Luiz Carlos Merten

CANNES – Acabo de ver o Liberace de Steven Soderbergh, Behind the Candelabra. O filme, compreensivelmente, tem a fascinacao do behind, do derriere. Liberace, afinal, era gay, e esse era um segredo de polichinelo que seus advogados e managers tentavam seconder – a homossexualidade. Como se fosse possivel. Lee, como gostava de ser chamado, era o prototipo da bicha `cheguei!` Com aqueles casacos de pele e o excesso de strass – soh ele jah bastaria para manter funcionando a industria austriaca de vitrilhos -, antes mesmo que abrisse a boca para falar a condicaoh estava rfevelada. Hah tempos que Soderbergh vem anunciando seu ultimo filme. Eu, pessoalmente, nao me importaria se parasse. Seus filmes andam cada vez menos interessantes e Liberace que more de aids e voa para o ceu no desfecho de Candelabra eh um pouco demais para o meu gusto. Candelabra eh telefilme (da HBO). Todo mundo fala que o melhor do talent norteamericano estah hoje na televisao, mas justamente um film e como este deve fazer as pessoas refletirem. Candelabra naoh eh mal-narrado, mas eh telefilme no que tem de mais `plano` (a linguagem bidimensional, o plano-contraplano etc). A graca do filme estah em ter atores straights – e Michael Douglas, priaprico, teve de fazer tratamento para poder controlar o sexo – fazendo papeis de gays. Michael veio dizer que conheceu Liberace, que era vizinho de seu pai, Kirk Douglas, em Hollywood. Uma frase do filme talvez se refira mais ao ator do que ao personagem – quando Lee diz que ficou igualzinho ao pai. Eh o que Michael poderia dizer em relacao a Kirk. Matt Damon, Rob Lowe, Dan Aykroyd, todos fazem gays de carteirinha (Matt Damon, o amante que vai a Justica quando eh dispensado, jura que eh bisexual, mas como diz Lee, `quando, querida?`). Todo mundo solta a franga, Soderbergh carrega no imaginario gays. Tudo eh muito cafona, vulgar. Sorry, mas nem com boa vontade dah para gostar. Soderbergh virou faz-tudo no pior sentido. Depois do Che, Lee. Vira tudo a mesma coisa. A mesma? What a fuck um filme desses faz na competicao? A meia-noite, numa sessao `Cabaret`, jah estaria mais que bem. O pior eh que eh capaz de ganhar – melhor ator.

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CANNES – Não sei, sinceramente, se o Caderno 2 atual, com sua limitação, vai ter espaço para as trocentas entrevcistas que ando fazendo. Havia perdido o Kore-eda. Falei com ele hoje. Se já gostava de Tal Pai, Tal Filho, gostei mais ainda. Mas às vezes me pergunto se ainda acreditar no humanismo, nos sentimentos (por que não?), faz sen tido num mundo dominado pela frivolidade. Meu amigo Rodreigo Salem, espero que isso não crie problemas para ele na Folha – que é, afinal, um jornal muito esquisito e que dá, perfeitamente, ao contrário da propaganda, para não ler -, detestou o Kore-eda, mas não me atrevo a dizer que ele tenha gostado da Sofia Coppola, cujos personagens moderninhos, com m… na cabeça – imaginem, roubar sete vezes a casa de Paris Hilton, para se apropriar das bolsas dela -, têm a cara da concorrência. Confesso que hoje fiz, não propriamente forfait, mas me programei segundo minhas prioridades.; Tinha as materias do Caderno 2 para fazer, e terminei perdendo o Paolo Sorrentino – que vou recuperar amanhã de manhã, daqui a pouco pelo horário daqui -, mas nem se me cortassem a outra mão eu ia perder os filmes de hoje em Cannes Classics. Violência e Paixão, de Luchino Visconti, foi apresentado por Claudia Cardinale, e na sequência, Hiroshima