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Luiz Carlos Merten

31.dezembro.2009 22:23:44

Tempo de recomeçar

Estou na casa de meu amigo Dib Carneiro. Estamos – Regina Cavalcanti, Jussara Guedes, Maria da Glória Lopes e eu. Estamos fazendo o réveillon dos sem ceia. Acabo de assistir, na TV paga, a meu último filme do ano. Foi ‘Um Lugar para Recomeçar’, de Lasse Hallstrom, com Robert Redford e Jennifer Lopez. Havia visto no Natal outro filme do diretor sueco que se estabeleceu em Hollywood – ‘Chocolate’, com Johnny Depp e Juliette Binoche. Os dois têm bastante em comum e o Hallstrom é um diretor que consegue tornar palatáveis mesmo os temas mais difíceis. Não acho que seja um grande artista e, na verdade, ele se diluiu bastante no cinemão, mas não resisto quando pego um filme dele andando. Hallstrom sempre me prende com suas observações humanas e sociais. Aqui, é o universo dos velhos caubóis, a amizade masculina, os laços de família, a (re)descoberta do amor. O ano vai se encerrando, daqui a pouco teremos a virada. Embora o filme seja ‘Um Lugar para Recomeçar’, o tempo, agora, é que é de recomeço. Bom ano para vocês, para nós. Muitos grandes filmes. E continuo esperando as listas de melhores de vocês.

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31.dezembro.2009 13:18:02

Os dez mais são… onze!

Olá, aqui estou – desde cedo – na redação do ‘Estado’, redigindo a página sobre a pincipal estreia de amanhã, ‘Lula, o Filho do Brasil’, e a dos destaques do ano em cinema. Minha lista de dez, que na verdade são onze, privilegia o tema da morte, seja como fatalidade biológica ou metáfora, inclusive do próprio cinema, como no ‘Avatar’ de James Cameron. Não quero furar meu texto de amanhã no ‘Caderno 2′, portanto, a justificativa, propriamente dita, fica para depois e agora vai a lista crua, para estimulá-los a também postarem a(s) de você(s).
‘Avatar’
‘Bastardos Inglórios’
‘Cidadão Boilesen’
‘O Curioso Caso de Benjamin Button’
‘Entre os Muros da Escola’
‘A Festa da Menina Morta’
‘Foi Apenas Um Sonho’
‘Gran Torino’
‘Inimigos Públicos’
‘A Partida’
‘Up – Altas Aventuras’

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30.dezembro.2009 13:04:39

Resnais na Sessão Cinéfila

A Sessão Cinéfila do Espaço Unibanco pega carona na estreia do novo Resnais – ‘Ervas Daninhas’, que não é uma das melhores coisas do cineasta, embora tenha seu encanto – para dedicar as sessões de sábado, durante todo o mês de janeiro, à filmografia do mestre. Neste fim de semana, dia 2, ao meio-dia, passa ‘Hiroshima, Meu Amor’ e, depois, nos sábados seguintes, pela ordem, o Espaço Unibanco promete – uma sessão de curtas (‘Guernica’, ‘As Estátuas também Morrem’ e ‘Noite e Neblina’), ‘O Ano Passado em Marienbad’ e ‘Stavisky’, pelo qual eu confesso que tenho um fascínio todo particular (mesmo que meus Resnais favoritos sejam ‘Hiroshima’ e ‘Providence’). Aproveitando, quero dizer que minha entrevista com o diretor, na sexta passada, no ‘Caderno 2′, embora longuíssima, teve de ser editada e duas perguntas foram suprimidas. Pretendo restaurá-las aqui no blog, publicando a íntegra, mas nãio tenho tempo agora. Fico devendo para daqui a pouco.

