mãe e filha no cinema). Estava todo mundo tão animado no set. Espero que ‘Vendo ou Alugo’ dê certo, at´[e porque gosto, a despeito de suas limitações, das com´pedias anteriores de Betse de Paula, ‘O Casamento de Luiza’ e ‘Celeste e Estrela’. Agora à noite, fui com, meu amigo Dib Carneiro ao aniversário de Célia Forte. 50 anos esta noite! Assessora, dramaturga, jornalista, Célia masis umsa vez condseguiu rteunir um monte de genter no Café Paris, ali na Haddock Lobo. Parabéns! A caminho das festa, passei pela Artur Azevedo, onde mora o Dib. Enquanto ele descia, fui tomar um café na ‘minha’ padaria, a Trigonela, na esquina da Virgílio. Entrei e dei de cara, no balcão, com Marcelo Gomes. Nunca soube que Marcelo tinha um apartamento ali perto, na própria Virgílio. Somos vizinhos, pois moro na Joaquim Antunes. Marcelo me falou do novo filme, ‘Era Uma Vez Verônica’, cuja montagem – a primeira – levou ao Cine en Construción, em San Sebastián. Marcelo volta daqui a pouco ao Rio para o festival e para iniciar a segunda montagem. Fiz a pergunta tola, se ele está gostando do novo trabalho. Me encantou ouvir o que disse, e o Karin (Ainouz) também já me havia dito. É um prazer, segundo eles, trabalhar com Hermila Guedes e, com a Hermila, metade do sucesso do filme já está assegurada, desde que eles, os ‘autores’, não errem muito. Adoro a Hermila, não só como atriz, e me encanta ver esses grandes diretores falarem bem dela.
Conversei ontem, ou anteontem, com Ziraldo sobre sua professora maluquinha. A uma observação minhas de que o filme era doce, ele reagiu com altos elogios ao quarteto criador – os diretores André Alves Pinto e César Rodrigues e os atores Paola Oliveira e Joaquim Lopes -, dizendo que gente assim tão doce não faria um filme amargo. Adorei a definição e acrescento que, desde que assisti à produção da Diler, tenho viajado nas lembranças. Repassei uma a uma minhas professoras do primário, no Grupo Escolar Gal. Daltro Filho. Dona Anita foi a primeira, no 1º ano, e sua pedagogia, bastante primitiva, consistia em bater na cabeça da gente com uma vara que ela usava para apontar o que escrevia no quadro-negro. Lembrei-me de uma colega, a Iolanda, que trocava P por B e era a vítima preferida de D. Anita, que batia na cabeça dela a torto e a direito. Depois vieram D. Maria Helena, no 3º ano, D. Jaci, a mais doce de todas, no 4º, e D. Nair, no 5º. Saltei a professora do 2º ano, que tonto, era D. Cecília, o nome de minha mãe, como estava esquecendo? Foram, todas importantes na minha formação e aqueles eram outros tempos. Acompanhei, estarrecido, duas histórias recentes, que li no jornal. Uma professora pediu ao aluno de 14 anos que desligasse o celular, que não parava de tocar e perturbava o andamento da aula. Ele reagiu nocauteando a professora com um soco nas costas que a deitou por terra. O outro aluno deu um tiro na professora e se matou. Ela, no hospital, quando soube quem havia sido o autor do disparo, disse uma coisa que ‘me’ derrubou. “O D., não, ele é o mais bonzinho da aula.” Não sei exatamente como reagir a essas histórias, mas elas me perturbaram muito. O mundo das mentes enfermas. O garoto da primeira história era um Zé Pequeno – ‘Zé Pequeno, um caralho, ninguém, me manda desligar o celular.’ Se tivesse um revólver ele com, certeza teria fuzilado a professora, que não sobreviverias para manifestar sua tristeza. O outro garoto… Por que? Imagino a desolação da família, a perplexidade dos colegas. Pensei na D. Anita, que teria dado uma lambada na cabeça do guri, terapia do joelhaço, muito eficiente na ficção do Analista de Bagé. Mas os assuntos são graves. Antes até que a escola, a família deve impor limites. Nenhuma liberdade é absoluta, o direito de um termina onde começa o do outro etc. Regras básicas de civilidade que não se aplicam aos Zés Pequenos. Talvez a escola de ‘Uma Professora Muito Maluquinha’ seja uma fantasia – embora seja real na história pessoal de Ziraldo. Uma fantasia como a de Sempé, filmado por Laurent Tirard, ‘Le Petit Nicolas’. Tão bonitos os filmes, impregnados de uma nostalgia que talvez agrade mais aos adultos, mas que não escapa às crianças. Tão absurda – e cruel – a realidade. Tem gente que, infelizmente, já parece nascer amarga.
