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Luiz Carlos Merten

Há uma tristeza que me intriga no cinema de Christophe Honoré. Está ligada, talvez, ao sentimento de morte que percorre seus filmes ou à certeza da finitude do amor que consome seus personagens, mas é uma coisa que vai um pouco além. Cheguei a ser indiscreto e, nas duas vezes em que entrevistei Clotilde Hesme, sua atriz-fetiche (como Louis Garrel é o ator-fetiche), tentei sugerir que talvez tivesse algo a ver com opção sexual e que aquele gayzinho que ‘fisgava’ o belo Louis em ‘Canções de Amor’ não era um acidente fortuito. Ela me disse que não era por aí, mas o ‘amor que não ousa dizer seu nome’ volta em ‘A Bela Junie’, embora a relação forte seja hetero, entre Louis Garrel e a bela Léa Seydoux, que me fez lembrar – pelos olhos, principalmente – uma jovem Anna Karina. Fiquei siderado pelo filme, com sua personagem obcecada pela certeza de que o amor que Garrel lhe devota não é eterno e que não aceita a fórmula de Vinicius (é eterno enquanto dura). Essa mulher prefere não amar a arriscar-se a perder seu amor. Achei o filme interessantíssimo e creio que ele ilumina um pouco a tal tristeza a que me referia no começo do post. Honoré ama a nouvelle vague. Num certo sentido, é um trânsfuga do movimento que revolucionou o cinema francês por volta de 1960, só que consciente de estar chegando com 50 anos de atraso. Sua tristeza bem pode vir daí, dessa certeza de que, por maior que seja sua vontade de emular Godard e Truffaut, não é possível filmar como eles, naquela época. E tem mais – não deve ser mera coincidência que ‘A Bela Junie’ seja livremente adaptado de ‘A Princesa de Clèves’. Exatamente em 1960, o romance de Madame de Layaette, considerado um marco do realismo pdicológico na literatura francesa, foi adaptado por Jean Delannoy, com roteiro de Jean Cocteau. Em plena explosão da nouvelle vague, foi uma bofetada em seus jovens talentos que justamente Delannoy, um daqueles diretores de qualidade que Truffaut detestava, tenha recebido o Grand Prix Téchnique du Cinéma Français naquele ano. ‘A Princesa de Clèves’, revisitada por Delannoy, era um monumento de gélido academicismo (mas com uma Marina Vlady deslumbrante). Honoré filma agora como Truffaut ou Godard teriam adaptado a história. Confesso que me havia esquecido de ‘Canções de Amor’ quando fiz minha matéria de melhores do ano no ‘Caderno 2′. Havia-me esquecido também de Chabrol (‘La Fille Coupée en Deux’) e Abdelatif Kechiche (‘O Segredo do Grão’), mas lamento especialmente por Honoré. Vou parar com o blog. Preciso tomar banho, me arrumar, sair. Só doido para ficar postando em pleno réveillon. Mas vou rearranjar minha lista. Vou radicalizar os meus favoritos de cinema de invenção em 2008. Permanecem ‘Batman – O Cavaleiro das Trevas’, ‘Não Estou Lá’ e ‘Rebobine, por Favor’. Entra ‘Canções de Amor’ – por um dia, poderia ser ‘A Bela Junie’, que estréia amanhã – em 2009!). Melhora de posição ‘Falsa Loira’, de Carlos Reichenbach, que tenho de admitir, para mim mesmo, que foi o nacional que mais me encantou no ano que está terminando. Cinco filmes de invenção e um que se caracteriza pelo classicismo narrativo, ‘Desejo e Reparação’. Desta vez, nenhuma animação – mas haveria uma, se ‘Bolt – Supercão’ também não estreasse amanhã, ou seja, no ano que vem. Seis filmes, apenas. Amanhã, falo de cenas e interpretações que ficaram comigo. E um grande Novo Ano para todos nós, com alegria, saúde e muitos bons filmes pela frente!

