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Luiz Carlos Merten

31.dezembro.2006 13:20:24

Aquele abraço!

Prometi que voltava ao assunto melhores filmes do ano ainda em 2006 e estou nas últimas horas para fazer isso. Acho que a lista de dez títulos que saiu no Estado, e que fiz no impulso, seleciona meus melhores . Miami Vice, Munique e Paradise Now, O Céu de Suely, A Pequena Miss Sunshine, Volver, Amantes Constantes, Pai e Filho são filmes que carrego comigo. Na lista do Caderno 2 coloquei, como melhor cena, a do encontro entre Zuzu e o pai de Lamarca em Zuzu Angel, mas o filme não é tão bom e como um dos melhores filmes do ano entra Três Enterros, no lugar. Confesso que a escolha do Match Point, do Woody Allen, também foi um pouco calculada – há tempos nada do que ele faz me toca muito –, e assim como décimo escolho Eu Me Lembro, do Edgard Navarro, mas com dó de estar descartando A Era do Gelo 2, de Carlos Saldanha, que foi a melhor animação do ano. A melhor atriz foi Hermila Guedes, mas meu entusiasmo por ela era muito maior até quinta, quando vi o especial sobre Elis na Globo. Acho Elis uma personagem fantástica, mas o especial me pareceu tão burocrático e superficial. Será que foi coisa de família, não permitindo explorar melhor as contradições da ‘Pimentinha’? Hermila, que ficou fisicamente parecida, não teve chance de interiorizar a Elis, o que me decepcionou um pouco. O melhor ator foi Barry Pepper, por Três Enterros (embora também goste muito do Terrence Howard de O Ritmo de Um Sonho). E vou parar por aqui, sob pena de cometer alguma atrocidade. É que fui rever O Amor não Tira Férias e gostei tanto das cenas/diálogos que seria capaz de escolher a Kate Winslet e o Jude Law, que faz… o Gato Borralheiro, resgatado pela princesa Cameron Diaz. Brinco, hein gente. É claro que O Amor não é melhor de coisa nenhuma (nem ator nem atriz). Mas que eu gostei e me diverti mais até do que na primeira vez que vi, ah, isso sim. Vou tentar postar mais alguma coisa à tarde ou no início da noite, mas se não der – tenham um ótimo réveillon e amanhã aqui, sem falta!

