Viajo hoje à noite para Los Angeles, o que significa que vou ter de correr muito, à tarde, para terminar um monte de matérias que preciso deixar prontas. Isso significa também que não vou ter mais tempo de postar hoje – talvez no aeroporto –, e até que, dependendo de encontrar (ou não) uma lan-house, posso ficar uns três ou quatro dias sem postar, porque detesto levar laptop, sempre alvo redobrado da segurança nos aeroportos, como se só o fato de portar um já aumentasse a suspeita em torno da gente. Mas, enfim, quero relatar uma coisa – em geral, é preciso conexão (por Dallas, Miami e até Nova York) para chegar a Los Angeles, mas desta vez vou pela Lan Peru, com apenas uma parada técnica em Lima. Isso me estimula a escrever uma coisa que há tempos ando com vontade de postar. Outro dia, alguém me esculhambou – e à crítica em geral – por causa dessa mania de cinema de autor que, segundo essa pessoa, seria (ou é) uma herança de ‘Cahiers du Cinéma’. Já disse que ‘Cahiers’ foi muito lateralmente responsável pela minha formação. Meus colegas liam a revista em Porto Alegre e eu terminava absorvendo as idéias mais pelos diálogos com eles – era uma época em que se conversava; hoje é cada um no seu galho –, mais do que por meio de conceitos assimilados diretamente da revista. Mas, enfim, no começo dos anos, viajando pela América do sul, descobri outra revista que, essa sim, eu adorava e foi decisiva para mim. ‘Hablemos de Cine’ não deixava de ser uma espécie de ‘Cahiers’ latina, radicalmente defensora do cinema de autor (e da estética política, num época em que as ditaduras oprimiam Nuestra América). Não sei se existem referências na internet, mas era uma revista em castelhano, peruana, com um alto nível de teorização e engajamento. Se for possível reasgatar, de alguma forma, aqueles velhos números, recomendo. Eu sabia mais sobre Cinema Novo lendo em ‘Hablemos de Cine’ – e sobre novas cinematografias, e autores cults – do que com minhas fontes brasileiras. Na época, morava em Porto Alegre e Rio e São Paulo eram mais distantes para mim do que Montevidéu e Buenos Aires. Já disse que a Cinemateca Uruguaia foi fundamental para mim. Saía de Porto Alegre à noite, de ônibus. Dormia e acordava em Montevidéu, aonde íamos todos – minha ex-mulher, a Doris, meus amigos Tuio Becker e Hiron Goidanich, o Goida –, para assistir a filmes muitas vezes proibidos no Brasil e que eles, com ditadura militar e tudo, terminavam assistindo porque havia naqueles países, e no Uruguai, chamado de Suíça sul-americana, em especial, uma tradição européia muito forte de filme de arte. Não se pode esquecer que Bergman, em todo o mundo, foi uma descoberta de Homero Alsino Thevenet no Uruguai – há 50 e tantos anos. Hoje, o mercado de lá é minúsculo e dominado por Hollywood. Mas, enfim, por volta de 1970 eu comprava ‘Hablemos de Cine’ com a maior facilidade, em Montevidéu. Possuía uma coleção da revista. Ela terminou por se perder. A passagem, esta noite, por Lima está sendo a madeleine para me lembrar de ‘Hablemos de Cine’. Mas eu também pensei em função de Bertolucci, da ‘Estratégia da Aranha’. E não apenas ele – Godard, Straub, Bellocchio, Glauber, Ruy Guerra, Littín, Solás. Todos eram assíduos nas páginas da revista.
Falei num texto anterior sobre sexo no cinema, alguém postou um comentário evocando ‘Último Tango em Paris’, o que me traz de novo a Bertolucci, para lembrar que, no começo dos anos 70, não foi só a ditadura militar brasileira que se assustou com a cena da manteiga. No Brasil da época, muitos de vocês nem eram nascidos, mas em Porto Alegre programavam-se excursões para assistir ao filme, que havia sido liberado no vizinho Uruguai. Como ‘O Amante de Lady Chatterley’, que só foi liberado na Inglaterra nos anos 60, mais de 30 anos depois de ter sido escrito por D.H. Lawrence, ‘Último Tango’ também sofreu a acusação de obscenidade. Fui procurar nos arquivos do ‘Estado’ e encontrei uma reportagem de 1976, dia 5 de fevereiro, procedente de Roma, dizendo que as cópias do filme haviam sido inceradas no dia anterior, por uma decisão inapelável do Tribunal Superior de Justiça da Itália, que considerou a obra de Bertolucci perniciosa. Apenas três cópias foram salvas e depositadas na Cinemateca Nacional Italiana para documentar ‘a evolução técnica e artística da cinematografia no país’. Em 1976, a Itália estava em guerra contra o terrorismno e a Máfia, mas – incrível! – o sexo parecia mais assustador do que a violência.