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30.dezembro.2009 12:54:56

E o ano vai se despedindo

Estamos chegando ao finalzinho de 2009 e amanhã é meu último dia para publicar a lista dos dez melhores filmes do ano, que na verdade vão ser onze (ou doze). Aproveito para sugerir que, nestas últimas horas, os cinéfilos de carteirinha aproveitem para assistir a um filme sobre o qual nada falamos. Na verdade, esatava em Porto na semana passada e até me passou despercebida a estreia de ‘Hanami – Cerejeiras em Flor’, de Doris Dorrie, que havia concorrido (e ganhado prêmios) em Berlim no ano passado. Fui rever o filme esta semana com um amigo e ele é muito forte. Pelo tema da morte, a influência da cultura japonesa, acredito que vá agradar ao público que já havia gostado de ‘A Partida’. Aproveito para antecipar que o tema da morte, como fatalidade biológica ou metáfora, percorre ‘toda’ a minha lista. O único filme que não é especificamente sobre morte, ‘Entre os Muros da Escola’, tem o desaparecimento daquele aluno, a sua exclusão do grupo social, o que termina equivalendo a uma espécie de morte. Em ‘Avatar’, a morte é dupla – Sam Worthington tem de se transformar no seu avatar como, no próprio filme, tecnologias tradiciopnais cedem espaço a outras mais avançadas para que o cinema possa evoluir, transformar-se também. Aguardem amanhã. E hoje – vejam ‘Hanami’.

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29.dezembro.2009 00:23:38

‘Tudo Vai Dar Certo’

A Califórnia, que distribui no Brasil o novo Woody Allen, ‘Whatever Works’ – exibido na abertura da mostra dedicada ao ator e diretor, no CCBB -, anuncia somente para março o lançamento do filme, se não me engano com o título de ‘Tudo Vai Dar Certo’. Como contei no post anterior, fui ontem – já passou da meia-noite – à Livraria Cultura para comprar CDs e DVDs que queria dar de presente. Descobri, nos importados, que ‘Whatever Works’ já está à venda, e nem é caro. Cada vez mais é bobagem as distribuidoras segurarem os lançamentos. Na velocidade vertiginosa com que os filmes são hoje disponibilizados na internet, ou chegam às lojas como produtos importados, colocar logo nas telas deve fazer parte da política de sobrevivência das empresas.