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31.dezembro.2006 12:43:40

Beethoven

Ontem passei o dia em casa, ainda às voltas com a desordem da minha biblioteca de cinema. Para complicar, houve não sei que problema e o computador não funcionava. Estou agora na redação do Estado. Fui ver ontem O Segredo de Beethoven, um daqueles filmes que exibem defeitos flagrantes, mas propõem uma experiência tão intensa que você até se esquece deles, concentrando-se nas qualidades. Não gosto muito da diretora de origem polonesa Agnieszka Holland, que começou como roteirista ta de Andrzej Wajda e criou certa fama com filmes que retratavam a realidade social e política do país, como Complô contra a Liberdade, com Ed Harris como um padre em luta com o regime comunista. Filhos da Terra (Europa, Europa)provocou sensação com a história do garoto judeu que vira representação do super-homem nazista e passa pelo filme (e pela vida) escondendo o pênis para ninguém perceber que é circuncidado. Holland não é exatamente sutil. Sua direção é bombástica, usando e abusando de firulas visuais tipo reflexos no espelho, desfocados e quetais. Ela me passa sempre a idéia do elefante na loja de cristais. Holland é um perigo. Não mudou nada em Beethoven, mas este retrato do gênio possui coisas impressionantes. Historicamente, é falso, no sentido de que a personagem de Anna, que a diretora usa para penetrar na intimidade do artista, nunca existiu – é uma licença poética. Mas é como se diz. A verdade da arte passa muitas vezes pela mentira e o retrato que Holland faz dos últimos anos de Beethoven, da sua surdez e da obsessão por arrebentar parâmetros musicais, integrando o ‘feio’ à beleza de sua arte, fornece uma interpretação muito convincente da voragem que consumia o artista. Gostei muito de duas coisas – as interpretações de Ed Harris e Diane Kruger, a top que virou atriz (e boa!), tendo sido vista em Tróia e Feliz Natal, e a espetacular cena em que Beethoven rege a Nona, mirando-se no espelho de Anna, já que não pode ouvir. A maneira de filmar os olhares, os gestos, a câmera que segue o movimento da mão de um e emenda com a do outro, pelamor de Deus! – achei de arrepiar. Gosto de filmes que me coloquem esse desafio, integrando o feio, o imperfeito a uma reflexão sobre o homem no mundo. Confesso que saí do cinema com uma pulguinha atrás da orelha. Gostei, aqui, com todos os defeitos que o filme possa ter, do que não gosto em Crime Perfeito, do Beto Brant. Ele vai querer me matar, mas acho que a idéia do filme do Beto é muito forte, mas o resultado é falso porque ele não tem coragem, ou não tem vivência, para ir fundo no grotesco da Agnieszka Holland. É a diferença que me parece que existe entre um filme ‘teórico’ e outro ‘vivido’. É verdade que o elenco de Holland segura todas e o do Beto, não. Independentemente do paralelismo, acho importante ver Crime Perfeito e gosto de poder recomendar O Segredo de Beethoven pelos defeitos, como pelas qualidades. Só não gosto do título. O original, Copying Beethoven, Copiando Beethoven, é muito melhor. Toca a essência do filme. Anna, a personagem fictícia, é copista. Quer ser compositora, mas termina copiando seu ídolo. O próprio Ludwig diz que ela precisa se libertar, que o mundo já tem um Beethoven, não precisa de outro. Achei muito interessante o que me disse o Dib Carneiro, meu editor no Caderno 2 e autor da peça Adivinhe Quem Vem para Rezar – ele acha que o roteiro do filme de Agnieszka Holland dá uma bela peça. Alô, alô André Garolli. Quem sabe o diretor de Zona de Guerra, que gosta de trabalhar no registro do limite teatro/cinema, faz essa passagem?

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29.dezembro.2006 11:12:12

Barry, oh yes!

Achei o Terrence Howard o melhor ator do ano, mas também gostei demais do Barry Pepper, pelos Três Enterros. Gostei muito do filme do Tommy Lee Jones escrito pelo Guillermo Arriaga e até escrevi no Caderno 2 que o júri de Cannes agiu corretamente ao dar o prêmio de melhor interpretação masculina para o filme dele, mas escolheu o ator errado, porque o próprio Tommy Lee Jones não é melhor que o Barry (e ele com certeza se sentiria premiado se o colega fosse vencedor). Acho que o papel tem uma complexidade que o Barry segura e não é de agora. Ele também é muito bom em The 25th Hour, do Spike Lee, roubando a cena do Edward Norton, outro ótimo ator. O curioso é que ainda vou chorar por não ter ido ao Festival de Manaus deste ano, porque nele vieram o Irvin Kershner, diretor que idolatro, e… Barry Pepper, que, segundo me contaram, foi dar de comer a um peixe (não sei que raio de peixe – uma piranha?) e quase perdeu o dedo.

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29.dezembro.2006 10:55:35

Pôquer de Sangue

Embora o título seja o mesmo, o post não se refere ao western (Five Card Stud) de Henry Hathaway, com Dean Martin e Robert Mitchum, de 1968, do qual gosto bastante, embora ele carrregue a fama de ser o pior bangue-bangue do grande diretor. O pôquer de sangue aqui referido é do filme Cassino Royale, ao qual volto por um motivo muito simples – não sei se vocês repararam, mas aquela mesa que participa do jogo no cassino de Montenegro é o que há de cult. Tsai Chin, que faz Madame Wu, volta à série James Bond quase 40 anos após Com 007 Vive-Se Só Duas Vezes. Filha de um lendário ator chinês (Zhou Xinfang), ela fez também, na mesma época Blow-Up, do Antonioni, e mais recentemente foi vista em O Clube da Felicidade e da Sorte e Memórias de Uma Gueixa, embora sua praia seja mais o teatro, pelo qual ganhou, na Broadway, por Golden Boy, o prestigiado prêmio Obie. Todos aqueles atores na mesa são superconhecidos, mas você talvez não se lembre o nome deles. Tem o Ade, o gordão dos filmes de Guy Ritchie; o Tom So, da série Harry Potter (também presente em Filhos da Esperança); Urbano Barberini, um ator italiano de teatro, cinema e TV que deve estar naquele jogo por causa da participação dele em Terror na Ópera, de Dario Argento; e o argentino Charlie Levi Leroy, um roqueiro que virou cineasta e escritor, ganhando vários prêmios internacionais. Mas volte à mesa e preste atenção naquela velhota de óculos, Grafin Von Wallenstein. Há 40 anos, Richard Avedon disse que ela era a mulher mais bela do mundo e Antonioni acreditou, dando-lhe um papel importante, o dela mesma, em Blow-Up. Sim, senhores, é Verushka, com quem nasceu – com ela e Jean Shrimpton, que fez aquele filme cult, Privilégio, de Peter Watkins – o conceito de top model, nos anos 60.

