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Luiz Carlos Merten

RIO – Nem vou contar para vocês – agora – meus percalços no dia de ontem. Achei que chegaria aqui e poderia postar sobre meu encontro com Graciela Borges, mas ao sair do cinema, à meia-noite, e ligar para meu editor, soube da morte de Arthur Penn. Arthur Penn! Na hora, não me caiu a ficha, porque ainda estava no clima do filme a que havia assistido, ‘Mine Vaganti’, uma sessão verdadeiramente inesquecível, e depois eu conto por quê. Acho que comecei a gostar de Arthur Penn antes mesmo de assistir a seus filmes. O primeiro, ‘Um de Nós Morrerá, com Paul Newman como Billy the Kid, eu vi muitos anos depois da estreia (e de haver assistido a outros filmes do diretor). Mas eu adorava ler Maurício Gomes Leite, que fazia crítica de cinema na ‘Manchete’, por volta de 1960 (um pouco depois). Era textos pequenos, mas sempre primorosos. Nunca me esqueço quando o futuro diretor de ‘Vida Provisória’, um dos meus cults do cinema brasileiro, resolveu escrever sobre westerns. Ford, Anthony Mann e ‘Le Gaucher’, que Maurício citava em francês – o filme chama-se ‘The Left-Handed Gun’, no original. Maurício Gomes Leite talvez tenha sido o mais nouvelle vague dos críticos e cineastas da época (no Brasil). Ele amava Penn e me transmitiu esse amor. Quando vi ‘Um de Nós Morrerá’ já conhecia ‘O Milagre de Anne Sullivan’ e acho que até ‘Mickey One’, com Warren Beatty, que tinha um título esquisito por aqui. Eu começava a pensar o cinema e Penn reatava com o cinema clássico de Griffith (‘Anne Sullivan’) ou refazia à européia os gêneros tradicionais (‘Um de Nós Morrerá’). Tive o privilégio de lhe fazer algumas perguntas no Festival de Berlim, quando ele recebeu um Urso de Ouro de carreira, há alguns anos. Não resisti e perguntei sobre os filmes da primeira fase – psicanalítica -, quando ele identificava armas com a genitália masculina. Mesmo depois, Penn nunca deixou de refletir sobre os EUA – a América – como um terrirório fundado na violência e no qual as pessoas e os governantes não conseguem resolver seus conflitos senão por meio delas. Penn fez filmes notáveis – ‘Um de Nós Morrerá’, ‘Anne Sullivan’, ‘Caçada Humana’, que ele renegava, porque o filme que fez foi remontado pelo produtor Sam Spiegel, ‘Bonnie & Clyde’ (‘Uma Rajada de Balas’), ‘Deixem-nos Viver’, ‘Pequeno Grande Homem’. ‘Um Lance no Escuro’ etc. Nenhum outro filme, de nenhum outro autor, revela o que era o clima dos EUA, em pleno escândalo de Watergate, com a força do último. E ‘Bonnie & Clyde’ é maravilhoso. A euforia do começo, os assaltos filmados como nas velhas comédias silenciosas, nas quais os carros entravam como bichos domésticos. Depois, a cena do milharal e a comédia que cede espaço à tragédia, concluindo no tiroteio final, decupado em 50 planos. Clyde, impotente, sublima sua necessidade de sexo – e Bonnie o acompanha – brandindo armas. Quando finalmente, ele tem sua ereção, os dois fazem sexo e sonham com um recomeço, o ‘sistema’ se abate sobre a dupla com sua máquina de matar. No way out, sem saída. Eu amava Penn. Segui-o como cão fiel, aonde foi, em Berlim. Falei com ele, mas na maior parte do tempo fiquei intimidado, o que é raro em mim. Não é o melhor filme, mas ‘Amigos para Sempre’ tem aquela cena genial. O protagonista recebeu um tiro. Está no hospital. Seu pai, um emigrante europeu, olha para o filho estendido na cama e diz apenas, com amargura, ‘América!’ Embora tenha feito grandes filmes, e filmes de grande sucesso, Penn nunca fez parte do ‘sistema’. Foi sempre um outsider. Seu final de carreira foi difícil e ele fez, aceitou fazer, filmes abaixo de suas possibilidades. Voltou ao teatro, seu primeiro amor, que o levou à TV, antes de desembarcar em Hollywood. É conhecida a história. Warren Beatty, que produziu ‘Bonnie & Clyde’, queria que Jean-Luc Godard ou François Truffaut dirigissem o roteiro de David Newman e Robert Benton. No final, foi Penn quem assumiu o projeto – felizmente. Não sobram muitos diretores de sua geração. Sidney Lumet e algum outro que estou esquecendo agora. Mas Lumet aceitou mais compromissos, tem uma trajetória irregular e seus melhores filmes não valem os de Penn. A ficha caiu. Me baixou uma tristeza.