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Tenho um amigo que é assinante da ‘Folha’. Foi ele quem me contou que Harold Pinter havia morrido e acrescentou que o fato de isso ter ocorrido do Natal permitiu que o jornal publicasse um texto – que não li – de Moacyr Scliar, considerando irônico que o autor tivesse morrido justamente em 25 de dezembro. Muito mais irônica fopi a morte de Charles Chaplin, o criador de Carlitos, em pleno Natal de 1977. Virou uma data inesquecível para mim. Trabalhava em ‘Zero Hora’, em Porto Alegre, estava numa fase em que não me era autorizado escrever sobre cinema, mas era feriado, estava só eu da área no plantão e tive – ou pude – enterrar o Chaplin. Sei que acrescentei à cobertura, ao material de agência, um texto meu, de análise da obra, que nem sei se foi parar no livro ‘A Paixão do Cinema’, em que a Secretaria Municipal de Cultura de Porto reuniu minha produção em jornais do Sul. Na época, aquilo me produziu uma euforia e uma certeza de que eu queria – e iria – voltar à área, o que demorou mais alguns anos, mas ocorreu. Volto à morte do Pinter. No cinema, seu nome é indesligável do de Joseph Losey, para quem escreveu os roteiros de ‘O Criado’, ‘Estranho Acidente’ e ‘O Mensageiro do Amor’, além de outro roteiro, nunca filmado – mas que foi editado como livro -, adaptando ‘Em Busca do Tempo Perdido’, o romance ‘fleuve’ de Marcel Proust. Losey encontrou em Pinter o autor perfeito para o tipo de batalhas sexuais e grilhões psicológicos em que gostava de envolver – e sufocar – seus personagens. O termo é bem sufocar porque Losey, preocupado em estabelecer tensões sociais – a velha ‘luta de classes’ -, era mestre em situar seus personagens em espaços fechados, claustrofóbicos, que filmava sempre por meio de imagens ‘flamboyants’. Foi uma parceria e tanto, mas Pinter também escreveu ‘A Morte não Manda Aviso’, e eu sempre tive uma queda por ‘The Quiller Memorandum’, o melhor filme de espionagem não adaptado de John Le Carré, nos anos 60 – estou falando de espionagem a sério, não de James Bond -, com George Segal como o agente que caça neonazistas numa Berlim que evoca, fantasmasgoricamente, a Viena de ‘O Terceiro Homem’, de Carol Reed. Não sei, sinceramente, se ‘A Morte não Manda Aviso’ resiste, hoje em dia, mas acho que sim, porque é tudo tão ambivalente – os personagens de Max Von Sydow, George Sanders e Senta Berger, atriz alemã que fez carreira em Hollywood, filmando com Peckinpah (‘Juramento de Vingança’) e Carl Foreman (‘Os Vitoriosos’) – que o filme permanece na minha lembrança.

