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Luiz Carlos Merten

30.julho.2010 11:53:43

Filmes filmes filmes

RIO – Tem um monte de coisa boa estreando hoje em São Paulo. O ‘hitchcockiano’ Uma Noite em 67, em que Renato Terra e Ricardo Calil logram fazer suspense em torno do lendário desfecho do Festival da Record de 1967, polarizado pela disputa entre quatro músicas – ‘Ponteio’, a vencedora, ‘Domingo no Parque’, ‘Alegria Alegria’ e ‘Roda Viva’ -; ‘Ponyo’, um belíssimo Miyazaki (para dizer a verdade, acho que é minha favorita, com o ‘Castelo’, entre as animações do artista japonês); e ‘Salt’, que a Vanessa me disse hoje, no programa da Rádio Eldorado, que já valeu a Angelina Jolie a definição de ‘sem sal’, mas eu, pelo contrário, acho a Angelina no tempero certo e o filme, mesmo não gostando dele, tem aquela eletrizante perseguição do começo, em que ela faz tudo a que Tom Cruise teria direito (o projeto original era dele). Acho que já mudou o Bergman do Cineclube Belas Artes. Ou seja, filmes filmes filmes. Vejam!

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30.julho.2010 11:45:02

James Whitmore

RIO – Marcelo Magalhães pegou carona no post sobre a morte de Maury Chaykin para lembrar outro grande coadjuvante, James Whitmore. E ele citou a participação do ator em ‘Um Sonho de Liberdade’. Entrevistei-o, por telefone, justamente pelo filme que Frank Darabont adaptou de Stephen King, para o ‘Estado’. Whitmore me falou sobre um monólogo que fazia no teatro. A assessoria de um desses festivais de teatro que ocorrem no País, não me lembro se o de Porto Alegre ou do Paraná, me ligou pedindo o contato. Queriam trazer o velhinho aso Brasil, mas não deu tempo. Foi uma boa conversa, me lembro, mais até do que entrevista. Amo um grande diretor subestiomado que ofereceu belíssimos papeis a Whitmore – Gordon Douglas -, em ‘O Mundo em Perigo’ (Them!) e ‘ O Revólver de Um Desconhecido’. James Whitmore tinha grande respeito por Gordon Douglas e lamentava que não tenha tido o reconhecimento que merecia. Isso nos aproximou, naquela entrevista.

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30.julho.2010 11:29:05

No balneário

RIO – Brincadeirinha, mas cá estou, desde ontem. Vim para a estreia carioca, à noite, de ‘Calígula’, a peça de Albert Camus que meu amigo Dib Carneiro traduziu e Gabriel Villela dirigiu. Parte do elenco original foi mudada e ainda não tinha visto o novo ‘Calígula’. O primeiro ato ficou mais racional e eu até comentei com o Dib – esse pessoal (a plateia de convidados) não dá conta disso, não. Dito e feito. Quando a montagem fica mais circense e os atores assumem os ‘clowns’, as pessoas se sentiram mais em casa, mas riram demais, tentando transfrormar Camus em besteirol, o que é crime de lesa-arte. Tiagão – Tiago Lacerda – fez autocrítica e disse que estava ‘frio’ na noite de ontem. Mas o cara é poderoso em cena e segura a força do texto, ‘cuspindo’, literalmente, o verbo camusiano. Deus – que Camus era um grande frasista! Depois, fomos jantar num restaurante do Leblon e chegou a equipe de ’400 contra 1′, que teve pré-estreia ontem num cinema da rede Severiano Ribeiro. Estavam todos – o diretor Caco Souza, Daniel de Oliveira, Branca Messina etc. O filme encerrou Paulínia e não sei como foram as reações por lá, mas sinto que ’400′ deve provocar polêmica. O filme passa uma euforia da criminalidade – nos assaltos a bancos - e olha ‘de dentro’ o surgimento do Comando Vermelho, sem uma condenação pura e simples. Aguardem.