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29.setembro.2010 12:59:08

‘Mary Stuart’

RIO – Dei uma olhada rápida nos comentários e pesquei o de… – Quem? -, me pedindo que comentasse ‘Mary Stuart’, no ciclo John Ford. O filme pertence à fase do Ford ‘intelectual’ dos anos 1930/40, que adaptou os clássicos, quase sempre com roteiro de Dudley Nichols. São filmes como ‘O Delator e ‘Long Voyage Home’, baseado em Eugene O’Neill, ambos fortemente expressionistas, e também ‘Mary Stuart’, adaptado da peça de Schiller. Katharine Hepburn é quem faz o papel e o filme é centrado no julgamento da personagem, que será condenada ao cadafalso, num jogo de cartas marcadas. Orson Welles, explicando certa vez as pesquisas de cenário de ‘Cidadão Kane’, citou o John Ford de ‘No Tempo das Diligências, com as cenas dentro da diligência, propriamente dita, aquele teto baixo oprimindo os personagens. Sempre achei que ‘Mary Stuart’ talvez tivesse influenciado Welles mais ainda. Aquele formato de arena para o julgamento, a bancada dos juízes, num plano mais alto. Não é dos melhores filmes de Ford e eu o vi dublado, mas me fascinou. E Hepburn é gloriosa. Conta a lenda que Ford e ela tiveram um tórrido affair e o grande diretor quase largou da mulher para ficar com a estrela. Só como curiosidade, amanhã passa, na TV aberta, ‘O Céu Mandou Alguém’, The Three Godfathers, os Três Reis Magos de John Ford, que Albert Serra também deve ter visto antes de fazer sua belíssima versão de ‘invenção’, que vi e revi em Paris, quando? Há dois anos? O importante é que reveria de novo.

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29.setembro.2010 12:42:22

‘Carlos’!