É sempre assim. Um post puxa outro. Falei da Première Brasil – Marcos Didonet me ligou hoje para combinarmos as mesas das quais farei a mediação, durante o Festival do Rio – e não resisto a comentar o e-mail com informações que me mandou a Lilian, que faz a assessoria do evento. O Festival do Rio já confirmou filmes que estavam em Veneza e estou nos cascos para ver – ‘A Dangerous Therapy’, ‘Terraferma’ etc -, mas nada me entusiasmou tanto quanto a homenagem a Patricio Guzmán e a retrospectiva de… Quem? Dario Argento. O pai de Asia ganha revisão, espero que completa. Não apenas os filmes do começo da carreira, ‘O Pássaro das Plumas de Cristal’, ‘O Gato de Nove Caudas’ e ‘Quatro Moscas no Veludo Azul’, mas também os dramalhões cujos excessos fizeram a reputação do cineasta. ‘Suspiria’, ‘A Mansão do Inferno’, ‘Phenomena’ e ‘A Síndrome de Stendhal’. Aleluia! Espero reencontrar no Rio Patricio Guzmán, de quem cerrei a mão, no começo do ano, em Paris, naquele cinema, La Clef, em que se realizou o debate de ‘La Nostalgia de la Luz’. O filme é maravilhoso, mas o que me caiu como um raio foi o clima da sessão, com todos aqueles chilenos exilados que se irmanavam lembrando os anos que lhes foram roubados com a derrocada da Unidade Popular. ‘La Nostalgia de la Luz’ é, entre outras coisas, sobre familiares que escavam o deserto de Atacama em busca dos restos de seus entes queridos, mortos pela brutal ditadura de Pinochet. O Atacama é a região mais rarefeita da Terra. Ali se tem a vista mais completa do céu, em todo o planeta. Uma luz especial – a luz que Guzmán vem lançando, com seu cinema documentário, sobre a trajetória de Salvador Allende e o que ocorreu no Chile. Guzmán vai receber o prêmio de Personalidade Latino-Americana. Não quero idealizar ninguém, até porque tenho ouvido duras críticas a Guzmán. Como depositário das imagens que reuniu sobre o Chile, e Allende, ele estaria monopolizando esse acervo, ao invés de torná-lo acessível. Será um tema para discussão. Já o filme, ‘Nostalgia’, é admirável. Guzmán pertence à geração de Raúl Ruiz e Miguel Littín. Um pouco mais velho que eles era Aldo Francia. Todos autores da Unidade Popular, do sonho socialista chileno do começo dos anos 1970. Ruiz morreu há pouco (e pediu para ser enterrado no Chile). Guzmán ganha homenagem. Que venha o Festival do Rio e, na sequência, a Mostra de São Paulo. Como diz meu querido amigo Nei Duclós, ‘lento e bruto eu mudo/sei que vem outubro’.
Sei lá o que ocorreu, mas havia alguns comentários sobre o post ‘Professoras’ que terminei por deletar, quando tentava salvá-los. Posso me desculpar, ou então pedir às pessoas que os postem, de novo. Pedido feito, deixem-me contar que, às quintas-feiras, a buldogue da Lúcia vai à ‘creche’ e, por uma questão de conveniência, a kombi escolar deixa a Angel em minha casa. Já virou chacota do pessoal do jornal, mas às quintas, à tarde, dou um jeito de passar em casa para ver como está minha ‘neta’. Cheguei hoje e encontrei a própria Lúcia. Minha filha fazia uma pesquisa na internet. Érico e ela estão pensando em ir a Paris, nas férias, e ela queria saber o nome do hotel do 5ème em que gosto de ficar, o Argonautes. Abrimos o site e tive um choque. O Argonautes fechou, definitivamente, em 30 de julho, depois de 30 anos de atividades. Há uns 20 vou regularmente a Paris. Nunca fico muito, mas já houve ano em que fui seis vezes. Trinta e tantas vezes, 40 visitas à França não representam pouca coisa. Com exceção dos dois ou três primeiros anos, quando ficava no Hôtel des Écoles, Rue des Écoles, o Argonautes há tempos vinha sendo minha casa. Bastava ligar e o Jannis, que atendia na recepção, sempre arranjava lugar para mim, independentemente de ser alta ou baixa estação. Meu amigo Dib Carneiro detestou o hotel. Achou-o pobrinho demais, e nem a localização privilegiada – a dois passos de Notre Dame, com todos