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Fui hoje à Livraria Cultura para comprar alguns presentes de Natal que ainda me faltavam. Fiz uma descoberta interessante, que vocês talvez já saibam. Há uma caixa de Claude Chabrol com três filmes em DVD – ‘À Double Tour’, que no Brasil se chamou ‘Quem Matou Leda?’, ‘Les Bonnes Femmes’ e o terceiro é simplesmente a obra-prima do diretor, ou meu filme favorito entre os mais de 50 que ele realizou, ‘O Açougueiro’ (Le Boucher). Na entrevista que me deu e saiu no ‘Caderno 2′ de sexta-feira, dia 25, Alain Resnais, comentando sua vinculação à nouvelle vague, disse que era muito velho para integrar o movimento, mas reconheceu que muito devia, ou tudo devia, aos jovens da nova onda. Eles mostraram, ao establishment do cinema francês, que diretores de curtas podiam passar ao longa sem as exigências que os sindicatos então faziam. A prevalecerem essas exigências, Resnais teria permanecido um diretor de curtas e não teria feito ‘Hiroshima, Meu Amor’. François Truffaut, Jean-Luc Godard e Eric Rohmer lhe abriram as portas do longa. E Resnais disse mais, uma coisa interessante. Que a nouvelle vague provou que, para ser diretor, só era preciso um produtor. Chabrol foi o próprio produtor, realizando, em 1958, seu primeiro longa com o dinheiro de uma herança, se não me engano da mulher. Foi assim que surgiu ‘Le Beau Serge’, que se chamou ‘Nas Garras do Vìcio’, no Brasil, seguido, no ano seguinte, por ‘Os Primos’. Chabrol devia estar com muita fome de cinema, porque somente em 1959, há 50 anos, fez três filmes, antecipando a velocidade que virou sua marca (e ele é o primeiro a ironizar que, para um diretor com fama de preguiçoso, é muito produtivo). Naquele ano, na seqüência de ‘Os Primos’, surgiram ‘Quem Matou Leda?’ e ‘Les Bonnes Femmes’, que integram a caixa agora lançada. ‘À Double Tour’ antecipa o que será uma das tendências da obra de Chabrol, seu gosto pelo policial. O filme chega a ser exageradamente belo, com uma fotografia deslumbrante de Henri Decae. Com roteiro de Paul Gégauff, que será um colaborador habitual do cineasta, baseia-se no livro ‘The Key to Nicholas Street’, de Stanley Ellin, reunindo um elenco eclético, formado por veteranos e novos talentos, como Madeleine Robinson, Jean-Paul Belmondo, Bernadette Laffont, Antonella Lualdi, Jeanne Valerie etc.
No seu livro de memórias – ‘Et Pourtant je Tourne’ -, Chabrol conta como o filme foi selecionado para Veneza e como ele teve a intuição de que Madeleine Robinson seria premiada (ela recebeu, com efeito, a Taça Volpi para a melhor interpretação feminina). Madeleine está feia, chora, nenhum júri poderia resistir vendo uma estrela decaída. Nos cinemas, a crítica caiu matando, dizendo que o filme era mal construído, quando, na verdade, Chabrol está certo ao dizer que a estrutura faz sua beleza. Toda a história passa-se durante um dia. Entre 8 e 11 horas, duas tramas correm paralelas. Das 10 às 11, o público segue apenas uma, antes que um flash-back explique o que se passou antes. De tarde, das 2 às 6 horas, volta apenas uma intriga, depois outro flash-back esclarecedor. E tudo gira em torno da pergunta contida no título brasileiro, se bem que o original, ‘À Double Tour’, aponta para um círculo que se fecha sobre si mesmo, como Chabrol queria fazer com seu relato (e por isso ele usa tantos movimentos circulares de câmera).
‘Les Bonnes Femmes’ são de novo Bernadette Laffont e agora Stéphane Audran, Clotilde Joanno e Lucille Saint Simon. As quatro são vendedoras numa loja, não se interessam por nada, não possuem nenhuma consciência social. Chabrol foi acusado de vulgaridade e de não ser ‘revolucionário’. De nada adiantou ele dizer que era um filme sobre a alienação. A visita ao zoológico e o assassinato de uma das garotas não ajudaram o público e os críticos a perceber que o que parecia misoginia era na verdade desespero – talvez seja o filme mais ‘negro’ de Chabrol e, por favor, não me venham com críticas ao que parece ‘politicamente incorreto’.
Exatamente 11 anos depois, em 1970, Chabrol coroa com ‘O Açougueiro’ uma fase que já vinha gloriosa através de ‘A Mulher Infiel’ e ‘A Besta Deve Morrer’. Stéphane Audran, na época casada com o autor, é professora numa cidadezinha abalada por assassinatos de crianças. Jean Yanne é o açougueiro do título. Ambos se envolvem, mas ela descobre o lado sombrio do amado. ‘Le Boucher’ é o filme langiano de Chabrol, que paga tributo ao destino sombrio contra o qual se batem os personagens de Fritz Lang. O filme é sobre pulsões assassinas, sobre o primitivo que irrompe – e corrompe – a civilização (e por isso a cidadezinha se constrói à sombra dessas cavernas que guardam vestígios, ou ilustrações, de culturas bárbaras. É curioso, mas assim como os maiores filmes de Woody Allen são, para mim, os interpretados por Mia Farrow, os maiores de Chabrol são os que ele fez com Stéphane Audran, no período em que foram casado. ‘O Açougueiro’ tem direção e roteiro do próprio Chabrol, a partir de uma ideia original dele. Fotografia de Jean Rabier, música de Pierre Jansen e uma curiosidade – a professora chama-se Helena e o açougueiro é Popaul, como será mais tarde o personagem interpretado por Jean-Paul Belmondo no filme de mesmo nome, de 1972, com Belmondo e… Mia Farrow.