RIO – Ando em êxtase aqui no Festival do Rio. Adorei o documentário de Georges Gachot sobre Nana Caymmi, ‘Rio Sonata’. Ela é uma personagem maravilhosa. Numa cena, jogando cartas, tem uma explosão -  ‘Me adoro cantando essa música!’ Nana fala de uma música composta pelo irmão Dori. Poderia ser uma coisa narcisística, insuportável. Achei genial e quando Nana lembra – e canta – ‘Acalanto’, no final, abri o berreiro. Ontem à noite, parei com tudo para ver ‘Carlos’. Em Cannes, havia visto um pedacinho do filme para entrevistar Olivier Assayas. Ontem, assisti à íntegra. A sessão começou às 6 da tarde – 18h10, porque houve apresentação de Ilda Santiago com o produtor Raphael Cohen. Com um breve intervalo – de 21h50 às 22 h -, ‘Carlos’ se prolongou até depois da meia-noite. Puta filme. Na entrevista, Assayas me havia dito que não teria feito o filme diferente, se fosse para cinema. Na TV, dispondo de mais duração, seu desafio era evitar a monotonia e, por isso, ele fez ‘Carlos’ com grande liberdade de tom – e estilo -, investindo numa trilha forte. Edgar Ramirez, ator venezuelano que faz o papel, é poderoso. Fodão. Tem uma cena de nu frontal, em que admira, narcisisticamente, o próprio corpo, mas ela não é gratuita. Remete a outra, depois, em que a inatividade deixa o personagem gordo como um porco. O filme é crítico em relação ao lendário terrorista, mas não o condena nem julga. Assayas não faz julgamentos morais. Numa cena, Carlos fala com o ministro saudita do petróleo, a quem sequestrou. Diz que vai mata-lo e espera compreensão. Faz uma análise, para o cara, do que ambos representam. Foram aliados no passado, o confronto agora é inevitável. O filme apresenta um extenso trabalho de documentação e reconstituição de época, mesmo que a vida de Carlos seja controversa e muita coisa, quase tudo, seja ficcional.  Neste sentido, chega a ser ‘viscontiano’, embora o estilo de Assayas, mesmo em seus filmes de época, como ‘Les Destinées Sentimentales’, não tenha nada a ver com o do grande Luchino. Mas aquela fala contribui para a sensação que tive. O filme é sobre o fim de uma época. A geopolítica muda e, com a derrocada do comunismo, o novo desenho de valores econômicos e estratégicos não se baseia mais na ideologia e sim, num jogo de interesses no qual um personagem como Carlos se torna obsoleto. Ele ainda tenta se iludir, mas termina tomando consciência disso. Gostei demais e só espero que Leon Cakoff e Renata de Almeida, que amaram ‘Carlos’ em Cannes, levem a íntegra do filme para a Mostra e não a versão reduzida de 150 minutos. Vocês merecem ver as mais de cinco horas do filme. Quero ver se alguém reclama, depois.

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RIO – Claro que não é, mas ainda há pouco, ao descer para meu almoço, me surpreendeu o seguinte. Em plena Av. Rio Branco, camelôs anunciam, aos berros, o DVD de ‘Tropa de Elite 2′. José Padilha ia enfartar, se fosse o filme dele de verdade. Ele adotou medidas excepcionais de segurança – e até distribui o próprio filme -, justamente para evitar o ocorrido com o ‘Tropa 1′. Tenho de sair para ver o ‘VIPs’, mas prometo comprar o tal DVD para descobrir que gato está sendo vendido por lebre. Até imagino que possam ter misturado o 1, para justificar Wagner Moura, com cenas de ’400 contra Um’ e o que mais? O bom e velho ‘Notícias de Uma Guerra Particular’? O suspense sobre ‘Tropa 2′ termina na semana que vem, quando o filme estreia em Paulínia, dia 5 à noite, antes de ganhar as telas de todo o Brasil, dia 8. ‘Tropa 2′ vai ser o grande fenômeno que todo mundo está esperando? Estou nos cascos para ver, ainda mais estimulado pelo que me disse o Wagner, quando o visitei no set de ‘O Homem do Futuro’. Ele me disse que ‘Tropa 2′ é extraordinário. Estou torcendo para que seja.

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27.setembro.2010 14:11:51

Westerns!

