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Luiz Carlos Merten

25.julho.2008 12:00:09

Biscoito fino

Já estou arrependido. Fui ontem ao Centro Georges Pompidou, o Beauborg, porque queria ver a exposição ‘Os Traços do Sagrado’, mas terminei me desviando. Fui ver outra exposição, dedicada ao arquiteto Dominique Perrault, que criou a Biblioteca Nacional de França, um monumento de ‘não arquitetura’ em que o prédio, propriamente dito, é um volume delimitado por um jardim. Na Galeria das Crianças, o artista plástico Edouard Sautai faz uma intervenção que também é muito interessante, O Olho na Escala, sobre a relatividade dos pontos de vistas nas cidades modernas. Como ele diz, uma formiga, olhando o meio-fio (da calçada), deve ter a mesma sensação da gente olhando para um prédio enorme. Nenhuma dessas duas exposições me decepcionou, mesmo que as tenha visto a toque de caixa, porque queria passar na loja para ver os livros de cinema. Vem daí o meu arrependimento. Entre ‘trocentos’ livros novos, havia um que achei muito caro e agora estou me martirizando. Deveria ter comprado. Chama-se ‘The Wrong House – The Architecture in Hitchcock’s Movies’. Folheei e fiquei louco. Hitchcock construía com seus diretores de arte e cenógrafos projetos brilhantes de casas, além de usar casais reais – aquela projetada pelo Frank Lloyd Wright – em filmes como ‘Intriga Internacional’. O detalhamento da casa de ‘Rebecca’, a de Norman Bates, que ele fez projetar prevendo os posicionamentos de câmera – para um ex-estudante de arquitetura, como eu, tudo isso é fascinante, para se dizer o mínimo. Imagino que seja um tipo de livro caro e sofisticado para que as editoras brasileiras invistam nessa linha de produto. Vamos ficar com o enésimo livro sobre as teorias de Eisenstein, que é só o que se edita por aqui. Mas tem a Amazon. ‘The Wrong House’, a arquitetura em Hitchcock. Biscoito fino.

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25.julho.2008 10:57:00

Ó céus…!

Estou de volta a São Paulo – ao jornal – e espero daqui a pouco conversar com o povo que cuida dos blogs para saber onde andam vocês, já que os comentários sumiram desde as novas diretrizes. Tive um dia corrido ontem em Paris – que chique, não? – antes de embarcar, no final da tarde, para Munique e, dali, para o Brasil. Não consegui ver o Ozu – ‘Crepuscule à Tokyo’ – porque era muito longo. Terminei vendo ‘Le Mirage de la Vie’ no ciclo em homenagem a Douglas Sirk, no Reflets Médicis. O filme passou no Brasil como ‘Imitação da Vida’, mas teve uma fase na TV, no SBT, em que foi reintitulado como ‘Odeio Minha Mãe’. Sei que tem gente que prefere ‘Tudo o Que o Céu Permite’ e ‘Palavras ao Vento’, mas ‘Imitação da Vida’, adaptado do romance de Fannie Hurst, é o meu Sirk preferido. E como era boa atriz a Susan Kohner! Falei aqui outro dia daquelas atrizes que surgiram em Hollywood por volta de 1960, quando se encerrava a era de ouro dos estúdios. Suzanne Pleshette, Diane Baker, poderia citar muitas outras que, na transição, não encontraram espaço na nova Hollywood. Susan Kohner foi uma delas. Ela é maravilhosa como a filha mestiça de Juanita Moore, que tenta se passar por branca e rejeita a própria mãe. O filme é maravilhoso por suas múltiplas camadas de leitura. Todos aqueles espelhos e escadarias fornecem múltiplas chaves, e se você usar as chaves da psicanálise e da filosofia do desejo de Gilles Deleuze, aí sim sua riqueza é inesgotável. Susan Kohner fez depois, também na Universal, ‘Freud, Além da Alma’, de John Huston, no papel da mulher de Freud. Ou não entendo nada ou a filosofia de Deleuze (e Félix Guattari) é freudiana e a Susan Kohner foi a mais ‘freudiana’ atriz de sua geração. (Estou brincando, hein?) Estou escrevendo este post e viajando na alta cultura, mas deve ser a influência da França, o fato de haver respirado ar francês nos últimos dias. Sirk e o melodrama viraram material de estudo de intelectuais como Lacan, e aqui uns intelectuais de meia-tijela sempre acharam suspeito este cinema de lágrimas. Tanta porcaria que passa por alta cultura e tanta alta cultura tratada como porcaria. Ó céus…!