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31.dezembro.2008 19:32:16

Ateísmo e humanismo em Neame

Quem me pediu que comentasse a carreira de Ronald Neame? Jean Tulard cita a diversidade da carreira do diretor inglês, que o faz passar do filme de aventuras exóticas ao melodrama e do policial ao conto natalino, exibindo sinais de talento em ‘Fugitivos de Zahrain’, ‘Na Glória, a Amargura’, ‘Gambit’ e ‘Adorável Avarento’ – estava me esquecendo de ‘A Primavera de Uma Solteirona’, com a genial Maggie Smith -, mas, no limite, confirmando, de filme para filme, uma negligência que frustra o espectador. Esta ‘negligência’, que Tulard não esclarece, será formal ou temática? Ambas. De qualquer maneira, tenho cá a minha queda por um filme de Neame, e é por ‘O Destino do Poseidon’, a versão de 1972, pessimamente refilmada por Wolfgang Petersen. O original dos anos 70 é, ao mesmo tempo, precursor e obra-prima da tendência chamada de ‘disaster movie’, quando os EUA viviam um momento de crise – primeiro provocado pela Guerra do Vietnã, como hoje a do Iraque, e logo por conta do escândalo de Watergate. Longe do asentimento crítico da trilogia de Spielberg, Hollywood respondeu àquela outra crise com filmes em que fenômenos naturais ou provocados pelo homem instauravam o caos social e fazia-se necessária a intervenção do Estado e de seus agentes, em nome da lei e da ordem. ‘Poseidon’ me fascina e intriga por sua ambivalência.Com seu nome que remete ao deus grego dos mares, filho de Cronos – o tempo -, o filme conta a história desse transatlântico que, na véspera do Ano Novo, é atimngido por uma omnda e vira de cabeça para baixo. Um grupo de passageiros sobrevive e, liderado por um padre que questiiona a existência de Deus, inicia a subida pelo interior da embarcação. O tema do filme é a assunção, no sentido místico e religioso. Quando, finalmente, o grupo chega ao topo do navio – no que ocorre ser o casco -, ele é de ferro. A solução vem do homem. Outro grupo, de fora, em busca de sobreviventes, ouve o barulho que fazem no casco e abre uma escavação no ferro. A solução vem do homem, não de Deus? Será simples assim? No primeiro dos episódios que compõem a estritura dramática de ‘O Cardeal’, de Otto Preminger, o padre Tom Tryon fica perturbado por causa dessa estátua da Virgem que verte sangue em sua igreja do Deep South. Milagre!, proclamam os fiéis. Na verdade, é um goteira que, incidindo sobre o manto, dilui a tinta. O fenômeno pode ser explicado racionalmente, mas o superior ensina a Tom Tryon que tudo obedece aos desígnios de Deus, porque foi ele quem enviou a chuva, que provocou a goteira etc. O ateísmo de Neame em ‘Poseidon’ – o acento cai a partir de amanhã -, o seu humanismo radical, pode ser uma manifestação do divino. ‘O Destino do Poseidon’ é muito bom. O melhor Neame? Provavelmente. E ainda tem a canção vencedora do Oscar, com o sugestivo título de ‘The Morning After’.

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31.dezembro.2008 19:07:44

‘Munique’