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29.dezembro.2006 10:26:50

Jairo, socorro!

Socorro! Acabo de ler os comentários sobre os melhores filmes do ano e o pedido de SOS é para o Jairo ou quem quer que possa me responder. Que raio de filme é este do Ryan Fleck que eu não vi? Pesquisei aqui no arquivo do Estado e não achei referência à estréia de Half Nelson. Estreou quando? E com que título? Só quero acrescentar mais uma coisa – na matéria do Caderno 2, falei do melhor filme (O Céu de Sueli), da melhor atriz (Hermila Guedes) e da melhor seqüência do ano (a do encontro de Patrícia Pillar e Nelson Dantas em Zuzu Angel). Deliberadamente, não falei do melhor ator e, para mim, seria… Terrence Howard, por Ritmo de Um Sonho. Achei o cara poderoso, mas o filme foi pouco visto no Brasil por causa desta estupidez de achar que filme de ‘negão’ (é o que os distribuidores e exibidores dizem, não eu) não vai ter público. Howard foi indicado ao Oscar, mas perdeu, acho que por dois problemas – a Academia superpremiou os afros nos últimos anos e, após Denzel Washington e Jamie Foxx, precisava dar uma chance aos branquelos; em segundo, mas não menos importante, no ano em que Philip Seymour Hoffman era imbatível por Capote – mas O Segredo de Brokeback Mountain também era para melhor filme e não levou –, não seria politicamente correto deixar de premiar um ator que faz um gay (muito bem, por sinal) para destacar outro que faz um gigolô machão e violento (por melhor que seja Terrence Howard). Sei que nesta de achar que ele foi injustiçado não estou sozinho. Jamie Foxx fez campanha por Terrence Howard o quanto pôde e não pela solidariedade da cor da pele, garanto.

