Estava aqui na maior pauleira quando tocou o telefone. Era a Susana, amiga de meu amigo Vilmar Ledesma, que queria saber se não me incomodava, porque queria trocar uma idéia. O momento não era dos melhores, mas a amiga de um amigo querido sempre tem de ter atenção. Conversamos. Susana ama Pierre Granier-Deferre e queria saber se existem cópias disponíveis no Brasil de dois filmes do diretor – ‘O Gato’ e ‘O Trem’. Prometi que lançaria o assunto para vocês, o que faço agora. Granier-Deferre é um daqueles diretores que meus colegas críticos devem encarar com reservas, perguntando-se se lhe podem atribuir a definição de ‘autor’. Jean Tulard diz que Granier-Deferre foi, durante um certo tempo, o sucessor de Jean Delannoy no cinema francês, fazendo um cinema de qualidade, sem surpresas, mas impecável. Tenho para mim que Granier-Deferre foi mais que isso. Suas três adaptações de Simenon lhe valem uma vaga no meu panteão particular. ‘O Gato’, ‘A Viúva’ e ‘O Trem’ me encantam, ou encantaram, quando os vi. De alguma forma, Granier-Deferre, no meu imaginário, está ligado a Claude Sautet, que começou no filme noir, no policial, e evoluiu para um tipo de crônica de costumes da pequena burguesia que fez dele um grande autor em ‘As Coisas da Vida’, ‘Sublime Renúncia’, ‘César e Rosalie’ e ‘Vicente, Francisco, Paulo e os Outros’. Não saberia escolher entre estes filmes, talvez ‘Sublime Renúncia’, Max et les Ferrailleurs, com Michel Piccoli e aquela Romy Schneider em estado de graça. Granier-Deferre nunca chegou perto, pelo menos no reconhecimento dos críticos, talvez porque tenha se mantido fiel a um universo sombrio, criminal, como provam seus numerosos Simenons. Mas a ação nunca foi o mais importante para ele e sim, o desenho detalhado dos personagens, que construía com a cumplicidade de grandes atores (Jean Gabin, Simone Signoret, Alain Delon, Jean-Louis Trintignant). Estou escrevendo e lembrando de certos momentos, a atmosfera opressiva entre aquele casal de velhos interpretado por Gabin e Simone (‘O Gato’), a tensão erótica entre Simone e Delon (‘La Veuve Cordec’). Me deu até vontade de rever esses filmes, ou de ler um bom Simenon, mas agora não dá. Tenho de terminar ‘A Queda de Tróia’, que pretendo engatilhar com ‘O Segredo de Shakespeare’ para chegar ao novo Chico (Buarque). E existem todos os filmes do É Tudo Verdade, as mesas redondas da Conferência Internacional do Documentário. É muita coisa. Ainda bem!
Vivendo e aprendendo. Estava fazendo uma página de lançamentos em DVD para a edição de amanhã do ‘Caderno 2′. Peguei um Bergman, ‘O Ovo da Serpente’, e um Rossellini, ‘Descartes’, mais lançamentos de um perfil popular. Esse Bergman me interessa particularmente porque nunca foi considerado top de linha do diretor. Bergman havia se envolvido naquele rolo com o fisco sueco. Ameaçado de cadeia – pelo crime de sonegação de impostos -, humilhado, ele se exilou na Alemanha, onde fez dois filmes – ‘O Ovo’ e ‘Da Vida dos Marionetes’ -, só regressando após ser inocentado num processo que moveu contra o Estado. Sempre considerei ‘Da Vida’ um grande Bergman. Tive um choque quando vi o filme, mas ‘O Ovo’… Como todo mundo, achava o filme diferente, um Bergman mais político, engajado, num momento em que o ressurgimento do fascismo e do nazismo tiravam o sono de grandes artistas. A preocupação começara com Visconti em ‘Os Deuses Malditos’, prosseguiu com Bertolucci em ‘O Conformista’, com Liliana Cavani em ‘O Porteiro da Noite’, Pasolini em ‘Saló’ e, entre outros diretores/autores, chegou ao Bergman de ‘O Ovo’, que me parecia, comparativamente, ‘menor’ (esse Bergman específico, não o cineasta, claro). No ano passado, quando estive na Suécia para a Semana Bergman, ocorreram aquelas ‘lectures’ sobre a obra do diretor, em Farö. Nem me lembro quem – um desses doutores de cinema – disse uma coisa que me marcou muito. Bergman, em ‘O Ovo da Serpente’, bancou o futurólogo do passado, tentando interpretar a gênese do nazismo. Só que ele mirou no nazismo e, na verdade, deu uma de visionário