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Luiz Carlos Merten

09.fevereiro.2012 08:22:19

Sem provocação

BERLIM – Não quero provocar ninguém, mas em Paris comprei um livrinho, de uma nova coleção de ensaios críticos. Chama-se ‘Clint Fucking Eastwood’ e o autor é Stephane Boucquet, ex-Cahiers du Cinéma. Comprei porque era pequeninho, baratinho e seria uma boa leitura no avião. Deu para ler inteiro no voo para Berlim. O autor destroi o mito de Clint, misturando estética, política e psicanálise. Sua análise de ‘J. Hoover’ é devastadora, mas o mais importante – e não é provocação, hein? – é como ele considera o pênis, e o tamanho do pênis, essencial na obra de Clint. Nem me lembrava que existem tantas cenas e diálogos referentes ao assunto – em ‘Os Imperdoáveis’, ‘O Mundo Perfeito’, ‘O Poder Absoluto’, ‘O Jardim do Bem e do Mal’ (com aquela Lady Chablis), ‘Mystic River’ etc. O ponto de Boucquet é que só a qualidade dos filmes – que ele contesta, e de forma muito pertinente; algum editor deveria lançar o livro no Brasil – não justifica o mito do ‘xerife’. Fica subentendido que se trata de uma projeção/sublimação dos críticos no machismo do astro/autor. Tem neguinho querendo ser Clint no escurinho do cinema, o último macho, essas coisas. Folclore à parte, a análise se sustenta. E, no caso de ‘J. Hoover’, assino embaixo.

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09.fevereiro.2012 08:06:04

A austríaca?

BERLIM – Acrescentei ontem aquele primeiro post de Berlim, depois de assistir a ‘Tão Forte e tão Perto’, para poder fazer hoje à tarde as entrevistas com Max Von Sydow e o diretor Stephen Daldry. Agora pela manhã, estou três horas à frente de vocês, tive de tratar da burocracia do festival – credenciamento, essas coisas. Daqui a pouco, será a sessão de ‘Les Adieux a la Reine’, o longa francês (de Benoit Jacquot) que abre a competição deste ano. Em Paris, comprei ‘trocentos’ livros e revistas, inclusive uma ‘Jeune Cinéma’ em  que o dossiê é dedicado a Jacquot. Acho interessante reproduzir, aqui, alguma coisa antes de falar do filme (mais tarde). Apaixonado por cinema desde criança, aos 13 anos Jacquot já devorava ‘Cahiers’ e sabia tudo sobre os autores da nouvelle vague. Chegou a forjar, para a família, uma história de que havia sido convidado por François Truffaut para ser seu assistente. Aos 18, por influência do pai, conseguiu seu primeiro estágio – em ‘Angélica e o Rei’, de Bernard Borderie, o que poderia ser traumatizante para quem sonhava com Truffaut (e Jean-Luc Godard). Na verdade, deve ter sido  importante, porque Jacquot, ao longo de sua carreira, tem alternado projetos de encomenda, alguns até mais comerciais, com filmes experimentais. Achei interessante o seguointe, que não sabia. Ele foi assistente de Marguerite Duras e um monte de gente jura que, na verdade, era ele quem dirigia os filmes dela. Marguerite se concentrava no que lhe interessava – o texto, e o off, que é sua grande contribuição ao cinema. Jacquot se encarregavados atores e da parte técnica, inclusive do enquiadramentro, embora ele jure, numa entrevista, que só estava ali para servir a Duras e que o conceito sempre foi dela. Patrice Leconte, que foi assistente de Truffaut, me disse várias vezes que François fazia filmes para dormir com suas atrizes. Benoit Jacquot aprendeu direitinho a lição de Truffaut e Godard – que também teve suas fases Anna Karina, Marina Vlady, Anne Wiazemsky etc – e foi para a cama e até teve filhos com suas atrizes. ‘Les Adieux a la Reine’ baseia-se num livro sobre Maria Antonieta e vê a queda da monarquia pelo ângulo de uma dama de companhia da ‘austríaca’. Léa Seydoux é quem faz o papel, Diane Kruger é Maria Antonieta. Do que vi nos jornais franceses, Jacquot usa a história de época para retratar a França atual, discutindo o poder na França de Sarkozy, onde reina agora outra ‘estrangeira’, a italiana Carla Bruni. Pode ser interessante, não?