Tenho de liquidar algumas dívidas, antes de fechar 2008 no blog fazend a minha retrospectiva de fim de ano. Felipe Brida, por exemplo, me cobrou – mais de uma vez – agum comentário sobre ‘Munique’. Se gosto do filme de Steven Spielberg? Sempre tive um sentimento ambivalente em relação ao diretor. Gosto de ‘Louca Escapada’, de ‘ET’, entendi – e apreciei – melhor ‘A Cort Púrpura’ quando revi o filme na TV norte-americana, durante uma dessas junketts. Não foi por esnobismo, mas por necessidade de prestar mais atenção no diálogo em inglês, sem as benesses – o conforto? – da legenda. Adoro a série ‘Indiana Jones’ – e daí que ‘O Reino da Caveira de Cristal’ seja inferior aos outros três? Continua sendo divertido… Mas não consegui ‘entrar’ em I.A. – Inteligência Artificial’, o filme ‘kubrickiano’ de Spielberg, e também não gostei de ‘Minority Report’, que tem aquele subtítulo, ‘A Lei-qualquer coisa…’, nem consegui apreciar ‘Catch Me If You Can’, que tenho sempre a tendência de rebatizar como ‘Agarra-ME, Se Puderes’, mas não, porque o filme com este título é aquele do Hal Needham com Burt Reynolds. Lembro-me que, certa vez, falei mal de Spielberg nos filmes na TV do ‘Caderno 2′, e recebi uma carta desaforada de leitor, dizendo que eu devia limpar a boca antes de falar do ‘santo’ nome de Spielberg. Na época, como crítico que se preza, devo ter aplacado minha – má – consciência acusando o leitor de ‘colonizado’, ou coisa e tal. Algo mudou quando vi ‘O Terminal’ num cinema de shopping nos EUA, em plena campanha de (re)eleição de George W. Bush. A platéia reagia ao filme de uma forma que me contagiou. Cheguei a pensar que Bush talvez pudesse não ser (re)eleito. Não estava contando com a força do eleitorado conservador do Meio-Oeste, que apoiou o presidente por mais quatro anos, iludido por seu discurso patrioteiro. Logo em seguida vieram ‘Guerra dos Mundos’, adaptado do livro de H. G. Wells que já fora filmado por Byron Haskin nos anos 50, e ‘Munique’. Esses três filmes, aparentemente disparatados em forma e conteúdo, em estilo e temas, formam para mim uma trilogia de rara coerência e integridade e o comentário mais radical de Hollywood a Bush e à sua retórica pós-11 de Setembro, embora o nome de W. nunca seja citado (nem a data fatídica). ‘Munique’ me fascina desde a fala de Golda Meir naquela reunião de gabinete, em Israel, quando se discute, eticamente, o direito de o Estado vingar-se da morte de seus atletas na Olimpíada de 1972. O que se segue é a mais clara exposição que eu já vi do feitiço que vira contra o feiticeiro – o agente israelense, de tanto caçar e matar terroristas, perde a alma. Já era o tema de ‘O Terminal’. O agente da imigração que fechava as fronteiras dos EUA para Tom Hanks na verdade estava indo contra o princíopio fundador da ‘América’. Spielberg ganhou duas vezes o Osdcar – por ‘A Lista de Schindler’, ue tem cenas impressionantes, e por ‘O Resgate do Soldado Ryan’, mas desembarque dos aliados por desembarque, na França, eu prefiro ‘O Mais Longo dos Dias’, a versão de Zanuck, dos anos 60. Outro Spielberg, mais maduro e crítico, surgiu com a ‘trilogia’. ‘O Reino da Caveira de Cristal’ foi um inesperado – para mim – recreio. Nenhum outro filme recente de Hollywood me desperta maior curiosidade do que o novo Spielberg, ‘Walkirie’, com Tom Cruise. O filme está apontado para fevereiro. Tenho a expectativa de que passe no Festival de Berlim. Depois de ‘Munique’, vai ser o teste para eu saber se Spielberg é mesmo tão grande quanto hoje me parece.

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31.dezembro.2008 14:35:44

E o Pinter?

Cheguei tarde hoje no jornal – minha filha foi passar o réveillon na praia e eu estou dando de dogsitter da buldogue dela – e tinha tanta coisa para frazer que não me sobrou tempo para o blog. Tinha os filmes na TV, a capa e a contra do ‘Caderno 2′ de amanhã, dedicadas a dois filmes que vão abrir 2009 em alto estilo. Ambos estréiam nesta quinta-feira – vamos acentuar bem o ‘estréiam’, uma das últimas vezes, porque o acento cai a partir de amanhã, com a vigência da nova ortografia – ‘Bolt Supercão’ e ‘A Bela Junie’. Adorei a animação, que está indicada para o Globo de Ouro e, se dependesse de mim, já teria ganhado de ‘Wall-E’ e ‘Kung Fu Panda’, o que acho que responde à pergunta de… Quem? Alguém me cobra uma opinião sobre ‘Wall-E’. Achei legal – muito mais interessante do que, por exemplo, ‘Madagascar 2′, que, no entanto, está fazendo o maior sucesso, mas ‘Bolt’ é outro compartimento. Está mais para ‘Ratatouille’, o melhor filme do ano passado. Sobre ‘Junie’, tenho de dizer que fiquei siderado pelo novo filme de Christophe Honoré com o belo Louis Garrel – e com Clotilde Hesme -, o que vai me levar a uma revisão dos destaques do ano, pois havia-me esquecido do outro Honoré de 2008, ‘Canções de Amor’ (como?). ‘A Bela Junie’ mexeu muito comigo, acho que até mais do que por aquilo que os outros – vocês? – poderão considerar os defeitos, não as qualidades do filme, mas que me fascinaram profundamente. Vou almoçar e sair. Desde que estou em São Paulo, há 19 anos sigo o que, para mim, já virou tradição. Assisto sempre à corrida de São Silvestre. Nem me perguntem por que. Vou, e pronto. Mas quero fazer uma retrospectiva do ano no blog. E nem falei sobre a morte de Harold Pinter, no dia de Natal. Também – vocês não me avisaram e eu soube somente depois. Pinter, grande dramaturgo, vencedor do Nobel, foi o roteirista de alguns dos melhores filmes de Joseph Losey, mas ele trambém escreveu um thriller de espionagem de Michael Anderson sobre o qual terei imenso prazer em falar – não sei se vocês terão o mesmo prazer lendo. Falo de ‘A Morte não Manda Aviso’ (The Quiller Memorandum’, de 1966, com George Segal, Alec Guinness, Max Von Sydow, Senta Berger e George Sanders. Aguardem! Hoje, ainda.