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28.julho.2010 11:21:04

Maury Chaykin

No sábado, dia 24, a Band reprisou à tarde ‘Dança com Lobos’. Gosto muito do filme de Kevin Costner, vocês sabem, mas ocorreu uma coisa curiosa. Na hora de redigir o verbete para os filmes na TV, do ‘Caderno 2′, fui ao guia do Leonard Maltin para coinferir nomes do elenco e duração. Encontrei o nome do Maury Chaykin e entrei na internet para conferir o nome do personagem dele, o major Fambrough, meio enlouquecido de solidão, que se mata logo no começo, quando o personagem de Costner está chegando ao Oeste, antes de seu contato com os índios. Até pensei com meus botões  Maury Chaykin é daqueles atores bons, condenados a uma carreira de coadjuvante. São tantos na história do cinema. Era bom ator, não é mais – Chaykin morreu ontem, em um hospital de Toronto, devido a complicações renais. Justamente ontem, completava 61 anos. Com dupla cidadania, norte-americano e canadense, Maury Chaykin fez filmes importantes e, só para constar, era um dos atores favoritos de Atom Egoyan, com quem trabalhou em ‘Exótica’, ‘O Doce Amanhã’ e ‘Adoration’. Ele fez muitas séries de TV e, atualmente, integrava o elenco de ‘Less than a Thief’. Em ‘Ensaio sobre a Cegueira’, de Fernando Meirelles, fazia um dos aliados de Gael García Bernal, que se autoproclanava rei de uma das alas na área de quarentena dos cegos.

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28.julho.2010 10:35:43

‘A Fonte’

