Achei lindo o que disse Luis Fernando Verissimo ontem no Cultura. Depois de dizer que não é bom de retrospectiva (‘Esqueço o que aconteceu de importante e, quando me lembro, fico na dúvida: foi neste ano mesmo ou no ano passado?’), ele escreveu uma coisa que a mim pareceu muito profunda. ‘As idílicas previsões dos anos 20 e 30 pressupunham um progresso da natureza humana, comparável ao da sua técnica. Não aconteceu, No fim, o que a gente mais sente falta, do passado, é o futuro que ele previa.’ Não é demais? Enfim, vou me arriscar a fazer, se não exatamente uma retrospectiva, pelo menos uma lista de dez mais.
Os melhores filmes do ano. Dois brasileiros, dois documentátrios nas bordas da ficção, ‘Santiago’, de João Moreira Salles, e ‘Jogo de Cena’, de Eduardo Coutinho. Os restantes – ‘Ratatouille’, de Jan Pinkava e Brad Bird; ‘O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford’, de Andrew Dominik; ‘As Sombras de Goya’, de Milos Forman; ‘Pecados Íntimos’, de Todd Field; ‘A Vida dos Outros’, de Florian Henckel Von Donnerstein; ‘Em Busca da Vida’, de Jia Zhang-ke; ‘Medos Privados em Lugares Públicos’, de Alain Resnais; e ‘Em Paris’, de Christophe Honoré.
Melhor ator? Wagner Moura, o melhor brasileiro, por ‘Tropa de Elite’ – o filme nacional do ano, pelo debate que provocou -; e Ulrich Muhe, o melhor estrangeiro, por ‘A Vida dos Outros’.
Melhor atriz – Carla Ribas, a melhor nacional, por ‘A Casa de Alice’; e Kate Winslet, a melhor estrangeira, por ‘Pecados Íntimos’.
A melhor cena do ano? Vamos fazer as melhores, pois são várias. A do crítico em ‘Ratatouille’, a do policial que socorre o pedófilo que mitilou o próprio sexo em ‘Pecados Íntimos’; as duas mulheres que narram a perda do filho e o difícil caminho de volta para a vida em ‘Jogo de Cena’ – quem é a personagem, quem é a atriz? -; a do trem em ‘O Assassinato de Jesse James’; a da tortura do Padre Lorenzo em ‘As Sombras de Goya’, quando o pai de Ines Barbatua o faz assumir que é um macaco (e o que parece uma brincadeira macabra vai se revelar tragicamente premonitório); a do índio atormentado que a gente vê por um breve momento naquela estrada, no fim de ‘A Conquista da Honra’, primeira parte do díptico de Clint Eastwood; a troca de olhares entre Noel e Araci de Almeida no desfecho de ‘Noel, o Poeta da Vila’, de Ricardo Van Steen; a declaração de amor cantada (ao telefone) em ‘Dans Paris’. Façam suas listas e citem suas cenas, para que eu dê razão ao Verissimo e me pergunte como pude esquecer tal (ou qual) momento.
Falei num programa duplo no post anterior, mas citei apenas um filme que vi ontem à noite. Na seqüência de ‘Orgulho e Preconceito’, revi, em DVD, ‘Camille’, de George Cukor, com Greta Garbo e Robert Taylor. A dama das camélias! Se você é cinéfilo, e deve ser, para fgreqüentar este blog, com certeza já ouviu falar em Cukor como o cineasta da mulher, grande criador de personagens femininas. Cukor ama a mulher apaixonada e Marguerite Gautier, a cortesã criada por Alexandre Dumas Filho, era uma personagem perfeita para ele. com a Garbo, então… Greta Garbo permanece como um dos maiores mitos do cinema. Misteriosa, insondável, ambivalente, ela tinha aquele rosto que se assemelha a uma máscara. Os semiólogos gostam de dizer que o rosto de Garbo era neutro e que o público podia ler nele o que os diretores queriam,. Não sei se é assim fácil. O final de Rainha Cristina – Garbo na proa do navio, olhando o horizonte – é exatamente o contrário disso. Garbo não expressa nada, é só um rosto gélido. Nós é que temos de construir o final do filme de Roubén Mamoulián. A máscara de Garbo fazia sdela uma personagem ideal para tragédias. ‘Rainha Cristina’ e ‘Camille’ são tragédias em que a heroína romnântica tudo sacrifica por amor (o trono, o homem amado), e perde. Perde? E a volta de Armand Duval? Em ‘Ninotchka’, conta a lenda que Garbo não conseguia rir e Ernst Lubitsch precisou providenciar uma dubladora para o seu riso que não saía. Garbo ri em ‘A Dama das Camélias’. É um riso falso, porque na maior parte do tempo sua personagem secreta as emoções. Ao se apaixonar, esta mulher aparentemente frívola e sem coração faz o supremo sacrifício, mas Armand volta para vê-la morrer, em seus braços. Muita gente acha que Garbo era uma persona, não uma atriz. Bem – aqui, ela representa. E como! A cena da morte é de arrepiar. E o filme fala com franqueza de sexo, dinheiro, casamento. Acho, apesar de tudo, que a idade pesa em ‘Camille’, mas não sobre Garbo nem sobre seu Armand, Robert Taylor, que tem o perfil do herói romântico. Não consegui desgrudar o olho da tela. Que coisa!