e, segundo o tal especialista, acertou em outro alvo – o filme antecipa a gênese do neo-liberalismo econômico e das finanças globalizadas, por meio da importância atribuída ao capitalismo apátrida, ao dinheiro (que nunca foi mais importante no cinema de nosso querido Ingmar). Taí uma leitura que me parece bem interessante, mas, ao falar de DVD, quero chegar agora ao que interessa. Temos, no ‘Caderno 2′, um quadro de mais retirados, que é feito pelo InformEstado. O décimo filme mais retirado da semana, nas locadoras de São Paulo, foi ‘Ong Bok 2′, sequência do filme cult tailandês de lutas que havia sido lançado em DVD com o título de ‘Guerreiro Sagrado’. Vocês sabem que adoro uma pancadaria no cinema – ontem, ao voltar de São Bernardo, fui comer e havia uma televisão no restaurante, ligada na Globo. Revi a espetacular cena de luta de Jason Statham no desfecho de ‘Carga Explosiva 2′, quando ele, na oficina, lança mão dos recursos disponíveis para enfrentar uma gangue de malfeitores. A cena, coreografada pelo especialista Cory yuen, que dirigiu o primeiro filme, é do cara… Não vi ‘Guerreiro Sagrado’ e nem sabia da existência de ‘Ong Bok 2′, dirigido pelo astro de muai thai, Tony Jaa. Vale a pena? Estou perdendo alguma coisa? Ou volto ‘tranquilito’ para o meu Bergman? Com vocês, a palavra.
Sobrinho de Piolim, filho de Faísca – palhaços tradicionais de circo -, Anchizes Pinto começou na vida artística como acrobata, formando dupla com Mory. Naquele tempo, era chamado de Anky e foi assim que integrou o elenco da revista ‘Já Vi Tudo!’, estrelada por Mesquitinha e Natara Nery, no fim dos anos 40, se não me engano no Teatro Follies, em Copacabana. Quando Mesquitinha adoeceu, no meio da temporada, Anky foi escalado para substituí-lo. Deu tão certo que foi saudado como grande revelação cômica. O próprio nome mudou e de Anky ele virou Ankito, em homenagem, a Oscarito. Daí para o cinema foi um pulo, embora ele tenha continuado acrobata. Ankito fez 50 e tantas – acho que 56 – chanchadas que pertencem à era de ouro do gênero, quando a Atlântida ditava as cartas no cinema brasileiro, mas, de uma maneira particular, nunca o achei muito divertido. Ankito, com certeza, me fazia rir menos do que Oscarito e Grande Otelo, e até Zé Trindade, com seu bordão ‘Mulheres, cheguei!’ Mas acho que não estou cometendo nenhum absurdo se disser que ele formava, com os três citados, os quatro mosqueteiros das chanchadas. Teríamos de falar tambénm das mulheres, Dercy Gonçalves, Zezé Trindade e a maior de todas, Violeta Ferraz, que faz parte das minhas memórias cinematográficas no desfecho de ‘O Petróleo É Nosso!’, quando ela diz a frase-título da chanchada de Watson Macedo, produzida em 1954, integrando o movimento social que fazia do gênero um espelho da realidade social brasileira (coisa que os críticos mais tarde ligados ao Cinema Novo se recusavam a admitir. Para eles, a chanchada era alienada, a estética da paródia de Carlos Manga, Watson Macedo e José Carlos Burle tinha pouco ou nenhum valor. O preconceito mudou de cara, mas continua.) Ankito morreu, aos 80 e tantos anos. Disse adiante que nunca o achei muito engraçado, mas a verdade é que havia nele uma melancolia, um jeito de criança grande, sem o escracho de Zé Trindade, que me lembrava um comediante inglês hoje esquecido, mas que eu via entre um Ankito e outro, quando a Rank distribuía a produção da Inglaterra no Brasil – Norman Wisdom. É curioso, mas quando penso em Ankito me vem colado o Norman. Aprendi a gostar dele tardiamente, quando integrou o elenco do terceiro episódio de ‘As Cariocas’, dirigido por Roberto Santos, em que Íris Bruzzi tem uma atuação antológica, o embrião de Leila Diniz e um dos grandes momentos de interpretação feminina da história do cinema brasileiro. Vieram depois os tributos prestados a Ankito por Júlio Bressane e Ivan Cardoso em ‘Brás Cubas’ e ‘O Escorpião Escarlate’. Ankito fez novelas, minisséries, apresentou um programa na Band. Sua morte de alguma forma põe um ponto final na história da chanchada.