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23.julho.2008 19:17:46

Buona gente

PARIS – Não sei se é precipitação de minha parte, mas estou louco para acrescentar o post que começo a redigir agora. O fato de ter visto um velho De Sica – ‘Matrimônio à Italiana’ – e também de ter comprovado o excepcional interesse pelo ciclo em homenagem a Dino Risi – a fila era enorme para ver ‘Perfume de Mulher’, com Vittorio Gassman no papel que Al Pacino recriou em Hollywood -, pode ter me motivado, mas vamos lá. Acho, espero que seja verdade, que algo de novo está ocorrendo no cinema italiano. Órfão de Antonioni, Fellini e Visconti – e financiado em grande parte pela televisão -, o cinema italiano há tempos vem chafurdando na mesmice e quando ocorre alguma exceção é para confirmar a regra. O melhor filme italiano recente que havia visto foi ‘Bom-Dia, Noite’, de Marco Bellocchio, mas também havia gostado de ‘La Meglio Gioventù’, antes que Marco Tullio Giordana decepcionasse com seus filmes seguintes. No dia 8, estréia ‘Meu Irmãos É Filho Único’, de Daniele Luchetti, que amei no ano passado, quando o vi em Cannes – e até incentivei Dona Elda, da PlayArte, para que o comprasse. Um filme que mistura ‘La Meglio Gioventù’ com ‘Rocco e Seus Irmãos’, para falar de família e política (uma política da família?). Em Cannes, em maio, assisti a ‘Il Divo’, de Paolo Sorrentino, e ‘Gomorra’, de Matteo Garrone, ambos com o mesmo ator, o extraordinário Toni Servillo. Os dois filmes estavam em Wroclaw e o de Garrone, especialmente, foi apontado pela crítica polonesa como um dos dois ou três imperdíveis numa programação de mais de 400 títulos. Há um culto a Garrone, considerado o enfant terrible do cinema italiano atual, mas eu confesso que prefiro Sorrentino, de ‘L’Amico di Famiglia’ e ‘Il Divo’, mesmo reconhecendo qualidades que não me haviam impressionado tanto em ‘Gomorra’, quando o vi em Cannes (e a imprensa italiana dava como certa a Palma de Ouro, que não veio, claro). Também em Wroclaw, vi o filme que Ermanno Olmi está dizendo que vai ser seu último – ‘Centochiodi’ – e amei. Entre um veterano como Olmi e jovens como Luchetti, Garrone e Sorrentino, algo de novo está se passando no cinema italiano, que não é só Nanni Moretti (e Bellocchio e, pontualmente, Bertolucci). Fico feliz. O cinema italiano foi tão decisivo na minha formação (Visconti, Visconti e Visconti). Acompanhava com tristeza a sua mediocrização. Ei-lo que ressurge – será?

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23.julho.2008 19:10:28

‘Souvenir’

PARIS – Cá estou eu de novo, pela sexta vez neste ano, na capital mundial da cinefilia. Cheguei ontem e, de cara, vi um filme – ‘A Ilha Nua’, de Kaneto Shindo. Hoje, vi mais um na retrospectiva do cinema japonês, ‘As Flores do Equinócio’, de Yasujiro Ozu, mais um noir, ‘The Spiral Staircase’, de Robert Siodmak, que aqui se chama Deux Mains, La Nuit’, e um filme de Vittorio De Sica. Não me perguntem por que, mas nunca havia assistido a ‘Matrimônio à Italiana’. O filme está sendo relançado em cópia nova. Nos créditos iniciais, consta a informação de que foi restaurado (em 2002) pela Associação de Amigos de Vittorio De Sica, que nem sabia que existia. Sempre ouvi falar que era uma comédia, mas na verdade é um melodrama, e melhor do que ‘Os Girassóis da Rússia’, que De Sica também fez com Sophia Loren e Marcello Mastroianni. Fiquei agora na maior dúvida. Amanhã, tenho tempo de ver mais um filme antes de ir para o aeroporto, iniciando o caminho de volta para o Brasil. O que verei? ‘Palavras ao Vento’, também em cópia nova, num ciclo em homenagem ao rei do melodrama, Douglas Sirk, ou outro Ozu, ‘Crepuscule à Tokyo’, que não tenho certeza, mas acho que deve ser ‘Viagem a Tóquio’? Se for, é o meu Ozu favorito, com Chisu Ryu, e se não for é mais uma oportunidade de conhecer outras obras do grande diretor. Só quero assinalar uma coisa. Hoje estrearam aqui ‘Cidade dos Homens’, do Paulo Morelli, com críticas simpáticas na imprensa cotidiana, e o Im Kwon-taek que havia visto no Festival de Wroclaw. ‘Beyond the Years’ chama-se, aqui, ‘Souvenir’. É a história de um músico de pansori obcecado pela lembrança da meia-irmã cega (e cantora). Havia amado o filme. Kiko Goifman e Raquel Monteiro, que também estavam na Polônia, foram ver – segundo minha indicação – e acharam que era melodramático, horroroso etc. Comprei hoje as edições de julho de ‘Cahiers Du Cinéma’ – a capa é com Louis Garrel – e ‘Positif’ – um número dedicado a Michelangelo Antonioni. É raro que ‘Cahiers’ e ‘Positif’ cerrem fileiras elogiando os mesmos filmes. Está ocorrendo agora. Ambas as revistas amaram ‘Souvenir’, Chef d’oeuvre, obra-prima, é como definem o centésimo – 100º! – filme do mestre coreano. Kiko e Raquel me desculpem, mas é uma obra-prima. Se não for estrear, espero que pelo menos passe no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo.