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Sérgio Oliveira, de Minas, manda um e-mail para pedir um adendo à lista dos melhores filmes no Caderno 2. Ele gostou demais de Elsa e Fred – Um Amor de Paixão. Olha, Sérgio, confesso que não fiz pesquisa para a lista e ela me veio de sopetão, tanto que cheguei a dez títulos e nem tinha observado, porque não me dei ao trabalho de contar. Mas eu gosto muito de Elsa e Fred e acredito ter contribuído para o sucesso do filme do Marcos Carnevale, que quebra uma escrita. Os distribuidores costumam dizer que jovem não gosta de filme de velho e, como a maioria do público que vai a cinemas é formada por jovens, os filmes de velhos terminam sendo veneno de bilheteria. Não é verdade, ou então o público de terceira idade cresceu muito a ponto de manter Elsa e Fred tantos meses em cartaz. Detesto as generalizações e acho que esta é uma daquelas que se fazem irresponsavelmente. Filmes de velhos, de negros. Brasileiro não gosta disso, dizem. Que coisa mais preconceituosa. Deixem os filmes de velhos em cartaz, dêem tempo para que se difunda o boca-a-boca e quero ver se a idade dos atores (ou a cor da pele) derruba um bom filme. Umberto D e Morangos Silvestres são, para mim, dois dos maiores filmes de todos os tempos. Não só para mim. Não conheço cinéfilo – de qualquer idade – que não tenha verdadeira paixão pelo Carlo Battista no filme do De Sica ou pelo Victor Sjostrom no de Bergman. Uma das coisas mais bonitas que já ouvi, mais profundo do que qualquer crítica, foi o comentário do Scorsese sobre Umberto D no documentário Minha Viagem pelo Cinema Italiano. Tenho falado tão mal do Scorsese que não custa elogiar o Scorsese-cinéfilo. O livro/filme dele sobre o cinema americano também é maravilhoso, mas o do italiano é especial. O que ele escreve sobre Rossellini, De Sica e Antonioni é de arrepiar. Curiosamente, suas observações sobre Visconti são mais ligeiras, ou não me apanharam tanto. Estou me desviando, mas gostei demais do Elsa e Fred, das reminiscências do Fellini que se encontram no filme e principalmente gostei do Federico Luppi e da China Zorrilla. Luppi é, para mim, um dos maiores atores do mundo, e não apenas de língua espanhola. Vê-lo e a China Zorrilla foi uma emoção e tanto. Há uma troca na tela. São dois grandes atores numa interação maravilhosa. Acho que qualquer cena dos dois seria digna de figurar entre as melhores do ano, mas a da Fontana di Trevi leva a palma, quando China reconstitui o passeio de Anita Ekberg pela Roma noturna de A Doce Vida. Você olha e pode até querer pensar – que coisa ridícula! Uma velha tentando realizar seu sonho de menina-moça. Que ridículo que nada! É sublime. Elsa e Fred foi um daqueles filmes que, neste ano, me reconciliaram com a espécie humana.

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28.dezembro.2006 19:13:53

As duas faces da moeda

A respeito da lista de melhores do ano, publicada no Caderno 2, fiz uma básica que espero que o leitor complemente, porque o meu melhor filme não precisa ser o dele. Amo o Gitai, gostei demais do The Prestige, mas olhaqui Cláudia – de maneira alguma acho que é forçar a barra comparar Munique com Paradise Now e achar os dois filmes complementares. Ambos estrearam no mesmo dia, 27 de janeiro, e desde então tenho sido um apaixonado defensor da tese de que as visões de Steven Spielberg e Hani Abu Assad não apenas se complementam como abrem um território imenso para a discussão do que seja o cinema (e o terrorismo, como fenômeno político contemporâneo). Não penso que Munique, com seu grau de indagação (e indignação) ética, seja uma diversãozinha do Spielberg para concorrer ao Oscar. Para mim, Munique fecha a trilogia que começou com O Terminal e prosseguiu com Guerra dos Mundos. Acho que são os filmes que melhor expressam os EUA de George G. Bush – e isso sem nenhuma referência ao 11 de Setembro. Com autoridade, Spielberg discute a paranóia que vem minando internamente e vai terminar destruindo, aos olhos de todo o mundo, a idéia dos EUA como uma grande nação. O mais curioso é que fui construindo aquela lista e nem reparei que tinha selecionado dez filmes. Foi o Dib Carneiro, meu editor, quem observou – se tivesse me pedido para fazer uma lista de dez, eu não faria, segundo ele. Zuzu Angel, que tem aquela cena genial do encontro de Patrícia Pillar com Nelson Dantas, não é, para mim, um dos grandes filmes do ano, mas a cena, em si, é tão forte que não resisti. Achei que merecia ser lembrada. Prometo voltar aos melhores, aqui no blog, até domingo, dia 31, quando termina o ano. Mas espero que todos se sintam livres e estimulados a estabelecer um ranking. Não precisam ser dez filmes. Não precisa ser uma lista. Apenas a resposta à pergunta – do que gostei no cinema em 2006? O que me emocionou? O que aponta rumos? Participe!