Estava saindo, ontem, do jornal, quando chegou a notícia da morte de Ankito. Estava atrasado e não me sobrou tempo para postar nada sobre o assunto, o que farei daqui a pouco. Fui ontem a São Bernardo, participar de um debate promovido por estudantes da Metodista. São estudantes de comunicação, dos cursos de jornalismo e visuais. Por princípio, topo ir conversar com quem quer que seja, mas, chegando lá, tomei um susto. Achei que o tema seria jornalismo cultural, mas era ‘meios de comunicação e movimentos sociais’. Eu era o único representante da, digamos, imprensa ‘burguesa’ na mesa. Havia uma garota de uma rádio comunitária, outra de um site internacional de notícias, um terceiro do movimento sem-teto, que faz ocupações urbanas, todos reclamando do tratamento que a grande imprensa dá às questões sociais. Foi bem interessante e acho que não me saí mal, até porque creioi que não é muito difícil defender o trabalho que fazemos no ‘Caderno 2′. A concorrência que se dane, mas ouço diariamente de leitores, entrevistados etc, que o ‘Caderno 2′ é – de longe – o melhor segundo caderno do País. Não devem dizer isso para me bajular. O cumprimento é para a equipe e a do ‘Caderno 2′ é de feras – Antônio Gonçalves Filho, João Luiz Sampaio, Ubiratan Brasil, Luiz Zanin Oricchio, Jotabê Medeiros, Camila Molina etc etc. Vejam que, num acesso extremo de modéstia, nem estou me incluindo,. Ha-ha. Se falo sobre o assunto é por causa do que vem agora. Havia uma garotada imensa interessada na discussão. Perguntei, a título de provocação, quantos haviam assistido a filmes como ‘Serras da Desordem’, de Andrea Tonacci; ‘Terra Vermelha’, de Marco Bechis; e ‘À Margem do Concreto’, de Evaldo Mocarzel, que tratam de temas relacionados ao que a mesa discutia – questão indígena, ocupações urbanas… Uma meia-dúzia de gatos pingados levantou a mão, menos que isso (não formavam meia-dúzia). Foi a minha vez de criticar. A gente, da imprensa ‘burguesa’, faz o que pode e, às vezes, o que não pode. O chamamento à responsabilidade individual teve resultado. Aproveito para sugerir agora que, não apenas aqueles jovens da Metodista, mas todos vocês assistam a dois ou três filmes que passam hoje no É Tudo Verdade – o horário do primeiro não ajuda muito, uma da tarde, no CCBB, mas ‘Corumbiara’, de Vincent Carelli, sobre um massacre de índios numa gleba ao sul de Rondônia, em 1985, tem tudo a ver com o que se discutia no debate de ontem. ‘Cidadão Boilesen’, de Chaim Litewski, não sei onde passa nem qual é o horário, mas é hoje, trata do apoio de grandes empresários à repressão aos movimentos de esquerda, durante o regime militar. O tal ‘cidadão’ é o dinamarquês Henning Albert Boilesen e foi executado pela guerrilha urbana por sua ligação com a Oban. Pauleira pura. O terceiro documentário que gostaria que vocês vissem hoje é ‘Moscou’, em que Eduardo Coutinho arma outro jogo de cena – mas o filme não é ‘Jogo de Cena 2′ – para seguir discutindo os limites entre documentário, ficção e realidade. Em princípio, as indagações artísticas e existenciais de ‘Moscou’ não tem a ver com a discussão da miséria e dos movimentos sociais, mas será? Na sexta, quando virem ‘Garapa’, de José Padilha, o social é ostensivo, a maneira como o diretor escancara o espetáculo deprimente da nossa miséria – nossa, digo, brasileira, embora a fome seja um problema universal –, mas o filme não é só sobre isso. Lembro-me de Enéas de Souza, o grande crítico gaúcho, na primeira edição de ‘Trajetórias do Cinema Moderno’, escrevendo, no calor da hora – anos 60 –, que o sol de ‘Vidas Secas’, de Nelson Pereira, não era só social, mas havia ali também um lado de Antonioni, na maneira de armar o plano e isolar os atores, para mostrar que o sol também era ontológico e a miséria, existencial. Não errei na digitação, não. Não é antológico. Estou falando de ontologia, a parte da metafísica que estuda o ser em geral e indaga sobre nossas propriedades transcendentais. Acho que seria muito interessante conversar hoje com Nelson sobre isso, numa discussão que daria novos significados a um de seus grandes filmes pouco valorizados – ‘Fome de Amor’, puro Antonioni, puro Resnais –, mas, claro, estou mistuirando as coisas e daqui a pouco vocês não vão entender nada e dizer que estou delirando.