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28.dezembro.2009 10:08:33

Hemingway & Fuentes

Chamou-me a atenção na mesa de meu colega Ubiratan Brasil – estou na redação do ‘Estado’ – a capa da edição de hoje do Segundo Caderno de ‘O Globo’. Os melhores livros de 2009. Não posso falar da lista toda – e o Bira me garante que ‘Cine Privê’, de Antônio Carlos Viana, premiado pela APCA, é muito bom –, mas dos que li a seleção me pareceu bem estranha. ‘Leite Derramado’, de Chico Buarque; ‘O Filho da Mãe’, de Bernardo Carvalho etc. Mas eu gostei de ‘Caim’, o mais ‘legível’ dos livros de José Saramago. Deixem para lá a lista. Quando eu publicar aqui a de meus filmes favoritos no ano também receberei pedradas. Folheando rapidamente o jornal, encontrei a notícia de que Andy García prepara o terceiro longa, após ‘Cachao’ e ‘A Cidade Perdida’, do qual revi partes outro dia – já faz um tempo – na TV paga e me pareceu mais interessante do que quando assisti ao filme no cinema. García, sempre fiel às suas origens cubanas, vai agora realizar ‘Hemingway & Fuentes’, sobre a amizade do escritor norte-americano Ernest Hemingway com o marinheiro Gregorio Fuentes, nascido nas Ilhas Canárias, mas radicado em Cuba, onde ambos se conheceram. Gregorio foi o modelo no qual Hemingway se inspirou para criar o Santiago de ‘O Velho e o Mar’, que John Ford começou a filmar, mas foi substituído por John Sturges, a pedido de Spencer Tracy, que fazia o pescador e, pelo visto, tinha mais confiança em seu diretor de ‘Conspiração do Silêncio’ (Bad Day at Black Rock). Comecei falando de literatura e prossigo nela. Hemingway! Caçador, jornalista, correspondente de guerra, apaixonado por esportes radicais – naquela época a definição talvez fosse sangrentos –, Hemingway foi um grande autor, mestre da economia, mas foi principalmente emblemático para gerações que viam nele a representação da macheza e de um estilo de vida baseado na boemia e no contato com o perigo. José Onofre, meu inesquecível amigo – meu mentor, morto neste ano que se encerra –, escreveu certa vez um texto sobre Hemingway como especialista em morte. É em torno dela, desta fatalidade biológica tratada como fato ou metáfora, que lidam seus textos, tão exatos – no rigor com que ele usava as palavras – que é possível lê-los não como prazer estético, mas como experiência visceral. O cinema muitas vezes flertou com Hemingway. ‘Por Quem os Sinos Dobram’, de Sam Wood – que Ingrid Bergman fez pensando que seria um grande filme de arte, não dando maior atenção a ‘Casablanca’, de Michael Curtiz, cuja filmagem fora tão atribulada –; ‘Uma Aventura na Martinica’, de Howard Hawks; o já citado ‘O Velho e o Mar’; ‘As Aventuras de Um Jovem’, de Martin Ritt etc. Em livro, meu Hemingway favorito talvez seja ‘O Verão Perigoso’, difícil de catalogar como romance, reportagem ou novo jornalismo, mas que José Onofre tinha razão ao definir como um Hemingway legítimo. O grande escritor foi cobrir a temporada de touros de 1959 na Espanha. Dois cunhados toureiros eletrizavam as multidões, numa época em que o bárbaro espetáculo da tourada provocava outro tipo de reação – António Ordoñez e Luís Miguel Dominguín. Hermingway tomou o partido do primeiro e o seguiu, de arena em arena. Contratado pela revista ‘Life’ para escrever um texto de 10 mil palavras, ele redigiu 120 mil, reduzidas para 70 mil. José Onofre gostava de citar a máxima da moral cristã do autor – ‘A graça sob o impulso e a elegância sob pressão’ –, observando que nem com cortes a grande arte de Hemingway conseguia baixar de sua estratosfera. No cinema, mesmo sendo hawksiano de carteirinha, o ‘meu’ Hemingway é o de ‘As Ilhas do Adeus’, que ele escreveu em Cuba. George C. Scott faz o escultor que vive exilado. Ele recebe a visita da mulher, Claire Bloom, que vem lhe dizer que o filho deles morreu na guerra. Caminham na praia, param à distância e o diretor Franklin J. Schaffner termina cortando para aproximar a câmera e captar a expressão de Scott, quando seu mundo rui com a notícia. Sei que muita gente – a torcida do Flamengo e a do Coríntians, juntas – não gosta da terça parte final do filme, que vira uma trama de vingança, quando Scott destrói uma embarcação nazista para aplacar sua ira contra os nazistas. Mas a parte do meio, e o encontro de Scott e Claire na praia, é a coisa mais bela – e intensa – filmada por Schaffner. Ele morreu há exatamente 20 anos, em 1989, e no imaginário do cinéfilo deve ser lembrado mais por ‘O Planeta dos Macacos’, de 1968, que deu origem à série, mas recebeu seu Oscar por ‘Patton, Rebelde ou Herói?’ e a abertura do filme de 1969, que também deu o prêmio da academia para George C. Scott, é mesmo uma coisa eletrizante. Mas os ‘meus’ filmes preferidos de Schaffner pertencem a uma vertente mais intimista – ‘Vassalos da Ambição’, baseado na peça de Gore Vidal, e ‘As Ilhas do Adeus’. Numa vertente intermediária, o intimismo mais o espetáculo, gosto de ‘O Senhor da Guerra’, com Charlton Heston e Rosemary Forsyth, também baseado numa peça – de Leslie Stevens –, mas em relação ao qual o próprio Schaffner era ambíguo. Fascinado pelo Bergman de ‘O Sétimo Selo’, ele havia impregnado seu épico medieval sobre o direito à primeira noite com cenas de bruxaria que a empresa Universal considerou excessivas para o público norte-americano, preferindo suprimi-las. Comecei falando sobre Hemingway e terminei com Schaffner. Talento não lhe faltava, mas – quem foi que disse? Sérgio Augusto? – ele preferiu ser escolhido, fazendo não importa o quê, a escolher, arriscando-se para construir uma obra mais coesa e íntegra. Sempre lamentei muito que Schaffner tenha se ‘desviado’. Seja como for, Scott é sublime naquela praia. E Claire? De Chaplin (‘Luzes da Ribalta’) a Elio Petri (o episódio ‘Peccato nel Pomeriggio’ de ‘Alta Infidelidade’), passando por Cukor (‘A Vida Íntima de Quatro Mulheres’), Claire Bloom sempre foi um dos meus mitos. Que os outros gostem ou não dela, não faz diferença.