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30.dezembro.2008 15:16:10

‘Dias de Outono’

Sempre me impressionou muito que Yasujiro Ozu tenha morrido – de câncer – no dia em que completava 60 anos, em 1963. Me impressiona mais ainda o fato de ele, em sua lápide, uma pequena caixa de mármore negro – li isso tantas vezes que decorei –, ter pedido que não fossem inscritos data nem nome, apenas o ideograma do chinês arcaico ‘Mu’, que designa o vazio. Nada mais. Ozu, considerado o mais japonês dos grandes autores de filmes do Japão, foi alvo de uma consagração internacional tardia, muitos anos após sua morte. Godard e, principalmente, Wenders foram (são?) os principais oficiantes do culto a Ozu, que no Brasil, foi contemplado com um livro de Lúcia Nagib, mas a obra definitiva de referência sobre ele, para mim, é o ensaio de Paul Schrader, que juntou Ozu, Dreyer e Bresson num estudo sobre o que chamou de ‘cinema da transcendência’. Já virou até lugar comum referir-se ao grande diretor como um artista ‘imutável’, outro jansenista (como Bresson) da mise-en-scène. Um minimalista radical, em síntese, embora existam análuises célebres que justamente contestam essa ‘imutabilidade’ de Ozu. Acho que foi Sérgio Augusto quem sacou o óbvio – que Ozu não fazia dramas, na plena acepção do termo, mas comédias contemplativas e agridoces, todas construídas em torno do mesmo tema, a família, que ele ampliava mostrando seus personagens na escola, no escritório etc. Ozu odiava as intrigas elaboradas – achava-as ‘enfadonhas’ – e ficou famoso pelos planos fixos, cortes secos e pela singular posição da câmera, que situava na altura do olho de um observador sentado no tatame. Era dali que Ozu via o mundo em transformação, flagrando as mudanças da família tradicional japonesa, fosse em formação ou dissolução. Vou abrir um parágrafo (isto já está virando norma).
Como Bergman, descoberto simultaneamente no Uruguai e no Brasil, no começo dos anos 50, São Paulo se antecipou à Europa no reconhecimento do gênio de Ozu. ‘Era Uma Vez em Tóquio’ (Tokyo Monogatari) estreou aqui bem antes dos EUA, aonde chegou por empenho do crítico Donald Ritchie, que foi, talvez, o maior divulgador do cinema japonês no Ocidente. Fico sempre em dúvida se o título do filme é no singular ou plural – acho que é plural, ‘Dias de Outono’, um dos que foram lançados pela Cinemax no País. É uma revisão de outro grande Ozui, ‘Pai e Filha, de 1949. No filme anterior, Setsuko Hara, fazia a filha indignada com a possibilidade de seu pai viúvo casar-se novamente. Agora, Setsuko faz a mãe vítima do mesmo preconceito que tinha como filha. Esse paralelismo não apenas é possível como intencional, e marcou a última fase do diretor, caracterizada pela extrema depuração do estilo. Não me lembro mais que crítico escreveu – acho que foi um japonês, teria de pesquisar – que Ozu, em sua última fase, atingiu o pleno exercício da liberdade dentro da mais rigorosa ordem. Até certo ponto, isso é o que se pode dizer também da última fase de Luis Buñuel, mas não existe nada mais diverso do surrealismo de um do que o gosto do outro pelas pequenas miudezas do cotidiano. Assistindo a um filme, é muito raro que a gente fique pensando em coisas como as linhas de eixo da câmera, mas aqui é muito interessante conferir como Ozu manipula essas linhas para mudar o ponto de vista dos personagens. E Ozu, olímpico, não teme quebrar o pathos da relação entre mãe e filha com elementos do mais puro humor – as maquinações do velho trio de amigos são engraçadas, ou pelo menos assim me parecem, na lembrança. Presumo que ‘Dias de Outuno’ também possa ser comprado. Vai ser uma excelente aquisição para a devedeteca de qualquer cinéfilo que se preze.