E ontem não tive tempo de postar nada sobre o belo ‘A Estratégia da Aranha’, exibido à noite, no Cine Bombril, no evento Venezia Cinema Italiano 3, como homenagem a Bernardo Bertolucci, que recebeu um Leão de Ouro especial por sua carreira no recente Festival de Veneza, em setembro. Aliás, estou sem sorte com ‘A Estratégia’. Havia escrito um texto do qual estava gostando (e já ia finalizar), quando tocou o telefone, eu atendi e bati em não sei que tecla, deletando tudo. Lá vou eu começar de tudo. O filme pertence a uma fase do Bertolucci de que gosto muito, a dos filmes políticos, que começa com ‘Antes da Revolução’, em meados dos anos 60, e prossegue com ‘A Estratégia’ e ‘O Conformista’, antes de chegar a ‘Último Tango em Paris’. Segue-se aquele Bertolucci orientalista de que não gosto muito, apesar da suntuosidade cênica de ‘O Último Imperador’ e do deslumbramento visual produzido pela fotografia de Vittorio Storaro, captando o deaserto, em ‘Sob o Céu do Saara’. Bertolucci renasce com ‘Beleza Roubada’, de que gosto mais do que de ‘Assédio’, e ‘Os Sonhadores’, seu tributo a Maio de 68. Aliás, sobre ‘Beleza Roubada’ tenho uma história ótima. Havia visto o filme em Cannes e, não sei por quê, tive de ditar uma matéria para o jornal. Estava muito emocionado porque olhava para Liv Tyler na tela e era como se visse minha filha Lúcia – e a personagem se chama Lucy –, realizando o rito de passagem. Saí nas nuvens, convencido de que havia assistido ao nascimento de uma estrela e tentei transmitir isso em meu texto. Comecei a ditar o nome – L de luva, I de Ivo, V de Vaca. Quem me ouvia, do outro lado da linha, entendeu F de faca e saiu ‘Nasce uma estrela, Lif Tyler’. Incrível! De volta à ‘Estratégia da Aranha’, o filme é uma livre adaptação de Jorge Luis Borges, do ‘Tema do Traidor e do Herói’. Conta a história de um filho em busca do pai e, neste sentido, antecipa ‘La Luna’, que Bertolucci realizou dez anos mais tarde, só que aqui a época é o fascismo. O filho chega à cidade em que nasceu – Tara (e o nome evoca a mítica fazenda de Scarlett O’Hara em ‘… E o vento Levou’) – disposto a investigar a morte do pai, depois que foi descoberto seu envolvimento num complô para matar Mussolini. O filme começa na estação, com a chegada do trem, que Bertolucci filma com a câmara parada, evocando o primitivo trem do cinematógrafo dos irmãos Lumière. A partir daí, Tara vira uma espécie de teatro de Athos Magnani (o morto), com múltiplas referências. A estátua do pai é pintada de forma a evocar as estátuas de ‘O Desprezo’, de Godard, um dos primeiros mestres de Bertolucci. Existem citações a Shakespeare, por meio de ‘Júlio César’, o assassinato do grande homem, e a ‘Macbeth’, a ambição desmedida do poder. E o crime ocorre no teatro, quando Athos Magnani assiste a uma representaçãso da ópera ‘Il Trovatore’, de Verdi – uma dupla referência a outro mestre de Bertolucci, o operístico Visconti, de quem Bertolucci também utiliza a atriz (Alida Valli) de ‘Sedução da Carne’ (senso), que, não por acaso, é uma história de heroísmo e traição. O próprio Athos, traidor do fascismo, vira herói, mas novas descobertas ainda tornam mais tênue a linha que separa o traidor do herói, tema de Borges. Politicamente rico, complexo, ‘A Estratégia da Aranha’ metaforiza o próprio título por meio de uma construção que apanha o espectador como uma teia. O filme se inicia lento, parado, mas de repente estamos hipnotizados pela música, pelo chiaroscuro da fotografia de Storaro. A ação é esquemática, os gestos são mecânicos e as falas, muito simples. Mas tudo isso, essa teia, só se revela por completo no fim, que clarifica o título. O personagem montou uma ficção para revelar a violência do fascismo e o filme monta sua ficção para revelar a estratégia do personagem. Grande Bertolucci! Não sei se Borges viu (e aprovou) o filme. Mas que todo o escritor argentino está nele, lá isso está.