Meu Amor, de Alain Resnais, por Emmanuelle Riva, já que o diretor está em Paris, filmando. Violência e `Paixão, Greuppo di Famiglia en Un Interno ou Conversation Piece, sempre foi, para minm, um grande Visconti – o último -, mas hoje fiquei siderado pela forma como Burt Lancaster representa com… as mãos! Lembrava-me sempre dse um momento no filme, quando Claiudiaa Cardinale, como a mulher do Professor, fala com ele, pedindo compreeensão, e Lancaster abre as mãos, num signo de desalento Clasudia lembrou que Visconti estava doente, confinado na cadeira de rodas (como Bernardo Bertolucci). Falava com dificuldade, mas tinha o movimento das mãos e imagino que Lancaster tenha mimetizado isso, ou foi o próprio Visconti que o induziu, porque nunca vi um ator representar tanto com as mãos. Ainda tentava me recobrar do efeito Visconti – e tinha a entrevista de Bertolucci no Estado de amanhã para formatar -, quasndo mergulhei fundo em Hiroshima. Emmanuelle disse umas coisas linda – que Hiroshimas era um filme qwue nunmca ia envelhecer, mas m,uita gente saiu durante a propjeção. Os que ficamos fomos muitos e demos à atriz a ovação que ela merecia, ou merece. Puta filme! Por que saíram aquelas pessoas? Na entrevista publicada amanhã no Caderno 2, Bertolucci comernta as mudanças técnicas e estéticas no cinema e diz uma coisa interessante – que o público que vê filme no computador ou no celular, ficou muito ansioso. Não tem mais tempo para sutilezass, é isso? Iasfazer uma pesquisa asntes de redigir o post, mas me esqueci. Não sei se Eiji Okada, que forma dupla com Emmanuelle Riva, ainda está vivo. Pelo menos para mim, é uma das imagens emblemáticas da virilidade na tela, tentando penetrar o passado da mulher e sendo persuasivo o suificiente para conseguir. Falar de Eiji Okada me libera para outra coisa. Descobri que a Fundação Japão de Paris – acho que é Institut Japonais – promove, a partir do dia 7 (de junho), umas grande retrospectiva de Tatsuya Nakadai. Era um dos sonhos da minha vida, que nunca fiz força para concretizar. Queria ir a Tóquio para entrevistar Nakadasio e escrever um livro sobre o grande astor de Masaki Kobayashi, Akira Kurosawa e Eiozop Sugawa. Com perdão de Yasujiro Ozu e Kenji Mizoguchi, Nakadasoi interp´reta paras mim o maiuor filme das história dfo cinema japonês – Rebelião, de Kobayashi, em que tem aquele duelo final com Toshiro Mifune. Nakadai ministrta uma master clçsass em Paris. Teria de ficar até 7 ou 8, não sei se consiogo – mas seria por uma boa causa. Para completar, meu amigo Dib Cartneiro, que viria a Cannes e depois Paris – Orlando Margarido e Elaine Guerini já haviam estabelecido uma extensa programação, incluindo uma ida ao teatro com Amir Labaki para ver uma Fedra quje est´[a arrebentando na capital francesa -, precisou ser hospitalizado em São Paulo e faz amanhã um cateterismo de urgência. Quando fiz o meu (cateterismo), em poucos dias estava na sala de cirurgia, operando o coração. Os médicos dizem que o procedimento é seguro, mas sabem como é… Vai ser seguro. Boa sorte ao Dib,. cujo irmão, Tadeu Carneiro, também foi hospitalizado para fazer cateterismo. É mole ou querem mais? São quase 2 da manhã daqui. Preciso dormir para acordar cedo (às 7). O filme de amanhã de manhã é o Liberace de Stevenm Soderbergh. Este é outro que o trem não pega porque não nentra, mas como os Coen tem seus defensores. É como eu sempore digo – tem gosto para tudo. Eu, que tenho o meu, assumo minhas, digamos assim, idiossincrasias.

