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Luiz Carlos Merten

MADRI – Tentei ontem postar alguma coisa, à noite, mas não consegui. Estava numa lan house e, nas duas tentativas, perdi o texto. Não me esqueci de vocês e até gostaria de estar compartilhando as experiências desta viagem à Espanha. No domingo à noite, em Paris, sinto desapontá-los, mas preferi ir jantar, ao invés de assistir a ‘Triangle’, com direção, entre outros, de Tsui Hark (e Johnny To). Estava morrendo de vontade de tomar (comer?) uma sopa de peixe, mas nem foi a fome que me impediu de ir ao cinema. Acontece que eu ainda estava sob o impacto de ‘Sweeney Todd’ e não quis misturar as coisas. Deixei ‘Triangle’ para a volta a Paris, após o Festival de Berlim, se bem que vai ser duro. Imaginem se vou querer perder ‘Zabriskie Point’ e ‘O Espírito da Colméia’ que estarão de volta aos cinemas, em cópias novas? Em Madri, já assisti a dois filmes. Na terça à noite, ‘El Orfanato’, de J.A. Bayona, produzido por Guillermo del Toro (que filma, na Hungria, a seqüência de ‘Hellboy’). Achei o filme bem legal. Uma mãe, Belén Rueda, mora neste antigo orfanato freqüentado pelos fantasmas de crianças que foram assassinadas. Ela tenta recuperar, de entre os mortos, o filho que desapareceu. O marido, a polícia, todos pensam que está louca. O filme tem o clima de… Como é mesmo o título do filme de Alejandro Amenábar com Nicole Kidman, ‘Os Mortos’? Ontem à noite voltei ao cinema para ver ‘Los Crimenes de Oxford’, de Alex de la Iglesia, com Elijah Wood e John Hurt, que retoma a linha de ‘Crime Ferpeito’, do diretor. O filme começa com uma discussão acadêmica sobre a relatividade da verdade, por Wittgenstein, e prossegue com esta trama de múltiplos assassinatos para levantar uma tese polêmica – se não existe verdade absoluta, não existem também inocência nem culpa absolutas. Tudo se relativiza. Achei curioso, mas vi o filme dublado e o Elijah Wood dizendo, a toda hora, ‘cariño’, como fazem os espanhóis, foi dose. Ontem passei o dia em Toledo, cidade mágica (e mítica) em que Buñuel rodou um de meus filmes preferidos (entre todos os que ele fez) – ‘Tristana’, com Catherine Deneuve e Franco Nero. A cidade não tem horizonte. Só ruas curvas e estreitas que vão se fechando (trata-se de uma cidade medieval, cercada por muralhas, na sua parte antiga). Antes de entrar nesta parte antiga, a vista do morro e do Tajo (Tejo), que vai banhar Lisboa, é uma coisa espetacular. Toledo é chamada de Jerusalém da Espanha e o formato da cidade, incrustrada na montanha, lembra mesmo a cidade israelense, que conheci no ano passado. Mas o mais impressionante em Toledo é a catedral gótica. O que é aquilo? Dava para ficar dias intgeiros ali dentro, só olhando, e tentando decifrar, os detalhes. Em Toledo, estão os melhores exemplares da arte religiosa de El Greco, que os espanhóis chamam somente de ‘Greco’, mais ‘O Enterro do Conde de Orgaz’ e aquele Cristo do manto vermelho. Gente, vou precisar voltar a escrever sobre isto. Ao mesmo tempo que a catedral de Toledo representa a força civilizatória da igreja – e a busca de transcendência por parte dos homens -, chega-se a ela por meio de uma praça na qual a Inquisição fazia seu atos de fé e condenava ao martírio, na fogueira, os chamados ‘hereges’. As sombras de Goya estão à solta em Toledo, em cada curva do caminho. Agora, chega. Vou ao Museu Reina Sofia, embora já saiba – ó frustração – que Guernica está fechado e só será reaberto no dia 5, justamente quandio estarei partindo (de Barcelona) para Berlim.

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29.janeiro.2008 17:20:59

Espanha!