Peraí mais um pouquinho, César Murilo. Antes do Bertolucci, quero falar sobre uma reportagem de hoje do Jornal da Tarde, que meus colegas aqui do ‘Caderno 2′ acabam de me mostrar. É assinada por Frantchesco Ballerini e leva o sugestivo título de ‘Cadê o sexo?’ Frantchesco sacou o óbvio – os maiores sucessos de público do cinema brasileiros eram aqueles filmes cheios de sacanagem com Sônia Braga (‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’ e ‘A Dama do Lotação’). Agora, com toda a liberdade de que os cineastas dispõem, o sexo sumiu da tela, cedendo espaço à violência. Eis aí um interessante material para reflexão. E, se você quiser, pode até fazer a sua lista de momentos ‘calientes’ do cinema nacional, essas coisas que a gente não vê mais.
Comentando meu post de ontem sobre ‘Beowulf’, César Murilo Jaques me diz para não perder tempo com bobagem – no Rio Grande se diz ‘não perder pólvora com chimango’ – e falar sobre o que interessa a nós, cinéfilos. César Murilo me pede para falar mais sobre ‘A Estratégia da Aranha’, belo filme de Bertolucci que passa hoje à noite no Cine Bombril, integrando a programação da mostra Venezia Cinema Italiano 3. Já vou falar, cara, mas antes duas ou três palavrinhas sobre ‘Beowulf’. Aliás, uma só – é horroroso. Eu já havia achado ‘O Expresso Polar’ insuportável, mas Robert Zemeckis agora se superou. Não sei de onde esse sujeito tirou a idéia de que é legal fazer um filme com atores, usando a técnica de ‘motion capture’ – a captura dos movimentos – e depois transformar em animação digitalizada. Peter Jackson fez isso genialmente em ‘O Senhor dos Anéis’ e ‘King Kong’, mas lá o recurso servia à criação de personagens como o Gollum e o macaco gigante. Zemeckis acha que o recurso, em si, já vale um filme e nem se preocupa com detalhes tão supérfluos (para ele) como uma boa história. Para agravar, ‘Beowulf’ foi produzido em terceira dimensão, o que faz com que a toda hora todo tipo de objeto seja lançado contra o espectador. Havia achado o recurso, embora velho, muito divertido quando vi outra animação, ‘Casa-Monstro’, e também a versão reastaurada do western ‘Caminhos Ásperos’ (Hondo), de John Farrow, na homenagem a John Wayne, durante o Festival de Cannes, em maio. Zemeckis e seus roteiristas deveriam ter visto o filme do pai de Mia Farrow para ter alguma idéia sobre como integrar os efeitos em 3-D a uma boa narrativa de ação. Embora baseado numa lenda anglo-saxônica, o filme não tem muito pé nem cabeça e os efeitos são deploráveis. Como não tinha olhado a ficha técnica, fiquei o filme inteiro tentando descobrir quem era a atriz que havia emprestado seu corpo à rainha e a infeliz fica estrábica, olhando não se sabe para onde, simplesmente porque Zemeckis, mesmo jurando que havia aperfeiçoado a captação do olhar – desastrosa no ‘Expresso Polar’ –, ainda não conseguiu acertar. Ao contrário da expressão no olhar do Gollum e do rei Kong, ninguém tem expressão em ‘Beowulf’. Em tempo, a atriz é Robin Wright Penn. Angelina Jolie, que faz a mãe do monstro que o herói Beowulf tem de eliminar, também olha não se sabe para onde, mas ela tem aquele bocão e pelo menos aparece nua (quer dizer, com aquele macacão elástico, coberto de tinta dourada, que sugere que ela está nua). Êta, filme horroroso. Deve entrar em centenas de salas, no Brasil inteiro, incluindo as cinco da rede Cinemak – duas em São Paulo, duas no Rio e uma em Florianópolis – aparelhadas para a exibição em 3-D. Já disse que não faz o menor sentido, mas pelo menos pode ser divertido (para as crianças) ficar vendo aquelas coisas todas voando na sala de cinema.