Fiz ontem um programa duplo sensacional, e nem foi preciso ir ao cinema. Estava zapeando na Tv paga e entrou o ‘Orgulho e Preconceito’, que Joe Wright adaptou de Jane Austen. Comecei a ver, vi um pouquinho, mais um pouquinho, agora mais um pouquinho e fui até o final. Já havia dito aqui que adoro a adaptação do Wright, com roteiro de Deborah Moggach. Devo admitir que faz tempo que não vejo ‘Razão e Sensibilidade’, de Ang Lee, que deu a Emma Thompson o Oscar de roteiro, o que talvez explique para vocês a afirmação que vou fazer agora. Mas adoro ‘Orgulho e Preconceito’, que é o meu preferido entre os filmes recentes adaptados da escritora inglesa. ‘Pride and Prejudice’ já havia sido adaptado, acho que no começo dos anos 40, por Robert Z. Leonard, com ninguém menos do que Greer Garson e Laurence Olivier (sou capaz de jurar que Aldous Huxley era um dos roteiristas). Este filme antigo, que vi na TV, em priscas eras, era muito bom, muito bonito, mas difere da versão de Wright pelo simples fato de que ele ‘releu’ Jane Austen e fez uma adaptação mais moderna. Adoro Keira Knightley como Lizzie, Matthew Macfayden me dá a impressão de ter nascido para ser Mr. Darcy e o filme ainda tem todos aqueles veteranos notáveis (Brenda Blethyn, Donald Sutherland e Judi Dench). Acho a cena do baile deslumbrante. Joe Wright não é aristocrático como Visconti, mas ele tomou a cena de outro baile em ‘O Leopardo’ – como modelo. De certa maneira, fez seu baile como farsa. No de Visconti, o olhar do príncipe era o motor da cena, que era longa, ocupando quase um terço do filme. Aqui, a câmera atravessa o baile e vai revelando os personagens, em seus pequenos dramas (ou em seus pequenos ridículos). E o Ian McEwan com certeza leu Jane Austen. Há nela essa convenção social das palavras que, atropelada, produz mal-entendidos que podem destruir a vida das pessoas. Mr. Darcy, interpelado por Lizzie, que acha que ele destruiu a vida da irmã dela, diz coisas desagradáveis, sem pensar. Nos livros de McEwan, não há retorno, a menos que seja por meio do poder regenerador da própria literatura. Em ‘Orgulho e Preconceito’, como em Jane Austen, de maneira geral, os personagens – e Mr. Darcy faz isso – ajudam a reconstruir o que (quase) destruíram. É maravilhoso. Enche a alma. Eu não sei de vocês, mas nunca vou me cansar de dizer que minha referência é Van Gogh, quando afirma, na carta ao irmão Theo, que pinta para consolar. A realidade é muito dura e eu preciso desse consolo, mas ele não pode ser uma coisa alienada nem alienante. Em ‘Orgulho e Preconceito’, não é. Joe Wright fez depois – com Keira, de novo – ‘Desejo e Reparação’, baseado em McEwan. O cabra é bom.