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21.julho.2008 19:22:21

Mistério de Olmi

WROCLAW – Parto amanhã para Paris, onde fico duas noites, antes de regressar para o Brasil. Ainda faço uma última apresentação de um filme da retrospectiva do cinema brasileiro – ‘São Paulo S.A.’, de Luiz Sérgio Person -, antes de seguir para o aeroporto. Estou escrevendo passado da meia-noite, o que significa que, tecnicamente, já estou no amanhã da Polônia, embora ainda seja ‘ontem’ para vocês, no Brasil. Acabo de ver o filme de Ermanno Olmi, ‘Centochiodi’. Estou siderado. O filme é de 2006, mas é possível que tenha ficado parado estes dois anos. Nunca havia ouvido falar de ‘Centochiodi’ e a única referência do catálogo é que ele passou em Roterdã, 2008. Olmi fez uma parábola, mais uma, sobre o Cristo. ‘Ed venne un uomo’, como no seu filme de 1965, inspirado no exemplo do Papa João XXIII. Este homem é um professor – professorino, porque parece um estudante -, que comete uma blasfêmia aos olhos da Igreja (e da Universidade Católica de Bolonha). Ele trespassa livros sagrados com um cravo – cem cravos – como um ato de protesto. Todos os livros que concentram a sabedoria humana não valem um café com um amigo. O velho padre, seu mestre, ama os livros mais do que a humanidade, e quando ele diz ao professorino que ele terá de pagar por seu crime no Julgamento Final, a resposta é que o próprio Deus terá de responder por sua indiferença pela dor humana. Repleto de referências religiosas, o filme é de uma beleza de cortar o fôlego. O professorino, qual um Cristo moderno, integra-se a uma comunidade que vive à beira do Rio Pò e que corre o risco de ser desalojada, porque não é importante aos olhos da sociedade organizada. O legado do professorino para esta gente simples é a cidadania, mais do que a religiosidade. São raros os filmes como este do Olmi, que propõem verdadeiras experiências estéticas, e éticas. Um cinema do humano. havia uma platéia predominantemenjte jovem que aplaudiu ‘Centochiodi’ durante e após a projeção. O próprio Olmi diz que será seu último filme para cinema. Não entendia o que ele queria dizer, antes de assistir a ‘Centochiodi’. Depois, fica claro como água. O filme é o testamento de um homem – de um artista – que acredita na Graça. Tudo o que Olmi queria dizer sobre Deus e os homens, sobre o sagrado e o profano, sobre a natureza – sempre uma personagem forte em seu cinema, como provam ‘A Árvore dos Tamancos’ e ‘O Segredo do Bosque Velho’ – está aqui concentrado. Tudo o mais seria supérfluo. Que coisa! Espero que amanhã este encantamento não tenha se dissipado.

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21.julho.2008 15:39:54

Gomorra!