RIO – Fui agora comer alguma coisa e voltei à sucursal ndo ‘Estado’, por conta de entrevistas que tenho de fazer (pelo telefone). Há aqui no Largo da Carioca uma banca que vende DVDs. Tem uma oferta enorme de westerns. John Sturges é campeão – ‘A Fera de Forte Bravo’, ‘Sem Lei sem Alma’, ‘Duelo de Titãs’, ‘Sete Homens e Um Destino’. Mas tem também Gordon Douglas, ‘Resistência Heroica’, com Gregory Peck. E os italianos – ‘Sábata’, ‘Django’, ‘Sartana’, ‘Keoma’. Nesta correria que já virou o Festival do Rio para mim, não estou tendo muito tempo de postar, que dirá de fugir aos assuntos ligados à programação. Mas como está a mostra John Ford aí em São Paulo? Vocês têm feito sua lição de casa? Têm visto os filmes? O próprio Ford privilegiava sua produção de westerns e, entre os que fez, em Monument Valley, estão algumas das maiores obras-primas do gênero – ‘Rastros de Ódio’, ‘Rastros de Ódio’, ‘Rastros de Ódio’. E, depois, ‘No Tempo das Diligências’, ‘Sangue de Herói’, ‘Terra Bruta’, ‘O Homem Que Matou o Facínora’ etc. Existem os filmes ‘oscarizados’ – quatro Oscars de direção, por ‘O Delator’, ‘Vinhas da Ira’, ”Como Era Verde o Meu Vale’ e ‘Depois do Vendaval’ -, mas quero pedir que vocês prestem atenção e não percam ‘Nas Águas do Rio’, Steamboat Round the Bend, que integra o ciclo com Will Rogers. Assim como sonhou com uma Irlanda idealizada em ‘The Quiet Man’, Ford construiu a sua ‘América’ na tela e nenhum filme espelha isso melhor do que ‘Nas Águas do Rio’. Às vésperas de uma eleição, todo mundo tem a sua noção de democracia – Agatha Christie dizia que a palavra tem múltiplas aplicações e elas raramente fecham com o sentido que lhes atribuíam os gregos, pais da criança, demos + cracia -, mas eu tenho para mim que democracia é aquilo que a gente aprende com Ford e Will Rogers e também na cena famosa de ‘Liberty Valance’, a escola, uma coisa que me emociona só de pensar. Insisto - você estão prestigiando a mostra de Ford no CCBB, aí em São Paulo? Espero que sim, até porque não haveria justificativa para não.

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27.setembro.2010 10:09:30

Êxtase!

RIO – Olá! Cá estou na sucursal do ‘Estado’ e, antes mesmo de começar a redigir meu material do dia, para a edição de amanhã do ‘Caderno 2′, quero dar uma geral sobre o Festival do Rio. Tenho feito entrevistas incríveis. Já me encontrei com Jerzy Skolimowski – a entrevista está no jornal de hoje -, com Michael Madsen e Marcelo Pyñeiro. Ontgem, fiz a mediação de um debate do Rio Market, discutindo fórmulas de sucesso, se é que elas existem, com Fernando Meirelles, Bruno Barreto e Marcos Jorge. E os filmes! André Miranda, do ‘Globo’, diverte-se. Diz que Rodrigo Fonseca, também do ‘Globo’, ele e eu somos os únicos que amamos incondicionalmente ‘A Suprema Felicidade’. Não é verdade, mas, se assim for, será. Não vou renunciar ao meu amor pelo filme de Jabor por estar no contrafluxo. Não será a primeira vez. E o filme é maravilhoso. Gostei bastante do Skolimowski, ‘Essential Killing’, premiado em Veneza, e estou em êxtase com o programa duplo que vi ontem à noite no Shopping Gávea. Em Gramado, havia sido interpelado por um jovem diretor de curtas, que me acusou de ser assassino da carreira dele  e da de outros cineastas , porque disse, num debate, que, de maneira geral, os curtas não estavam me interessando muito. Vi ontem um curta que me deixou chapado. Desde ‘Satori Uso’ não via nada tão estimulante quanto ‘A Verdadeira História da Bailarina de Vermelho’, de Alexandra Colasanti e Samir Abujamra. Um curta conceitual, aparentado com o de Rodrigo Grota, e que no meu imaginário já entrou para um panteão onde estão ‘Ilha das Flores’, de Jorge Furtado, e ‘Di Glauber’. É do mesmo nívelo, para vocês terem uma ideia. O curta de Alexandra e Samir foi o aperitivo ideal para o longa que veio a seguir. Havia encontrado Helena Ignez antes da sessão, ela apresentou ‘Luz nas Trevas’ e eu acho que foi embora, porque não a vi na saída. A sequência, que não é uma continuação, ela esclareceu, de ‘O Bandido da Luz Vermelha’, baseia-se no roteiro de Rogério Sganzerla, mas há um crédito – roteiro adaptado de Helena Ignez. Nei Matogrosso faz o próprio bandido, que está preso, e ele canta ‘Sangue Latino’ no desfecho, o que é um regalo que se soma aos muitos que o fime oferece. Mas ‘Luz nas Trevas’ é o ator que faz o garoto, filho do Luz Vermelha, André não sei das quantas. Preciso descobrir, porque ele é ótimo e forma uma dupla e tanto com Djin Sganzerla, cada vez mais bela (e talentosa). Quando foi que deu o click em Djin? A primeira vez que a vi foi numa peça, achei fraquinha, mas depois ela não parou de crescer, como mulher e atriz. Gostei demais de ‘Luz nas Trevas’. Saí do cinema numa espécie de exaltação. Ia correr para tentar ver ‘Os VIPs’ no Odeon BR, porque, afinal, faço o debate do filme agora à tarde, com Wagner Moura e o diretor Toniko Melo. Preferi decantar a ‘Bailarina’ e o ‘Luz’. Sentei-me num pequeno restaurante próximo ao Shopping Gávea, chovia e eu fiquei ‘viajando’ naqujeles pingos d’água em pedras escaldantes – em karaokês, sempre canto com minha amiga Leila Reis ‘Olho para a chuva que não quer cessar/Nela vejo meu amor…’ Preciso correr agora. Tenho matérias, entrevistas (uma por telefone, com Baz Luhrmann) e preciso ver o ‘VIP’s’ às 3. Eu volto (ao blog).