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08.fevereiro.2012 21:43:35

Daldry!

BERLIM – Estava com o coracaoh na maoh, com medo de que a greve da Air France anulasse meu voo e ficasse retido em Paris. Cah estou em Berlim, onde comeca amanhah a Berlinale, mas antes disso, hoje, jah assisti a Taoh Forte e taoh Perto. Na saida, Elaine Guerini e eu fomos jantar com uns amigos espanhois. Eles naoh gostaram do Stephen Daldry, que vimos hoje para poder entrevistar amanhah o diretor -  e tambem Max Von Sydow, que tem um papel importante. Eu gostei. O filme eh sobre esse garoto cujo pai morre no ataque aas torres gemeas, no 11 de setembro. Ele amarga a culpa de naoh haver atendido ao chamado do pai, que ligou minutos antes do predio desabar. Para se purgar, ao descobrir uma chave entre os pertences do pai, o menino tenta desesperadamente descobrir a que porta ou cofre a que pertence, como se abrir -  seja lah o que for – fosse resolver o misterio da propria vida. Lembro-me dos coleguinhas que torceram o nariz para Billy Elliot. Daldry, desde entaoh, tem me proporcionado belissimas viagens – O Leitor, O Leitor, O Leitor. Taoh Forte e taoh Perto tem tudo a ver com O Leitor, mais o tema da infancia de Billy. Eh um belo filme no qual a chave, afinal, se assemelha ao McGuffin num thriller de Alfred Hitchcock, mas o objetivo, aqui, naoh eh o suspense. Se a chave abre alguma coisa eh a mente do jovem protagonista e sua relacaoh com a maeh, interpretada por Sandra Bullock, eh emocionante.  Naoh sei de voces, mas os cinco ou dez minutos finais de O Leitor, o encontro de Ralph Fiennes com a personagem de Lena Olin, eh uma das coisas mais fortes e intensas que jah vi. Ele leva aa judia rica as economias de Kate Winslet, com as quais ela pretendia, com certeza, se purgar do mal que causou. Lena despreza a oferta e naoh facilita o desejo de reparacaoh de Fiennes para a mulher que amou, mas aih a lata na qual Kate guardava o dinheiro evoca, como uma madeleine, a memoria afetiva de Lena e ela aceita. Dadry, me perdoem, eh foda. Assim como encontrou outro recorte para falar do nazismo em O Leitor, aqui retoma o 11 de Setembro por um vies nunca visto. E o verbo, a palavra, a comunicacaoh eh sempre a chave de seu cinema. Justamente, o cinema. Eh uma coisa maravilhosa, que naoh cessa de nos surpreender, ou de me surpreender. A verdade eh que a surpresa estah no olhar de quem veh. A arte do cinema, garante  Alexander Kluge, quem faz eh o olhar do espectador. Taoh Forte e tah Perto estreia dia 24, dois dias antes do Oscar. Concorre a melhor filme e a melhor coadjuvante, Max Von Sydow. Amanhah, vou falar com o velhinho. Tantos grandes filmes – de Ingmar Bergman a Bille August. A Berlinale, gente, comeca bem.

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08.fevereiro.2012 10:10:44

‘Mandrin’