Não sabia que título colocar no post anterior e ‘tasquei’ um Bom-dia! Só que, ao salvar, me dei conta de que já passara das 12 horas e, portanto, teria de ser ‘Boa tarde!’ Bobagem… Meu colega Bira, Ubiratan Brasil, me informa que morreu Maurice Jarre. Que coisa! Ele foi homenageado com um Urso de Ouro especial de carreira em Berlim, em fevereiro. Me pareceu bem, para os seus 80 e poucos anos (84), embora tenha chegado de cadeira de rodas. A causa da morte não foi anunciada. Terá sido súbita? Jarre foi muito afetivo com David Lean, cujos épicos intimistas integravam a retrospectiva ‘Bigger than Life’, sobre o sistema Todd-AO. Ele disse que Lean não lhe deu apenas seus Oscars. Mais importante ainda, contemplou-o com sua amizade. Que bonito ouvir isso de um artista falando sobre outro artista, maior ainda, e que a gente – eu, pelo menos – admiro sem restrições. Maurice Jarre criou para Lean todos aqueles temas. ‘Lawrence da Arábia’, ‘Doutor Jivago’ (o tema de Lara), ‘A Filha de Ryan’, ‘Passagem para a Índia’. Foram três Oscars, e todos por filmes de Lean (‘Lawrence’, ‘Jivago’ e ‘Passagem’). Em Berlim, ele contou como se inscreveu na Academia de Música às escondidas, contra a vontade do pai. Dieter Kosslick, presidente da Berlinale, disse que os compositores de cinema vivem, em geral, à sombra de grandes diretores. Maurice Jarre foi daqueles que trouxe a música para o primeiro plano. Mesmo quem nunca viu a adaptação do romance de Pasternak, conhece o tema de Lara. E é verdade. Mas eu tenho a impressão de que, se tivesse de escolher um, ficaria com o tema do último Lean. Há uma melancolia em ‘Passagem para a Índia’, que nasce da visão romântica de Adela (Judy Davis) em choque com a realidade, passa pela exasperação no olhar de Mr. Moore (Peggy Ashcroft) – o jeito como ela olha a passividade do colonizado – e culmina na semente transformadora no fim do julgamento. Só a imagem não construiria essa sensação. A música de Maurice Jarre é fundamental.
Desde que postei, no Rio, o texto sobre a estréia da primeira parte do ‘Che’, de Sodergergh e Del Toro, não havia parado para conferir os comentários. Validei agora uma porção deles. Só um ou outro se arrisca a comentar o filme, a maioria contenta-se em investir contra o personagem. Che é assassino, sanguinário, canalha etc. Continuo insistindo que, como personagem – como ‘dramaturgia’ – é maior que a vida. Como ainda não revi o filme, espero fazê-lo de retornar ao assunto. Estava planejando ver alguma coisa do É Tudo Verdade e, à noite, 21 h, passar pelo CineSesc para dar um alô a Maria Ribeiro, que fez este belo docunmentário sobre Domingos Oliveira. Acho que gosto de ‘Domingos’ (o filme) porque tem um caráter inacabado, como se fosse um rascunho de um grande personagem, sem ligar muito para o acabamento formal. Um filme imperfeito? Talvez, como o personagem, a vida, e por isso mesmo um filme que reivindica uma cumplicidade (à qual me entrego). Mas estou sendo atropelado pelos meus compromissos do dia. Não me lembrava que aceitei participar de uma atividade na Universidade Metodista, em São Bernardo do Campo. Vamos lá! Antes, de qualquer maneira, quero ver ‘Sobreviventes’, de Miriam Chnaiderman e Reynaldo Pinheiro, à tarde, 15 h, no próprio CineSesc. E, à noite, 19h30, no Eldorado, não se esqueçam de que tem ‘O Equilibrista’, documentário vencedor do Oscar de C. Liteski, integrando as Premières Cinemark. O filme é muito interessante. A imagem das torres gêmeas virou um símbolo de destruição sobre a qual a administração George W. Bush, estimulando a paranóia, estruturou sua política antiterror que isolou os EUA no mundo. Uma das promessas de campanha de Barack Obama era justamente enterrar essa fase. No alvorecer da era Obama, a Academia de Hollywood já premiou o filme que restaura a imagem das torres, lembrando o francês que estendeu um fio de aço entre as duas para exercer seu ofício de equilibrista. Metaforicamente, é um filme muito rico. Restabelecimento de uma imagem – e de um conceito do que é ser americano -, busca do equilíbrio (na arte e na política). Muito interessante. E é de graça! Cheguem cedo para garantir o ingresso!