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24.setembro.2010 09:43:57

Miscelânea

RIO – Pela procedência, vocês já viram onde estou. Desde ontem. Cheguei à tarde e fui parar no hotel no Alto da Gávea, uma pousada de luxo e uma vista maravilhosa (para a Rocinha e a mata), mas impraticável para quem precisa trabalhar. Sem telefone no quarto, wi-fi em áreas reduzidas e eu nem trouxe laptop. Afinal, o jornal tem sucursal no Rio e, em Copacabana, onde costumo ficar, tem um cyber café em cada esquina. Hoje espero me mandar para um lugar mais central, mais encravado no mundo. Mas, enfim, cá estou, o último com as primeiras. E ‘Lula’ foi indicado pelo Brasil para concorrer ao Oscar. Vai ser a segunda grande ironia, em relação ao filme, se isso ocorrer. Todo mundo acha que já estamos fora, mas eu, que não entendo nada de Oscar, acho que existem aspectos a considerar. O diretor Fábio Barreto já foi indicado – por ‘O Quatrilho’ – e o perponagem é conhecido, essas coisas talvez ajudem. E vocês sabem que eu gosto do filme do Fábio. Fui um defensor solitário. Até hoje me horroriza o débil mental que postou um comentário dizendo que o acidente com Fábio era a prova de que Deus existe. ‘Lula’ fracassou na bilheteria, não um fracasso retumbante, mas de qualquer maneira não obteve míseros 10% da expectativa de público de seus produtores (Luiz Carlos e Paula Barreto). Isso não impede que a candidata do presidente, e convenhamos que há uma campanha contra, lidere as pesquisas com folga e já possa levar no primeiro turno. É a primeira ironia a que me referi antes. Fábio, numa das últimas entrevistas que deu – a última? -, me havia dito que o inimigo ‘dessa gente’ não era o filme, que o filme não ia fazer diferença no processo eleitoral, como, de resto, não fez. ‘Lula’, o filme, vai? Não sei, mas seria divertido, não sei se é a melhor palavra, se fosse. Dilma, pelo visto e a menos que ocorra um cataclismo, já foi. Sem ‘Lula’, o filme, mas com Lula, o de carne e osso. Sobre a abertura do Festival do Rio, ontem à noite. Eu parecia o próprio Jabor. Um monte de gente, sabendo que gostei de ‘A Suprema Felicidade’, veio me prestar esclarecimentos. Uns acham que o filme tem momentos deslumbrantes, mas não dá ‘liga’. Outros me dizem que não ‘viajaram’ e um reclamou de uma das coisas de que mais gosto, a reconstituição de época, que Jabor trata por meio de detalhes, planos fechados, só um que outro aberto, mas a coisa funciona, e bem. Eu continuei ‘viajando’. Chorei de novo com ‘Paulinho’ (Jabor?), quando ele diz que é tudo uma m… e que não quer ser como seus pais. Chorei mais ainda no desfecho, quando o avô, Marco Nanini, genial, pede – ‘Deixa eu ir, deixa?’ – e executa aquela dança, aquela reverência de sambista que, para mim, já é um dos momentos mais belos do cinema brasileiro. A maratona começa hoje. E, à noite, teremos o Skolimowski apresentando ‘Essential Killing’, premiado em Veneza. Algumas pessoas confiáveis me disseram que o festival (Veneza) estava uma bosta. Pode até ser que seja verdade, mas estou nos cascos para ver os filmes de Skolimowski, Sofia Coppola e todos mais que Hilda Santiago tenha conseguido trazer.