Estou com preguiça de voltar atrás, mas me lembrei agora que, quando acrescentei aquele post sobre a Silver Screen, alguém (quem?) comentou que o selo estava lançando (ou ia lançar?) ‘A Tortura do Medo’ (Peeping Tom), de Michael Powell. Acho que é o filme mais famoso que ele dirigiu sozinho e originou um culto muito forte a Powell, bem antes que Martin Scorsese virasse o oficiante da celebração do diretor inglês. Lembro-me que, em Porto Alegre, por volta de 1960, ainda estava no Colégio Júlio de Castilhos e havia um mural, no qual escrevia um cara chamado Valdir Enor Koch. Nunca falei com ele, mas com certeza o Koch, que escrevia naquele espaço alternativo, foi muito importante em meus verdes anos. Não concordava com tudo o que ele escrevia – o cara desancou ‘Psicose’ -, mas aquele espaço terminou me estimulando a, algum tempo depois, usar outro espaço alternativo – na Faculdade de Arquitetura da UFRGS – para também escrever meus primeiros textos sobre cinema (e o primeiro foi sobre ‘Um Clarim ao Longe’, de Raoul Walsh). Voltando a Valdir Enor Koch, acho que ele foi a primeira pessoa que eu vi elogiar Michael Powell. Não sou o maior conhecedor da obra deste cineasta, mas sei que Bertrand Tavernier também é louco por ele e sua coleção ‘Actes du Sud’ até editou um volume sobre Powell, cobrindo sua produção conjunta com Emmeric Pressburger e os filmes que fez sozinho. Engraçado, mas dele me lembro de alguns filmes, ou de partes de alguns filmes – ‘O Ladrão de Bagdá’, ‘Coronel Blimp’, ‘Narciso Negro’, ‘Sapatinhos Vermelhos’, ‘Os Contos de Hoffman’. São todos visualmente muito bonitos. Não faço uma idéia muito clara do estilo nem das preocupações de Michael Powell, mas me sensibiliza o que dele disse acho que o crítico Raymond Lefèvre: “O cinema é uma arte que pode atingir o coração e o espírito por meio de estímulos puramente físicos. Mas é raro que isso ocorra e Michael Powell é um dos cineastas que atingiram este milagre.” (Estou citando de memória – Lefèvre disse mais ou menos isso, mas não são as frases literais.) De volta a ‘Peeping Tom’, o filme conta a história deste homem que, quando garoto, foi cobaia nas experiências do próprio pai, que investigava a reação humana ao medo. (O incrível Kulk também virou monstro por causa das experiências do pai, mas esta é outra história). Com a mente deformada, o herói vira um voyeur que mata mulheres com uma câmera punhal que as trespassa, para que ele possa captar a expressão de medo no rosto das vítimas. Karl Böhm era o ator, ele que havia sido o imperador da série ‘Sissi’, com Romy Schneider. Foi seu grande ‘adulto’ no cinema. Confesso que fiquei com vontade de rever ‘A Tortura do Medo’. Será tão bom quanto a memória registra? A se julgar pelo que dizem Scorsese e Tavernier – e pelo que dizia Valdir Enor Koch -, sim.