Estou de volta a São Paulo, depois do Rio (quinta e sexta) e Santos (no sábado). Fui ontem para Santos depois de assistir a ‘Moscou’. O novo documentário do mestre Eduardo Coutinho passa depois de amanhã no É Tudo Verdade. É bom, mas não tão bom quanto ‘Jogo de Cena’. Prossegue na mesma pesquisa sobre os limites entre realidade e ficção, mas creio que seria equivocado chamar o filme de ‘Jogo de Cena 2′, como alguns coleguinhas já estão fazendo (pelo menos em privado). Coutinho investiga agora o processo criativo, filmando o grupo Galpão, de Belo Horizonte, que ensaia ‘Três Irmãs’, de Chekhov, sob a direção de Enrique Diaz. O filme tem momentos deslumbrantes, que se referem justamente às pesquisas dos atores. Enrique pede a seu elenco que fale rapidamente, sem pensar muito, sobre alguma coisa que preocupa cada um deles naquele momento. Um fala do seu desejo de plantar árvores, outro da dor que representa a descoberta, por meio de DNA, de que o filho que criou por 20 anos não é de sangue. Chorei em vários momentos, tenho de admitir (qual é a novidade?). Fiquei chapado por Fernanda Viana, mulher de Rodolfo Vaz – também do elenco do Galpão. Fernanda e Eduardo Moreira têm uma cena linda, quando conversam/ensaiam naquela passarela que fica acima do palco. Ambos fizeram ‘Romeu e Julieta’, com direção de Gabriel Villela, e Coutinho, conscientemente ou não, não deixa de homenagear a montagem, que é mítica para muita gente, evocando a dupla na cena do balcão. (A propósito, só para constar, os dois LLs do Gabriel ficam no ‘le’ e não no ‘la’ final, como volta e meia escrevo). Fui a Santos, no fim de semana, acompanhando meu amigo Dib Carneiro, que foi assistir a ‘Calígula’, que ele traduziu (da peça de Albert Camus), no Teatro Coliseu (que não conhecia). Já havia gostado da peça e, se é possível, gostei mais ainda. Duas coisas. Meu amigo Celdani vive dizendo aqui no blog que não existem coincidências e também reclama quando falo no absurdo da existência. Celdani é espírita e acredita num plano cósmico regendo todas as coisas. Às vezes me pego pensando que ele deve ter razão. Na sexta, visitei o ensaio de ‘Vestido de Noiva’, a nova montagem de Gabriel Villela, que estréia em maio, com Leandra Leal na pele de Alaíde. Não havia me dado conta, mas ontem, assistindo a ‘Moscou’, percebi que o ensaio do Gabriel me preparou para o processo criativo de Enrique Diaz no filme do Coutinho. Em Santos, antes e depois do espetáculo, tive acesso – privilégio! – ao palco do Coliseu. Caminhando naquela coxia, pude tocar mais uma vez a lua negra cujo mistério é o da peça (e da montagem). Gabriel é grande diretor de atores. Seu trabalho com Tiago Lacerda é coisa de louco. Jantei depois com o grupo e o Gabriel, que vive flertando com o cinema e querendo dirigir um filme, revelou que adoraria fazer ‘Grande Sertão: Veredas’, com Tiago. Preciso acrescentar que ontem eu percebi – e me rendi – à majestade de Magali Biff. Que atriz poderosa! Cláudio Fontana entrou no papel de Pascoal da Conceição, impossibilitado de estar em Santos. A forma como ele pronuncia as palavras! Um diretor de teatro se mede – acho, posso estar dizendo bobagem – pela forma como seus atores projetam a voz e dizem o texto. Quando vejo montagens com atores de microfone na lapela tenho vontade de dar meia-volta volver e ir embora. Não é teatro, sorry, e olhem que existem ‘nomões’ que fazem isso.