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Embarco hoje à tarde para o Rio, onde à noite começa o festival, com tapete vermelho para o belo filme de Jabor, ‘A Suprema Felicidade’. Viajo cheio de tesão, na expectativa de assistir aos que espero que sejam muitos grandes filmes na seleção de mais de 300 organizada por Hilda Santiago. É impressionante, mas depois de todos estes anos ainda fico em dúvida – Ilda é com H ou sem? Deixando o detalhe, que é importante, de lado, tenho de relatar – pelos autos – que ontem meu dia não foi mole, não. Pela manhã, tinhas as numerosas matérias da edição de hoje do ‘Caderno 2’ – a capa com Cildo Meireles, por conta do documentário de Gustavo Moura (muito legal), a página interna sobre o abre do Rio, com a nova entrevista que me deu Juliette Binoche, sobre ‘Cópia Fiel’, Copie Conforme, explicando por que não vem mostrar o filme de Abbas Kiarostami. Fiz tudo isso e corri para um hospital lá na Vila Mariana, onde comecei uma série de exames, incluindo um dopler, que carrego e do qual só devo me livrar à tarde, pouco antes de embarcar. Estou fazendo check-up do coração. Ando me cansando muito quando subo escadas. Agora, já estou de novo na redação do ‘Estado’, com outra capa e outras tantas matérias sobre as (boas) estreias de amanhã – ‘Wal Street – O Dinheiro Nunca Dorme’, ‘Moscou, Bélgica’ e ‘Terras’ e eu devo acrescentar que achei bem bacana a animação ‘A Batalha por Tera’, que preciso verificar se se escreve assim ou é T.E.R.A., como sigla. Legal, o filme. Neste corre/corre nem tenho tido de postar. Assisti, acho que na terça à noite, ao chegar em casa, uma relíquia trash da qual não tinha conhecimento. Estava zapeando e, de repente, num daqueles canais (e não era Telecine), saltou uma aranha gigantesca na minha tela. Comecei a ‘viajar’, me lembrando da velha ‘Tarântula’, de Jack Arnold, naquele tempo – os anos 1950 – em que Hollywood transformou o gigantismo de insetos em metáforas para tratar do perigo atômico. Por melhor que pudesse ser o filme – a aranha, propriamente dita, era horrível –, nem o talentoso Arnold de ‘Tarântula’ foi páreo para o ‘supremo’ Gordon Douglas de ‘Them!’, O Mundo em Perigo, que, pelo menosa no meu imaginário, é a obra-prima da tendência. Divago – de volta a ‘Malditas Aranhas’, caí duro ao ver a guria Scarlett Johansson (o filme é de 2002) aplicar um choque elétrico nos testículos do namoradinho que, muito afoito – e com toda justificativa –, queria chegar logo aos finalmentes com ela. Logo em seguida, o garoto e sua turma de motociclistas estão sendo perseguidos pelas aranhas, que saltam feito cangurus, a grande distância. As aranhas vão papando um a um, só sobra ele, correndo de moto nos canais de uma mina, onde estão outras tantas aranhas (claro). Corte para Scarlett, no quarto. Ela olha seu aparelhinho de dar choques, sorri para a câmera – e o espectador entende tudo que ela está pensando! Um barulhinho na janela e adentra a aranha que encurrala Scarlett na parede. Ela tenta aplicar um choque na danada, não consegue. A aranha tece sua teia e enrola Scarlett feito múmia. Chega mamãe armada para despachar a bichona. O filme acabou aí para mim e estou até agora sem saber se o guri achou a luz no fim do túnel ou se foi ‘punido’ pela lascívia de querer papar – ele e as torcidas reunidas do Brasil – uma das estrelas mais sexys da atualidade. Fui ao Google ver quem dirigiu a pérola. Ellory Elkayem. O filme é ruim demais, trash total e eu fiquei pensando que, se o ridículo matasse, teríamos sido penalizados com a supressão das boas coisas que Scarlett fez depois. Viajando mais um pouco, lembrei-me de ‘Tremors’, O Ataque dos Vermes Assassinos, de Ron Underwood, com Kevin Bacon e Fred Ward, que eu adorava. Além de ser uma homenagem bem humorada aos filmes B, era sobre família, bem interessante. E, perto de ‘Malditas Aranhas’, era o ‘Potemkin’ das fantasias de segunda (ou terceira).