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30.dezembro.2008 13:39:38

‘O Trem’

Meu dia sabático de ontem foi forçado por questões de ordem técnica. Minha internet saiu do ar, com a TV paga, e eu, faísca atrasado, demorei para ligar para a assistência e descobrir que o débito automático falhou e fora cortado por… falta de pagamento. É mole? Pela manhã, fui ver ‘A Bela Junie’, de Christophe Honoré, e na saída dei uma passada na 2001 da Paulista, que fica ali pertinho da Reserva Cultural. Cheguei lá em busca de novas ofertas e nada encontrei, exceto ‘O Trem’, que Arthur Penn havia iniciado, mas se desentendeu com o astro Burt Lancaster e o ‘leopardo’ chamou um diretor de sua confiança, John Frankenheimer, para concluir o filme. Terminei comprando – baratinho, R$ 12,90 –, até porque o assunto me interessa, a forma como a Resistência tentou salvar obras-primas que os nazistas estavam saqueando dos maiores museus da Europa. ‘O Trem’ é de 1964, situando-se numa das melhores fases da carreira de Frankenheimer, quando ele ainda era bom (de verdade). Gosto muito de ‘O Anjo Violento’, com Warren Beatty e Eva-Marie Saint; e do cult ‘Sob o Domínio do Mal’, a primeira versão, com Frank Sinatra e Angela Lansbury, que dá de 10 na mais recente, de Jonathan Demme, mas meus filmes preferidos de Frankenheimer, antes que ele perdesse a mão, num horroroso fim de carreira – como pôde fazer ‘A Ilha do Dr. Moreau’, com Marlon Brando? –, são dois que ele fez depois de ‘O Trem’. ‘O Homem de Kiev’, com Alan Bates e Dirk Bogarde, baseia-se em Malamud, e ‘Os Pára-Quedistas Estão Chegando’, com Burt Lancaster e Deborah Kerr, me fascina pelo clima amargo e crepuscular. Fechado o parêntese sobre Frankenheimer, descobri que a Cinemax lançou um monte, ou pelo menos outros filmes de Ozu, além de ‘Ervas Flutuantes’. Lá estavam na estante – para locação, não venda – ‘Contos de Tóquio’ e ‘Dia de Outono’. Lá vou eu falar de Ozu de novo, no próximo post, para não ficar tão longo.

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28.dezembro.2008 23:36:13

Presentes!