aquelas salas de art-essai nas redondezas, mais as livrarias especializadas em quadrinhos e cinema - o fez mudar de ideia. Para mim, o Argonautes havia virado uma referência e uma segurança. Para onde terá ido meu amigo Jannis? Onde ficarei agora, ao voltar à França? Pode parecer tolice, mas ao ler o comunicado no site senti como se fosse o fim de uma era. Da minhas vida, pelo menos. Nunca mais o Argonautes! A notícia aborreceu-me, mais do que me entristeceu, muito mais do que sou tentado a admitir. Quantos dias e noites da minha vida passei naquele hotel, lendo, fazendo matérias? O Argonautes não tinha TV no quarto, mas tinha wi-fi liberada, o que é raro em hoteis da Europa e dos EUA. Bastava se conectar e o mundo todo estava ao alcance da gente. Os Argonautas, Jasão e o Velo de Ouro. Agoras j´sa estou viajando na Grécia. O Dib embarca dia 5 para a Grécia. Vai com o filho, Heitor, e a sobrinha, Elisa. Dib tem essa amiga de Bauru, a Cristina, que estudou com ele na Eca. Cristina é guias turística e, todo ano, organiza excursões temáticas à Grécia. O tema deste ano é a tragédia grega, e Dib não resistiu. Vai ser, para ele, o desdobramento do que tem sido sua atividade diária nas últimas semanas. Gasbriel Villela, qwue acasba de estrear ‘A Crônica da Cidade Amada’ na cidade, prepara, paras o começo de novembro, a montagem de ‘Écuba’, sem H, adaptado de ‘As Troianas’, que virou filme de Michael Cacoyannis com Katharine Hepburn, Vanessa Redgrave, Geneviève Bujold e a mais ‘trágica’ de todas, Irene Papas. Quase dembarquei nessa, mas a duração da viasgem corresponde exatamente ao Festival do Rio. Sorry, mas não há Grécia que me faça desistir das Première Brasil. E todo esse post começou com o fechamento do Hôtel des Argonautes. Deus, como eram maravilhosas as trucagens de Ray Harryhausen em ‘Jasão e o Velo de Ouro’. Mais de uma vez, no escuro da noite, minha imaginação me transportou daquele hotel para o épico mitológico de Don Chaffey. Bastava olhar para as paredes do Argonautes, com todas aquelas evocações míticas. Como diria Ricardo Guiraldes, estoiu me sentindo o próprio Don Segundo Sombra, com o coração ‘que desangra’.
Não tenho feito outra coisa se não viajar nas lembranças desde que recebi ontem os novos DVDs da Cult Classics. ‘Meu Marido de Batom’, de Bertrand Blier, e ‘Pedro, o Negro’, de Milos Forman. O cinema checo! Me vieram todos aqueles filmes a que, jovem, assistia em Porto Alegre. Nouvelle vague, cinema soviético, neo-realismo italiano, expressionismo alemão. E, nos cinemas, o novo cinema polonês, o checo, o alemão. Não sei se consigo colocar em palavras, mas, por mais forte que fosse a impressão que me produziam os poloneses, Andrzej Wajda era, sempre foi, muito pesado. O cinema checo, pelo contrário, parecia tão leve. Os filmes eram mais bonitos, visualmente. Retratavam a juventude com um frescor verdadeiramente inebriante. ‘Pedro, o Negro’ foi o segundo longa de Forman, em 1963. Vieram depois ‘Os Amores de Uma Loira’, ‘O Baile dos Bombeiros’. Ao mostrar sua ‘Loira’ em Cannes, Forman disse alguma coisa como gostar de retratar a juventude porque os homens e mulheres de sua geração, dos 30 aos 50 anos, só pensavam em suas carreiras. Os jovens eram contestadores. Pedro arranja um emprego para agradar ao pai, mas ele não gosta do que faz. Entre outras coisas, Petr, ou Piotr, tem de espiar os clientes da mercearia, teoricamente paras impedi-los de roubar, mas Forman estava falando, metaforicamente, da vigilância do regime comunista que, em 1968, esmagou, com a força de seus tanques, a primavera de Praga. Pedro e os pais, a namorada, o patrão, o mundo ao redor. Forman havia sido assistente de Ivo Novak. Como se chamava aquele filme domn Ivo, ’Desafio à Vida’? Sob o impulso da nouvelle vague, Forman estuda os costumes, as palavras, os gestos, os sorrisos dos homens e mulheres. Como ele dizia, não era