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Tive de fazer hora, ontem, no Arteplex, à espera da sessão de Cassino Royale. Jantei, fui nas Lojas Americanas conferir os DVDs (eles sempre têm ótimas ofertas), mas desta vez a surpresa veio do balcão de jornais e revistas no segundo andar. Dei uma olhada no que havia por ali e encontrei, por R$ 9,90, o DVD de Gentil Tirano, lançado por Movie Magazine. Robert Taylor já tinha passado da idade para fazer Billy the Kid em 1941, mas esta é a única objeção que pode fazer à cinebiografia do famoso pistoleiro cuja história também foi contada por Arthur Penn (Um de Nós Morrerá, com Paul Newman) e Sam Peckinpah (Pat Garret e Billy the Kid, com Kris Kristofferson). David Miller é um daqueles diretores que os críticos chamam de ‘artesão’ e negligenciam, achando pouco valor no que produziram. Ele deve sua fama a um ótimo suspense (Precipícios d’Alma/Sudden Fear, de 1952, com Joan Crawford como a mulher que descobre que o marido quer matá-la e se antecipa no crime), mas foi no western que Miller deu suas contribuições mais valiosas. Gentil Tirano foi precursor na abordagem do enfoque psicanalítico do Velho Oeste, numa época em que os relatos eram mais simples e diretos. Só uma década mais tarde, com a violência barroca de Anthony Mann, o cinema aprofundou a trilha aberta por David Miller ao contar a história de Billy the Kid, com ênfase no período em que tentou viver dentro na lei. Nunca esqueci uma observação que Rubens Ewald Filho fez em seu antigo Os Filmes de Hoje na TV (que não tenho à mão para conferir). Mas tenho certeza que ele chamava Robert Taylor de embonecado e não via como um cara daqueles podia ser bandido. O ponto de David Miller era justamente este e, não por acaso, seu filme recebeu no Brasil o título aparentemente contraditório de Gentil Tirano. Miller fez de tudo, incluindo um filme dos Irmãos Marx (Loucos de Amor, com Marilyn Monroe), mas sua obra-prima foi outro western – ou melhor, um western de ambientação moderna, como seria mais recentemente O Segredo de Brokeback Mountain, no qual o herói é um desajustado social que vive em choque com velhos códigos de comportamento e de ética. Este filme se chama Sua Última Façanha (Lonely Are the Brave, no original) e foi escrito por Dalton Trumbo para o ator e produtor Kirk Douglas. Trumbo, uma das vítimas célebres do macarthismo, havia saído da lista negra graças a Douglas, que, como produtor, lhe permitiu que assinasse o roteiro de Spartacus. O pai de Michael Douglas fez grandes filmes, de grandes diretores. Kubrick, Preminger, Minnelli, King Vidor, Jacques Tourneur, Joseph Mankiewicz, Howard Hawks, Billy Wilder, William Wyler, John Sturges, Richard Fleischer. Em Berlim, ao recebeu seu Urso de Ouro especial de carreira, o velho Kirk, falando com dificuldade, em conseqüência do derrame que sofreu, não hesitou um segundo quando lhe foi perguntado qual o seu filme preferido – Sua Última Façanha, que ele definiu como adiante de sua época, em 1961. Por maior que tenha sido a contribuição de Dalton Trumbo, há, ali, uma noção do espaço que configura uma idéia de mise-en-scène. Quando Douglas tenta disparar a cavalo, no asfalto, fica claro que o Oeste não era mais o da lenda. David Miller simplesmente antecipou o ano decisivo da desmistificação do gênero, 1962, quando John Ford fez O Homem Que Matou o Facínora e Sam Peckinpah iniciou uma verdadeira revolução do gênero, com Pistoleiros do Entardecer.

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28.dezembro.2006 10:17:11

Cassino Royale (3)