Há tempos não me ocorria isso. Estava no fim de um post (imenso) quando devo ter batido em sei lá que tecla e o texto sumiu. Em resumo, dizia que estou desde sexta em Sampa, mas a Lúcia, minha filha, ficou mais dois dias em Porto Alegre e regressou somente agora à noite. Lúcia me trouxe duas surpresas de Porto. No dia em que fui ver ‘O Menino do Pijama Listrado’ no Arteplex do Shopping Bourbon, havia na vitrine da Livraria Cultura o DVD de um clássico de Ozu, ‘Ervas Flutuantes’. Não sabia que tinha sido lançado – pela Cinemax, cuja sede é em São Paulo -, e imagino que não deva ser difícil conseguir por aqui, mas naquele dia a livraria estava fechada. Lúcia me trouxe o DVD, como presente da mãe dela para mim. O filme é de 1959, remake de outro trabalho do próprio Ozu, lá pelos idos de 1930 e poucos. Trata de arte e artistas e eu vou voltar ao assunto, uma porque amo o Ozu e duas, porque esse é um de seus filmes que prefiro. Ozu morreu em 1963 e teve tempo de fazer apenas mais três filmes depois deste. “Ervas Flutuantes’ o mostra na plenitude do seu estilo, e quando digo isso quero me referir à extrema depuração da obra, um monumento de minimalismo no qual o diretor parece não falar de nada, especificamente, e termina dando conta de tudo – a arte, o homem, a vida -, por meio da história de grupo de teatro que visita pequena cidade e um dos artistas reencontra uma antiga amante, descobrindo que tem um filho ilegítimo. Vou voltar a falar sobre ‘Ervas Flutuantes’, podem crer. O outro presente foi da Lúcia mesmo. Havíamos visto na Fnac o livro ’1001 Filmes para Ver antes de Morrer’, da Editora Sextante e, embora eu tenha implicado com o título – se é para ver, só pode ser antes de morrer -, não resisto a obras de referência, e aqui são 1001 títulos. Não conheço o editor geral, Steven Jay Schneider, mas a orelha informa que é crítico, historiador e nome respeitado na academia norte-americana, onde leciona em Harvard e Nova York. Dei uma olhada muito por cima – o livro é compacto, deve pesar, sei lá, uns 3 quilos. A capa, muito popular, traz a imagem de Harrison Ford como Indiana Jones, mas só o primeiro da série, ‘Caçadores da Arca Perdida’, integra a seleção. Só como curiosidade, procurei por Visconti. Encontrei verbetes sobre ‘Obsessão’, ‘Sedução da Carne’, ‘Rocco’ e ‘O Leopardo’, mas não sobre ‘Vagas Estrelas da Ursa’, que eu colocaria entre os 101 – não 1001 – filmes que o cinéfilo tem obrigação de ver. Procurei por Ozu. Encontrei ‘Ervas Flutuantes’ e também ‘Era Uma Vez em Tóquio’ e ‘A Rotina Tem Seu Encanto’. Jay Schneider subiu no meu conceito. Vou olhar o livro com mais atenção e volto a comentar com vocês. Considerando-se a qualidade gráfica e o volume, achei o preço camarada, R$ 59 com 20% de desconto, ou seja, menos de R$ 50.

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28.dezembro.2008 20:34:07

‘Chacun son Cinéma’