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CANNES – Ateh agora estou tentando entender o que achei de Borgman, o concorrente holandes de hoje pela manhah. Eh verdade que tive de abandonar o filme de Alex van Warmerdam nos minutos finais, mas foi por uma boa causa, as entrevistas com Jia Zhang-ke e Bernardo Bertolucci. Borgman eh sobre um sujeito que invade uma casa burguesa e promove um banho de sangue. Como se chamava aquele filme do Michael Haneke? Funny Games? Eh conto da carochinha perto do de Varmerdam. Corri para a coletiva dos irmaos Coen, soh para ouvi-los confirmar que o incidente do gato eh essencial em Inside Llewin Davis (como pensava) e depois nao parei de emendar entrevistas – com Asghar Farhadi, Arnaud Desplechin, Benicio Del Toro etc. Bertolucci, preso a cadeira de rodas, usava um chapeu meio desabado sobre o rosto que parece o mesmo da epoca da rodagem de Ultimo Tango em Paris, mas ele estah aqui porque mostrou ontem a versao restaurada – convertida para 3-D – de O Ultimo Imperador da China. Nao consegui ver o filme inteiro, mas ateh brinquei com Bertolucci – embora a decisao de passar o filme para 3-D nao tenha sido dele, a verdade eh que o diretor antecipou o recurso hah quase 30 anos. A cena em que o imperador menino corre atras da bola ficou ainda mais deslumbrante com a profundidade da terceira dimensao. E consegui fazer com que Bertolucci falasse da China que conheceu e filmou, e dessa outra China capitalista e globalizada que Jia Zhang-ke filma agora. Bertolucci ainda nao viu A Touch of Sin, o novo Jia, mas disse que ama o autor chines e seus planos sequencias que definiu como `densos`. Sobre Asghar Farhadi, tenho de confessar que fiquei com pena de nao ter gostado de O Passado – a entrevista foi muito boa, melhor que o filme, e eu consegui faze-lo falar bastante sobre roteiro, mise-en-scene, sobre dirigir criancas – e tambem sobre a Paris de seu filme, que nao tem nada de cartao postal. Farhadi estah vivendo em Paris hah dois anos e era questaoh de honra para ele evitar o clicheh das paisagens `turisticas`, em que os estrangeiros invariavelmente caem ao filmar cidades  que nao conhecem tanto, vejam o proprio Woody Allen em Paris e Roma (embora ele assuma esse olhar cliche e ateh tire proveito dele). Fiz mais entrevistas, redigi meus textos para o Caderno 2 de amanhah e as 7 da noite, daqui, jah estava no palais para ver a versao restaurada de A Rainha Margot. Patrice Chereau era esperado, mas nao veio (tem compromissos importantes amanhah pela manhah em Paris, pelo que entendi exames medicos). Foi representado pelos produtores, pela roteirista Daniele Thompson e pelo ator Vincent Perez, em nome de todo o elenco. Vincent falou com grande carinho do grande diretor – `meu mestre, meu mentor`, como disse. Contou como Chereau mergulhou fundo na aventura e um dia ele se lembra de que o cineasta veio transtornado em sua direcao e tombou, exausto, sobre ele, deixando a equipe aa beira de um ataque de nervos de que ele pudesse estar tendo um infarto. Nao `guentei` e fiquei vendo o filme. O que eh aquele comeco, com a cena de casamento de Marguerite de Valois com o rei de Navarra, seguido da festa nos jardins do palacio, em que toda a nobreza parece repetir a festa do principe Salinas, soh que aqui estah todo mundo no cio – e Isabelle Adjani e Dominique Blanc sao punks trocando informacoes sobre homens (e catolicos e huguenotes na cama). O silencio mortal que se segue aa pergunta do arcebispo – se ela aceita se casar – eh seguido pelo lamento da solista na trilha de Goran Bregovic e pela acao brutal do rei, Jean-Hughes Anglasde, que bate com a cabeca da irma no altar em que ela estah ajoelhada. A violencia fisica de Chereau, o seu antropomorfismo – a camera ligada no corpo dos atores, como em certos Viscontis. Nao sei sinceramente se O Ultimo Imperador e A Rainha Margot terao (re)lancamento nos cinemas, mas voces ja podem pressionar o Festival do Rio e a Mostra de Sao Paulo para que levem esses classicos. Soh para deixa-los babando… Sabem quais sao as atracoes de amanhah de Cannes Classics? Eu conto. Violencia e Paixao, o ultimo grande Visconti (digo grande mesmo, porque O Inocente eh `soh` muito bom), que serah seguido por… Hiroshima, Meu Amor. Viraoh Alain Resnais, Emmanuelle Riva? Meu coracao jah bate descompassado.