Poderia ficar postando mais coisas sobre Cassino Royale, mas esta vai ser a última, pelo menos por enquanto. Poderia falar dos créditos, para discutir como Saul Bass revolucionou o setor e Maurice Binder, como discípulo aplicado, levou adiante suas lições na série com James Bond. Os créditos de Daniel Kleinman para Cassino Royale seguem a tradição de Binder, mas com uma vulgaridade assumida que tem a ver com o gosto e as platéias de hoje. (Aproveito para dizer que os créditos que Saul Bass criou para Bunny Lake Desapareceu, o thriller de Otto Preminger, talvez sejam os que mais me impressionam na história do cinema – o recorte daquele bonequinho, representando o bebê desaparecido, é coisa de gênio, como o próprio filme, o último grande de Preminger). Mas, enfim, o que quero fazer agora é uma ponte entre Issach De Bankolé em Cassino Royale e os guerrilheiros africanos de Diamante de Sangue, de Edward Zwick, que estréia na sexta-feira, dia 5. Issach, no filme, não se separa do facão, que usa contra 007 e, antes dele, contra o vilão Mads Mikkelsen, ameaçando decepar o braço da namorada dele. Os guerrilheiros de Diamante de Sangue também usam o facão e, de cara, eu estava achando preconceituoso. Tudo bem – a gente sabe que a violência tribal é um horror na África e que é, ou era, costume decepar a mão ou o braço do inimigo. Mas, no filme com Leonardo DiCaprio (Diamante), uma linha do diálogo explica que foi uma herança do colonialismo belga. No Congo, os nativos rebeldes eram punidos pelos senhores europeus, tão cultos e ‘civilizados’, com a lei do facão. O que vemos, portanto, é o horror do colonizado assumindo o comportamento do colonizador. Que isso seja feito entre tribos é outra tragédia africana, mas ecos também transparecem do outro lado do Atlântico, no Haiti de Em Direção ao Sul, o filme do francês Laurent Cantet, que estréia amanhã (a última estréia do ano). No fuiklme de Cantet, o turismo sexual serve de ponto de partida para uma discussão mais ampla sobre as relações entre Norte e Sul. Charlotte Rampling faz parte de um grupo de coroas européias que buscam prazeres no paraíso das Antilhas. No resort, as européias podem levar seus nativos para a cama, mas não para a sala de refeição do hotel. Quando Charlotte tenta fazer isso, o gerente proíbe. Ela comenta – ‘Como eles são racistas entre eles!’ e o gerente, por sua vez, diz uma coisa maravilhosa – ‘Meu avô tinha razão ao dizer que os brancos são piores que macacos’. Tudo está conectado. Cassino Royale com Diamante de Sangue e Em Direção ao Sul. Não é só o cinema de autor que pode nos fazer pensar.

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28.dezembro.2006 09:45:28

Cassino Royale (2)

Já havia entrevistado Martin Campbell pelo segundo Zorro e tinha achado o cara bem inteligente. Campbell é bom de conversar porque é cinéfilo. Sobre Cassino Royale, fiz uma observação que agora me parece óbvia. A cena do assassinato de Issach De Bankole é Hitchcock puro. Sai de Cortina Rasgada, o assassinato de Gromek, no forno da granja. Hitchcock quis mostrar como matar uma pessoa pode ser difícil. Com seu silenciador, 007 abate sem dó, mas o embate físico do herói com Issach é extenuante e Daniel Craig só consegue porque Eva Green entra em cena – como a granjeira que ajudava Paul Newman no filme de Hitchcock. Cortina Rasgada já era a antítese da aventura convencional de espionagem. Aqui, a devastação física de Daniel, todo ensangüentado, é total. Você pode achar que isso é só perfumaria de cinéfilo, mas eu acho que tem algo mais e, dentro da série 007, é inovador como a mudança de ator. Talvez exagere, agora, mas eu, pelo menos, acho que aquilo é mais ‘real’, ou mais ‘intenso’, do que a violência de cinema do Scorsese em Os Infiltrados, que me parece brincadeira de menino tentando bancar o bad boy. Mas vamos deixar pra lá – já ando cansado de falar mal de Os Infiltrados, por menos que goste do filme (e da atual fase do Scorsese, na qual Gangues de Nova York e O Aviador conseguem ser piores). A sutileza é que Campbell me disse que tinha mais Hitchcock no filme e ia me cair a ficha. Caiu – justamente a cena do diálogo taco-no-taco de Daniel Craig e Eva Green no trem. Ela repete à psicanálise de Tippi Hedren por Sean Connery, um ex-007, em Marnie, quando ele submete a mulher, sexualmente enferma (e criminosa) a um jogo de palavras liberador. A referência, em si, não faz o filme melhor. Você não precisa dela para entrar em Cassino Royale. Mas eu sei que está lá e que estabelece uma ponte com obras e com um autor que admiro. Isso me dá outra percepção do personagem – e da intenção do diretor.

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