Falei que havia assistido a ‘Quando Irmãos se Defrontam’ e esqueci-me de comentar o filme de George Englund com Marlon Brando. Sim, é com Eiji Okada, o grande ator japonês a quem Alain Resnais deu um papel inesquecível em ‘Hiroshima, Meu Amor’. Resnais tinha aquela direção ‘escultórica’ de atrizes, que atinge seu age com a Delphine Seyrig de ‘O Ano Passado em Marienbad’, uma mulher misteriosa, com aquele vestido e a gola que sugere penas, como se ela fosse um pássaro. Amo a Emmanuelle Riva de ‘Hiroshima’, e isto desde as primeiras cenas, quando ela insiste que viu tudo em Hiroshima, que os museus mostram aos turistas as imagens da bomba etc, e o Eiji Okada diz, num tom de voz que eu não sei como explicar, mas estou ouvindo, aqui, agora – ‘Tu n’as rien vu à Hiroshima’ (e ele diz ‘vu’ mesmo, não ‘vi’, o que seria a pronúncia correta). Há virilidade na presença física de Eiji Okada, como há na de Giorgio Albertazzi em ‘Marienbad’ e os dois filmes mostram homens persuasivos, que retiram do inconsciente das mulheres – ou constróem – essas histórias de amor que estão se perdendo. De volta a ‘Quando Irmãos…’, o filme pertence a uma fase da carreira de Brando, em que os críticos não davam mais nada por ele. Filmes como ‘Morituri’, ‘Sangue em Sonora’ e outros ainda piores (mas não incluiria entre eles ‘A Condessa de Hong Kong’, de Charles Chaplin) eram considerados indignos do Brando dos anos 50. Embora goste muito de ‘Caçada Humana’, de Arthur Penn, e ‘Os Pecados de Todos Nós’ (Reflections in a Golden Eye), de John Huston, isso não me impede de constatar que só no limiar dos 70, com ‘O Poderoso Chefão’ e ‘Último Tango em Paris’, de Coppola e Bertolucci, Brando conseguiu ressurgir, em alto estilo. Gostei de ter visto ‘The Ugly American’, que é o título original de ‘Quando Irmãos se Defrontam’. O filme é de 1962, pós-revolução cubana e representa uma esquerda democrática que, na época, estava preocupada com a radicalização de Fidel Castro, sim, mas também com a intransigência com que os EUA, em plena Guerra Fria, se ligavam a regimes ditadoriais para conter o avanço comunista. Achei muito interessante o final, que Robert Redford retomou, 35 anos depois, em ‘Leões e Cordeiros’. Brando, o embaixador, discursa reconhecendo erros e limites na estratégia geopolítica norte-americana. Ele fala aos cidadãos, aos americanos médios, e aparece este cara que, em casa, desliga a TV, desinteressado do que está vendo, como se aquele problema em Sarcan, lá no Sudeste Asiático, não tivesse nada a ver com ele. Em seguida teria, com a Guerra do Vietnã e o que George Englund, de alguma forma fez, foi antecipar uma discussão que se tornaria dominante naquela década. Ele é crítico do comunismo, mas não basta combater Moscou. Existem, também, do lado de cá, a indiferença, a beligerância, a corrupção. A coisa não mudou muito. Hoje em dia, criticar os EUA continua sendo sintoma de esquerda burra, retrógrada, ou pelo menos considerado como tal. Mais de 30 anos depois, achei o filme do Englund bem interessante. E o Brando? Acho que é o filme dele, daquela época, em que está mais contido, sem deixar de ser Brando. A marca do grande ator sempre foi uma espécie de tergiversação, quando ele parece que se abstrai da cena para falar em solilóquio, consigo mesmo. Tem dois ou três momentos que chegam a ser geniais em ‘Quando Irmãos se Defrontam’. E, ao contrário do Régis, achei legal o detalhe do bigodinho. Torna o personagem mais ‘exótico’, num cenário em que o exotismo, por princípio, é do ‘outro’.
Fui ver ontem à noite, em pré-estréia, ‘P.S. – Te Amo’. Achei muito estranho. Começa mais para ‘Cenas de Um Casamento’ – a briga de um casal – do que para comédia romântica tradicional. Aliás, não é uma comédia romântica tradicional porque a segunda cena é de um velório e, a partir daí, você se pergunta – mas o que vai ocorrer agora? Afinal, o filme tem 130 minutos e terminou em dez. Não subestime o diretor e roteirista Richard LaGravenese. O tema da morte e uma certa morbidez me induziram a pensar que o cara talvez fosse de TV (e da série ‘A Sete Palmos’). Chegando em casa, fui pesquisar no Google e vi que LaGravenese concorreu ao Oscar pelo roteiro de ‘Fisher King’ (O Pescador de Ilusões), de Terry Gilliam – que começa com uma morte e o processo de culpa que ela desencadeia. O cara deve ser obcecado porque também escreveu ‘As Pontes de Madison’, de Clint Eastwood, com Clint e Meryl Streep, e ‘P.S. Te Amo’ trata, lá pelas tantas, de uma insatisfação como aquela que consome a dona de casa interiorana, atraída pelo estrangeiro – o fotógrafo -, mas presa a seus compromissos como esposa e mãe. Só agora me dei conta que, quando citei ‘Desencanto’, de David Lean, como um dos filmes mais românticos que conheço, alguém (quem?) disse que preferia ‘As Pontes de Madison’, mas o filme de Clint é quase uma refilmagem disfarçada de ‘Brief Encounter’ – ou não? Não saberia, assim à queima-roupa, dizer se gostei ou não de ‘P.S. – Te Amo’, ainda mais que havia revisto pouco antes ‘As Sombras de Goya’ e estava de novo chapado pelo filme do Milos Forman. Mas ‘P.S.’ é um filme fora de esquadro, que subverte, desde o interiores, códigos narrativos convencionais. Só vou acrescentar uma coisa. Entrevistei, este ano, na Cidade do México, Hilary Swank. Achei-a bem mais bonitona e charmosa do que parece na tela, onde a imagem ‘machona’ de ‘Meninos não Choram’ e ‘Menina de Ouro’ meio que travam suas tentativas de mudar de personagem. Mas o curioso é o seguinte. Hilary é alta e magra, parece ainda mais alta porque é muito magra. Olhei para os pés dela e me chamou a atenção o sapato – alto, e preto e vermelho. Ontem, vendo o filme, quase gritei – é o sapato que ela usava no México! Sapatos viram importantes no filme de LaGravenese. Aquele, então, nem se fala. Saiu da tela para o guarda-roupa da atriz.