PARIS – Mais neve e frio, como se diz no Sul, de fazer passarinho cair do galho. Meu dia ontem foi estressante. Fui fazer uma entrevista, mas tudo parecia conspirar contra. A lan house que costumava frequentar no Quartier Latin fechou, não conseguia me comunicar pelo telefone público com a redação. Foi um cauchemar, pesadelo. Mas tive minhas compensações. Havia ficado indignado com um novo livro de Jean A. Gili sobre o cinema italiano, em que ele enumera as obras faróis de cada ano e, em 1960, cita umas cinco ou seis, esquecendo-se, ó crime, de meu amado ‘Rocco’. Mas me reconciliei com Gili ao encontrar, numa liquidação, por 7,5 euros, outro livro mais antigo, e também ligado ao cinema italiano. ‘Luigi Comencini’ – comecei a ler e viajei nas lembranças. As comédias dos anos 1950 – a série ‘Pão, Amor e..’, com a qual Comencini foi acusado de matar o neorrealismo (ah, os críticos, gente mais burra, pelamor de Deus), a minha favorita, ‘Mulheres Perigosas’, e os grandes filmes dos anos 1960, ‘Tutti a Casa’, ‘La Ragazza di Bube’ e as obras-primas sobre a infância carente e/ou assassinada, ‘L’Incompresso’, ‘Lo Scopone Scientifico’, o próprio ‘Casanova’ (jovem), com Leonard Whiting. As mulheres de Comencini – Claudia Cardinale, Sylva Koscina, Dorian Gray. Paris é uma festa, e cada um faz a sua. A minha passa invariavelmente pelo cinema. Na Filmoteca do Quartier Latin, no ciclo Cinema & Literatura, revi ontem ‘Os Irmãos Karamazov’, mais Richard Brooks do que Dostoievski, mas o próprio autor russo ia se reconhecer na adaptação, No Action Christine, outro ciclo, 14 obras a redescobrir, me permitiu rever ‘The Indian Fighter’, um western pró-índio de Andre De Toth, com Kirk Douglas, também produtor, Elsa Martinelli e Walter Matthau, aqui batizado como ‘La Rivière de Nos Amours’. Ontem, no mesmo ciclo, havia descoberto ‘The Mortal Storm’, de Frank Borzage, com James Stewart, Margaret Sullavan, Robert Young e Robert Stack, num de seus primeiros, senão no seu primeiro filme. Um melodrama de 1940 que, sob acertos aspectos, antecipa ‘Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse’, de Vincente Minnelli. Uma família dividida pelo nazismo, as perseguições aos judeus, a queima de livros. 1940! Tudo isso e mais ‘Les Chants de Mandrin’, de RAZ, Rabah Ameur Zaïmeche. A utopia reinventada, e num filme de época, que remonta ao século 18. Mandrin é executado e seus companheiros desafiam o sistema da época para publicar um livro de poemas em sua homenagem. RAZ corre o risco de ser chamado de anacrônico. Atração por personagens marginais, um sistema comunitário em que artistas e técnicos alternam posições e no qual a ficção permite ao marquês se integrar ao bando de criminosos. Em 2012! Mas feito com uma beleza e um  desprezo pelas convenções e pelas imperfeições que me deixaram siderado. Jean-Thomas, da Imovision, vai nos fazer o favor de levar o filme para a Reserva. A revolução/a utopia em marcha. Uma frase ao azar de RAZ na entrevista a ‘Transfuge’ – “A revolução hoje vem des mecs da periferia que constroem a economia informal. Sont notre seul espoir.” RAZ também é ator. Recita um texto admirável. Não é dele. É de Mardoror, Latréaumont. Agora, tiau. Estou indo para o aeroporto. Berlim me aguarda. Isso, naturalmente, se meu voo (Air France) não tiver sido cancelado por causa da greve.