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27.dezembro.2009 23:26:54

Olhem a coincidência

Quando comecei a digitar o post sobre ‘King Kong’, tentei me lembrar a qual filme assistira a seguir, na TV paga, sexta de manhã, ainda em Porto Alegre. Não me vinha o título e só depois de fechar o terminal, quando me preparava para sair, ao zapear na TV paga, me dei conta. Estava passando ‘Golpe de Mestre’, o segundo filme de George Roy Hill para o ‘casal’ Newman/Redford (o primeiro foi o western cult ‘Butch Cassidy’). Lembrei-me que o filme em questão era ‘Matadouro 5′, que Roy Hill realizou no começo dos anos 1970, entre ‘Butch’ e ‘Golpe’, baseado no livro de Kurt Vonnegut. ‘Matadouro 5′ ganhou o prêmio especial do júri em Cannes, 1972, um ano de grandes filmes, posto que ‘O Caso Mattei’, de Francesco Rosi, e ‘A Classe Operária Vai ao Paraíso’, de Elio Petri, dividiram a Palma de Ouro, Miklos Janczo ficou com o prêmio de direção (por ‘O Salmo Vermelho’) e Susannah York foi melhor atriz (por ‘Imagens’, um dos meus filmes preferidos de Altman). Tinha certeza que Roy Hill havia morrido, mas fui checar no Google e ele morreu exatamente hoje, 27 de dezembro, há sete anos. Que coisa! Quando isso ocorreu, já estava há mais de uma década sem filmar. Além do prêmio em Cannes, recebeu o Oscar (melhor filme e direção) por ‘Golpe de Mestre’ e outros tantos prêmios da Academia de Hollywood por ‘Butch Cassidy’. Não saberia dizer por que Roy Hill se desiludiu com o cinemão e foi ser professor de cinema, mas foi o que ocorreu. Revendo hoje um pouco de ‘The Sting’ (Golpe de Mestre), não pude deixar de assinalar como o filme é bom (e como sua trilha, com presença marcante do piano, é maravilhosa). Na sexta, já me impressionara com as partes que vi de ‘Matadouro 5′. Vonnegut era um autor fora de série e ‘Slaughterhouse 5′ é um de seus clássicos, contando a história de Billy Pilgrim que sobrevive ao bombardeio de Dresden pelos aliados, durante a 2ª Guerra, desilude-se com o consumismo na vida da Terra e é sequestrado pelos habitantes do planeta Tralfamador, que controlam as viagens no tempo. O filme mistura passado e presente e cria um tempo próprio, único, que é o das experiências do seu peregrino protagonista. Gostei muito dos atores, de Michael Sacks, que faz o protagonista, e Valerie Perrine, como a atriz pornô com quem ele divide seu cativeiro em Tralfamador. Depois de assistir ao filme, pensei um pouco sobre George Roy Hill e por que ele teria abandonado a carreira de cineasta. Mas terminei me esquecendo e só hoje, com ‘Golpe de Mestre’, foi que me lembrei de novo dele. Roy Hill teve uma carreira irregular, mas nela predominam os bons filmes. ‘Positivamente Millie’ é ótimo musical com Julie Andrews e Mary Tyler Moore e, além dos dois megasucessos com Newman & Redford, ele também assinou o já citado ‘Matadouro 5′ e ‘Quando as Águias Se Encontram’, uma bela homenagem aos velhos heróis da aviação. Roy Hill também dirigiu ‘Um Pequeno Romance’, com a garota Diane Lane, sobre casalzinho que foge para Veneza para realizar um