Melchiades me cobra a ausência de ‘Mutum’, de Sandra Kogut, na lista de melhores do ano que saiu sexta-feira, no ‘Caderno 2′. Foi esquecimento ou não gostei tanto do filme, pergunta o Melchíades? Não, não foi esquecimento, e embora eu goste bastante do filme – e o tenha defendido – não gostei tanto assim a ponto de colocar entre os três ou quatro melhores nacionais do ano (o que, no limite, foi o que restou na lista geral. Se fossem dez nacionais e dez estrangeiros, ‘Mutum’ com certeza estaria na lista.) Mas quero voltar à relação de dez, que me surpreendeu. Sim, a mim mesmo. Achei que ia colocar ‘Jogo de Cena’ e ‘Ratatouille’ na cabeça e, no final, foram ‘Ratatouille’ e ‘Santiago’, que se impôs – o segundo – pela complexidade e riqueza (e pela leitura proustiana que me permitiu unir os dois). Mas eu confesso que houve o que me parecia um esquecimento grave e, na verdade, foram dois. A lista já estava pronta, o jornal já estava sendo impresso quando fui redigir os filmes na TV de sábado e entre eles estava o simpático ‘Procura-se Amy’, de Kevin Smith. Estava listando os atores – Ben Affleck, Joey Lauren Adams, Jason Lee – quando me lembrei da participação do Matt Damon e do Casey Affleck. Êpa! Casey Affleck, o irmão mais talentoso do Ben? Como pude esquecer de ‘O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford’, onde Casey e Brad Pittr, encarnando o mito, estão ambos geniais? Como conseqüência, me veio que, no Festival do Rio, eu havia surtado vendo ‘O Assassinato’ e ‘As Sombras de Goya’. Fui rever ‘Goya’ ontem e é óbvio que o filme do Milos Forman me é mais querido do que o díptico de Clint Eastwood, que eu vou ter de ‘cassar’ na lista que vou fazer amanhã aqui no blog para acomodar ‘Goya’ e ‘Jesse James’. Meu editor, Dib Carneiro Neto, chegou a comentar, quando viu que havia colocado ‘Santiago’ na cabeça, que era uma mudança em relação ao que eu próprio havia defendido na premiação da APCA, Associação Paulista dos Críticos de Arte (e que era dar o prêmio para o Coutinho). Na verdade, não estou mudando. Estou acrescentando e colocando em perspectiva. No caso de ‘Assassinato’, admito, foi esquecimento. Devia ter pesquisado. Pode ser um ponto para quem não leva listas a sério. Algumas coisas, de qualquer maneira, não mudam – ‘Ratatouille’, ‘Jogo de Cena’, ‘Santiago’. ‘Em Busca da Vida’ (do Jia Zhang-ke), ‘Medos Privados em Lugares Públicos’ (do Resnais), ‘A Vida dos Outros’, ‘Pecados Íntimos’. O melhor de 2007 passa por aqui, com certeza. E vocês – querem fazer suas listas? Conjuntas ou separando os melhores nacionais dos melhores estrangeiros? Fiquem à vontade…
Havia gostado muito de ‘Sombras de Goya’ quando vi o filme de Milos Forman no Festival do Rio. Foi uma noite de emoções muito fortes. Vi ‘O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford’, corri para o ‘Goya’ (ou foi o contrário?) e saí do cinema para assistir à meia-noite, no Odeon BR, a ‘Lust, Caution’, de Ang Lee, que não me impressionou tanto porque estava impactado pelos dois filmes anteriores, que, de alguma forma, se completaram na minha cabeça. Ang Lee, falando da ambivalência radical de homens e mulheres – dos seres humanos -, iluminou o que havia sido, para mim,, o tema de Forman e também de Andrew Dominik em seu western, mas a força dos outros dois filmes era muito vívida na minha consciência e eu não conseguia ‘entrar’ em ‘Lust, Caution’. Na revisão, ‘Sombras de Goya’ ficou ainda melhor. Muita gente reclama da transformação do personagem de Javier Bardem, o padre Lorenzo, mas é só depois de assistir à segunda parte que fica clara a sutileza na construção do personagem. São tantos os sinais de que aquilo vai ocorrer. E o filme é suntuoso como espetáculo audiovisual. Enche os olhos e os ouvidos. Goya pode dar nome ao filme, mas seus ‘fantasmas’ (‘Ghosts’, no original) são mais importantes e Lorenzo e Inès, Javier Bardem e Natalie Portman, é que dão a ‘Sombras de Goya’ sua complexidade e riqueza. O filme me pareceu tão-tão bom que ontem, finalmente, consegui sentir cólera, mais do que amor, pela adaptação que Mike Newell fez, com roteiro de Ronald Harwood, do romance de Gabriel García Márquez. A história de ‘O Amor nos Tempos do Cólera’ é maravilhosa e, até certo ponto, maravilhosamente contada (no roteiro). O problema nem é o inglês, em substituição à riqueza do idioma espanhol de García Márquez. ‘Goya’ é falado em inglês e numa profusão de sotaques, mas isto não limita em nada a força nem o impacto do filme. Javier Bardem é espetacular. Seu Padre Lorenzo é aquilo que Fernanda Montenegro chamou de ‘touro erótico de Picasso’. Ontem, depois de rever Javier Bardem em ‘Goya’, a impressão que tive foi a de que o touro havia sido castrado pela flêuma do Mike Newell. Estou sem coragem para rever ‘O Amor nos Tempos do Cólera’, mas preciso fazer o sacrifício.
Tive um dia tão movimentado ontem que nem sobrou tempo para o blog. Abri velhas caixas com livros e revistas que permanecem empilhadas a um canto do meu apê, desde que me mudei (há pouco mais de um ano). Sou meio compulsivo, reconheço. Meio, não. Compulsivo inteiro. Coleciono algumas revistas que nem abro, acho que para não sofrer nenhum tipo de influência. Algumas delas eu folheei ontem pela primeira vez. E vi muitos filmes – encarei um antigo filme com Marlon Brando na TV paga (‘Quando Irmãos se Defrontam’, de George Englund) e fiz um programa duplo no Arteplex, à noite – depois da chuva -, assistindo a ‘Sombras de Goya’ e ‘PS – Te amo’. Vamos por partes. Antes de falar destes filmes – e de comentários de vocês, nos últimos posts – quero falar sobre o Ian McEwan. Terminei de ler ‘Na Praia’ e não posso deixar passar em branco algo que me veio por causa do que escrevi na minha relação de melhores do ano. Falei da compaixão em ‘Pecados Íntimos’, quando o policial que caçava implacavelmente o pedófilo se desespera e tenta ajudar o cara que se esvai em sangue, porque cortou o próprio sexo. Que cena, meu Deus! Que filme! De volta ao McEwan, acho que ‘Atonement’ não se chama ‘Reparação’ – e o filme ganhou o acréscimo de ‘Desejo’ ao título – impunemente. McEwan escreve para celebrar o poder reparador da literatuira, como reação ao poder destruidor que a palavra muitas vezes tem. Não fiz nenhuma pesquisa e nem conheço McEwan tanto assim, mas gostaria de acreditar que ‘Na Praia’ é anterior a ‘Reparação’, até porque me parece um rascunho genial. O livro conta a história deste casal jovem que, nos anos 60, não consegue consumar o casamento. Não é um casso de impotência por excesso de amor, como aqueles que entravam os personagens de Marcello Mastroianni em ‘O Belo Antônio’, de Mauro Bolognini, que Pier Paolo Pasolini adaptou do livro de Vitaliano Brancati, ou o John Savage de ‘Os Amantes de