MADRI – Olá! Cheguei a Madri ontem no início da tarde e já tratei de conhecer a cidade, indo a um show de flamenco à noite. Não conhecia a capital espanhola, e é uma cidade impressionante. Tem uma parte antiga muito interessante, construída em torno da Calle Mayor – que inspirou um famoso filme de Juan Antonio Bardem nos anos 50 -, e outra moderníssima, que nada deve às capitais mais sofisticadas do mundo. Hoje pela manhã fui ao Prado para realizar meu sonho de ver ‘As Meninas’, mas confesso que depois do impacto que me produziu, em Paris, a alegoria do estúdio do artista, na exposição de Gustave Courbet, não tive nem de longe o choque que esperava ter. Velásquez é um gênio, mas seu quadro é muito intelectual, me produziu uma admiração fria, ao contrário do Goya, do Hyeronimous Bosch e do Brueghel Velho. ‘O Jardim das Delícias’, ‘O Carro de Feno’ e ‘O Triunfo da Morte’ são tudo aquilo que eu esperava e muito mais. Descobri o José de Ribera, que me pareceu uma coisa de louco, e o mais doido é que em cada sala que se entra tem um daqueles quadros que a gente aprendeu a conhecer (e amar) como peças-chaves da criatividade humana. Queria ir também ao museu Reina Sofia, para ver ‘Guernica’, mas ainda bem que hoje é terça e estava fechado. Pude ficar mais tempo no Prado, inclusive almoçando por lá (a comida do museu, um menu fixo, é deliciosa e, para os padrões dos restaurantes daqui, bem barata). Mas agora chega. Dois dias sem cinema são demais para mim. Vou postar este texto e enviar minhas matérias para o Caderno 2 – continuo escrevendo, apesar das férias… – e, na seqüencia, já que vou poder escolher apenas um filme para hoje, terei de fazer minha opção entre ‘El Orfanato’, um fantástico produzido pelo Guillermo Del Toro, que fez (faz) grande sucesso por aqui, ou ‘Savage Grace’, de Tom Kalin, com Julianne Moore, que vi em Cannes no ano passado (e acho que passou na Mostra). Adorei o filme do Kalin, que estou louco para rever. Mas, pelo sabor da novidade, acho que vou terminar indo de ‘El Orfanato’.Ou de ‘Crímen em Oxford’, um suspense de Alex de la Iglesia, todos em cartaz num cinema aqui em frente do hotel, na Gran Via. Até amanhã!

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27.janeiro.2008 17:38:27

Rapidinha

PARIS – Só agora, depois de acrescentar os novos posts, dei uma olhada nos comentários recentes de vocês. Régis tem razão. Outro filme romeno, ‘Califórnia Dreamin’ ganhou no ano passado em Cannes, mas não foi a Caméra d’Or e sim, um prêmio especial atribuído pelo júri da competição (e que era presidido por Pascale Ferran, diretora de ‘Lady Catterley’). Aos que pedem uma força para Marion Cotillard no Oscar… Quem me dera exercer o mínimo – na verdade, queria o máximo – de influência para ajudar a atriz da ‘Môme’ a ganhar sua estatueta dourada. São quase 9 da noite. O que vocês acham? Vou jantar ou corro ao cinema para ver ‘Triangle’, que Tsui Hark, Ringo Lam e Johnny To dirigiram conjuntamente?