Não, não mé o filme de Darren Aronofsky. Vinha hoje de táxi para a redação do ‘Estado’, descendo a Sumaré, e havia este carro preto na minha frente, todo fechado e com uma inscrição na trazeira. ‘Nada vai impedir a realização  dos planos que Deus tem para mim.’ Imagino que a intenção fosse boa, uma mensagem positiva, mas a frase mexeu comigo e eu vim construindo toda uma ficção. Assim como colocou Jó à prova, imaginei Deus submetendo essa alma a tentações – apesar de sua dedicação ao Senhor e a vontade de andar com retidão, imaginei as circunstâncias se voltando contra esse personagem hipotético. Nada, realmente, impede a rota de desgraças e provações que Deus traçou para ele. Vejam que devo ter entrado em delírio, porque de repente estava me lembrando de outra frase – ‘Tu não pecas senão para te submeteres a uma nova purificação’. Acho essa frase – de Keats ou Blake? – de uma beleza e complexidade extraordinárias. É a epígrafe de ‘A Fonte’, romance do inglês Charles Morgan que li bem jovem, ainda garoto, quando o livro saiu na Coleção Catavento, da antiga Editora Globo, em Porto. Já contei que minha irmã trabalhava na Livraria doi Globo e eu frequentava muito o velho prédio da Rua da Praia, onde via Mário Quintana, Erico Verissimo. Ereico era um Deus para mim. Quintana, depois, encontrava diariamente na lanchonete da Caldas Júnior, quando trabalhavas na extinta ‘Folha da Manhã’. Tenho, até hoje, a nostalgia de ‘A Fonte’. Tenho procurado pelo livro de Charles Morgan em sebos. Procurava também pelas aventuras de Sandokan, e nada. Assim como Emilio Salgari foi resgatado no País – e eu não consigo reler os livros sem ver o ator norte-americano Ray Danton, que fez o papel na Itália -, outra das minhas leituras da mesma época, o ‘Platero e Eu’ de Juan Ramón Jimenez, também saiu em nova edição. Espero que um dia Morgan também seja reeditado. Era um cara discutido. Os franceses o amavam, os próprios ingleses o desprezavam, um pouco porque Morgan foi uma ‘displaced person’. Nos anos 1950, quando ele fazia sucesso no Brasil, uma tendência realista se manifestava nas letras inglesas, com a geração dos angry men que renovou a literatura e o teatro e repercutiu no cinema, levando ao free cinema. Neste quadro, Charles Morgan era um corpo estranho. Imbuído de filosofia platônica, era um idealista que estendia seu refinamento aristocrático à própria maneira de escrever, como avaliou J.C. Ismael no 25º aniversário de sua morte, no Suplemento ‘Cultura’ de ‘O Estado de S.Paulo’. Fui ao arquivo do jornal, em busca da pasta de Morgan. Sei que a informatização é uma tendência irreversível, mas confesso que tenho minha alma de Indiana Jones e adoro pegar nessas velhas pastas para manusear as cópias de artigos que, às vezes, datam de cem anos atrás. Ismael escreveu seu texto em 1983, há 27 anos. Charles Morgan morreu há 52 anos. Quem ainda se lembra dele? Eu. Ismael observa que o tal refinamento literário de Morgan criava uma espécie de justiça poética em dissonância com os padrões realistas do seu tempo. E não é que ele recriasse o fluxo de consciência de um Marcel Proust, por exemplo. Charles Morgan era um clásssico embasado em sólidos e clássicos conceitos de filosofia e estética. “A Fonte’ integra o que não deixa de ser uma trilogia e há quase 50 anos, entre um Tarzan e outro, eu lia Morgan, Jimenez e Machado de Assis, que me encantavam pela profundidade. Outro livro de Morgan foi o ‘Sparkenbroke’, mas meu favorito era ‘A Fonte’, que gostaria de reler porque há uma parte do livro que me assombra. Sempre achei que daria um filme de Joseph Losey, alguma coisa no espírito de ‘Cerimônia Secreta’. Chama-se ‘O Elo’. O livro passa-se na Holanda, durante a 2ª Guerra, e os personagens centrais são uma aristocrata e um oficial que está prisioneiro, sob palavra, no local. Ela é casada, o marido está doente, e há uma passagem, numa torre, alguma coisa assim, que a condessa e o militar usam para seus encontros íntimos. Mas não se trata só de sexo. O romance é psicológico e existe a relação do oficial, acho que se chama Allyson, com o marido traído. Eles discutem o embate entre uma postura contemplativa da vida, ligada a um ideia de classe, e a necessidade de ação, até como reação à barbárie da guerra. Volta e meia penso em ‘A Fonte’. O livro será bom como me lembro? Valerá a pena redescobrir Charles Morgan? O final sempre me pareceu tão lindo. O oficial e a aristocrata voltam à Inglaterra, após a morte do marido dela. Esta parte chama-se ‘O Começo’ e tem como epígrafe uma citação de Milton, que não saberia reproduzir, mas fala do casal que, de mão dadas e hesitante, sem certeza de nada, penetra no Éden, juntos mas cada um imerso na própria solidão. Relendo o texto de J.C. Ismael, é evidente seu fascínio pelo escritor como ‘personagem’. Gênio sem talento, talento sem gênio. Ismael não chega a nenhuma conclusão. ‘O Elo’ me fascina. o próprio conceito platônico da contemplação, tão presente em Morgan, me intriga. Nada me é mais estranho, mas Morgan busca sua referência no ‘Fedro’ (para ‘Sparkenbroke’). ‘Poucas almas têm em grau suficiente o dom da recordação da contemplação das coisas desse outro mundo e, quando percebem por aqui uma imitação das coisas do além, ficam fora de si mesmas e já não se possuem.’  É mole?