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21.setembro.2010 11:48:35

‘Baaria’

Vai sobrar para meu bom amigo Alessandro Giannini. Outro dia, estava no centro e precisava de um Guia para conferir o horário de um filme. Na banca, o sujeito só tinha o da ‘Folha’. Encontrei a informação que queria e, folheando, vi que o Gia havia escrito sobre ‘Baaria’. Gostei bastante do novo Tornatore e já fui até a porta do inferno (quase) em defesa do ‘Era Uma Vez na Sicília’ do diretor. Experimentei a curiosidade de ler o texto do Giannini, o que fiz na vertical, mas me chamou a atenção o desfecho, quando ele compara ‘Baaria’ a ‘Novecento’ e diz que o filme do Bertolucci era melhor etc e tal. Eu sou um senhor de 65 anos, Giannini ainda é uma criança. Meninos, eu já escrevia – era rodado – quando o filme estreou. ‘Novecento’ pode dispor hoje de certa reputação, considerando-se o diretor, mas na época foi recebido a pedradas, mais ou menos como ‘Baaria’ hoje. Dei uma pausa e fui conferir na pasta do diretor no arquivo do ‘Estado’. Olhem os títulos das críticas sobre ‘Novecento’, e olhem que o filme se beneficiava do fato de haver sido proibido pela censura do regime militar, o que redobrava a curiosidade. ’Painel maniqueista’, ‘Nada mais que um exercício de estilo’, ‘Visual deslumbrante e só’. Não é muito diferente do que se diz hoje de ‘Baaria’. Ah, sim, tem o fato de o filme haver sido elogiado por Berlusconi, o que o tornma ‘suspeito’. Quem sabe daqui a uns 20/30 anos Tornatore também não seja mais bem tratado? Visto com outros olhos? Mais límpidos?