É até irrresponsabilidade minha querer comentar a premiação de Brasília, já que não estava lá e não assisti a nenhum dos filmes concorrentes. Mas acho, mesmo assim, uma bizarrice. Se o júri queria lotear os Candangos, como parece que loteou – excluindo só o filme pernambucano –, acho no mínimo curioso que, na divisão filme/diretor, Bressane tenha recebido o prêmio de melhor filme por sua ‘Cleópatra’ (vaiada, informa Luiz Zanin Oricchio na matéria que sai amanhã no Caderno 2) e Laís Bodanzky tenha ficado com a estatueta de direção (por ‘Chega de Saudade’, tão adorado pelo público que levou o Candango do júri popular). Se era para dividir, o que sou contra, não era mais sensato dar o prêmio de melhor filme para Laís e o de direção para ‘Cleópatra’? Ah, mas agora eu entendi. Dar o prêmio de melhor filme para ‘Chega de Saudade’ seria contemporizar com o público, que vaiou Bressane e deu seu prêmio a Laís. Ao mesmo tempo, premiar direção e roteiro de ‘Chega de Saudade’ é mais do que reconhecer que foi feito um arranjo para dar ao senhor de Brasília um prêmio à altura do seu prestígio. Melhor calar minha boca e esperar para ver os filmes quando estrearem aqui (quando?). Só espero que o júri de Brasília não tenha repetido o de Gramado, que loteou sua premiação e conseguiu o prodígio de esquecer justamente um dos melhores filmes do evento – ‘Otávio e as Letras’, de Marcelo Masagão. Kleber Mendonça Filho tinha me falado de maneira muito positiva sobre o filme pernambucano. Disse que ‘Amigos de Risco’, de Daniel Bandeira,ia polarizar Brasília, provocar discussão. Não provocou nada. Bressane, com vaia e tudo, levou mais uma vez.
Alexandre Yuri Alegrette continua me cobrando um comentário sobre ‘A Lenda de Beowulf’. Amanhã, cara. Vou ver o filme somente agora à noite, na sessão especial que vai ocorrer no Cinemark do Shopping Eldorado. Confesso que não estou antecipadamente muito excitado, porque achei aquele ‘Expresso Polar’, também do Zemeckis, que foi filmado e transformado em animação pelo computador, o maior porre do mundo. Se fosse em carne-e-osso seria, talvez, apenas chatinho. Com aquela ambição desmedida, virou o maior fiasco. Mas não quero chegar com má vontade. O que mais gosto no cinema é de ser surpreendido. Quem sabe o Zemeckis não me surpreende com ‘Beowulf’? O filme ainda tem a sra. Brad Pitt digitalizada – e o Alexandre diz que Angelina Jolie é a gostosa número um. Não para mim, hélas. A ‘People’ que me desculpe, mas ela não está nem entre as minhas dez mais certinhas. Também prometo falar sobre o ‘Drácula’ do Coppola, que acho deslumbrante, o último grande filme dele – e ainda tem aquela música genial do Woijiech Kilar.