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Estou no mailing e recebo regularmente a ‘Revista da USP’. Confesso que, na maioria das vezes, a ignoro, por um parti-pris que talvez seja tolo, mas é o critério jornalístico. Não tenho muita paciência com o meio acadêmico e sua linguagem. Agora mesmo, recebi a revista do trimestre junho/julho/agosto, dedicada à cibercultura.  Como o assunto me interessa, fui ao índice e logo após o editorial encontrei o primeiro texto, sobre transdisplinaridade e não conceito. Já estava desistindo, e fechando a revista, quando algo me fez insistir. Se há uma coisa que já aprendi é que tenho um sexto sentido. Não tenho maior interesse pela maioria dos jornais e revistas que me cercam, mas sei onde garimpar o que me atrai. Ou seja, sou macaco velho e sei ir às fontes originais. Havia, na ‘Revista da Usp’, aquele título intrigante – ‘A Sétima Instância da Morte’. Fui ver o que escrevia Aguinaldo José Gonçalves e o texto dele tem tudo a ver com um assunto que foi abordado aqui no blog. Escrevi que a homenagem a Bergman no Cineclube Belas Artes está fazendo o maior sucesso e que ‘O Sétimo Selo’ arrebentou. Aguinaldo, poeta, ensaista e professor de Semiologia Humana na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, poderia levar seu texto à Semana Bergman, em Faro, e daria uma bela lecture. Aguinaldo reflete sobre alguns aspectos da morte e o seu texto, como ele diz, poderia ser intitulado ‘A Primeira Instância da Vida’. Para aquecer a discussão sobre assunto tão tênue e tão ácido, o ensaísta recorre a obras de arte e, além da epígrafe emprestada de Manuel Bandeira, ele relaciona justamente ‘O Sétimo Selo’ com a novela ‘A Morte de Ivan Ilitch’, de Leon Tolstoi. Aguinaldo descobre as realizações cinematográficas do livro e chega à conclusão de que, não existindo essa linguagem na época em que Tolstoi escreveu ‘Ivan Ilitch’, o autor, na verdade, a intuiu, porque se vale de técnicas muito próximas daquilo que só a linguagem fílmica pode realizar. Em Bergman, ele destaca as alegorias fundamentais e chega à conclusão de que o cineasta faz uma das mais realistas e belas alegorizações da morte e de seus veios dialéticos na tensa relação com a vida. Para ilustrar a tese, Aguinaldo disseca cenas e conclui sua aproximação, do livro e do filme, por meio de um movimento dialético entre a solidão do sujeito diante da morte e a visão coletiva da mesma questão. Não sei se é possível ‘baixar’ textos da ‘Revista da UPS’, ou se o sujeito tem de ser assinante. Mas achei uma boa leitura e mais uma contribuição para essas homenagem a Bergman. ‘O Sétimo Selo’ já foi, mas ‘A Fonte da Donzela’ permanece e ainda virá ‘O Ovo da Serpente’.

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27.julho.2010 13:54:18

‘A Origem’?

Fui rever ‘Inception’, de Christopher Nolan, na super tela do Imax. Gostei mais ainda e descobri coisas que me tinham passado despercebidas, inclusive algo que dificilmente devia estar na cabeça do Nolan, já que ele demorou sei lá quantos anos, dez?, para escrever seu roteiro. Como o filme, qualquer filme, nos pertence quando o reformulamos no (in)consciente e começamos a pensar nele, vai ver que fui eu que projetei isso, mas toda a parte final, que ‘resolve’ o conflito de Cobb com a mulher, Mal, isto é, de Leonardo DiCaprio com a deslumbrante Marion Cotillard, me pareceu, sem sacanagem, sob medida para ‘engolir’ aquele pobre ‘Ilha do Medo’ do Scorsese, que sei que muitos de vocês adoram. Bye-bye Marty. O filme só tem uma coisa ruim, e é o título brasileiro. Sorry, pessoal da Warner, mas de onde vocês tiraram que ‘A Origem’ é bom? Não só não é bom – não significa nada –, como empobrece a intenção do autor. Eu acho. E não estou sozinho, porque era o comentavam no final da sessão (Rubens Ewald Filho, Paulo Gustavo etc).

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27.julho.2010 13:42:41

Pfp 2

Era previsível que fosse acontecer, mas aqui está. O pessoal da Califórnia Filmes, que distribui ‘Os Mercenários’, me repassa o e-mail de Sylvester Stallone desculpando-se pela m… que disse durante o Comi-Com.