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PARIS – Meu primeiro dia em Paris – ontem – foi inteiramente dedicado ao teatro. Vi duas peças, correndo de um teatro para outro, mas com uma confortável diferença de uma hora e meia entre uma peça e outra, em teatros próximos (no Boulevard Strassbourg), o que me deu tempo de bater perna em companhia de meu amigo Dib Carneiro ali por perto. A primeira peça, ‘Le Dieu du Carnage’, de Yasmina Reza, com direção da autora, reinventa ‘Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?’, de Edward Albee, proporcionando um grande papel para Isabelle Huppert, que cria a anti-Martha do filme de Mike Nichols com Elizabeth Taylor. Se Gabriel Vilela – ou algum amigo dele – ler este post, espero que repasse imediatamente a sugestão do Dib de que é um texto perfeito para Renata Sorrah e que ela, melhor do que ninguém, deveria (ou saberia?) interpretá-lo no Brasil. A segunda peça, dramaturgicamente, não é tão boa – ‘Good Canary’, de Zach Helm -, mas, além de interessante, forneceu o material para que John Malkovich, assinando a direção, criasse o ‘A vida é Sonho’ dele. Que espetáculo mais bonito! E o que é a Cristiana Reali, filha de Reali Jr. – escritor e jornalista, ex-correspondente do Estadão em Paris-, no palco? Os franceses dizem que Cristiane é ‘éblouissante’. Resplandecente, uma ova. É pouco para ela. E seu colega de elenco, Vincent Elbaz? O cara é f… Fiquei pensando – mas por que o cinema francês não aproveita este sujeito? No programa da peça, encontrei a informação. Cristiana Reali fez seis filmes em quase 20 anos de carreira, desde 1989. Fez muito mais teatro. Ele é o contrário. Fez sete peças desde 1990 e uns 30 filmes – mais de 20, com certeza – desde 1994. Um que outro até passou no Brasil. Nunca tinha ouvido falar dele. No cinema, Elbaz não pegou. No palco, o cara é excepcional. Chega por hoje. Vou ter de deixar o ‘Barbeiro’ (Sweney Todd) para amanhã. É melhor. Dá tempo de decantar melhor o filme. Mas é bom já ir elogiando o o Johnny Depp e a música de Stephen Sondheim, que são suntuosos. Aliás, comprei um CD que traça o retrato musical de Alain Resnais por meio de seus compositores. Genial! Meus favoritos são Giovanni Fusco e Georges Delerue, por ‘Hiroshima, Meu Amor’ – aquele tema da corrida de bicicleta, quando Emmanuelle Riva vai ao encontro de seu soldadinho alemão; ‘On faisait l’amor partout’, lembram-se?, é a glória -; Miklos Rosza, por ‘Providence’; e, claro, Stephen Sondheim, por ‘Stavisky’, onde ele criou todos aqueles temas lindos para Jean-Paul Belmondo e Annie Duperey. Este Sondheim não é mole, mas tenho a impressão de que, em ‘Sweeney Todd’, ele ainda se supera.

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27.janeiro.2008 17:09:29

Já sabem?

PARIS – Cheguei aqui ontem pela manhã e, mal passei pelo hotel, já queria sair a vagabundear pelo Quartier Latin. Na quarta, dia 30, reestréia em cópia nova ‘Zabriskie Point’, do Antonioni, e no dia 6 de fevereiro, quarta da outra semana, ‘O Espírito da Colméia’, de Victor Erice. Já pensaram? Será que André Sturm, da Pandora, e Jean Tomas Bernardini, da Imovision, nossos grandes distribuidores ‘de arte’, sabem destas reedições e estão correndo atrás para levá-las ao Brasil? Espero que sim… Por falar em Antonioni, a revista ‘Positif, em sua edição deste mês, publica dois textos especiais – um de Woody Allen sobre Bergman e outro de Scorsese sobre Antonioni, homenageando, mais uma vez, os dois grandes autores que morreram no mesmo dia, no ano passado. Ainda não li, mas sugiro que façam uma busca na internet para saber se os textos estão disponíveis.

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27.janeiro.2008 16:59:41

Honoré e Sirk?

PARIS – Não sei se já havia falado para vocês, mas há duas semanas, aqui mesmo, em Paris, comprei uma revista chamada ‘Transfuge’ com uma sensacional entrevista do David Cronenberg e um artigo muito interessante acusando Marcel Proust, filho de uma judia, de ser anti-semita. O autor do texto ama ‘A La Recherche du Temps Perdu’, mas não perdoa o Narrador de não tomar partido em vários momentos da obra em que o anti-semitismo invade os salões que freqüenta, naquela Paris tão ‘Belle Époque’. Achei a tal revista, que li na viagem, uma coisa assim ‘Gatopardo’, muito chique. Na rubrica DVD, encontrei um texto muito elogioso sobre o lançamento de uma caixa de clássicos de Douglas Sirk, incluindo ‘Tudo o Que o Céu Permite’ e ‘Imitação da Vida’. Descobri – e é isto que quero repassar para vocês – que nos extras há um depoimento de Christophe Honoré em que o mais neo-nouvelle vague dos diretores franceses, devoto de Godard, Truffaut e Démy, declara seu amor por Sirk. Pensando bem, já dava para ter percebido isto em ‘Dans Paris’ e ‘Les Chansons d’Amour’.