WROCLAW – Tive uma programação bem intensa hoje. Pela manhã, descobri que Lee Kang-sheng, o ator de Tsai Ming-liang e diretor de ‘Help Me Eros’, está hospedado no mesmo hotel que eu. Apresentei um filme da retrospectiva brasileira – ‘Carlota Joaquina’, de novo -, dei algumas entrevistas (como curador) e fui ver o filme do Sheng. Varios filmes que vi aqui em Wroclaw – ‘Les Amours d’Astrée et Céladon’, ‘Beyond the Years’ e ‘Sol Negro’, tratam do amor eterno, do amor puro. ‘Help Me Eros’ segue o caminho inverso. Os personagens precisam baixar ao nivel mais sórdido do sexo em busca de uma transcendência. Não morri de amores pelo filme, que já passou na Mostra, mas achei bem interessante e certamente mais atraente do que a visão ‘cristã’ – a ditadura da culpa – de Zanussi. À tarde fui ver ‘Possessão’ e tive outra decepção. Não sabia exatamente o que esperar do filme de Andzej Zulawski, mas o que encontrei não me satisfez. O relato de um casamento em desintegração é assombrado pelo fantástico e, no começo, o corpo estranho que ‘possui’ Isabelle Adjani pode muito bem ser uma projeção de desejos reprimidos. No final, o fantástico parece que assombra o próprio diretor e o seu casal é destruído para que ‘duplos’ gerados pelo monstro assumam seus lugares. Não gostei e a histeria de Isabelle, em desempenho premiado em Cannes, me deixou pasmo (no mau sentido). Na seqüência, fui rever ‘Gomorra’, de Matteo Garrone, que os italianos achavam que ia papar a Palma de Ouro em Cannes, em maio, e ficaram furiosos quando o filme ganhou o Grand Prix do júri. ‘Gomorra’ tem um lado ‘Cidade de Deus’, mostrando como opera a Camorra, a Máfia napolitana, recrutando jovens para atividades criminosas que incluem o controle das drogas e da indústria do vestuário clandestino, as imitações de grifes famosas. Não havia gostado muito do filme, mas tenho de reconhecer que Garrone, nascido em 1968 e diretor desde 1996, constrói cenas poderosas que explicam sua fama de ‘enfant terrible’ do cinema italiano atual. E o filme dele tem Toni Servillo, ator-fetiche de Paolo Sorrentino, que também estava em Cannes com ‘Il Divo’. É o pelamor de Deus. O prêmio de interpretação masculina para Benicio Del Toro, o Che de Soderbergh, foi a grande cagada – me desculpem a vulgaridade – do júri presidido por Sean Penn. Servillo podia ter ganhado tranqüilamento pelo chefe mafioso de ‘Gomorra’ como pelo Giulio Andreotti de ‘Il Divo’. Com os dois filmes, ele deve ter dado um nó muito grande na cabeça dos jurados, porque são criações tão fortes como não se vêem com freqüência – só muito raramente – na tela. Vou agora a uma recepção para Roger Donaldson, que está aqui participando da retrospectriva do cinema neo-zelandês – e com ‘The Bank Job’, que adorei. Na seqüência, quero ver ‘Centochiodi’, de Ermanno Olmi, o mestre de ‘A Árvore dos Tamancos’. Olmi já anunciou que este será seu último filme narrativo (para cinema). Ele quer fazer agora só documentários e filmes experimentais para TV e circuitos especiais. Como perder? Afinal, além da ‘Árvore’, premiado com a Palma de Ouro, nos anos 70, ele fez também ‘Il Posto’ e ‘A Lenda do Santo Beberrão’. Gosto muito do rigor de Olmi, que tem alguma coisa de Bresson, na sua busca da graça (no sentido teológico). Vamos lá!