“I sincerely apologize to the people of Brazil and to its film commission.  All my experiences in Brazil were fantastic and I have told all my friends to film there. Yesterday, I was trying to make some humor and it came out poorly.  I have nothing but respect for the great country of Brazil.  Again,  I apologize.   Love, Sly”

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27.julho.2010 09:58:58

Divina!

Fui ver ontem o show de Amelita Baltar no Teatro Bradesco, do Shopping Bourbon. Havia entrevistado Amelita para o ‘Caderno 2’, mas perdera seu show anterior – na série com Décio Otero e Márika Gidale – por causa da viagem para o México. Depois, veio a Hungria, Budapeste, mas ontem consegui vê-la no palco. Ou melhor, revê-la. Havia visto muitos shows de Amelita – em Buenos Aires, em Porto. Com e sem Astor Piazzolla. Ou melhor, sempre com Piazzolla, porque, como ela diz, ‘ele’ – seu espírito – está sempre por aí, circulando. Amelita cantou ‘Maria de Buenos Aires’, ‘Balada para un Loco’, ‘Balada para Mi Muerte’, sua favorita. É uma verdadeira atriz da canção. Interpreta, põe dramaticidade. Entre uma canção e outra, para destensionar de tanta carga dramática, conta histórias (e piadas). Acho-a ‘bárbara’, para repetir um adjetivo que os argentinos – e os portenhos – usam bastante. Na entrevista, Amelita me havia contado que era uma cantora apreciada de folclore quando aceitou, muito inconsciente, o convite de Piazzolla e Horacio Ferrer para fazer a ópera/tango ‘Maria de Buenos Aires’. De repente, virou uma mulher odiada, porque Piazzolla estava matando o tango tradicional, de Gardel. Matou? Até hoje o tango tradicional tem seguidores – muita coisa para turistas – e o próprio Piazzolla tem sido desvirtuado por arranjos que talvez não aprovasse, ou que certamente não aprovaria, mas ele era o primeiro a querer mudar as próprias composições. Não sou nenhum expert, mas o disco que reúne Piazzolla e Gerry Mulligan – ‘Reunión Cumbre’ – é um dos dez da minha vida, com a ‘Misa Criolla’ de Ariel Ramirez e a cantata de ‘Santa Maria Iquique’ com o Quillapayun. ‘Adiós Nonino’, ‘Años de Soledad’, Piazzolla era gênio e Amelita foi – é – a voz que celebrou e mantém viva sua revolução. O espetáculo foi lindo, e eu amo quando ela canta ‘Chiquilin de Bachin’, mas gostaria de ouvi-la cantar alguma coisa que não tango, e tango/canción. Seria ‘Agustina y el Mar’, que Mercedes Sosa também cantava – divinamente –, mas eu prefiro a versão de Amelita. O curioso é que gostando, e me emocionando, não viajei na nostalgia, nas lembranças dos meus verdes anos em Buenos Aires, quando descobria a latinidad. O palco estava muito vivona minha frente para eu ter tempo de sentir saudade. Lúcia, minha filha, e Doris, minha ex, estavam ontem em Buenos Aires. Devem estar retornando agora para o Brasil, em voos separados. Lúcia vem diretamente para São Paulo, Doris, para Porto. Mas me dá uma coisa, sim. Quando Amelita canta Buenos Aires, com referências tão concretas – a ruas, lugares –, é difícil não me projetar. Ela diz que ama São Paulo, que é a cidade que mais ama. Eu amo Buenos Aires. Quiando fui com Dib Carneiro, Gabriel Villela e Cláudio Fontana para a estreia portenha da peça do Dib – ‘Adivinhe Quem Vem para Rezar’, rebatizada como ‘Por Tu Padre’, com Federico Luppi –, deixava o trio pelo prazer de andar sozinho pela cidade. Corrientes – onde andará tres/quatro/ocho? –, Lavalle, Florida. Foi lá, em Buenos Aires, e em Montevidéu, que fiz muito da minha formação como cinéfilo. Até por isso, carrego comigo essas cidades que nuinca deixaram de me encantar.