Poucos autores de cinema foram tão vilipendiados pela crítica quanto Vittorio De Sica. Depois de antecipar o advento do neo-realismo com ‘A Culpa dos Pais’, ele deu ao movimento, com ‘Ladrões de Bicicletas’ e ‘Umberto D’, dois de seus mais belos títulos. Mas já, ao longo dos anos 50, o cineasta que transformou figuras anônimas em rostos inesquecíveis – Lamberto Magiorani e Enzo Staioli em ‘Ladrões’, Carlo Battisti em ‘Umberto D’ -, colocou seu ofício a serviço do estrelismo de Sophia Loren, como diretor contratado do marido dela, o produtor Carlo Ponti. ‘Duas Mulheres’ pode ter dado o Oscar à atriz, mas aquela maneira de filmar o rosto dela, no começo, é a própria negação do método de De Sica em seus clássicos neo-realistas, quando ele buscava a emoção autêntica de atores não-profissionais. O opróbrio da crítica quer fazer crer que o verdadeiro autor de seus filmes era o roteirista Cesare Zavattini, mas este caiu junto com De Sica, assinando todos aqueles roteiros – ‘Ontem, Hoje e Amanhã’, ‘Matrimônio à Italiana’ – transformados em filmes que celebrizavam, não apenas Sophia, mas também seu par romântico, Marcello Mastroianni. Nos anos 60 e 70, todo o conjunto da obra de De Sica passou a ser questionado. Como observa Jean Tulard em seu ‘Dicionário de Cinema’, pieguice, exploração abusiva das crianças e dos velhos, miserabilismo, tudo passou a desqualificar ‘Ladrões de Bicicletas’ e ‘Umberto D’. O segundo ainda se mantém, mas, se você é cinéfilo já deve ter ouvido críticos e diretores se referirem a ‘Ladrões de Bicicletas’ como um pavoroso melodrama. Por excessiva que seja a definição – e eu não concordo com ela –, a decadência se acentuou nos anos 60, com filmes como ‘O Fino da Vigarice’, ‘Sete Vezes Mulher’ e o horroroso ‘Um Lugar para os Amantes’, com Mastroianni e Faye Dunaway, que transformaram De Sica num faz-tudo, que aceitava filmar não importa o quê, porque vivia atolado em suas dívidas de jogo. Ele próprio metaforizava sua relação com o jogo – dizia que jogava na arte e na vida, errando feio em escolhas equivocadas. A decadência chegou ao auge com ‘Os Girassóis da Rússia’, em 1970. Foi uma época de parcerias internacionais, italiano-soviéticas. De Sica, velho comunista – foi a acusação que lhe fizeram –, fez de Sophia Loren essa italiana que desembarca em plena Praça Vermelha, em Moscou, em busca do marido que desapareceu no front russo, na 2ª Guerra. Ele se casou de novo e, agora, ela hesita em destruir essa nova vida que o ex construiu. E tudo é filmado ao som de um meloso tema de Henry Mancini, com as belas cores solares de Giuseppe Rotunno destacando campos de girassóis que evocam, muito distantemente, o mestre ucraiano Alexandr Dojvenko, autor do mais belo poema revolucionário do cinema – ‘Terra’ (você não estava pensando que era ‘O Encouraçado Potemkin’, não?). Tenho de admitir que a derrocada artística de De Sica foi sempre uma daquelas que me doeram. Achava-o simpático como ator, em filmes como os da série ‘Pão, Amor e…’, e também me comovi muito com a grandeza que ele revelou em seu maior papel, o do General Della Rovere em ‘De Crápula a Herói’, de Roberto Rossellini. Sempre lamentei que De Sica nunca tenha consegido concretizar o projeto que o obcecava, em seus últimos anos. Ele queria adaptar ‘Um Coração Simples’, de Flaubert. Aquela mulher que vai se apagando, até desaparecer, era ele. Se De Sica acertasse o tom, poderia fazer um filme nos antípodas de ‘Os Girassóis da Rússia’.
Recebi mais três DVDs da Versátil, dois de filmes brasileiros – ‘O Bandido da Luz Vermelha’, de Rogério Sganzerla; e ‘Anchieta, José do Brasil’, de Paulo César Saraceni – e o terceiro, o italiano ‘Os Girassóis da Rússia’, de Vittorio De Sica. O que mais se pode dizer sobre ‘O Bandido’, um dos filmes mais cultuados e dissecados da história do cinema brasileiro? Há exatamente 40 anos – a produção é de 1967 –, ‘O Bandido’ iniciava uma revolução no cinema brasileiro, abrindo um ciclo e criando um gênero, aquilo que ficou conhecido como cinema marginal ou undreground, que no caso de Sganzerla, abrasileirado, é udigrudi. Tenho de admitir que mantenho uma relação ambígua com ‘O Bandido’. O filme é uma explosão de ousadia e criatividade, mas