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20.julho.2008 19:38:27

Dziga-Vertov

WROCLAW – Me disseram, antes de sair do Brasil, que os comentarios do blog entrariam via e-mail, para aprovacaoh, que agora eh necessaria. Soh que naoh estaoh entrando po… nenhuma e isso jah estah me batendo nos nervos. Tive uma noite muito agradavel hoje, em Wroclaw. Assisti aa apresentacaoh de musica ao vivo de Michael Nieman, tocando a trilha dele para `O Homem da Camera`. Jah vi tantas vezes o filme de Dziga-Vertov, mas nunca consigo me emocionar com ele. Acho interessante, afinal, eh um experimento, mas nada mais do que isso. Sentei-me ao lado de Joseh Miguel Wiznik, ficamos conversando e ele, com certeza, gostou muito mais do que eu, ateh da trilha do Nieman, composta em 2002 (para o filme de 1929). O curioso eh que pensei muito em `Limite`, de Mario Peixoto. Dziga-Vertov quis criar a experiencia cinematografica pura, livre de toda influencia teatral ou literaria. O conceito do filme dele eh muito interessante. O povo e a cidade, sob o novo socialismo, numa dinamica muito grande. Nada a ver com o lirismo de comediantes como Harold Lloyd, que olhavam, nos anos 20, o carro como bicho domestico. Na mesma epoca, a vanguarda russa via o futuiro como uma coisa real, que jah existia. O progresso em movimento. Depois vieram Stalin e o realismo socialista e comecou o imobilismo. Esta analise nem eh minha, eh do Wiznik, mas assino embaixo, sem me entusiasmar com o experimentalismo de Dziga-Vertov, que, de alguma fdorma, me remeteu a Mario Peixoto. A noite prosseguiu num restauranrten onde fomos todos – um grupo de 13 pessoas – comer harenque com vodca num restaurante da praca grande, onde estah montado o telaoh das projecoes para o grande publico. Foi lindo. O filme era de Roger Donaldson, com Anthony Hopkins, `The Last Indian Runner`, ou coisa parecida. O proprio Donaldson estava lah. Naoh prestei muitas atencaoh, mas as cenas de acaoh – corridas – eram espetaculares. No final o publico aplaudiu calorosamente. Achei emocionante.

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20.julho.2008 13:32:48

Zanussi & Zulawski

WROCLAW – Isto jah virou piada, estou falando desta minha confusaoh com alguns diretores tipo Zulawski e Borowczyk. Outro dia troquei alhos por bugalhos e, querendo falar do diretor de `Possessaoh`, citei Borowczyk, quando eh Zulawaski.A confusaoh prosseguiu hoje quando falei sobre o Zanussi. Ele estah mostrando aqui seu novo filme, `Sol Negro`, producaoh italo-francesa, falada em italiano, com Valeria Golino. Um filme sobre o amor infinito, sobre uma mulher que planeja vingar a morte do marido – tipo `A Noiva Estava de Preto`, do Truffaut – e descobre que a vinganca eh vazia. Ele era um anjo e ela eh que deve morrer, em vez do assassino. Ih, estou contando o final, mas naoh faz mal. Esta eh uma daquelas tragedias anunciadas e o como eh certamente mais importante do que o por que. Acho curioso como varios filmes aqui neste festival, os de Rohmer e Im Kwon Taek tambem, estaoh tratando do amor puro, do amor que desafia o tempo (e a morte). Zanussi sempre foi o diretor mais desconcertante da nouvelle vague polonesa. Fez filmes como `Estrutura de Cristal` e `Illumination`, ambos ligados a temas filosoficos e baseados em estruturas narrativas complexas, como se a linguagem, acima de tudo, fosse o grande assunto de seu tema. O novo filme naoh foge a essa linha, com sua discussaoh do bem e do mal, do Diabo que naoh aguenta tanta beleza do anjo marido de Valeria, e tenta um sujeito qualquer para destrui-lo. Espero poder falar com o diretor, mas tive de sair correndo da sessaoh para passar no hotel e seguir para a Opera de Wroclaw, onde ocorre daqui a pouco a exibicaoh de `O Homem com a Camera`, com acompanhamento ao vivo de Michael Nieman. A confusaoh que fiz com o Zulawski eh a seguinte. Ele tambem estah sendo homenageado pelo festival com uma retrospectiva. Hoje, as 10 da noite, apos o concerto, passa `Possessaoh`. Estou muito afim de quebrar o encanto e ver, enfim, o filme com Isabelle Adjani.