preciso estilizar a superfície das coisas para penetrar muito além, e muito fundo, nessa superfície. Fugindo dos tanques, o diretor foi para Paris em 68. Ligou-se a Jean-Claude Carrière e escreveram o que virou ‘Taking Of’, Busca Insaciável, quando Forman foi para os EUA. Pais fundam associação para procurar os filhos que desapareceranm. Numa cena, eles fumam maconha. Forman subverte as próprias regras e propõe o retrato – amargo? irônico? – dos adultos face à juventude perdida. Quem diria que Forman ia se adaptar tão bem em Hollywood? ‘Um Estranho no Ninho’, ‘Na Época do Ragtime’, ‘Valmont’, ‘Larry Flint’. Eu amo Milos Forman, seu humor, sua liberdade, tanto a ideológica quanto a de tom. Ele foi sempre uma fonte inesgotável de invenção formal (e visual). Seu filme mais recente, ‘Os Fantasmas de Goya’, me deixou chapado por sua virulência crítica e vigor narrativo. E tudo começou lá atrás, em 1963, com ‘O Concurso’, que já apontava o caminho. A expectativa dos jovens, face ao mundo adulto. No mesmo ano, ‘Pedro, o Negro’. É maravilhoso. Com Forman me vêm todos os outros grandes checos – Jiri Menzel, Kadar e Klos, Vojcech Jasny, Karel Kachyna, Karel Zeman, Vera Chytilova. A juventude de Forman, o feminismo de Vera – ‘As Pequenas Margaridas’. Estou em casa, preciso parar para sair para uma entrevista. Caso contrário, fico aqui, entre trens estreitamente vigiados e aquele gato, naquele dia.
Confesso que gostava dos policiais de Alain Corneau. ‘Calibre Python 357’, ‘Encurralado para Morrer’, ‘Série Noir’. E, então, em meados dos anos 1980 veio a virada, com ‘Fort Saganne’. Corneau, considerado o mais clássico cineasta de sua geração, trocou a cidade pelo deserto – e pelo passado colonial francês. Gérard Depardieu, Catherine Deneuve, Philippe Noiret, Sophie Marceau, imagens deslumbrantes, a trilha idem e a história calcada nas velhas aventuras da Legião Estrangeira, com ecos de ‘Beau Geste’. Depardieu combate tribos nômades no Saara. Saudades de ‘Lawrence da Arábia’ e de Alec Guinness, dizendo a seus ‘filhos’ Peter O’Toole e Omar Sharif que eles devem sair de cena porque começa a política profissional e, com ela, a podridão. É um pouco a trajetória do tenente Saganne e das duas mulheres de sua vida, a jovem Sophie Marceau e a mais madura Deneuve, na França de 1910/11. Na sequência, Corneau inspirtou-se em Antonio Tabucchi para ‘Noturno Indiano’, a trilha de Schubert e a história do francês que busca, na Índia, um amigo desaparecido e encontra o conhecimento (e o sentido da vida). No começo dos anos 1990, Corneau chega, enfim, ao ápice com ‘Todas as Manhãs do Mundo’. Jean-Pierre Marielle é extraordinário como o senhor de Saint-Colombe, que, no século 17, levou a viola de gamba à perfeição, mas o filme não é sobre a arte da música. A grande, a verdadeira arte para Corneau, em ‘Todas as Manhãs’ como em ‘Noturno Indiano’, é sempre o ser humano. O que buscam os personagens do autor? A transcendência. O que busca, ele próprio? A superação, como homem e artista? Corneau dá a impressão de desconfiar dessa superação, porque o que lhe interessa é o homem com seus limites. Depardieu e Marielle vivem experiências diversas, mas a dádiva da manhã que buscam é rigorosamente a mesma – a vida. Nunca consegui assistir ao remake de ‘Le Deuxième Souffle’, Os Profissionais do Crime. Corneau, que foi considerado o herdeiro, o sucessor de Jean-Pierre Melville no filme noir, refez um dos maiores filmes do mestre. A repercussão não foi aquela com que ele sonhava, nem de público nem de crítica. Corneau morreu em agosto do ano passado, aos 67 anos. E, agora, a Signature Pictures resgata ‘Fort Saganne’ em DVD. Outro filme com a bela Deneuve, como ‘A Chamada do Amor’, La Chamade. Estou adorando esses reencontros com autores, e filmes, que pareciam distantes – perdidos? - no meu imaginário.
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