RIO – Meu último post do Rio, hoje, versa sobre um assunto aí de São Paulo. Tive o privilégio de assistir na sexta à tarde, na Aclimação, ao ensaio de ‘Vestido de Noiva’. A peça de Nelson Rodrigues está sendo montada por Gabriel Vilela, que abriu o ensaio para que eu pudesse ver Leandra Leal no papel de Alaíde. Generosamente, o diretor paramentou todo o elenco para me mostrar a abertura. Aqueles quatro ou cinco minutos prometem se tornar antológicos do teatro brasileiro. Gabriel Vilela sempre foi chamado de barroco, mas, agora asim, todos vão saber o que é barroquismo. Ele usa a música, ‘Goldondrina’ e tango, para criar um universo litúrgico que me deixou chapado. Alaíde chega perguntando por Madame Cleci e o elenco, homens e mulheres, todos com figurinos femininos, forma uma espécie de bloco que ela não consegue furar. Alaíde, como pássaro ferido – a peça é o delírio de uma atropelada, que está morrendo -, esvoaça ao redor, enquanto eles cantam. Não fui adiante e não vai ser fácil para Gabriel fazer a passagem da música para o diálogo, mas ponho a maior fé de que ele vá conseguir. Leandra é impressionante e o elenco tem Marcelo Anthony e Mila Moreira (como Madame Cleci). Desde que vi aquilo, não consigo me desligar da imagem daquele palco, improvisado num galpão de ensaio, nem do som. Não quero avançar muito para não entregar a matéria que pretendo fazer, mas gostaria que vocês já ficassem de olho. Alaíde, no teatro, em ‘Vestido de Noiva’. Ritinha, no cinema, na adaptação de ‘Bonitinha, Mas Ordinária’, por Moacyr Góes. Leandra Leal me disse que descobriu Nelson aos 15 anos. Ela sempre soube que seu destino seria fazer aquilo. Estou redigindo e me veio o outro Nelson, Suzana Flag, ‘Meu Destino É Pecar’. Que Nelson Leandra mais sonhava fazer? ‘O Vestido’, Alaíde. Visito muito sets de filmagem. ‘Vestido de Noiva’ marcou minha estreia num ensaio de teatro. Achei demais. Só queria compartilhar logo a experiência com vocês. O curioso é que, naqueles cinco minutos, tinha mais cinema do que na horrorosa adaptação de ‘Vestido de Noiva’ com Marília Pêra (e, mesmo, claro, que os problemas não decorressem da atriz).
RIO – Entrevistei Rodrigo Santoro para a capa de hoje do ‘Caderno 2′. Rodrigo fala com um fervor tão grande sobre o Che de Steven Soderbergh e Benicio Del Toro que eu fico quase me sentindo culpado de não gostar do filme. Daniel Piza me perguntou hoje no programa da Rádio Eldorado por que não gosto? Acho que me incomoda uma coisa que ouvi do próprio Soderbergh em Cannes, no ano passado. Ele disse que nunca teve um envolvimento maior com o mito do Che e, quando o filme lhe foi proposto, interessou-se pelo personagem como se interessaria por qualquer outro sonhador que perseguisse o seu ideal. Che diz no filme que, para fazer uma revolução, é preciso ser um pouco louco, e isso puxou o título nacional, mas eu não sinto paixão nem loucura. Acho que Soderbergh olha o personagem meio de fora, sem comprometimento – o comprometimento que ele talvez tivesse com outro tipo de louco, com outro ideal (a revolução é demais para ele). Há uma falta de paixão que me gela. Che é um personagem maior que a vida. Não há como fugir a isso, seja a favor ou contra. Adorado como santo por camponeses da Bolívia ou venerado por neonazistas alemães – há um documentário sobre isso, ‘Personal Che’ -, ele não é único, mas múltiplo. Cada um tem o seu Che, lança o seu olhar sobre ele e o (re)constrói. Preciso rever ‘Che – Diário de Um Louco’, mas minha primeira impressão foi de que Soderbergh quis ser isento, jornalisticamente, tanto que as melhores cenas da primeira parte, para mim, são as de Nova York, quando ele vai discursar na ONU. O Che é recebido por uma socialite de esquerda e todo aquele beautiful people – a esquerda chique, os intelectuais – confraterniza e faz da revolução uma festa (mas ela não é uma festa e a verdadeira revolução passaria toda aquela gente pelas armas, ou não?) Jogo essas idéias, mas não é nada conclusivo. Volto hoje para São Paulo, daqui a pouco. Quero (re)ver correndo ‘Che – Diário de Um Louco’. Não sei se conseguirei fazê-lo ainda hoje nem amanhã, mas tão logo o faça voltarei ao assunto, prometo.