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05.fevereiro.2012 21:08:48

RAZ

PARIS – Gostaria de ter visto mais filmes neste domingo, mas entre matéria para o jornal – os indefectíveis filmes na TV -, mais um passeio por Les Halles e uma ida ao museu – era o último dia da exposição de Le Clezio no L0uvre -, sobrou tempo para dois filmes, apenas. Vi à tarde ‘La Folie Almayer’, de Chantal Akerman, baseado no livro de Joseph Conrad, e à noite ‘Shame’. Ainda estou em choque com o filme de Steve McQueen. E o que é aquele Michael Fassbender? Ia fazer uma pesquisa para ver se ele está no Oscar, mas não, claro que não. Hollywood não tem culhão para bancar um filme em que o protagonista é um priáprico que passa o tempo todo de p… duro, exceto quando encontra uma mulher que pode representar um comprometimento afetivo e aí ele desaba. Como se conta uma história dessas? No começo, Fassbender passa sua genitália para lá e para cá, duas vezes, de forma a que o espectador veja a generosidade com que o tratou a natureza, mas depois a viagem é muito mais mental, e sem as simplificações psicanalíticas de praxe. O herói tem uma irmã suicida (Carey Mulligan), ambos são miseráveis, no sentido de solitários, angustiados e insatisfeitos, mas como ela diz, são boas pessoas e o problema é de onde vieram. McQueen não cede à tentação de algum flash-back explicativo e eu confesso que, no limite, o que me irrita em ‘J Edgar’, já que se trata tudo de uma viagem – duvido muito que todas aquelas cenas sejam documentadas, são liberdades de Clint e seu roteirista para ficcionalizar o personagem – é a facilidade da mãe possessiva para explicar a sexualidade reprimida de Hoover. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, estou misturando, mais uma vez, mas fiquei chapado com o filme de Steve McQueen, tentando achar meu centro até agora. Já havia entrado mais ou menos assim no MK Hautefeuille, depois de assistir em outro MK2, no Beaubourg, a ‘Almayer’. Na vertente de Claire Denis, Chantal filma, na selva do Camboja, uma história que trata de relações coloniais, de um pai europeu que rejeitou a flha bastarda e agora que ela se apaixonou por um nativo tenta resgatá-la. Não sou ‘akermaniano’ de carteirinha, mas não me lembro de outro filme de Chantal, nem ‘a Captive’, que fosse tão sensual e sensorial, com essas imagens da selva. Fiquei pensando – qual é o tema de ‘Almayer’? É o tempo. Tudo se passa como num teatro de paixões, mas gélido, contra o fundo de um rio muitas vezes tempestuoso cujas águas estão sempre em movimento. E os atores, ou o ator. Stanislas Merhar não é Michael Fassbender, mas tem uma melancolia e uma intensidade que enchem a tela. Ia ver mais um filme no fim de noite, mas achei melhor jantar e voltar para o hotel. RAZ ficou para amanhã. Quem? Rabah Ameur Zaimeche. Os franceses estão siderados com seu mais novo autor político. ‘Transfuge’ lhe dedica um dossiê, ‘Cahiers’, ‘Positif’ e até as populares ‘Première’ e ‘Studio’ lhe tecem loas. Amanhã vou conferir o que ‘Les Chants de Mandrin ‘ tem de tão subversivo e apaixonante.

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05.fevereiro.2012 08:50:50

Neve!

PARIS – OOOiiii! Cá estou eu de novo nesta cidade maravilhosa. Nos últimos 20 anos, tenho estado aqui regularmente duas ou três vezes por ano, sempre aproveitando as idas e vindas do trabalho. Agora mesmo, vim antes para ficar lguns dias, só usando a passagem, porque meu destino é Berlim, na quarta feira. Na quinta, começa o festival. Cheguei na sexta e estava um frio do cão. Tinha matérias e passei boa parte do dia – manhã e tarde – correndo em função delas. Mas, no final da tarde, veio a recompensa. A Filmoteca do Quartier Latin apresenta um ciclo Cinema e Literatura. Justamente na sexta, às 18h20, houve a apresentação ‘Nathalie Granger’, de Marguerite Duras, e a sessão teve direito a Irène Jacob – sim! – lendo trechos dos ‘Écrits’ da autora. Irène Jacob! Viajei nas lembranças. Lembrei-me de meu amigo Walter Hugo Khouri e de como ele amou ‘A Dupla Vida de Véronique’, como achava Krysztof Kieslowski um gênio e como Irène virou um sonho para ele. Ah, se Khouri tivesse tido a chance de filmar com a atriz francesa. Encontrei-a algumas vezes. Em Cannes, em Paris, no Rio. Ela tem um jeito de olhar para as pessoas e sorrir que dão a impressão de que se importa com a gente. Na sexta,. foi meu único programa de cinema. Chega, não? Ontem, comecei meu diaem Notre Dame e depois fui ver ‘Sur la Planche’, da marroquina Leila Kilane, que deixou toda a crítica daqui louca. ‘Cahiers’, ‘Positif’, ‘Transfuge’… Belo filme. Depois, com tantas novidades para ver, terminei revendo, por uma questão de horário e local, um Paalo Sorrentino que nem é o meu favorito do grande autor italiano, mas Sorrentino e Toni Servillo, como resistir a ‘Un Uomo in Più’? Na sequência, resolvi fazer um programa duplo sobre a elefantíase do sexo. ‘O Que É Que Há, Gatinha’, de Clive Donner, em cópia nova, que pretendia emendar com ‘Shame’, de Steve McQueen. Num certo sentido, ‘Pussy Cat’ é horrível como cinema, ou quase, mas poucos filmes expressam tanto as mudanças comportasmrentais dos anos 1960. E, também, só louco para não se divertir com Peter Sellers, Peter O’Toole e o jovem Woody Allen, mais aquelas mulheres lindas. Ursula Andress, Paula Prentiss (não me lembrava como ela foi bonita)… Saí do cinema correndo para ver o Michael Fassbender, mas o frio me venceu. Estava demais. Terminei entrando num restaurante para comer ( e tomar um vinhozinho, porque ninguém é de ferro). Deixei o ‘Shame’ para hoje. Deve ter nevado muito à noite. Estou olhando da janela do hotel. Tudo nevado lá fora. A rua, os carros… Comprei várias revistas de crítica, não só de cinema, mas ‘Cahiers’, que já havia avalizado ‘As Aventuras de Tintim’ – e eu tolo não entendia porque alguns coleguinhas haviam ‘gostado’ do filme -, dá sua capa de fevereiro a Steven Spielberg e, sim claro, eles gostaram de ‘O Cavalo da Guerra’ (mais do que de ‘O Cavalo de Turim’, de Bela Tárr, o suprassumo docinema de autor…). Dei-me ao trabalho de ler pelo menos um dos textos de ‘Cahiers’ sobre Spielberg. A revista concorda comigo que não é possível mais ignorar o diretor norte-americano, mas eles situam o tournant da carreiora de Spielberg em ‘A.I., Inteligência Artificial’, lembrando que foi Stanley Kubrick quem escolheu Steven para dirigir o projeto que era seu. O meu tournant foi em ‘O Terminal’, mas entendo perfeitamente porque ‘Cahiers’ considera ‘Guerra dos Mundos’ um dos filmes faróis da última década e peça essencial para entender/discutir o cinema d Hollyw0od pós-11 de Setembro. Ridículo! Lembrando a data, no Brasil ficaram só punhetando (desculpem…) em cima do Michael Moore, quando é óbvio que a trilogia informal de Steven – ‘O Terminal’, ‘Guerra dos Mundos’ e ‘Munique’ – é o básicopara se entender a década que mudou o mundo. Não me lembro quem entrou aqui no blog para chamar de infantilóide a relação do garoto com o cavalo (da guerra). Não é, meu amigo. Vai lá, vê de novo. Eu tenho tanta coisa para tentar ver hoje. Depois eu conto.