Bem antes de ‘O Baile’, antes de sair para almoçar, havia dado outra zapeada na TV paga e estacionei em ‘Chacun son Cinéma’. Não tive tempo de assistir a todos os episódios, mas revi alguns com imenso prazer. Achei lindo o episódio de Abbas Kiarostami, ‘Where Is My Romeo?’, que mostra todas aquelas mulheres chorando enquanto assistem, no cinema, a ‘Romeu e Julieta’. A versão é a de Zeffirelli, de 1968, mas não se vê nenhuma das imagens esplêndidas que valeram ao filme seus dois Oscar – melhor fotografia e melhores figurinos. Só o som, com os versos de Shakespeare que deploram a rivalidade entre Capuletos e Montecchios, que levou ao sacrifício do casal de amantes e de outros integrantes das duas famílias. Na verdade, Kiarostami, sem fazer nenhuma referência explícita, está falando de outra(s) rivalidades(s) que envolvem seu país, o Irã, e fazem com que as lágrimas daquelas mulheres vão muito mais além da emoção que lhes produz o filme. Como ainda não vi ‘Shirin’, talvez esteja chutando, mas amigas que viram o filme em Veneza me falaram muito dos primeiros planos de mulheres no novo Kiarostami e eu tive a sensação de que ‘Where Is My Romeo?’,. todo construído naqueles rostos, já foi uma espédcie de balão de ensaio. Acho bonitinha em ‘Chachun son Cinéma’ – chama-se ‘Cinéma de Boulevard’ – a homenagem que Claude Lelouch faz a seus pais, que se conheceram no cinema, quando seu pai seguiu sua mãe e na tela Fred Astaire cantava ‘Cheek to Cheek’ – ‘I’m in heaven…’ Me encanta aquele episódio chinês do Zhang Yimou, a excitação do garotinho que acompanha a montagem do cinema itinerante e, depois, vencido pelo cansaço, adormece justamente quando começa o filme. Mas não tem jeito. Não curto ‘O Primeiro Beijo’, o episódio de Gus Van Sant. Aliás, não curto a fase recente de Gus Van Sant, embora ‘Paranoid Park’ tenha me parecido mais interessante do que ‘The Last Days’, por exemplo. Gostava de Gus Van Sant na época de ‘Drugstore Cowboy’ e ‘Garotos de Programa’ (My Own Private Idaho), mas sua maneira recente de (des)construir as narrativas me produz mais enfado do que fascínio. Vamos ver este novo filme, com Sean Penn, que vocês dizem que vai para o Oscar. Quem sabe…?

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28.dezembro.2008 20:03:46

Convite à dança

Pode parecer irresponsabilidade e talvez seja – fazer o quê? Mas simplesmente não me lembrei de ‘O Segredo do Grão’ na minha lista de melhores do ‘Caderno 2′, logo eu que, desde que assisti ao filme no Encontro do Cinema Francês, em janeiro deste ano, em Paris – e vi o diretor receber o prêmio da Associação dos Correspondentes Estrangeiros na França -, me apaixonei pela obra de Abdelatif Kechiche. Ainda bem que tenho o blog para corrigir essa injustiça – que fiz com o filme, com seu autor e comigo. Mas agora quero dizer uma coisa. Estava zapeando, como faço sempre que estou em casa, e caí nas imagens e sons de ‘O Baile’, um Ettore Scola de… Quando? 1983, por aí, logo depois de ‘Casanova e a Revolução’. Já disse aqui que o Scola do meu coração é ‘A Viagem do Capitão Tornado’, mas houve um período, entre meados dos anos 70 e o limiar dos 90 em que ele produziu coisas maravilhosas e uma delas foi, com certeza, ‘O Baile’. Concentrar a história de um país – a França -, dos anos 30 aos 80, como fez o Scola, num salão de danças, usando apenas a música e o corpo dos atores/dançarinos, é uma coisa espetacular. Essa maneira de trabalhar o tempo e o espaço, dilatando o primeiro num só décor, tavez tenha sido a maior contribuição do ex-roteirista de Dino Risi, mas o próprio Scola nunca mais foi tão feliz ao repetir a idéia em ‘A Família’, ‘O Jantar’ e ‘Splendor’. Ninguém diz uma palavra em ‘O Baile’ e nem precisa – sabemos tudo sobre aquelas figuras só pela maneira como elas se olham, se tocam, dançam. Os cinco minutos, quando entra aquele solo de clarinete e as pessoas começam a ir embora é sublime. Tem aquela mulher que pegou no sono, o garçon a chama para dizer que acabou. Ela se levanta pronta para dançar, achando que é um convite e se lê toda a sua decepção somente na expressão do rosto, como ela fica envergonhada. É incrível como certos filmes ficam com a gente. ‘O Baile’ é um deles. Amanhã, vou achar de novo que ‘Capitão Tornado’ é a obra-prima de Scola, mas hoje, agora…? É ‘O Baile’. Por que misturei ‘O Segredo do Grão’ com ‘O Baile’? Mistério… Mas taí, não me lembrava que o filme de Scola é uma co-produção franco-argelina. Pode ter sido por essa presença/influência do Magreb.

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