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CANNES – Tiago Stivaletti diz que eu não entendo o humor judaico dos irmãos Coen e vou conceder que ele tenha razão. Até gostei da cena inicial do novo filme deles, Inside Llewin Davis, que se passa num café de Nova York, em 1961, mostrando uma apresentação do artista folk do título. Mas logo Ethan e Joel começam a exibir seus truques – e o mais notório deles é sempre tratar seus personagens, principalmente a galera secundária, como boçais, de forma a que o público se sinta mais inteligente. Ainda bem que os Coen sãso artistas de ficção. Se fossem documentaristas, todo mundo ia discutir a ética, ou falta de, dessa ridicularização do outro. E tem a história do gato, que eu não vou contar qual é, mas de cara deu para perceber o que era e quando veio a piada e o público riu, eu pensei com meus botões que era bem clichê, mas clichê dos Coen, e isso é chic. O filme é um road movie – bem, pelo menos em parte – e pega carona no On the Road de Walter Salles, escolhendo o ator que fazia Neal Cassidy no filme do brasileiro. Honestamente, Inside Llewin Davis vai do nada para o lugar nenhum, com um personagem que começa apanhando e masoquistamente se oferece para tomar porrada de novo, no desfecho. A melhor piada, mas não sei se é piada, é que o protagonista antecipou um certo Bob Dylan e, no final, quando deixa o palco, quem está se apresentando? Pois é… O gato, by the way, chama-se Ulisses, e não é de hoje que os Coen se interessam pela Odisseia. Na saída dos Coen, Tiago, Neusa Barbosa, Mariane Morisawa e o Carlos Eduardo foram jantar. Eu ia junto, mas resolvi arriscar tentando ver o Alejandro Jodorowsky na Quinzena dos Realizadores, Dei sorte e consegui entrar, mas o que me impressionou foi o que para mim já entrou no domínio do sobrenatural. Nas sexta, por exemplo, não havia nada que me atraísse para L’Inconnu du Lac, mas fui ver o filme, do qual gostei, e terminei participando da standing ovation para Michel Piccoli. Hoje, tudo bem, queria ver o Jodorowsky, mas terminei testemunhando uma coisa que, para mim,, foi emocionante. Não há cinéfilo que não conheça Nicolas Winding Fern, diretor do cult Drive, com Ryan Gosling. ‘Nic’ está aqui com seu novo filme, Only God Forgives, novamente com Ryan e agora Kristin Scott Thomas, como a mafiosa mãe dele. Pois bem, estava lá no Théâtre Croisette para ver La Danza de la Realidad (o Jodorowsky), quando foi anunciado – Ladies and gentlemen, Nicolas Wending Fern. Pensei comigo – o quer este cara está fazendo? A moçada quase botou a saslas absaixo com seus aplausosd. O próprio Nicolass respondeu em seguida à minhas pergunta (interior), dizendo que era um privilérgio estar sli para apresentar um homem, um artista como um dia ele gostaria de ser, mas – admitiu – nunca será. Nicolas errou no nome, ou não consegue dizê-lo (no seu inglês dinamarquês), Aleandro Jodorsky. E subiu Alejandro, acompanhado de dois caras, seus filhos – Brodis Jodorowsky faz o protagonista, e é a história do pai do diretor, e Adam Jodorovsky, autor da trilha. O filme tem um lado de realismo mágico latino muito forte, e ao mesmo tempo incorpora lições de alegoria do Cinema Novo, com direito a Bachianas e tudo. Pode parecer desgastado, muito poncho y conga, mas eu viajei na história do pequeno Alejsandro, pai da próprias mãe, e do efeito que isso provoca em seu pai. Se o filho é mulherzinha, e o pai faz dele um homem na porrada, psai é um stalinista que trata a família de forma totalitária e não tem nenhuma compaixão pelos freaks, sem braços nem pernas, cujas deformidades foram produzidas pelas explosões nas minas chilenas. Existem toques de Tod Browning, de Federico Fellini e Georges Bataille (que também foi o inspirador de L’Inconnu du Lac). Jodorowsky cria cenas que me encantam pelas ousadia, ou provocação – o pai, como bom comunista, é um ateu radical, que tenta matar Deus no imaginário da mulher e do filho, mas quando ele contrai a peste a mulher reza ao Senhor, pedindo que Ele verse sua água purificadora através dela. Como? Sara – é seu nome – monta sobre o marido, tira a calcinha e urina sobre ele, uma boa mijada sem artifício nenhum. Alguém poderá objetar que é escatologia. Abaixo o bom-gosto e o masis curioso, para mim, foi que o estilo anárquico e delirante de Jodorowsky tem muito de… Edgar Navarro. Eu Me Lembro e O Homem Que não Dormia são, esteticamente, gêmeos  de La Danza de la Realidad. Isso só rerforça o preconceito de Cannes contra o cinema brasileiro. Se Jodorowsky pode estar aqui, e cultuado por Nicolas Wending Fern, por que não o Navarro?