RIO – Conversava com Maria Ribeiro no fim da sessão de ‘Domingos’ e ela me aprresentou sua prima, mulher de José Padilha, e também a mãe do diretor de ‘Garapa’, outro destaque do 14º É Tudo Verdade. De repente, fiquei cercado pela família Padilha, falando sobre seu filme, que é duro, difícil, mas importante e necessário. Não sei se cheguei a contar a história. Em Berlim, houve um debate após a exibição de ‘Garapa’. Padilha mostra aquelas imagens de famílias inteiras devastadas pela fome. É uma miséria social perturbadora, mas há também outra miséria, mais perturbadora ainda, e é existencial. Aquela gente toma água com açúcar para iludir a fome, mas homens e mulheres não dispensam o cigarrinho nem a cachacinha, mesmo que isso signifique desviar os únicos recursos que deveriam estar sendo canalizados para dar leitinho às crianças. É a miséria mais radical, a cultural, porque a fome se perpetua e, com ela, suas consequências. A ausência de nutrientes impede o desenvolvimento cerebral. Sucedem-se gerações de baixo Q.I. A história que quero contar é que, em Berlim, um daqueles alemães perguntou o que Padilha queria com seu filme. É dinheiro? Se fosse, ele dava todo o dinheiro que tinha para algum fundo de assistência às vítimas da fome no Nordeste (embora ‘Garapa’ deixe claro que o problema não é só brasileiro). A culpa do cara me fez lembrar a exasperação de Mrs. Moore em ‘Passagem para a Índia’, de David Lean. Leva o meu dinheiro, mas me priva de ter de ficar vendo isso. ‘Garapa’ é tudo, menos agradável de ver. E é muito diferente de ‘Domingos’, como ‘Tropa de Elite’ é diferente de ‘Juventude’, para ficar num Domingos Oliveira recente. Essa diversidade do próprio documentário é um dos temas importantes de discussão em 2009. O documentário engajado, característico dos anos de chumbo do combate ao terror pós-11 de Setembro, com George W. Bush na pele do Grande Satã, está terminando e ainda não sabemos o que vem na era Obama, que é de esperança, mas decolou com essa crise econômica horrorosa. Como vestígio de documentário engajado, acho que ainda temos preciosidades que vocês não podem perder na 14ª edição, mas a discussão já está voltada para o futuro. De qualguma forma isso já está no documentário vencedor do Oscar deste ano,. ‘O Equilibrista’, Man on Wire. Se a deastruição das torres gêmeas virou apresentação dessa eras de terror, o filme busca uma imagem passada, recupera as torres como eram para contar uma outra história, de restauração. Avi Mograbi chega na segunda, dia 30, para mostrar ‘Z32′ e o filme é muito forte como discussão sobre o que é ser soldado em Israel. Mograbi discute se o Exército israelense é mesmo ético, como diz seu ministro. A operação de represália, o assassinato a sangue frio de palestinos, tudo isso aponta para outra coisa – um desejo de vingança ou de acerto de contas que é mais coisa de mafiosos do que de um Estado de direito, como me disse o diretor, na entrevista que me deu (e que foi capa de anteontem do ‘Caderno 2′). Mais dois nacionais também devem ficar na mira, e são obras que favorecem a discussão política – ‘Corumbiara’, cujo diretor eu não me lembro quem é (sorry!), mas traz novo olhar sobre a questão indígena, somando-se a ‘Serras da Desordem’ e ‘Terra Vermelha’, e ‘Cidadão Boilesen’, de Chaim Litewski, que pega o caso desse empresário dinamarquês para discutir o apoio que lideranças da indústria e do comércio deram à repressão, nos mais duros anos da ditadura militar. Como diz Amir Labaki, o É Tudo Verdade é o único grande festival brasileiro que ocorre simultaneamente em duas capitais, São Paulo e Rio, e tem entrada grátis em todas as sessões. O que você está esperando?
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