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27.janeiro.2008 16:46:51

Um Welles ‘menor’

PARIS – Apesar da procedência, este ainda vai ser, basicamente, um post sobre coisas ocorridas no Brasil. Na quinta, ao sair do hospital, fiquei de molho em casa – um dia, pelo menos! -, embora tivesse preparativos para a viagem do dia seguinte, que não consegui concluir. De olho na TV, terminei assistindo a um dos raros filmes de Orson Welles que nunca tinha visto. Não me perguntem por quê, mas não conhecia ‘O Estranho’, que Welles realizou nos anos 40, com Loretta Young e Edward G. Robinson. Como muitos outros filmes da época, ‘The Stranger’ (título original) trata da caçada a um falso inocente. Ou, por outra – num mundo que descobria os horrores da 2ª Grande Guerra, Welles mostra este antigo nazista que se escondeu numa pequena cidade dos EUA, casou-se com uma garota que nada sabe do seu passado e para quem ele é apenas um dedicado professor da escola local. Ou seja, o cara é o estranho total e aí chega este caçador de nazistas que seguiu seu rastro. O tema do filme é a morte da inocência, embora estejam presentes assuntos que sempre foram caros ao ator e diretor – o poder, a manipulação etc. Sempre ouvi falar de ‘O Estranho’ como um filme menor de Welles, pelo qual ele próprio não tinha muito apreço. Não é muito difícil procurar seus defeitos. Há mesmo uma questão de verossimilhança (ou falta de…) que é essencial. O fim da guerra ainda era muito recente para Kindler, o nazista, ter conseguido apagar completamente seus traços, construindo, sem suspeita, outra vida numa terra estranha. Mas feita a ressalva, e ela é seria, Kindler tem tudo a ver com Harry Lime, que Welles interpretou em ‘O Terceito Homem’, de Carol Reed, filme tão ‘wellesiano’ que muita gente acha que o ator também o dirigiu ou, pelo menos, supervisionou, o que é uma injustica com Reed. A pressão de Edward G. Robinson, o caçador, sobre Loretta Young – que poderá ajudá-lo a descamascarar seu marido -, explode na cena em que ela, histérica, arranca o colar e as pedras rolam pelo chão, expressando mais do que a instabilidade da persionagem, a instabilidade do mundo. Vinte anos mais tarde, Arthur Penn criou uma cena parecida para expressar a loucura da cidadezinha texana de ‘Caçada Humana’, naquele sábado infernal em que todo o mundo sai à caça de Bubby Reeves (Robert Redford). É quando a bêbada e descontrolada Martha Hyer também rompe o fio de seu colar de pérolas. Justamente a partir da cena similar – e anterior -, ‘O Estranho’ fica muito bom. Welles, ou Kindler, percebe que tem de eliminar a mulher para se salvar e arma um acidente no alto da torre da igreja, de onde as pessoas parecem ‘formigas’, ele diz. Em ‘O Terceiro Homem’, Harry Lime diz a mesma coisa, no alto da roda-gigante, para Joseph Cotten. Esta meia-hora final de ‘O Estranho’ é brilhante pelo jogo expressionista de sombras, influência que Welles já assimilara em ‘Cidadão Kane’ e que permaneceu sempre presente, até o fim de sua carreira. Tudo bem, Welles fez coisas muito melhores, antes e depois. Mas ‘O Estranho’ não é uma obra menor e, se assim for considerado, é a prova de que o inverso é que era verdadeiro. Welles era tão grande que qualquer obra por ele dirigida, que não fosse ‘prima’, só podia ser considerada menor. Muito diretor considerado bom morreria para ter no currículo uma obra ‘pequena’ como essa.

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27.janeiro.2008 16:20:18

‘Dans Paris’!

PARIS – Pela procendência deste post, vocês já podem saber aonde estou. Cheguei ontem pela manhã e na sexta, no fim da tarde, ainda testei postar alguma coisa em Guarulhos, mas o texto não salvou, estava começando a chamada do meu vôo e eu não pude nem tentar de novo. Mas, enfim, aqui estou (de novo). Vim para o fim de semana, amanhã sigo para a Espanha – Madri e Barcelona, que não conheço – e de lá para Berlim, onde o festival começa na quinta-feira, não desta semana, mas da próxima, dia 7. Acabo de ver ‘Sweeney Todd”Dans Paris’! e ainda estou chapado com o musical de Tim Burton que possui a Pietà mais sangrenta do cinema, uma coisa de louco, que me fez delirar. E não é que eu voltei às boas com o Tim Burton? Mas antes de falar dele, quero falar de mim e de coisas que me aconteceram nos últimos dias, quando estive fora do ar. Vamos por partes, como diria o esquartejador.