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CANNES – Gostei bastante do novo Arnaud Desplechin, Jimmy P, que se baseia no livro do antropólogo Georges Deveraux, publicado em 1951. Jimmy P tem um subtitulo, Psicanálise de Um Índio da Planície. Conta a historia da relacao entre um indio que voltou traumatizado da 2.a Guerra e o antropólogo europeu que o ajuda, por meio da palavra, a se curar da dor de cabeca que o aflige. De novo a fascinação européia pelos gêneros tradicionais de Hollywood, no caso, o western, mas filtrada pelas preferências do autor. Durante boa parte do filme o proprio Benicio Del Toro, que faz o índio, e faz muito bem, se pergunta se não estará louco, mas Desplechin não leva a discussão por aí. É muito interessante como o filme dele, quase sem conflito, se constrói por meio da palavra, numa mise-en-scène que se diria digna de Joseph L. Mankiewicz (o famoso dinamismo dos diálogos). Em sucessivas entrevistas, Mathieu Amalric já disse que sempre quis ser diretor. Que tenha virado ator, foi uma invenção de Desplechin. Ele faz o antropólogo e o filme se abre em leque – tem a relação do índio com a irmã, com a mãe, a ex-mulher, a filha, a guerra, a bebida. O proprio Devereaux, o antropólogo, tem uma amante francesa casada que irrompe no hospital em que ele trata seu paciente. Só que, ao contrário de Asghar Farhadi, Desplechin não perde o foco do que está querendo dizer – e a questão da identidade é essencial em seu cinema. Não creio que Jimmy P seja para muitos gostos. Os aplausos foram comedidos, a sala não lotou na coletiva. Não faz mal. Anotem o título e depois me cobrem, se for o caso.

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CANNES – Vivi hoje emoções muito fortes, aqui em Cannes. Na Croisettte, Cinéma de la Plage tem sido prejudicado por causa da chuva, mas hoje, apesar do vento, passsou um filme que integra meu imaginário. O Homem do Rio foi realizado por Philippe De Broca acho que em 1964, após Cartouche, também com Jean-Paulo Belmondo, que formava dupla com Claudia Cardinale  e eu teria de pesquisar para saber se precede ou sucede a Caminho Amargo, La Viaccia, que Mauro Bolognini adaptou de Vasco Pratolini e no qual Belmondo faz Amerigho e Claudia, Biancsa, a mais bela prostituta de Florença. Como esquecer O Homem do Rio quando se tem 17 anos e uma mente sonhadora? Eu amava De Broca, o comediógrafo da nouvelle vague. Apesar da minha admiração por Eric Rohmer, não seria capaz de repetir uma linha de seus diálogos nos Contos Morais, ou nas Comédias e Provérbios. Nunca vou me esquecer de François Périer, dizendo aos filhos que perguntam pela mãe, Jean Seberg, e ela o está traindo com Jean-Pierre Cassel – o pai de Vincent -,  em O Amante de Cinco Dias. “Mamãe tem de se equilibrar nos saltos altos para caminhar e isso a retarda para voltar para casa.” Vi O Homem do Rio, que tem um quê de pré-Indiana Jones, e me encantei de novo com Françoise Dorléac, a irmã de Catherine Deneuve, que morreu carbonizada num acidente de carro. Catherine teve o privilégio de sobreviver, mas ela não estava no carro, e ainda trabalhar com todos aqueles grandes diretores, mas um dia, numa das primeiras entrevistas que me deu, ela finalmente falou na irmã e disse – talvez seja a saudade dos que partiram – que Françoise era melhor que ela. E a minha noite ainda teve o Kore-eda, Tal Pai tal Filho. Um casal é chamado ao hospital em que a mulher deu à luz e descobre que houve uma troca de bebês. O pai diz a frase fatal – isso explica tudo, donc. Ele é workaholic e o filho parece ter mais a doçura da mulher. Não é seu filho, como ele não percebeu? O caso é levado à Justiça, que propõe a troca das crianças. Mas como se pode trocar alguém a quem você amou como filho por 6 anos? Esse pai tem medo de amar, e de ser amado. Não consegue criar laços com o novo filho. Quando a mulher lhe diz que está amando a criança e se sente culpadas por isso, como se estivesse traindo o outro filho, algo se passa. A maneira mais fácil de ver Tal Psi tal Filho é como a condenação de um comportamento glacial associado à competitividade do mundo moderno. O outro pai tem menos dinheiro, seria até um derrotado aos olhos do ‘sistema’, mas se dedica mais aos filhos, e ao novo filho, que a mulher e ele acolhem de braços abertos. Imagino que alguém vá dizer que se trata de cinema dos sentimentos – e vai agradar ao presidente Steven Spielberg -, mas a dissecação dos personagens me pareceu tão concentrada, e densa, e real, que viajei na história. Chorei – claro. E agradeci por estar sozinho no fim da sessão. Pude flanar nos meus pensamentos. E, no fundo, tive uma espécie de euforia pelo privilégio de estar aqui, vendo em primeira mão esses filmes e tentando passar minhas experiências para vocês. Hirokazu Kore-eda tem feito filmes sobre a moderna família japonesa, sobre a ausência da mãe, ou do pai. Yasujiro Ozu filmava a família tradicional, destruída pelas transformações do Japão após a 2.