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21.setembro.2010 11:26:04

Oscar 2010

Márcia me pede que comente a lista de filmes inscritos para concorrer à indicação brasileira para o Oscar. O anúncio do vencedor desta primeira etapa será feito na quinta-feira de manhã, aqui em São Paulo, na Cinemateca. Filmes que ainda nem estrearam estão inscritos – ‘Suprema Felicidade’, ‘Bróder’. Descobri agora que, numa iniciativa inédita, o MinC abriu em seu site uma enquete para que os internautas votem. Não duvido, dado o fenômeno em que se transformou ‘Nosso Lar’, que o longa de Wagner de Assis sobre a cidade espiritual descrita por Chico Xavier – no livro ditado pelo espírito de André Luiz –venha a ser o preferido dos internautas. Não faço segredo para ninguém que não gosto de ‘Nosso Lar’, mas quem disse que isso é importante (o meu gosto, no caso)? Quero só lembrar que o projeto de ‘Nosso Lar’ foi suficientemente atrativo para que uma empresa de efeitos do Canadá e um compositor como Philip Glass ligassem suas marcas e nome ao filme produzido por Iafa Britz. E não foi pelo dinheiro. Duvido que a bancada escolhida pelo MinC avalize ‘Nosso Lar’, mas aí não é mais dúvida – acho que não há outro filme mais ‘original’ entre os inscritos. Talvez o ‘Chico Xavier’, mas este é tão bem feito que virou um produto mais apurado e até palatável, mais hollywoodiano, num certo sentido, e o Oscar dessa categoria tem por hábito fugir um pouco aos padrões do cinemão. ‘As Melhores Coisas do Mundo’, ‘Antes Que o Mundo Acabe’, ‘Cabeça a Prêmio’, ‘5 Vezes Favela’, ‘Lula – O Filho do Brasil’, ‘É Proibido Fumar’, ‘Os Famosos e os Duendes da Morte’, ‘Os Inquilinos’. A m… – e eu sei porque já fui integrante da comissão – é que as pessoas sempre tentam escolher com a cabeça do Oscar, pensando no que vai agradar aos gringos. Na maioria das vezes, eles querem ser surpreendidos e, por isso mesmo, tantos vencedores ‘certos’ (‘Amélie Poulain’) perderam e tantos grandes autores (Fellini, Kurosawa, Bergman etc) ganharam um monte de estatuetas, cada. Confesso que estranhei não ver o ‘Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo’ nem ‘Tropa de Elite 2’ entre os inscritos, mas, depois, me dei conta de que Karin Ainouz e Marcelo Gomes devem ter achado que o filme deles não tem ‘perfil’ e José Padilha, para evitar a pirataria, não está mostrando ‘Tropa 2’ para ninguém. Exibi-lo antecipadamente para a comissão seria correr riscos, o que ele não está disposto a fazer, mesmo que seja para, ou pelo, Oscar. Bravo, Padilha. É preciso priorizar. Com chance, ou sem chance, foda-se (sorry). escolheria um de nossos filmes teens – ‘As Melhores Coisas’, ‘Antes Que o Mundo Acabe’ ou ‘Os Duendes’, mesmo que tenha gostado muito de ‘Suprema Felicidade’ (que poderia ter um sabor de ‘Amarcord’, que já venceu, há quase 40 anos, para a academia).  Mas o que estranho mesmo é o seguinte – alguns dos melhores filmes brasileiros do ano são documentários. ‘Cidadão Boilesen’, ‘Uma Noite em 67’, ‘O Homem Que Engarrafava Nuvens’ etc. O único documentário inscrito é ‘Utopia e Barbárie’, de Sílvio Tendler. Desculpem minha ignorância no Oscar – tem de ser ficção? Documentário não pode? Documentário tem de concorrer na categoria específica? Dei uma olhada na lista de vencedores do Oscar de filme estrangeiro e só tem ficções, talvez um ou outro híbrido (nenhum tão radical quanto ‘Viajo’). Os documentários brasileiros estão tentando?

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