Maria’, de Andrei Konchalovski. No relato de McEwan, situado no limiar dos anos 60, a década que mudou tudo, o casal é imaturo, ela reprime os avanços do cara até o casamento e, na noite de núpcias, dá tudo errado, o que fortalece na mulher o sentimento de que é frígida. Ela pertence a uma classe superior – como em ‘Reparação’ -, a noite termina em acusação e ressentimento. Ela, em busca de reparação, faz uma proposta que ele consisdera idecente. Separam-se, nunca mais se vêem, mas ele nunca deixa de amá-la e nem ela a ele. O livro conta a ruptura, acompanha a vida dos dois, mas revela, na investigação psicológica, o que ambos gostariam de ter feito para evitar a separação. Essa possibilidade, tenuamente insinuada, vira o tema de ‘Reparação’ – e, no filme, os cinco minutos finais com Vanessa Redgrave são o que há de lindo, justamente pela compaixão que só uma atriz como Vanessa, com tudo o que representa, pode acrescentar a um papel. Vi o filme do Joe Wright numa sessão de imprensa na Mostra. Não sei o que as pessoas escreveram, mas ali, no fim daquela projeção, não senti muito entusiasmo. Eu estava chapado e ouvia as pessoas dizerem que o livro era melhor ou coisa que o valha. Ainda não tinha lido o romance. Já li e a adaptação, feita pelo dramaturgo Christopher Hampton, é brilhante. Espero que ‘Desejo e Reparação’ vá para o Oscar (e até que ganhe). Ainda não vi o ‘Sweeney Todd’, do Tim Burton, mas já assisti a outros candidatos considerados fortes, mas que não me marcaram (‘O Gângster’, de Ridley Scott). E ‘Desejo e Reparação’ é um luxo. Keira Knightley está deslumbrante, como atriz e mulher. Não consigo pensar no filme sem que me venha ela com aquele vestido verde, na cena fatídica da festa. Sempre achei que o vermelho era a corda da sedução, da paixão. Joe Wright me convenceu de que pode ser o verde.
Peguei o comentário do Celdani no post sobre ‘Luzes da Cidade’ e não creio que exista contradição – acho que o olhar dela manifesta decepção e isso não impede que, eventualmente, como pensam alguns, a garota possa ter ficado com Carlitos. Não seria esta, justamente, a riqueza e complexidade do olhar de Chaplin? Pode ser uma idéia romântica, mas a literatura e o cinema estão cheios de histórias de gente que ama e se decepciona e não deixa de amar. Não é a mesma coisa, eu sei, mas existe final mais lindo do que o de ‘Clamor do Sexo’, do Kazan? Natalie Wood sofreu o Diabo por amor a Warren Beatty. Chegou a ser internada por causa deste amor proibido porque ele era rico e ela era a moça da banda pobre da cidade. No final, após o crack da Bolsa, ele empobreceu, casou-se com outra e ela olha aquele homem pelo qual, literalmente, foi louca. O que acontece? Nada. O momento passou e, como dizem Kazan e seu roteirista, William Inge, na epígrafe retirada de um poema de Woodsworth – ‘Embora nada possa devolver os momentos do esplendor na relva (Splendor in the Grass, o título original), não sofreremos. Ao contrário, encontraremos forças no que ficou atrás.’ Deus, que aquilo é lindo. Um final, essencialmente infeliz, mas maduro (e muito real). Tão belo assim só o ‘Desejo e Reparação’ que Joe wright adaptou de ‘Atonement’, de Ian McEwan, mas já estou misturando demais as coisas. Vamos deixar Joe Wright e seu desfecho maravilhoso, aqueles cinco minutos geniais com Vanessa Redgrave, para depois.
2012
2011
2010
2009
2008
2007
2006