ª Guerra. Há um filme de Ozu aqui em Cannes Classics, Dia (ou Tarde) de Outono. Muitos filmes do festival têm usado as estações para metaforizar o tempo – o de François Ozon, Jeune & Sexy, por exemplo. Outros têm trocado os pontos de vista. O próprio Ozon revela sua protagonista pelo olhar do irmão, depois da mãe. Isso não chega a ser revolucionário, mas quebra regras e, de alguma forma, através do outro, introduz a diversidade. Tal Pai tal Filho tem essas trocas. Depois de três dias de festival já é possível ver como os filmes da seleção, ou das seleções, se encaixam. E eu tenho gostado de algumas coisas. Muito, mesmo.

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CANNES – Vocês me desculpem pela ausência de posts até agora. Já são 8 da noite aqui na França e o dia hoje foi muito corrido. Tinha o filme de Asghar Farhadi de manhã, e eu que, desde a primeira hora defendi Procurando Elly e A Separação, desta vez não gostei. Outro filme sobre separação, sobre culpa e responsabilidade, mas desta vez o autor iraniano abre tanto o leque, quer falar de tanta coisa que, no final, me deu a impressão de perder o foco, senão exatamente o rumo. Tive na sequência as entrevistas de Jovem e Sexy, tenho a impressão de que escrevi Bela e Sexy ontem. Gosto de François Ozon e é sempre um prazer falar com ele, mas diante de Marine Vacth tive a sensaçãso de entrar numa máquina do tempo e retrocedi 18 anos, quando vi nascer outra estrela aqui em Cannes – a Liv Tyler de Beleza Roubada, de Bernardo Bertolucci, em 1995. Que coisa! Tive também a rádio, tive de correr atrás de informações sobre o grande roubo de jóias – um funcionário da Chopard foi assaltado em seu hotel e os ladrões levaram US$ 1 milhão em jóias. A joalheria é parceira do festival – produz a Palma de Ouro – e a organização  já fez saber que a Palma deste ano está a salvo e será entregue pelo presidente Steven Spielberg no domingo, dia 26. Assaltos mexem com a gente e eu logo comecei a divagar sobre quem vai filmar esta história. Hollywood? Os próprios franceses?  Viajando na imaginação, lembrei-me de Ladrão de Casaca, que Alfred Hitchcock filmou aqui mesmo na Côte d’Azur, sendo o cupido de Grace Kelly e seu príncipe. Lembrei-me também da Femme Fatale de Brian De Palma, outro roubo de jóias, esse em Cannes (e no interior do palais). Basta me lembrar e vem o fetiche – a loira, hitchcockiana, que corre de salto alto, e o som vai aumentando na trilha até martelar na cabeça da gente. As emoções não pararam por aí. Fui ver L’Inconu du Lac, de Alain Guiraudie, na mostra Un Certain Regard. Antes do filmre, Michel Pìccoli. Ele estava na sala porque daqui a pouco apresenta a versão restaurada de A Grande Comilança, de Marco Ferreri, em Cannes Classics. A ovação para o velhinho foi uma coisa linda, um daqueles momentos que valem a pena não apenas testemunhar, mas se juntar na celebração. E logo o filme – cruising, caçadas gays numa praia de naturistas. Homens pelados, sexo hard (e põe hard), oral, penetração, espermsa ejaculando. Juro – no começo é punk, mas logo tem um assassino ali na praia e o protagonista sabe quem é, mas se excita com o cara. É preciso coragem para mostrar um filme desses, mas o Guiraudie acerta o tom e cria um clima de suspense no limite do angustiante. Você se esquece das chupetas, das masturbações, do nu frontal e ostensivo. Fica só… O quê? A perturbação, o medo. O medo do que as pessoas, os homens, fazem uns aos outros. Lembram-se do som do vento nas árvores do parque de Michelangelo Antonioni em Blow-Up? Preparem-se para o vento de L’Inconu e para o murmúrio da água (é um lago). O aplauso foi consagrador, o maior a um filme, até agora. Até Michel Piccoli se juntou ao coro. E ainda veio o japonês Hirokazu Kore-eda. Like Father, Like Son. Quer coisa mais spielbergiana? Que dia! E amanhã tem mais!