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02.fevereiro.2012 17:01:07

Lá vou eu

Cá estou eu no aeroporto de Guarulhos, acrescentando este post rapidinho, para dar contas de que estou embarcando para Paris, onde fico até quarta e dali sigo para BErlim (e o festival). Quero aproveitar estes dias para ver filmes, muitos filmes, de preferência os que não chegam aqui ou aquelas reprises maravilhosas de clássicos que só PAris oferece. Nos últimos, até por conta da viagem e das matérias e entrevistas que tinha de fazer, além dos filmes, nem tive tempo de postar. Fiz uma entrevista por telefone com Michel Hazanavicius e o diretor de ‘O Artista’ foi ótimo, Amei o filme que deve estrear na sexta que vem, distribuído pela Paris. Vi também ontem, na cabine da WArner, ‘REis e Ratos’, justamente porque hoje não teria tempo de assistir à cabine de imprensa. TOdos aqueles atores – Selton Mello, Rodrigo Santoro, Cauã Reymond – me falavam do filme com carinho, cheios de expectativa. Descobri por quê. Mauro Lima fez um filme de personagens em que eles estão todos muito bem, cada um imprimindo uma marca ao tipo que interpreta. Muito interessante. Não tenho mais tempo. Amanhã espero estar postando da Rive Gauche.

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31.janeiro.2012 15:42:18

‘Madame’ Ingrid

Acabo de receber o novo pacote de lançamentos em DVD da Cult. Toda vez a distribuidora prestigia um clássico, ou cult, gay e o deste mês é ‘Diferente dos Outros’, de Richard Oswald, produção alemã muda com Conrad Veidt, o César de ‘O Gabinete do Dr. Caligari’, de Robert Wiene. O pacote contempla também John Waters – ‘Pink Flamingos’, famoso pela cena em que Divine, o travesti, perdão, a travesti de 200 quilos que era a estrela favorita do autor, come cocô de cachorro -; ‘A Montanha dos Canibais’, de Sérgio Martino, cuja glória é mostrar Ursula Andress seminua na trilha dos canibais de Ruggero Deodato; e ‘Salon Kitty’, de Tinto Brass, em que o viscontiano Helmut Berger faz oficial nazista que transforma o bordel da bergmaniana Ingrid Thulin no laboratório de pesquisas sexuais que envolvem as pensionistas da casa com anões, opbesos e todo tipo de deformados, numa celebração do grotesco cara ao autor de ‘Calígula’. Esse tipo de filme, nazismo com sexo selvagem – e uniformes SS para incrementar o fetiche -, terminou por se constituir num gênero à parte do cinema italiano, frequentado por diretores que, nos anos 1970, eram apedrejados e hoje foram ‘descobertos’  pela crítica. Não acreditei no dia, em que, em Los Angeles/Beverly Hills, encontrei numa estante da Barnes and Noble ‘n’ livros dedicados a Lucio Fulci, um dos mais ativos diretores desse cinema de carregação, agora investido de ‘arte’. A Cult Classics anuncia que se trata da versão ‘estendida’ do ‘autor’. Para onanistas e voyeurs, é o máximo. Muito excesso, mais, muito mais, de tudo.