eu confesso que essa maneira avacalhada de filmar – e que é uma frase do personagem – nunca me pareceu mais ‘brasileira’ do que os dois policiais clássicos de Roberto Farias que antecederam ‘O Bandido’ – ‘Cidade Ameaçada’ e ‘Assalto ao Trem Pagador’. Nenhum dos dois diretores pertencia aos quadros do Cinema Novo e o movimento udigrudi, inclusive, se fazia contra a matriz de Glauber & Cia. Neste momento, acho interessante lembrar o que disse, na época, o lendário ‘Presidente’ da Cinemateca Brasileira, Francisco Luiz de Almeida Salles. Ele considerava ‘O Bandido’ uma ópera-bufa sobre São Paulo e a cidade é, de fato, uma personagem tão viva quanto o bandido que agia na noite, seduzindo e estuprando mulheres. É curioso, mas essa visão da metrópole, ligada à Boca do Lixo, dava prosseguimento a ‘São Paulo S.A.’, de Luiz Sérgio Person, e antecipava todos esses filmes que, atualmente, estão dando outra visão da grandeza e da miséria de Sampa – ‘Não por Acaso’, ‘A Via Láctea’ e ‘O Sonho da Cidade’. Não foi só a cidade que mudou. O cinema brasileiro, também, e mesmo gostando, com gradações diversas, desses filmes, não sei posso dizer que mudou para melhor. Narrado como uma partida de futebol e, ao mesmo tempo, frio e distanciado, ‘O Bandido’ encontrou em Paulo Villaça o ator perfeito para o papel. Comparativamente, sinto que preciso rever ‘Anchieta’ antes de falar do filme de Saraceni que, na época – fim dos anos 70 –, foi representante do cinema brasileiro em Veneza. Confesso, mais uma confissão, que tenho mais curiosidade do que admiração pelo projeto autoral de Saraceni. Sua obra me passa, toda ela, a impressão de incompleta, rascunhada e, isso, apesar de sua parceria com o grande fotógrafo Mário Carneiro. Existem coisas boas em ‘Porto das Caixas’, mas a montagem do assassinato (uma coisa técnica, mesmo 0 não me convence; ‘O Desafio’ passa a impotência da intelectualidade diante da ditadura – acho muito legal a cena em que Oduvaldo Vianna Filho leva Isabella até aquela casa em ruínas, que representa sua falta de projeto –, mas ‘Capitu’, pbre Machado de Assis, e ‘O Viajante’ me constrangem Tenho a impressão de que só gosto mesmo, com todos os defeitos que possa ter, de ‘A Casa Assassinada’, mas ali a base era Lúcio Cardoso – trucidado no ‘Viajante’ – e o filme ainda tinha Norma Bengell e Carlos Kroeber em estado de graça. A cena em que ele, vestido de mulher, irrompe no velório, é uma das coisas mais fortes (e loucas) do cinema nacional. Sempre me desconcertou muito a mistura de gêneros no cinema de Saraceni, e a de ‘Anchieta’ em particular – reportagem etnográfica, alegoria, teatro da crueldade, abre-alas de carnaval e debate ideológico, tudo se une (e também desconstrói), mas nunca esqueci a cara de Nei Latorraca quando Saraceni tenta passar para a gente a dor do apóstolo do Brasil face à ruína dos índios, pelos quais tanto lutou. Vou rever. Quanto a De Sica, vamos ao próximo post.
Decepcionante. Fui ver ontem ‘Hotel Meina’, de Carlo Lizzani, no Cine Bombril, e o achei, até agora, o pior filme do evento Venezia Cinema Italiano 3. A única coisa é que ontem eu reclamei de não encontrar nenhum coleguinha nessas sessões e topei com dois – Vilmar Ledesma (gaúcho, tchê!) e Orlando Margarido. Lizzani tem alguns filmes interessantes no currículo – e eu gosto de três, ‘Os Amantes de Florença’, adaptado de Vasco Pratolini, o spaghetti western ‘Réquiem para Matar’ ( Requiescant) e o melhor de todos, ‘Fontamara’, baseado no romance de Ignazio Silone, que é ainda melhor (o livro) –, mas o cara errou a mão nessa história sobre judeus num hotel ocupado por nazistas em Lago Maggiore, na Itália de 1943. Além de escolhas estéticas equivocadas – o que são aquelas imagens dos corpos conservados intactos, dez anos depois, boiando no lago? –, Lizzani não conseguiu imprimir a menor emoção à sua história. Êta, filme ruim! Lizzani, reminiscente do neo-realismo, deve ser, aos 85 anos, um dos mais velhos diretores em atividade na Itália. Será o mais velho? Não, Monicelli é mais (e deve ter passado dos 90 anos). Não sei não se o Lizzani ainda tem tempo de se recuperar e recomeçar com alguma coisa boa.
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