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24.janeiro.2008 17:52:57

Ruinzinho…

Voltei ontem do Rio e ao chegar em São Paulo estava tão mal – tonto, com dor e até vomitando – que corri para a emergência do 9 de Julho. Resultado – os médicos me deram baixa e passei a noite no hospital. Havia combinado com o Ubiratan Brasil, que está editando o Caderno 2, que ia redigir um texto com uma entrevista que fiz com o Cristian Mungiu, diretor de ’4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias’, em Cannes, no ano passado. Redigi, mas confesso que não estava bem, não conseguia me focar e terminei fazendo um texto bem inferior ao que Mungiu e seu filme merecem. Por exemplo, ele diz uma coisa que me parece muito legal e que na hora não consegui explorar. Para Mungiu, seu filme não é sobre aborto e comunismo, ou pelo menos não é só sobre isto. Ele espera ter ido muito além, falando sobre a fragilidade humana, independentemente de regime. O aborto era livre na Romênia até 1966, mas o ditador comunista Ceaucescu baixou uma lei anti-aborto porque queria transformar o país num modelo para o bloco comunista. Segundo Mungiu, não apenas na Romênia, mas nos países muçulmanos e no Brasil – ele citou especifiocamente nosso país -, toda tentativa de coibir o aborto termina produzindo uma indústria da morte. Grande Mungiu. Em apenas três anos, a Romênia iniciou uma extraordinária escalada ascendente no maior festival de cinema do mundo. Começou com o prêmio da crítica para ‘A Morte do Senhor Lazarescu’, de Cristu Puiu, em 2005, prosseguiu com a Caméra d’Or para ‘A Leste de Bucareste’, de Columbiu Parombuiu, em 2006, e culminou com a Palma de Ouro para ’4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias’ no ano passado. Mungiu diz que a indústria de cinema é fraca em seu país porque na Romênia não existe star system. Mas ele acha que a visibilidade que a produção nacional alcança em mostras como Cannes amplia a possibilidade de distribução internacional dos filmes romenos. E vocês sabiam que estes três filmes foram fotografados pelo mesmo cara – Oleg Mutu -, uma descoberta de Mungiu?

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24.janeiro.2008 17:27:51

A revanche de Padilha

Ontem de manhã, ainda estava no Rio e fui à produtora do José Padilha, no Jardim Botânico, para entrevistá-lo e ao Wagner Moura, que mora ali do lado. Já era parte dos meus preparativos para o Festival de Berlim. Amanhã, embarco para a Europa, três dias em Paris e oito ou nove na Espanha, entre Madri e Barcelona. Fico por lá mesmo e engreno em seguida com o Festival de Berlim, que começa dia 7 de fevereiro, com a exibição do documentário do Scorsese sobre os Rolling Stones. Para garantir, resolvi entrevistar o Padilha e o Wagner, já que depiois talvez não tenha tempo e também é muito mais complicado ficar falando pelo telefone. É incrível, mas ‘Tropa de Elite’ é um filme que não deixa de despertar reações apaixonadas, pró e contra. Aqui mesmo no blog, bastou falar de ‘O Ano em Que Meus Pais de Férias’, que não foi selecionado para o Oscar, e a polêmica do ‘Tropa’ já entrou rachando. Padilha está muito animado com o fato de o filme competir em Berlim. Tem um sabor de revanche para ele. No Brasil, o filme virou um fenômeno social tão forte que o diretor diz que o que menos se falou do ‘Tropa’ foi como cinema. O filme já tinha sido selecionado para o Panorama, em Berlim, quando Harvey Weinsten entrou em campo dizendo que queria a competição, mas não podia esperar muito por uma decisão. Se Berlim não colocasse o ‘Tropa’ na disputa pelo Urso de Ouro, o Weinstein, distribuidor internacional do filme, iria com ele para o Sundance. O resultado foi que ‘Tropa’ foi anunciado logo na primeira leva de filmes selecionados por Berlim. Padilha tem dado muitas entrevistas para jornais e revistas européias e norte-americanas, já por conta de Berlim. Seu sonho é ir com o filme para o Oscar, repetindo o que ocorreu com Fernando Meirelles, por ‘Cidade de Deus, mas o legal é que esse sonho do Padilha passa pelo Wagner. O que ele mais gostaria de ver é o Wagner indicado na categoria de melhor ator. Wagner volta de Berlim e começa a ensaiar ‘Hamlwet’, de Shkespeare, que vai montar com direção de Aderbal Freire Júnior. A peça deve estrear em junho, em São Paulo, no Teatro da FAAP. E, ah, sim, muito importante – a Gertrudes de Wagner será Carla Ribas, de ‘Casa de Alice’.

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