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31.janeiro.2012 11:52:04

Meu novo êxtase

Tenho me indisposto com muita gente falando mal de ‘J. Edgar’. Vou me indispor mais um pouco, inclusive com minha supervisora de área no ‘Estado’, a editora executiva Laura Greenhalgh, que amou o filme (e não se conforma porque Leonardo DiCaprio não foi indicado para o Oscar). Mas fui rever ontem ‘A Separação’ e agora sou eu que não me conformo – debatam quanto quiserem o filme do Clint, mas eu fora. Não quero mais perder meu tempo. Só quero falar agora do Ashgar Farhadi, indicado para os Oscars de roteiro e filme estrangeiro. Havia visto o filme dele em Berlim no ano passado. Gostei demais, apostava que ganharia o Urso e exultei quando ganhou. Só que, ontem, ao rever ‘A Separação’, dei-me conta de que é muito melhor. Poucos filmes me deixaram tão tenso e, embora estivesse cansado, não consegui desgrudar o olho da tela. Tinha medo de piscar, porque poderia perder alguma coisa. (Na noite anterior, revendo ‘L’Apollonide’, experimentei o mesmo tipo de tensão, mas ‘A Separação’ é superior.) A mise-en-scène é fluida, com aquela movimentação da câmera (e a montagem) que faz avançar o relato. Os planos dos personagens dentro da casa – pai, mãe e filha, essa última filha do diretor – me impressionaram porque cada um ocupa um plano ou espaço diferente, separados por vidros, móveis, é maravilhoso. Mas isso é só parte do fascínio. A complexidade das situações e dos personagens me lembrou Yasmina Reza, ‘O Deus da Carnificina’, que Roman Polanski transformou em filme (e que havia visto no teatro, dirigido pela autora, com Isabelle Huppert, em Paris, antes da versão brasileira). Os personagens se envolvem numa teia que vai ficando cada vez mais espessa, e da qual não conseguem sair. O pai mente, a doméstica mente e ambos terminam reféns das próprias mentiras. Ele é intransigente nos seus valores – morais e religiosos –, mas é covarde, inclusive do ponto de vista físico. Intimida-se diante da brutalidade do marido da empregada. A mulher, mais flexível – ela aceita de cara o novo preço proposto pelos carregadores do piano, logo no começo –, é o elo forte da relação. Na entrevista que fiz com ele em Berlim, Farhadi disse que a cena do piano, sem função narrativa, erra fundamental para ele, q2ue se sentia mais próximo da mulher, embora, ao contrário dela (e como o marido), se sinta impossibilitado, moralmente, de deixar o Irã. Nem me passa pela cabeça querer censurar o debate sobre ‘J. Edgar’, mas simplesmente deixar claro que o grande filme que muita gente identifica no de Clint, para mim, é o de Farhadi. Isso, sim, é um filme, conforme escrevi no título do meu texto no jornal, com a entrevista do diretor, antes de rever ‘A Separação’. Farhadi já havia ganhado o Urso de Prata, também em Berlim, por ‘Procurando Elly’ e, se vocês forem retraçar a carreira dele na internet, verão que fez muita TV (e até ganhou seus Emmys por episódios de séries). Acho que esse pode ser um outro debate proposto pelo filme. A fluidez – do relato, dos diálogos, da mise-en-scène –, tudo isso pode ter, e certamente tem a ver com essa experiência anterior de Farhadi, mas – insisto –, isso, sim, é um filme. Abbas Kiarostami, Jafar Panahi, Mohsen Makhmalbaf, preciso repensar o cinema iraniano à luz de Ashgar Farhadi. Como ele consegue? Num regime ditatorial, e tão duro com a liberdade de expressão, quanto o de Mahmoud Ahmadinejad, ele é crítico, incisivo e, até onde sei, tem sido poupado pela repressão. Pela repercussão internacional que, em pouco tempo, atingiu?