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Tomava um café ontem no Belas Artes, à espera do começo da sessão de ‘O Grão’, quando encontrei Léo Mendes, assistente de programação da casa. O Léo estava indo rever ‘O Segredo dos Seus Olhos’. Jogamos um pouco de conversa fora, mas ele me me relatou uma coisa que acho importante repassar. Bergman é o atual homenageado do Cineclube Belas Artes. A homenagem começou com ‘O Sétimo Selo’, prossegue com ‘A Fonte da Donzela’ e inclui ‘O Ovo da Serpente’. Me disse o Léo que ‘A Fonte’ está indo bem, mas ‘O Sétimo Selo’ arrebentou, tendo sala cheia em várias sessões. Já contei para vocês que P.F. Gastal, o Calvero, amava Bergman e acho que até como uma reação contra ele a minha geração meio que negligenciava o grande diretor. Meu primeiro Bergman do ‘coração’ foi ‘Gritos e Sussurros’, que vi em Buenos Aires, acho que em 1973, quando ainda pesava a ameaça de proibição sobre o filme no Brasil. Tive um choque e foi ali que comecei a repensar, ou a pensar, Bergman, redescobrindo ‘Morangos Silvestres’, meu favorito, ‘Mônica e o Desejo’, ‘O Rosto’ etc. Durante muito tempo ‘O sétimo Selo’ foi um corpo meio estranho para mim. Não conseguia assimilar a doideira daquele cavaleiro jogando xadrez com a morte, num duelo intelectual que colocava graves questões contemporâneas. O cavaleiro interroga, busca respostas e a própria morte não sabe o que vem depois dela. Finalmente, me rendi ao filme de 1956 e a parábola da sagrada família terminou por me arrebatar. Na série de lectures sobre Bergman a que assisti em Faro, durante a Semana Bergman, há quantos? três anos?, ouvi interpretações bem interessantes relacionando o cavaleiro de Bergman e seu escudeiro a Dom Quixote e Sancho Pança e até que a iconografia do filme foi baseada nos murais da igreja em que o pai do diretor foi clérigo. É um filme tão rigoroso e os atores, meu Deus! Max Von Sydow, Bengt Ekerot, Bibi Andersson, Gunnel Lindblom, Maud Hansson são todos geniais. Bibi sempre teve uma luminosidade especial no cinema de Bergman, mas Maud é inesquecível como a bruxa e aquela procissão de auto-flageladores assombra meu imaginário desde que a vi pela primeira vez. Entendo perfeitamente esse entusiasmo dos cinéfilos por ‘O Sétimo Selo’, até porque o desfecho, o sacrifício do cavaleiro em prol da família de artistas, é muito bonito. Comparativamente, não creio que ‘A Fonte da Donzela’ seja tão bom, mas Bergman ganhou seu primeiro Oscar, em 1960, justamente pela recriação da lenda medieval contando a história do homem – Max Von Sydow, de novo – obcecado para vingar a filha. É o filme em que Deus rompe seu silêncio e a desesperada interrogação do homem ganha uma resposta quando o divino se manifesta e Von Sydow é tocado pela graça que emana justamente da fonte no lugar em que a garota foi violentada e morta. Bergman morreu em 30 de julho de 2007. Não creio que tenha havido outro dia assim tão emocionante e visceral para cinéfilos. Morreram Michelangelo Antonioni e ele, com poucas horas de diferença. Nunca me esqueço do que escreveu Jean-Luc Godard, em ‘Cahiers’, no fim dos anos 1950 – ‘O cinema não é ofício, é arte. Cinema não é trabalho de equipe. O diretor está só diante de uma página em branco. Para Bergman, estar só é se fazer perguntas, filmar é encontrar as respostas. Nada poderia ser mais classicamente romântico’. A homenagem a Bergman prossegue no Cineclube. Daqui a pouco tem sessão no Belas Artes, às 7.

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