sonho, passando sob a ponte dos Suspiros para, de acordo com a tradição, permanecer unido para sempre. Laurence OLivier faz o velho que os ajuda e o filme é dele, que rouba cada cena. Fui agora ao dicionário de Jean Tulard e ele diz que Roy Hill foi ator da Irish Company e da Shakespeare Company antes de virar diretor respeitado na TV (com ‘Billy Budd’, que se baseia em Melville e é um texto genial, e ‘Julgamento em Nuremberg’, a telepeça de Abby Mann que Stanley Kramer verteu para o cinema). Fiquei com vontade de rever ‘Matadouro 5′ inteiro – será bom como um todo ou só em partes, como me parecera, quando o vi na estreia? Mais ainda me impressionou a coincidência, o fato de Roy Hill ter morrido ‘hoje’, em 2002.

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27.dezembro.2009 19:13:20

E a Loren, hein?

Terminei meu post sobre ‘A Queda do Império Romano’ dizendo que Sophia Loren é deslumbrante como Lucila no ‘terra em transe’ de Anthony Mann. Antes de começar a redigir essa série de posts, estava zapeando na TV paga. Passei pelo Telecine Cult, que reprisava ‘Os Girassóis da Rússia’, de Vittorio De Sica, com a dupla Mastroianni/Loren. Peguei o filme já no finalzinho, mas não deu para desgrudar o olho. Marcello volta à Itália à procura de Giovanna (Sophia). Reencontram-se e é diferente, embora pareça igual ao desfecho de ‘Clamor do Sexo’, meu Kazan favorito. Nós que nos amávamos tanto… Mastroianni tenta convencer Sophia de que devem fugir juntos. Ela diz que não. Tem um filho, um marido bom. Ele deixou a mulher e a filha na Rússia. Sophia o leva à estação, para que ele pegue o trem. Despedem-se silenciosamente e, à medida que o trem deixa a estação, sobe o tema de Henry Mancini e ela chora seu grande amor. A (sublime) renúncia é um tema clássico do melodrama. ‘Girassóis da Rússia’ é um dos filmes que os críticos gostam de citar para desqualificar o outrora neo-realista De Sica. Sua fase final foi marcada por concessões e, como escreve Jean Tulard em seu verbete do ‘Dicionário de Cinema’, é todo o conjunto da obra que passa, de repente, a ser contestado. Pieguice, miserabilismo, exploração abusiva das crianças – uma acusação parecida costuma ser feita a Fernando Meirelles (e a Fátima Toledo), por ‘Cidade de Deus’. De minha parte, creio que seria excessivo desmontar De Sica da história do cinema. Admiro-o demais como diretor de ‘Ladrões de Bicicletas’ e ‘Umberto D’, e como ator de Rossellini em ‘De Crápula a Herói’. O bom de ficar revendo ‘Girassóis da Rússia’ é que tudo de ruim sobre o filme já foi dito. Até o que vou elogiar agora já foi devidamente execrado. Em ‘Duas Mulheres’, De Sica negou uma das pedras de toque do neo-realismo (o trabalho com atores não profissionais) e fez da história de Cezira um show de estrelismo (Sophia ganhou o Oscar pelo papel). O estrelismo é agora a razão de ser de ‘Girassóis’. Sophia e Marcello são o filme. Vou me repetir, dizendo, como no fim do post anterior, que Sophia é, mais uma vez, deslumbrante. Quando eu disse que não conseguia desgrudar o olho – não conseguia desgrudar dela.