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30.janeiro.2012 16:53:22

Adeus ao pioneiro

Morreu Linduarte Noronha. Linduarte quem? O pioneiro do Cinema Novo, o precursor do ciclo paraibano, o criador do antológico ‘Aruanda’, que fez a cabeça do jovem Glauber Rocha, conforme ele relata na Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. Fui poucas vezes ao Festival de Brasília, e menos ainda como enviado do jornal para fazer a cobertura do evento. Numa dessas vezes, 2000 ou 2001, houve um grande debate para discutir o documentário e ‘Aruanda’ estava na pauta. O curta de 1960 completava 40 anos. Linduarte, advogado de formação, jornalista por experiência e cinéfilo por amor a Alberto Cavalcanti e Humberto Mauro, disse certa vez que o caminho para a universalização do cinema brasileiro passava, obrigatoriamente, pelo elemento antropológico. Para prová-lo, fez o curta sobre uma família de quilombolas no alto sertão da Paraíba. Um documentário encenado, em que boa parte, senão todos os gestos retratados diante da câmera, foram (re)criados para ela. Em Brasília, o que se discutiu, quatro décadas mais tarde, é se o documentário encenado mereceria, ainda assim, a definição de ‘documentário’ – como se o clássico ‘Nanouk, o Esquimó’, de Robert Flaherty não tivesse sido encenado em 1921/22. Linduarte foi homenageado, anos mais tarde, pelo Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. Era um velhinho que parecia frágil, mas, como bom sertanejo – nascido em Pernambuco, paraibano de adoção – devia ser um forte. José Nêumane, que veio comentar comigo a morte, disse que o jovem Linduarte, na época de ‘Aruanda’, era chamado de ‘Gordo’. Não foi assim que o conheci, brevemente. Ele foi um animador cultural, formando uma geração de cineclubistas em João Pessoa e incorporando, como assistente, o futuro diretor Vladimir Carvalho. Linduarte fez mais um curta, ‘O Cajueiro Nordestino’, em 1962. Nove anos mais tarde, em 1971, fez, a duras penas, com pouquíssimo dinheiro, ‘O Salário da Morte’, que Amir Labaki resgatou durante a homenagem que lhe prestou no É Tudo Verdade. Um matador de aluguel mata político numa cidadezinha do interior, é caçado, morto e com ele é chacinada a família que lhe dava abrigo. Ao contrário dos curtas, o filme não obteve grande repercussão, numa daquelas fases em que o cinema brasileiro estava envolvido nma interminável discussão sobre mercado – e, no começo dos anos 1970, a pornochanchada já começava a dar as cartas. Vladimir Carvalho certa vez me falou com reverência de Linduarte, reconhecendo o quanto a Paraíba, o Cinema Novo, o Brasil (e ele) deviam ao pioneirismo do ‘velho’. Não sei, mas ando meio nostálgico nos últimos tempos. Desde a morte de Daniel Piza, na virada do ano, tenho repensado muita coisa, sobre a vida, mais que o cinema. A morte de Theo Angelopoulos na semana passada me atingiu muito, confesso, e a de Linduarte completou essa sensação de… Perda? Abandono? Linduarte conseguiu fazer um filme fundamental fora do eixo, e numa época em que era difícil filmar mesmo no Centro-Oeste, pelo menos o tipo de cinema crítico, exigente, do qual foi precursor. Pouco antes de ‘Aruanda’, em 1959, Paulo César Saraceni havia feito ‘Arraial do Cabo’ e, na trilha aberta por ambos, vieram ‘Cinco Vezes Favela’, ‘Barravento’. É uma história que vale resgatar, e lembrar, no momento em que a Paraíba enterra Linduarte Noronha. Ele morreu de parada respiratória na UTI de um hospital de João Pessoa. Estava internado há uma semana, por coimplicações decorrentes de uma pneumonia. Será enterrado às 6 da tarde. Vá em paz, Linduarte.

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