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20.julho.2008 06:56:53

Encontros notaveis

WROCLAW – Havia passado no business center soh para dar uma noticia dos meus ultimos dias aqui no festival de cinema. Tivemos ontem um debate muito interessante sobre o cinema da retomada – depois eu entro em detalhes, mas havia bastante gente interessada na discussaoh -, mais um coquetel promovido pela embaixada do Brasil, logo apos o concerto de Michael Nieman, o compositor de Peter Greenaway, que foi acompanhado de sua soprano, uma australiana maravilhosa, cujo nome preciso descobrir. Naoh imaginava que o coquetel fosse ser taoh bom para mim. Encontrei o Nieman e a soprano dele e naoh resisti. Fui para cima dos dois, seguido pela brasileirada que baixou como um enxame sobre a dupla. Michael foi otimo – hoje ele apresenta o acompanhamento ao vivo de `O Homem com a Camera`, de Dziga-Vertov. Contei-lhe que Greenaway vai filmar no Brasil e ele perguntou o que. Disse-lhe que um filme pornografico, ele fez uma observacaoh que adorei – disse que hah tempos ouve falar deste projeto, mas naoh creh que Greenaway seja o homem para falar de sexo e pornografia. Sexo naoh eh a praia dele (de Greenaway), diz o Nieman, e eu que sempre pensei isso, nas muitas entrevistas que fiz com o cara. Achei finalmente alguem mais proximo do cineasta para ratificar o que secretamente pensava. Tambem estavam no coquetel o Terence Davies, homenageado com uma retrospectiva aqui em Wroclaw, e o Krszyztof Zanussi, de quem falamos outro dia, sobre `Possessaoh`. Vou poder conversar hoje com o Zanussi, no fim da tarde, depois de ver `Black Sun` – e as 10 da noite espereo assistir, enfim, a `Possessaoh`, com a Isabelle Adjani. O papo mais legal foi com Terence Davies, que hah oito anos naoh filmava. Seu ultimo filme, `The House of Myrtle`, baseado em Edith Wharton, foi o maior sucesso de publico de sua carreira e, mesmo assim, ele naoh encontrou produitores interessados em seus novos projetos. Davies falou muito mal do sistema ingles de producaoh. Revelou que, para naoh enlouquecer, se refugiou na poesia e produziu muita coisa ao longo destes oito anos. Fez tambem este documentario sobre `Liverpoool`, sua cidade, voltando-se, mais uma vez, para a musica e para as origens operarias de sua familia. Tantos encontros notaveis. Wroclaw estah sendo o paraiso para mim. Encontrei ateh um representante do Instituto Sueco, Patrik Andersson, que havia conhecido em Faro. Ele estah aqui jah definindo o que serah a retrospectiva que o festival vai dedicar no ano que vem ao cinema sueco, como estamos tendo este ano as do cinema brasileiro e neo-zelandes, mais as homenagens a Terence Davies e Theo Angelopoulos. Como Bergman estah bem mapeado, Patrik vai sugerir uma homenagem a Jan Troel. Apresentei-ao Sergio, do Sesc – sorry, mas tropeco no nome, naoh sei ateh agora se eh Spinelli ou Espinelli -, na expectativa de que resulte alguma parceria e que a gente possa ver em Saoh Paulo um pouco da obra do Troel ou de quem mais for possivel, entre os grandes do cinema da Suecia.

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20.julho.2008 06:23:34

Dercy, 101 anos

WROCLAW – Desci no business center do hotel, antes de ir para uma sessaoh do festival. Encontrei Joseh Miguel Wiznik, que abriu o terminal e me disse – morreu Dercy Gonalves. Que coisa! dercy foi hom,enageada hah duas semanas, se tanto, no Festival de Paulinia. Estava bem – enfim para os seus 101 anos. Lucida, desabocada como sempre. Duvido muito que alguem da minha geracaoh naoh tenha sido marcada pela presenca de Dercy nas chanchadas, embora `Uma Certa Lucrecia` e `Absolutamente Certo` possuam elementos do genero, mas nmaoh sejam chanchadas puras. E a verdade, tenho de admitir, eh que sempre me diverti mais com Violeta Ferraz, cujo grito de guerra `O petroleo eh nosso`, ateh hoje ressoa no meu imaginario, tal como eh proferido no desfecho do filme de Watson Macedo (espero que seja mesmo dele e naoh do Joseh Carlos Burle, para naoh cometer injustica). Mas Dercy foi uma figura. Enfrentou, e venceu, o preconceito que fazia com que artistas tivessem de usar carteirinhas sanitarias de prostitutas no comeco da carreira dela. Nunca ninguem disse tanto palavraoh na historia do Brasil, nem Leila Diniz, e Decry era adorada por uim p[ublico familiar que naoh queria nem ouvir m…, que dirah pqp, mas ela dizia e as pessoas aceitavam, porque era Dercy. Como Oscarito, Grande Otelo, Mazaropi e Violeta Ferraz, Dercy escrachava nossa identidade, atolando nosso peh no humor chancho. Descansa em paz, Dercy, ou entaoh vai armar barraco no ceu, o que eh mais provavel.

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