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27.dezembro.2009 18:46:12

‘Tambores Distantes’

Ainda Capra. O diretor de ‘A Felicidade não se Compra’ acreditava nos próprios truísmos e um deles é justamente o de que o dinheiro não traz a felicidade. A propósito, estava no Shopping Bourbon em Porto quando vi um cara com uma camiseta – na verdade, nem fui eu, foi minha ex, Doris, quem me chamou a atenção; a propósito, leiam no blog dela seu texto sobre ‘Avatar’ – com os seguintes dizeres. ‘Se você acha que dinheiro não traz felicidade, passa a grana e vai ser feliz!’ Sensacional! Mas agora quero falar especialmente com Mauro Brider, que comprou o DVD de ‘Tambores Distantes’ – ele talvez já tenha visto o filme – e me pergunta que lembrança tenho do western de Raoul Walsh. ‘Distant Drums’, com Gary Cooper, é de 1951, situando-se entre dois outros filmes com Gregory Peck – ‘O Falcão dos Mares’ e ‘O Mundo em Seus Braços’, que também saiu em DVD. Ou eu me engano muito ou entre ‘Tambores’ e ‘The World in His Arms’, Walsh fez mais um filme, mas a memória me trai e eu não saberia dizer qual é. O que tenho certeza é que o western de Walsh antecipa de dois anos o de Budd Boetticher, ‘Seminole’, com o qual compartilha a paisagem. Em vez das planícies do Velho Oeste, os pântanos da Flórida, onde habita(va)m os índios Seminoles. O filme repete – em termos – uma experiência muito curiosa de Walsh, que, em 1949, com o western ‘Golpe de Misericórdia’, refez, em outra paisagem, o clássico de gângsteres ‘Seu Último Refúgio’, de 1941. Em ‘Tambores Distantes’, de novo no western – mas numa paisagem inabitual do gênero -, o grande diretor refez seu clássico de guerra ‘Objective Burma’, de 1945, que no Brasil se chamou ‘Um Punhado de Bravos’. Não me lembro da história em detalhes, mas Gary Cooper faz capitão que ataca (e destrói) fortificação dos Seminoles, tomando alguns prisioneiros. A chegada do chefe da tribo com seus guerreiros a força a fugir para os pântanos e a se refugiar na ilha em que mora só com o filho. O capitão é um homem desencantado com o mundo – a época ainda é a primeira metade do século 19, anterior ao advento dos pistoleiros – e a ilha é o seu paraíso perdido, um espaço meio mítico que não desagradaria a famosos autores de aventuras, além de naturalistas, como Jack London e Robert Louis Stevenson. Mauro me pergunta o que lembro do filme? A paisagem, claro, realçada pelas cores luminosas, e o confronto final entre o capitão e o chefe índio, que logicamente não pode ser resolvido num duelo a bala e vira uma briga de faca, que Walsh filma debaixo d’água. Pode ser que a lembrança me traia, mas a cena é muito plástica (e intensa), o que o Mauro poderá nos confirmar. Walsh contava que seu amigo Gary Copper queixava-se de nunca ter dado tanto sangue por um filme, mas ele se referia aos mosquitos, os borrachudos da Flórida, que quase o comeram vivo. Vai lá, Mauro, que acho que vai valer a pena. No meu imaginário, o que retenho do filme basta para situá-lo como uma das grandes obras de Walsh.

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