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CANNES – Saí correndo da sessão do novo Jia Zhang-ke e vim para a sala de imprensa para redigir meu material de amanhã do Caderno 2. Só por isso não postei imediamente que, no segundo dia, já surgiu o primeiro grande filme da competição, e é justamente o novo Jia, A Touch of Sin, Um Toque de Pecado. O cinéfilo que acompanha o autor, e como não acompanhar?, sabe que Jia é um crítico feroz da economia de mercado instalada na China. Seu tema é a desumanização da vida do país em nome do progresso econômico. A novidade é que o diretor, alertado pelas histórias de violência na China atual, mostra, em quatro episódios, a reação dos deserdados. No primeiro, um homem cansado de tentar denunciar o dirigente local – a ação passa-se numa cidadezinha do interior – pega em armas e vai à caça dos ‘animais’. A carnificina segue nas demais tramas. Fiquei pasmo. E fascinado. Puta filme. Ainda na primeira história, há um homem que bate com o chicote em seu cavalo. O protagonista o despacha para o inferno que o cara merece e o cavalo, antes empacado, agora corre solto. A metáfora de Jia…

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CANNES – Depois da Bela da Tarde adolescente de François Ozon, a Bling Ring de Sofia Coppola. Seu filme conta a história de uma gangue de adolescentes que roubava casas de celebridades em Hollywood. Por que se prostitui a garota de Ozon? É mais fácil saber porque roubam os jovens de Sofia Coppolsa. Querem ter as roupas de grife, as marcas que seus idolos ostentam. E eles colocam tudo no Facebook, viram celebridades também. Sofia não emite julgamento. Filma num estilo frio e distnciado. Seu filme leva jeito de virar cult. Daquiu a pouco tem a coletiva da diretora. Vamos ver o que tem a dizer.

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CANNES – Ontem estava desconcertado com o filme de Amat Escalante, mas hoje tenho de admitir que pensei bastante em Heli e seu aspecto documental agora me parece bem interessante. Mas nada que se compare a Bela e Sexy, Belle et Sexy, o novo François Ozon, que abriu o segundo diksa do 66.º Festival de Cannes. É um diretor pelo qual tenho a maior estima. Filma muito, nem sempre acerta, mas mantém um nivel médio muito bom, e volta e meia surpreende. Dans la Maison, que ainda está no Brasil, é uma obra-prima. Bela e Sexy não chega lá, mas fica perto. Uma garota de 17 anos se prostitui. O filme começa com o olhar do irmão mais jovem sobre ela. Puro voyeurismo. A própria garota é voyeuse. Assiste a pornografia pela internet. Forma sua rede de clientes, junta dinheiro – para quê, se não precisa de verdade? Um dos clientes morre, a situação copmplica-se. Ozon integra canções de Françoise Hardy, dos anos 1960 e 70, à trama. Parecem escritas para o filme. A narrativa é cheia de lacunas intencionais. Nunca sabemos exatamente por que Isasbelle – Léa é seu nome de guerra – faz o que faz. O mistério do filme vem daí, Culmina na cena em que a garotas volta à internet e a cliente é as viúva do homem, que morreu e que quer conhecer a última amante do marido. Charlotte Rampling, uma habitué de Ozon, é quem faz o papel. Guarde o nome da jovem que faz Isabelle – Marina Vatch. É um assombro. Tem um quê de Julia Roberts. Difícil imaginar o que se passa pela cabeça dela, com seus olhos melancólicos e o sorriso que tem algo de esfinge. Pode ter nascido aqui, hoje, uma estrela.

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