Como se diz trivial em polonês?
- 15 de março de 2012|
- 19h44|
- Por Luiz Américo Camargo
Publicado no Paladar de 15/3/2012
Há certas armadilhas para as quais é preciso estar muito atento na hora de produzir uma resenha de restaurante. Pensemos numa fórmula: personagem bonachão, preços camaradas, boas intenções, proposta pouco usual no mercado… Tudo parece convergir inevitavelmente para um texto favorável, para um relato regido pela condescendência. Mas, e se não tiver comida bem feita? Aí, não vale. E este Maria Escaleira, felizmente, para além da simpatia, se defende bem na cozinha, de orientação polonesa.
Minha memória de restaurantes paulistanos inspirados na Europa Oriental (uma tradição meio escassa por aqui) é de estabelecimentos muito típicos, batizados em geral com nomes autoexplicativos. Como, por exemplo, Transilvânia, Hungaria, Old Balkan, todos já extintos. O Maria Escaleira, por outro lado, foge da ambientação temática e da ortodoxia nas receitas. Mas não abre mão daquele monte de consoantes da grafia original dos pratos (nem, infelizmente, de uma TV em um dos salões).
A casa abriu faz dois meses, num sobrado em Pinheiros, sob o comando do chef Andrzej Wica, nascido em Poznan, e de sua mulher, a brasileira Vanessa Wica. O nome é um tributo à avó da proprietária, que era de origem portuguesa e, por sua vez, também legou a receita de bolinho de bacalhau presente no cardápio. O mais interessante, contudo, é que o chef Wica prepara uma comida trivial sem timidez de sabor. Serve um repertório caseiro, mas com personalidade, calcado no eixo Polônia/Hungria.
A lista de sugestões é bastante sucinta e, com exceção das sobremesas (já explico melhor), gostei do que provei. O langos (R$ 16,90), um pãozinho frito de origem húngara, é servido com geleia de cebola roxa e queijo cremoso com alho. Já a placki ziemniaczane (R$ 14,50), por sua vez, é uma minipanqueca de batata, aparentada dos latkes. Entre os pratos, há duas opções de pierogi (o que a tradição russa chama de varenike), feitos com massa grossa e recheio de batata. Uma é coberta por bacon crocante; outra, por manteiga e endro (ambas R$ 26,90, e eu preferi a segunda).
Mas me entusiasmei particularmente com a simplicidade e a franqueza de sabor dos itens principais, como as pulpety, almôndegas picantes (R$ 26,90); o golabki, charuto de repolho recheado com arroz (R$ 26,90); e o paprikas krumpli, pimentão cozido com linguiça (R$ 26,90). Uma comida sem truques e com atenção inclusive às guarnições, como o arroz branco feito com coco – o que não é exatamente polonês – e o purê de batata com gergelim.
A respeito das sobremesas, é preciso dizer que estão aquém do restante do cardápio. Foram várias tentativas: torta de queijo, bolo de maçã, fondant de chocolate e até arroz-doce. Ficaram entre o desequilíbrio, caso das duas primeiras, e a sensaboria (o arroz-doce, especialmente). O serviço, embora seja gentil, também precisa de bons reparos, um aspecto que só não se mostra mais grave porque a cozinha trabalha rápido.
Resumindo o programa, não é para um jantar especial, nem para aventuras gastronômicas. Mas sim para uma boa refeição trivial para sair da mesmice.
Por que este restaurante? Porque é uma novidade.
Vale? Sem bebida, dá para fazer uma refeição completa por R$ 60. Vale.
Maria Escaleira - R. Cônego Eugênio Leite, 1.055, Pinheiros, 2364-9913
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16/03/2012 - 00:44 Enviado por: Rafaela - Tudo em Foco
Pode ser que o restaurante não traga nenhuma aventura gastronômica, mas achei a descrição bem simpática. Fiquei com vontade de conhecer e de experimentar a comida, que, parece, de fato, deliciosa. Acho que, como fiz no final do texto, vale a pena para sair da mesmice.
responder este comentáriodenunciar abuso -
18/03/2012 - 23:07 Enviado por: Flavio
Estou impressionada com a análise da Vejinha SP desta semana . Quatro estrelas para a comida do La Cocotte é demais . Ou o lugar mudou da água para o vinho em menos de 1 mês( não acredito) ou meu paladar não bate com quem escreveu o artigo ou propaganda enganosa.
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Li e filtrei . Ainda bem que sabemos em quem confiar.
Voltaria ? Só se fosse na P.J.
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